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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

SÃO JOÃO MARIA VIANNEY, o "Cura d'Ars". Pensamentos: a Importância do Sacerdócio.



O Santo Cura de Ars: um dos "gigantes" de nossa fé. 
   Hoje trago aos leitores do Blog Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus não a biografia, por demais rica e extensa, mas, "pensamentos" ou "frases" do grande São Cura d'Ars: São João Maria Vianney, presbítero e patrono dos padres e párocos. 
  Creio que isso não é fugir do principal objetivo deste blog. Muitas vezes, "ouvir" o que um santo ou santa nos tem a dizer é muito mais salutar às nossas almas do que simplesmente conhecer sua biografia. 
  Abramos os nossos corações. Façamos "de conta" que estamos conversando com um (a) determinado (a) santo (a) e que ele (ela) nos quer falar algo. O que nos dirá? Que pensamentos seus quererá compartilhar conosco? 
  Hoje, como dito acima, quem partilhará suas "ideias" conosco é o admirável e maravilhoso santo Cura de Ars, São João Maria Vianney, Padroeiro dos Padres. Acredito que praticamente todos tem pelo menos uma noção de quem foi esse homem. 
   De compleição franzina, porte frágil e tez pálida, devido à sua constante vida de oração e penitências severas, foi um gigante na história da Igreja. Modelo não apenas de santidade, mas, do "ser padre". 
  Tanto que foi proclamado o patrono de todos os padres. Sua história é belíssima e, geralmente, seus biógrafos gastam centenas de páginas para contá-la. Porém, o que hoje trago para os estimados leitores e leitoras são frases suas sobre a importância, nobreza e honra do sacerdócio na Igreja e no mundo. 
  Espero que cada frase sua caia em nossos corações como "boa semente", como uma "água viva", com "adubo salutar", como "raio do sol" divino, tornando-os ainda mais respeitosos com relação ao Sacramento da Ordem e, mais propriamente, admiradores de nossos queridos padres. 
  REZEMOS sempre por eles. Sustentemos nossos padres com nossas orações, penitências e sacrifícios. São mais do que nossos "pastores". Como o nome diz, são os "pais" de nossas almas, de nossas vidas e de nossa caminhada rumo à Casa do Pai. Rezemos por eles. Amém. 


1.    "Depois de Deus, o sacerdote é tudo".

2.  "Se entendêssemos na terra o que é um padre, morreríamos não de susto, mas de amor".

3.  "O Sacerdote é o amor do Coração de Jesus. Quando virdes o padre, pensai em Nosso Senhor Jesus Cristo".

4.  "Nossa língua deveria ser utilizada somente para rezar, nosso coração para amar, nossos olhos para chorar".

5. "Para que nossa oração seja ouvida não depende da quantidade de palavras, mas do fervor de nossas almas".

6."Quando comunga, a alma se impregna do bálsamo do amor, como a abelha do perfume das flores".

7."Meu Deus infinitamente amável, eu vos amo e preferiria morrer amando-vos a viver sem vos amar".

8."Ninguém pode recordar um benefício recebido de Deus, sem encontrar, ao lado desta lembrança, a figura de um padre".

9."Quando um cristão avista um padre deve pensar em Nosso Senhor Jesus Cristo".

10.   "Se a Igreja não tivesse o sacramento da ordem, não teríamos entre nós Jesus Cristo".

11.“Você me ensinou o caminho de Ars, e eu lhe ensinarei o caminho do céu”.
 
12. "Quem coloca Jesus no Sacrário? O padre. Quem acolheu nossa alma na entrada da vida? O padre. Quem alimenta nossa vida na peregrinação terrestre? O padre. Quem prepara nossa alma para comparecer diante de Deus? O padre. É o padre quem dá continuidade a obra da redenção na terra".

13."O padre deve estar sempre pronto para responder às necessidades das almas".

14. "No lugar onde não há mais o padre não há mais o sacrifício da missa".

15."Deixai uma paróquia sem padre por vinte anos, e aí se adorarão os animais".

16. "Quando alguém quer destruir a religião, sempre se começa por atacar e destruir o padre".

17."Quanto é triste um padre que não tenha vida interior. Mas para tê-la, é preciso que haja tranqüilidade, silêncio e o retiro espiritual".


18. "O que nos impede de sermos santos, a nós, os padres, é a falta de reflexão. Nós não encontramos em nós mesmos, não sabemos o que estamos fazendo. O que nos falta é a reflexão, a oração e a união com Deus".


São João Maria Vianney, o Cura d'Ars. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Beato Felipe Rinaldi, Presbítero Salesiano (terceiro sucessor de Dom Bosco como Reitor Geral)


Beato Filipe Rinaldi
Vamos conhecer um pouco sobre a vida do terceiro sucessor de Dom Bosco no reitorado maior da Sociedade de São Francisco de Sales, ou, Salesianos.
Filipe Rinaldi nasceu em 1856, na cidade italiana de Lu Monferrato, e, nesta mesma cidade, se encontrou com Dom Bosco ainda na infância. Seu pai se chamava Cristóvão Rinaldi e sua mãe se chamava Antônia Brezzi, além de ter oito irmãos, e dois destes também seriam sacerdotes como ele. Todas as noites sua mãe se ajoelhava com todos os filhos e diante de um oratório de Nossa Senhora os fazia repetir as palavras: “Salve, ó Maria! Eu vos ofereço o meu coração. Ficai para sempre com ele”.
Quando completou dez anos, com a abertura de um seminário na aldeia de Mirabello, seu pai Cristóvão decide colocá-lo ali para estudar e receber uma boa formação humana e cristã. Foi acompanhado de modo especial por dois clérigos. Um deles, seu primeiro professor, chamava-se Paulo Álbera, o qual viria a ser o segundo sucessor de Dom Bosco.

 Alguns problemas fazem com que ele retorne para casa. Dom Bosco continua nos anos seguintes a mandar cartas para que Rinaldi retornasse, e este muitas vezes recusou o convite. Filipe Rinaldi mesmo confessa anos mais tarde: “Eu não tinha intenção alguma de ser padre”. Dificilmente Dom Bosco teria insistido tanto com outro rapaz, porém parecia prever algo de bem preciso no futuro de Filipe.

Encontro de Dom Bosco com o jovem Filipe Rinaldi.
Em 1875, Dom Bosco vai lhe fazer uma visita em Lu, quando Rinaldi já tinha 18 anos. Durante a conversa, uma mulher enferma entra na casa à procura do santo de Turim, o qual a abençoa invocando Maria Auxiliadora e ela fica imediatamente curada. Depois do extraordinário fato, João Bosco lhe convida pela enésima vez a retornar para a Congregação Salesiana, mas Rinaldi recusa. Anos depois este afirmou: “Permitam o Senhor e a Virgem que, depois de haver resistido tanto à graça no passado, não venha eu a abusar mais no futuro”.
Filipe Rinaldi, movido por amizades perigosas a moral cristã, começa a se afastar das práticas de piedade, mas por causa de várias admoestações maternas, acaba por retornar a religião.

Em 1876, Dom Bosco volta a convocá-lo para se tornar um religioso salesiano, e dessa vez Rinaldi não recusa. Entra com 21 anos, vocação tardia para a época, e com muita dificuldade nos estudos, além de muita força de vontade.
Em 1880, fez os votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência aos pés de Dom Bosco. Tinha exatamente 24 anos. Ele afirmou: “Pensei muito e pude finalmente optar, sinto-me contente com a escolha que fiz”.
Em 1882 passa por uma grande crise, a sua noite escura, conforme diria São João da Cruz, sendo confortado pelo padre Barbéris, o qual constatou: “era precisamente uma dessas horas negras”. Inicia sua escalada ao sacerdócio e, surpreendentemente, Filipe vai adiante não porque dele sentia desejo, mas apenas porque Dom Bosco assim pediu. “Eu não tinha a mínima intenção de me tornar padre. Salesiano, isso sim; mas sacerdote, não.” 

É ordenado no final de 1882 e celebra, em São Benigno, sua primeira missa na vigília do Natal. Pede a Dom Bosco, depois de ouvir padre Costamagna, missionário salesiano no Uruguai, para deixá-lo partir a América, mas desta vez é Dom Bosco que diz não.

Foto do padre Rinaldi com aproximadamente 
40 anos de idade. 

João Bosco o envia como diretor de uma casa para vocações adultas, com certeza devido a sua experiência pessoal, pois também entrou tardiamente na vida salesiana. Muitas vezes Rinaldi se deslocava até Valdocco para expor a Dom Bosco os problemas e dificuldades que encontrava, e este o ouvia com calma e depois o tranquilizava. No entanto, em janeiro de 1888, Dom Bosco vai chegando perto do fim de sua vida. Filipe desejava se confessar com ele, mas, como não queria fatigá-lo, pede para ouvi-lo em confissão e dizer apenas uma palavra. No final, Dom Bosco lhe diz “meditação”.

Padre Rua, eleito primeiro sucessor de Dom Bosco no reitorado maior, envia-o para Sarriá, na Espanha, em 1889. Através da oração e da meditação, além de dar o exemplo de alegria entre os jovens, durante os recreios e de operosidade e disciplina na hora de trabalhar, conseguiu por em ordem o andamento da casa

Ganhou muitos recursos de Dorotéia Chopitéa Serra, eminente cooperadora das obras salesianas. Após três anos de atuação, padre Rua o nomeia inspetor de todas as obras salesianas da Península Ibérica. Durante este mandato, insiste que as obras não devem ensinar apenas a piedade, mas também dar todo tipo de instrução necessária seja no âmbito profissional ou intelectual.

Padre Rinaldi e Padre Rua em foto
Em 1901, Rinaldi é nomeado Prefeito Geral, ficando responsável pelos problemas econômicos e disciplinares da Congregação. Mesmo estando em uma função burocrática, nunca perdeu o bom trato com as pessoas que a ele recorriam. Tinha devoção fervorosa a Maria Auxiliadora, e sempre se dirigia a ela nos momentos difíceis. Com a morte de Miguel Rua em 1910, Paulo Álbera é eleito segundo sucessor de Dom Bosco e Filipe é reeleito Prefeito Geral. Conseguiu, com maestria, driblar graves obstáculos administrativos advindos da Primeira Guerra Mundial. Nesse período foi fundador do Instituto Secular das Voluntárias de Dom Bosco e fez o importante trabalho de organização dos ex-alunos das casas salesianas.

Beato Filipe Rinaldi quando eleito Reitor
Geral dos Salesianos
Morre, em 1921, padre Álbera, e finalmente é eleito para Reitor-Mor o padre Rinaldi. Um dos salesianos mais provectos, padre Francesia, afirmou que para o novo Reitor maior faltava apenas “a voz de Dom Bosco. Tudo o mais ele o possui”.
Como principal gestor da Congregação Salesiana, Filipe deu um profundo impulso missionário à Congregação. Foram exatamente 1868 os salesianos que partiram para as missões durante seu reitorado, mas sempre repetia que a qualidade é mais importante do que a quantidade, e recomendava que “o verdadeiro bem, apenas os santos o conseguem operar”. Além disso, tinha grande carinho pelas irmãs religiosas, e disse que sem elas não se pode converter uma nação”.

A saúde começou paulatinamente a debilitar, e as muitas viagens requeridas pelo seu ofício lhe eram extremamente penosas, porém a sua presença física era importante para manter a unidade em uma Congregação que se expandia rapidamente pelo mundo.

Padre Rinaldi e seus amados meninos do Oratório.
Não conseguindo ficar longe dos jovens, padre Rinaldi ajudava os meninos carentes ou enfermos da periferia de Turim, quase sempre clandestinamente. Maduro e consciente do fim de sua missão, este valoroso filho de São João Bosco vivia frequentemente recolhido em oração, e nela permanecia longamente. “A vida interior – dizia aos salesianos – é a presença de Deus dentro de nós, recordado, invocado e amado.”

Corpo do padre Rinaldi que acabara de falecer enquanto lia a biografia
do padre Miguel Rua.
Faleceu em dezembro de 1931, sentado no seu quarto e lendo a biografia de Miguel Rua. Após a Segunda Guerra Mundial, iniciaram-se os trâmites de seu processo de canonização. Foi declarado bem-aventurado por João Paulo II em 29 de abril de 1990.


Beato Filipe Rinaldi, Presbítero. Terceiro Sucessor
de Dom Bosco.


Beato Filipe Rinaldi

Padre Rinaldi rezando ao lado do corpo
incorrupto de Dom Bosco



Padre Rinaldi em sua mesa de trabalho.


Beato Filipe Rinaldi, Terceiro Sucessor de Dom Bosco e
grande devoto de Nossa Senhora Auxiliadora.


quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

SÃO JOÃO CALÁBRIA, Presbítero e Fundador das Congregações dos Pobres Servos e das Pobres Servas da Divina Providência.


Nasceu em Verona no dia 8 de outubro de 1873, sétimo e último filho de Luís Calábria, sapateiro, e de Ângela Foschio, empregada doméstica e mulher de grande fé, educada pelo Servo de Deus Pe. Nicolau Mazza, em seu Instituto para meninas pobres.

Desde o seu nascimento, a pobreza lhe foi mestra de vida. Vindo a falecer seu pai, teve que interromper a 4ª série primária e trabalhar como garçom. Pe. Pedro Scapini, Reitor de São Lourenço, percebendo as virtudes do jovem, preparou-o com aulas particulares para os exames de admissão ao 2° grau, no Seminário. Tendo sido aprovado nos exames, foi admitido e frequentou o 2° grau como aluno externo. Mas teve que interrompê-lo no 3° ano para prestar o serviço militar.

Neste sentido, o jovem distinguiu-se, sobretudo pela sua caridade. Colocou-se a serviço de todos, dedicando-se aos trabalhos mais humildes e arriscados. Conquistou a amizade dos seus colegas e superiores, levando muitos à conversão e à prática da fé.

Terminado o serviço militar, retornou aos estudos. Numa noite fria de novembro de 1897 - quando frequentava o l ° ano de teologia - regressando do hospital, onde tinha visitado doentes, encontrou encolhido na porta de sua casa um menino fugido dos ciganos. Então, acolhendo-o, levou-o para sua casa e partilhou com ele o seu pequeno quarto. Foi o inicio de suas obras com os meninos órfãos e abandonados.

Depois de alguns meses, fundou a "Pia União para a assistência aos doentes pobres", reunindo um grande número de clérigos e leigos.



Este foi somente o início de uma vida caracterizada totalmente pela caridade. "Todos os instantes de sua vida foram uma personificação do maravilhoso cântico de São Paulo sobre a Caridade", escrevia na sua carta de postulação ao papa Paulo VI uma médica hebreia que o Pe. João Calábria salvou da perseguição nazista e fascista, ocultando-a entre as religiosas do seu Instituto, vestindo-a com o hábito delas.

Em 1910 fundou também o ramo feminino, as “Irmãs”, sendo reconhecida no dia 25 de março de 1952 como Congregação de direito diocesano, com o nome de "Pobres Servas da Divina Providência" e aos 25 de dezembro de 1981 obteve a Aprovação Pontifícia.

Tendo sido ordenado sacerdote no dia 11 de agosto de 1901 foi nomeado Vigário Cooperador na paróquia Santo Estêvão e confessor no Seminário. Dedicou-se com zelo especial às confissões e ao exercício da Caridade, privilegiando, sobretudo, os mais pobres e marginalizados.

Em 1907, nomeado Vigário da Reitoria de São Benedito ao Monte, começou também a acolher e ajudar espiritualmente alguns soldados. No dia 26 de novembro do mesmo ano, na Rua Case Rotte, iniciou oficialmente o Instituto “Casa Buoni Fanciulli”, que no ano seguinte, foi transferido para um lugar definitivo na Rua San Zeno in Monte, atual Casa Mãe.

Com os meninos, o Senhor mandou-lhe também alguns leigos que desejavam partilhar com ele a própria doação ao Senhor. Com este pequeno grupo de homens entregues totalmente ao Senhor no serviço aos pobres com uma vida radicalmente evangélica, fez com que a Igreja de Verona revivesse o clima da Igreja Apostólica. E aquele primeiro núcleo de homens foi a base da Congregação dos Pobres Servos da Divina Providência, sendo aprovada pelo Bispo de Verona aos 11 de fevereiro de 1932 e obtendo a Aprovação Pontifícia aos 25 de abril de 1949.

Logo após a aprovação diocesana, a Congregação difundiu-se em várias regiões da Itália, sempre ao serviço dos pobres, dos abandonados e dos marginalizados. Estendeu a sua ação também aos idosos e doentes, dando vida à “Cittadella della Carità”. O Coração apostólico do Pe. João Calábria pensou também nos Párias da índia, enviando, no ano de 1934, quatro Irmãos a Vijayavada.



O Pe. João Calábria confiou às duas Congregações a mesma missão que o Senhor lhe inspirou desde quando era um jovem sacerdote: "Mostrar ao mundo que a Divina Providência existe, que Deus não é um estrangeiro, mas que é Pai e cuida de seus filhos, contanto que nós O acolhamos e façamos a nossa parte que é buscar em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça" (cf. Mt 6, 25-34).

Para testemunhar tudo isto, acolheu gratuitamente em suas casas meninos necessitados material e moralmente, criou hospitais e casas para acolher e dar assistência corporal e espiritual aos doentes e idosos. Abriu casas de formação para os jovens e adultos pobres, a fim de ajudá-los a realizar a própria vocação sacerdotal ou religiosa, deixando-os livres para ingressar na diocese ou Congregação que o Senhor lhes tivesse inspirado. Estabeleceu que os seus religiosos exercitassem o apostolado nos lugares mais pobres, "onde não se pode esperar nenhuma recompensa humana".

"Resplandeceu como farol luminoso na Igreja de Deus". São exatamente estas as palavras que o Beato Cardeal Schuster mandou epigrafar sobre o túmulo do Pe. João Calábria.

Desde 1939 até o dia de sua morte, em contraste com seu inato desejo de ocultar- se, alargou os seus horizontes até alcançar as fronteiras da Igreja, “gritando” a todos que o mundo poderia salvar-se somente retornando a Cristo e ao seu Evangelho.

Foi assim que se tornou uma voz profética, um ponto de referência: bispos, sacerdotes, religiosos e leigos, viram nele o guia seguro para eles mesmos e para suas próprias iniciativas.

Os bispos da Conferência Episcopal do Trivêneto, na carta de postulação endereçada ao papa João Paulo II escreveram: “Pe. Calábria, exatamente para preparar a Igreja do ano 2000 - expressão a ele familiar - fez de sua vida um sofrido e enternecido apelo à conversão, à renovação, à hora de Jesus com acentos impressionantes de premente urgência" ... Parece-nos que a vida do Pe. Calábria e a sua mesma pessoa constitua uma "profecia" do vosso apaixonado grito a todo o mundo: "Abram as portas a Cristo Redentor”!

Ele compreendeu que nesta radical e profunda renovação espiritual do mundo, deveriam ser envolvidos também os leigos. Por isto, em 1944, fundou a "Família dos Irmãos Externos", constituída por leigos. Rezou, escreveu, agiu e sofreu também para a unidade dos cristãos. Portanto, manteve fraternas relações com protestantes, ortodoxos e hebreus: escreveu, falou, amou e nunca polemizou. Conquistou com o amor. O Pastor luterano Sune Wiman de Eskilstuna (Suécia) que manteve com Pe. Calábria um abundante intercâmbio epistolar, endereçou no dia 6 de março de 1964 uma carta de postulação ao papa Paulo VI para solicitar-lhe a glorificação do seu venerado amigo.

Este foi o período misteriosamente mais doloroso de sua vida. Parecia que Jesus Cristo o tivesse associado à agonia do Getsêmani e do Calvário, aceitando a sua oferta de ser "vítima" para a santificação da Igreja e para a salvação do mundo. O Beato Cardeal Schuster comparou-o ao Servo de Javé.


Morreu no dia 4 de dezembro de 1954. Na vigília porém, fez o seu último gesto de caridade: ofereceu a sua vida ao Senhor pelo papa Pio XII, que estava agonizando. Deus aceitou sua oferta: Pe. João Calábria morreu e o Papa, misteriosa e repentinamente recuperou a saúde e viveu por mais quatro anos. O mesmo Pontífice, desconhecendo o último gesto de oferta do Pe. Calábria, mas profundo conhecedor de toda a sua vida, recebendo a notícia de sua morte, em um telegrama de pêsames à Congregação, definiu-o "campeão de evangélica caridade”.

O Pe. João Calábria foi beatificado pelo papa João Paulo II no dia 17 de abril de 1988 e canonizado no dia 18 de Abril de 1999.



Pensamentos de são João Calábria:

TEMOS UM DEUS QUE É PAI

“A fé verdadeira e genuína considera Deus não só como Criador e Senhor, mas sobretudo como Pai”. Fé, portanto, na paternidade de Deus, e confiança ilimitada, filial na sua Divina Providência".

“Deus é Pai, cuida de nós e de nossos caros; nada escapa ao seu olhar, nada pode acontecer de improviso como quase de surpresa, tudo é dirigido pela sua infinita sabedoria, poder e bondade”.

“Não há mãe que ame tanto seu filho, como Deus ama todos e cada um de nós. A tudo Ele chega, até mais e melhor do que a luz do sol ao fio da erva ou ao átomo perdido nos espaços. Ele contou até os cabelos de nossa cabeça e sem sua permissão não nos cai nenhum; os pássaros do céu que não ceifam e não enchem os celeiros, são quotidianamente nutridos por Ele, que também providencia uma veste resplandecente para os lírios do campo”.


ABANDONAR-SE À DIVINA PROVIDÊNCIA

         “O espírito de nossa Obra quer que tenhamos sempre uma ilimitada confiança, um terno e filial abandono na paterna, sempre vigilante e amável Providência Divina”.

         “A Divina Providência é uma terna mãe que tudo ordena para o nosso bem, para o nosso maior bem”.

Os Pobres Servos “vivam a vida da fé e do abandono em Deus, sintam-se seguros nele e em sua proteção”.

          “A fé na Providência seja sempre o nosso baluarte, e a nossa rocha; lembremo-nos de que Ela nunca falhará, se fizermos a nossa parte”.

          “De nossa parte trabalhemos, façamos como se tudo dependesse de nós e depois deixemos a Deus e à sua Providência”.


VIVER A NOSSA FÉ

 “A nossa fé seja prática, operosa; nenhum contraste deve haver entre a fé que professamos e a conduta que levamos; a fé deve ser a norma constante de nossas ações, de nossos pensamentos, de nossos juízos... No mundo quer-se muitas vezes conciliar Cristo com Satanás, as práticas de piedade com usos e costumes pagãos, mas em nós deve resplandecer a pura luz de Cristo”.

“Ó meus caros, fé em Deus e em sua Providência. Esta é a hora da fé. Num mundo que se afasta cada vez mais de Deus, acendamos em nós esta chama que ilumina o caminho também para os outros”.

“Vivamos uma vida de fé, conscientes que estamos aqui de passagem, que a vida presente não é fim em si mesma, mas preparação à vida verdadeira na bem-aventurada eternidade, e que a esta tudo se deve orientar”.


RETORNAR ÀS FONTES DO EVANGELHO
 “Retornemos à prática do santo Evangelho, sem mutilações nem interpretações arbitrárias, mas procurando penetrar no significado e no espírito puro e genuíno para, depois, conformar a estes os nossos juízos e a nossa vida”.

"Existe demasiada dissonância entre aquilo que o Evangelho ensina e aquilo que nós praticamos. Devemos eliminar esta contradição".

“Devemos renovar-nos, e nos renovaremos se vivermos na prática o santo Evangelho, sendo evangelhos vivos”.

“Ou se crê ou não se crê; e então, se não se crê, rasgue-se o Evangelho. Dá-se muita importância à palavra dos homens na terra! Tudo bem. Mas muito mais importância deveríamos dar à palavra do Senhor! Acreditemos, portanto, no Senhor, tenhamos confiança na sua Palavra”.

“Sejamos Evangelhos vivos, e antes de pregá-lo, pratiquemo-lo. O Evangelho seja por nós aplicado ao pé da letra”.

AMAR A VIDA DE ORAÇÃO

 “Irmãos, oremos, oremos! A oração unida a uma vida santa faz milagres e agora é mesmo de milagres que se precisa para que tudo volte à ordem. Irmãos, isto é que nos cabe, coisa grande, nobre, divina: orem e peçam aos outros que orem”.

“É absolutamente necessária, meus caros e amados irmãos, uma vida de íntima união com Deus, orando sem cessar, mas não com uma oração feita de qualquer jeito, só com os lábios, e sim com uma oração que parta do coração”.

“Irmãos, deixem tudo, mas não deixem as práticas de piedade; sejam reservatórios e canais”.

“A atividade exterior é destinada à esterilidade, se não colocar as próprias raízes no sagrado terreno da vida interior”.

“Se vocês têm algum momento triste, oh, conhecem o remédio: vão logo a Jesus, que está no sacrário exatamente para nos confortar, para nos ajudar”.


 O MANDAMENTO DO AMOR

 “Se eu souber que um religioso não tem caridade, de joelhos, pedir-lhe-ia que fosse embora, pois ficando, estragaria a Obra”.

“Gostaria que em todas as paredes das nossas Casas estivesse escrito: CARIDADE”!

“Gostaria de poder morrer com esta última palavra nos lábios: CARIDADE”!

“É necessário que os componentes desta Obra (irmãos e sacerdotes) sejam um só coração e uma só alma, no doce e querido vínculo da caridade, e que obedeçam como a Jesus bendito a quem no seu nome preside a Obra”.

“Caridade para com todos – escreve – oxalá jamais apareça o mal da murmuração.”

“Uma característica de nossos Religiosos seja a caridade recíproca e a união fraterna. Os Religiosos amem-se entre si fraternalmente, não fiquem contentes apenas com o nome de irmãos, mas esforcem-se por sê-lo”.
“Evite-se com todo cuidado a murmuração, sufocadora da caridade e da paz, semeadora de discórdias...”.

OS POBRES: A RIQUEZA DE PE. CALÁBRIA

"Ir aos mais pobres, aos mais humildes, aos doentes, aos mais desafortunados, que são os mais queridos e nos quais Jesus quer ser representado. Eis a nossa característica: não aos grandes, mas aos mais pequenos que nos envia o Senhor”.

"Ai de nós se nos votássemos às classes mais ricas! Não é o nosso campo."

SALVAR A FAMÍLIA

“São sobretudo os pais os mestres naturais dos rebentos que a Providência lhes confia por um gesto de soberana benevolência”.

"Oh, quão necessária a existência de pais dignos de sua missão, verdadeiros geradores de novas vidas no verdadeiro sentido da palavra: vida física, vida moral, tudo feito à imagem e semelhança de Deus”.

“Pais cristãos, vivei à altura da vossa missão. Pensai que sois colaboradores de Deus na grande obra da criação; por meio de vós Deus tira do nada novas criaturas destinadas a serem seus filhos”.


“Daí aos filhos os tesouros da educação cristã, através do vosso exemplo, antes das palavras”.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

São Pedro Canísio, Presbítero Jesuíta e Doutor da Igreja


Hoje gostaria de vos falar sobre são Pedro Kanis, Canísio na forma latinizada do seu sobrenome, uma figura muito importante no século XVI católico. Nasceu a 8 de Maio de 1521 em Nimega, na Holanda. O seu pai era burgomestre da cidade. Quando era estudante na Universidade de Colónia, frequentou os monges cartuxos de santa Bárbara, um centro propulsor de vida católica, e outros homens piedosos que cultivavam a espiritualidade da chamada devotio moderna. Entrou na Companhia de Jesus a 8 de Maio de 1543 em Mogúncia (Renânia-Palatinado), depois de ter seguido um curso de exercícios espirituais sob a guia do beato Pedro Favre, Petrus Faber, um dos primeiros companheiros de Santo Inácio de Loyola. Ordenado sacerdote em Junho de 1546 em Colónia, já no ano seguinte como teólogo do Bispo de Augsburgo, o cardeal Otto Truchsess von Waldburg, esteve presente no Concílio de Trento, onde colaborou com dois coirmãos, Diogo Laínez e Afonso Salmerón.

Em 1548, santo Inácio fez-lhe completar em Roma a formação espiritual e enviou-o depois ao Colégio de Messina para se exercitar em humildes serviços domésticos. Obteve em Bolonha o doutorado em teologia a 4 de Outubro de 1549 e foi destinado por santo Inácio ao apostolado na Alemanha. Em 2 de Setembro desse ano, visitou o Papa Paulo III em Castel Gandolfo e depois foi à Basílica de São Pedro para rezar. Aí implorou a ajuda dos grandes Santos Apóstolos Pedro e Paulo, que dessem eficácia permanente à Bênção apostólica para o seu grande destino, para a sua nova missão. No seu diário, anotou algumas palavras desta prece. Diz: “Ali senti que uma grande consolação e a presença da graça me eram concedidas por meio de tais intercessores[Pedro e Paulo]. Eles confirmavam a minha missão na Alemanha e pareciam transmitir-me, como apóstolo da Alemanha, o apoio da sua benevolência. Vós sabeis, Senhor, de quantos modos e quantas vezes nesse mesmo dia me confiastes a Alemanha, pela qual depois eu continuaria a ser solícito, pela qual desejaria viver e morrer”.

Temos que ter presente o fato de que estamos no tempo da Reforma luterana, no momento em que a fé católica nos países de língua germânica, diante do fascínio da Reforma, parecia definhar. Era quase impossível a tarefa de Pedro Canísio, encarregado de revitalizar, de renovar a fé católica nos países germânicos. Só era possível em virtude da oração. Só era possível a partir do centro, ou seja, de uma profunda amizade pessoal com Jesus Cristo; amizade com Cristo no seu Corpo, a Igreja, que deve nutrir-se da Eucaristia, sua presença real.

Continuando a missão recebida de Inácio e do Papa Paulo III, Canísio partiu para a Alemanha e sobretudo para o Ducado da Baviera, que por vários anos foi o lugar do seu ministério. Como decano, reitor e vice-chanceler da Universidade de Ingolstadt, cuidou da vida académica da Instituição e da reforma religiosa e moral do povo. Em Viena, onde por um breve período foi administrador da Diocese, desempenhou o ministério pastoral nos hospitais e nas prisões, tanto na cidade como no campo, e preparou a publicação do seu Catecismo. Em 1556 fundou o Colégio de Praga e, até 1569, foi o primeiro superior da província jesuíta da Alemanha superior.

Nesse ofício, criou nos países germânicos uma densa rede de comunidades da sua Ordem, especialmente de colégios, que foram pontos de partida para a reforma católica, para a renovação da fé católica. Nessa época, participou também no diálogo de Worms com os dirigentes protestantes, entre os quais Filipe Melantone (1557); desempenhou a função de Núncio pontifício na Polónia (1558); participou nas duas Dietas de Augsburgo (1559 e 1565); acompanhou o Cardeal Estanislau Hozjusz, legado do Papa Pio IV junto do Imperador Ferdinando (1560); interveio na Sessão final do Concílio de Trento, onde falou sobre a questão da Comunhão sob as duas espécies e da Lista dos livros proibidos (1562).

Em 1580 retirou-se em Friburgo, na Suíça, dedicando-se inteiramente à pregação e à composição das suas obras, e ali faleceu em 21 de Dezembro de 1597. Beatificado pelo beato Pio IX em 1864, foi proclamado segundo Apóstolo da Alemanha pelo Papa Leão XIII em 1897, e pelo Papa Pio XI canonizado e proclamado Doutor da Igreja em 1925.

São Pedro Canísio transcorreu boa parte da sua vida em contato com as pessoas socialmente mais importantes da sua época e exerceu uma influência especial com os seus escritos. Foi editor das obras completas de são Cirilo de Alexandria e de são Leão Magno, das Cartas de são Jerônimo e das Orações de são Nicolau de Flüe. Publicou livros de devoção em várias línguas, biografias de alguns santos suíços e muitos textos de homilética. Mas os seus escritos mais divulgados foram os três Catecismos, compostos de 1555 a 1558.


 O primeiro Catecismo destinava-se aos estudantes capazes de entender noções elementares de teologia; o segundo, aos jovens do povo para uma primeira instrução religiosa; o terceiro, aos jovens com uma formação escolar a nível de escolas secundárias e superiores. A doutrina católica era exposta com perguntas e respostas, brevemente, em termos bíblicos, com muita clareza e sem comentários polêmicos. Só durante a sua vida houve 200 edições deste Catecismo! E sucederam-se centenas de edições até ao século XX. Assim na Alemanha, ainda na geração do meu pai, as pessoas chamavam o Catecismo simplesmente o Canísio: foi deveras o Catequista da Alemanha, formou a fé de pessoas durante séculos.

Eis uma características de são Pedro Canísio: saber compor harmoniosamente a fidelidade aos princípios dogmáticos com o devido respeito por cada pessoa. São Canísio distinguiu entre a apostasia consciente, culpável, da fé, da perda da fé inculpável, nessas circunstâncias. E declarou, em relação a Roma, que a maior parte dos alemães que tinham passado para o Protestantismo não tinha culpa. Num momento histórico de fortes contrastes confessionais, evitava — é algo extraordinário — a aspereza e a retórica da ira — algo raro, como disse nessa época, nos debates entre os cristãos — e visava somente à apresentação das raízes espirituais e à revitalização da fé na Igreja. Para isto serviu o conhecimento vasto e incisivo que ele tinha da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja: o mesmo conhecimento que sustentou a sua relação pessoal com Deus e a espiritualidade austera que lhe derivava da “devotio” moderna e da mística renana.

É característica para a espiritualidade de são Pedro Canísio uma profunda amizade pessoal com Jesus. Por exemplo, a 4 de Setembro de 1549 escreve no seu diário, falando com o Senhor: "No final Vós, como se me abrisses o coração do Sacratíssimo Corpo, que me parecia ver diante de mim, ordenastes-me para que bebesse daquela nascente, convidando-me por assim dizer a haurir as águas da minha salvação das vossas fontes, ó meu Salvador". E depois, vê que o Salvador lhe oferece um indumento com três partes que se chamam paz, amor e perseverança. E com este indumento composto de paz, amor e perseverança, Canísio desempenhou a sua obra de renovação do catolicismo. Esta sua amizade com Jesus — que é o centro da sua personalidade — alimentada pelo amor à Bíblia, pelo amor ao Sacramento, pelo amor aos Padres, esta amizade estava claramente unida à consciência de ser continuador da missão dos Apóstolos na Igreja. E isto recorda-nos que todo o evangelizador autêntico é sempre um instrumento unido, e por isso mesmo fecundo, com Jesus e com a sua Igreja.

Na amizade com Jesus, são Pedro Canísio formou-se no ambiente espiritual da Cartuxa de Colônia, onde vivera em íntimo contacto com dois místicos cartuxos: João Lansperger, latinizado em Lanspergius, e Nicolau van Hesche, latinizado em Eschius. Sucessivamente, aprofundou a experiência daquela amizade, familiaritas stupenda nimis, com a contemplação dos mistérios da vida de Jesus, que ocupam uma boa parte nos Exercícios espirituais de santo Inácio. A sua intensa devoção ao Coração do Senhor, que culminou na consagração ao ministério apostólico na Basílica Vaticana, encontra aqui o seu fundamento.

Na espiritualidade cristocêntrica de são Pedro Canísio arraiga-se uma profunda convicção: não há alma solícita da própria perfeição que não pratique todos os dias a oração, prece mental, meio comum que permite ao discípulo de Jesus viver a intimidade com o Mestre divino. Por isso, nos escritos destinados à educação espiritual do povo, o nosso santo insiste sobre a importância da Liturgia com os seus comentários aos Evangelhos, às festas, ao rito da Santa Missa e dos outros Sacramentos, mas ao mesmo tempo preocupa-se em mostrar aos fiéis a necessidade e a beleza que a oração pessoal diária acompanhe e impregne a participação no culto público da Igreja.

Trata-se de uma exortação e de um método que conservam intato o seu valor, especialmente depois que foram repropostos de modo autorizado pelo Concílio Vaticano II, na Constituição Sacrosanctum concilium: a vida cristã não cresce, se não for alimentada pela participação na Liturgia, de modo particular na Santa Missa dominical, e pela oração individual quotidiana, pelo contacto pessoal com Deus. No meio das mil atividades e dos múltiplos estímulos que nos circundam, é preciso encontrar todos os dias momentos de recolhimento diante do Senhor, para O ouvir e falar com Ele.


Ao mesmo tempo, é sempre atual e de valor permanente o exemplo que são Pedro Canísio nos deixou, não somente nas suas obras, mas sobretudo com a sua vida. Ele ensina com clareza que o ministério apostólico só é incisivo e produz frutos de salvação nos corações, se o pregador for testemunha pessoal de Jesus e souber ser instrumento à sua disposição, unido intimamente a Ele pela fé no seu Evangelho e na sua Igreja, por uma vida moralmente coerente e por uma prece incessante como o amor. E isto é válido para cada cristão que quiser viver com empenhamento e fidelidade a sua adesão a Cristo.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Santa Narcisa de Jesus Martillo Morán, Virgem da Ordem Terceira de São Domingos. Modelo de Oração, Penitência e Humildade (Santa do Equador).


Santa Narcisa de Jesus, Virgem Terciária da Ordem
dos Pregadores ou Dominicanos. 
Da. Silvania Gellibert de Negrete, nobre dama de Guayaquil, se despertou ao ouvir o ruído de fortes pancadas. O que estaria acontecendo na casa a estas horas da madrugada?     Pressurosa e assustada dirigiu-se ao sótão, de onde pareciam provir os sons. Encostou o ouvido à parede para escutar melhor. Ouviu, então, os estalos de violentas chicotadas e, ao mesmo tempo, fervorosas orações pedindo a Deus perdão pelos pecados dos homens. Atônita e com muita curiosidade, Da. Silvania procurou aguçar a vista e, por uma fenda da parede de madeira, viu sua jovem hóspede ajoelhada diante de um crucifixo, coroada de espinhos, com as costas ensanguentadas, castigando cruelmente seu corpo com um látego de pontas de aço.     Quem seria essa mulher que se inflige semelhante castigo? Seu nome é Narcisa de Jesus Martillo Morán.

Trata-se de uma alma chamada por Deus para reparar, por meio de extraordinárias penitências, os pecados cometidos em sua época. Nasce uma vítima expiatória. Transcorria a primeira metade do século XIX. As guerras e as convulsões sociais eclodiam em quantidade na América do Sul.
Quando Narcisa nasceu, no dia 29 de outubro de 1832, em Nobol, diocese de Guayaquil, havia pouco tempo que o Equador tinha se transformado em república. Seus pais, Pedro Martillo e Josefina Morán, eram agricultores. Ela foi a sexta de nove filhos. Faltam dados sobre o início de sua vida, tendo-se apenas a data de sua Crisma, recebida aos sete anos, no dia 16 de setembro de 1839. Muito pequena perdeu a sua mãe. Ela teve de se encarregar da educação dos seus irmãos mais novos. Dessa época da sua vida é lembrada a sua especial caridade, a sua alegria, o seu grande amor pela oração e a grande importância que atribuía à direção e aconselhamento espiritual.
Na adolescência, dedicava-se aos trabalhos domésticos, e aos 15 anos, aprendeu o ofício de costureira, que exercia em sua casa e nas casas das famílias vizinhas. Desde muito jovem, gostava de cantar e tocar viola, mas, não participava das festas em família: limitava-se a ajudar na preparação e depois se isolava para dedicar-se às orações solitárias.
Em 1851, aos 18 anos, seu pai faleceu e ela transferiu-se para Guayaquil, onde moravam seus parentes. Ali trabalhou como costureira, para não ser um peso para os seus hospedeiros, e começou a trabalhar com Luís Tola, que depois se tornará bispo de Portoviejo. Parte do que ganhava como costureira doava aos pobres e doentes. Manteve sempre um caráter alegre, divertido e amável e não deixava transparecer as privações pelas quais passava e a que se submetia livremente.

Santa Narcisa gostava de se recolher nos bosques e
pântanos para orar e fazer penitências. 
Dedicou muito tempo ao apostolado, especialmente dirigido às crianças, a quem ensinava o catecismo. Trabalhou também com jovens abandonadas e refugiadas na Casa de Acolhimento; visitava doentes e moribundos. Seus locais preferidos eram os bosques e os esconderijos, para praticar o recolhimento e dedicar-se às penitências. Queria seguir o exemplo da Santa, também equatoriana, Marianita de Jesus (1618-1645), oferecendo sacrifícios pela expiação de sua cidade.
Chegou a mandar fazer uma cruz salpicada de pregos, sobre a qual deitava todas as noites por quatro horas, antes de se acomodar sobre o chão para um breve repouso.     Nunca professou votos religiosos solenes, mas tornou-se leiga dominicana, ingressando na Ordem Terceira Dominicana (ramo leigo da Ordem dos Pregadores). Depois de sua morte soube-se que fez votos particulares de virgindade perpétua, pobreza, obediência, clausura, vida eremítica, jejum a pão e água, comunhão cotidiana, confissão, mortificação e oração.

Santa Narcisa, modelo de oração, humildade,
simplicidade e penitência. 
Em 1865, seu diretor, gravemente enfermo, pediu que ela o acompanhasse a Cuenca, onde se restabeleceria em uma casa de religiosas. Narcisa permaneceu por dois anos em Cuenca, até a morte de seu diretor. Retornando a Guayaquil, encontrou uma amiga, Mercedes Molina, venerada como beata, empenhada na direção de um orfanato. Não hesitou em ajudá-la na formação das crianças e na confecção de indumentárias. As duas amigas assistiam a Missa cotidiana e moravam no orfanato.
Segundo testemunhas da época, "Narcisa era muito bela, alta e bem proporcionada; sua cabeleira loura, abundante e anelada, chamava a atenção das pessoas; era muito estimada na cidade. Como caráter, era muito amável e em certos momentos dava demonstração de sua alegria cantando, enquanto sua amiga tocava a viola. Era muito caridosa”.
Em 1868, o frade franciscano Pedro Gual, que se tornara seu diretor espiritual, convidou Narcisa a transferir-se para Lima, onde ela ficaria hospedada no convento dominicano de Patrocínio. O capelão daquele mosteiro tornou-se seu confessor até a sua morte.
Apesar de sua compleição robusta, no último período de sua vida era evidente a crescente debilidade resultante de suas penitências.     Poucas horas antes de seu falecimento, na noite do dia 8 de dezembro de 1869, ao despedir-se das Irmãs, como que “fazendo graça”, disse que partiria para uma “longa viagem”. Um pouco antes da meia-noite, a Madre que devia fazer o turno de vigília percebeu que a cela de Narcisa estava misteriosamente iluminada e dela provinha um perfume fortíssimo. A religiosa foi verificar o que ocorria e "ao abrir a porta do quarto de Narcisa, viu a mesma claridade que se notava do lado de fora e sentiu que ali a fragrância era maior; ela tinha falecido abrasada pela febre de seu corpo e, sobretudo, pelo ardor do amor divino". Tinha apenas 37 anos. Faleceu no dia da inauguração do Concílio Vaticano I, oferecendo seus últimos sofrimentos por este importante evento. 
Foi beatificada por João Paulo II em 25 de outubro de 1992. A sua canonização ocorreu em 12 de outubro de 2008, sendo a quarta pessoa oriunda da América Latina a ser canonizada por Bento XVI e a terceira santa equatoriana. Bento XVI referiu-se a Narcisa com as seguintes palavras: "Santa Narcisa de Jesus nos mostra um caminho de perfeição cristã. Oferece-nos um testemunho atraente e um exemplo acabado de uma vida totalmente dedicada a Deus e aos irmãos".

Dia no qual o corpo incorrupto da santa foi exumado
para ser colocada sobre o rosto uma fina máscara
para protegê-lo antes de ser colocado em exposição
dentro de uma urna transparente. 
Seus santos despojos se encontram no Santuário que ostenta seu nome, na sua cidade natal, Nobol, no Equador. Por ter-se santificado tanto no campo como na cidade, em sua pátria, como fora dela, muitos migrantes têm especial devoção por ela. 


Corpo incorrupto de Santa Narcisa de Jesus. 




Fonte: blog “Heroínas da Cristandade”.