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terça-feira, 22 de julho de 2014

SANTO ELIAS, PROFETA E PAI DOS CARMELITAS


Presente na Transfiguração de Jesus Cristo, reatador da aliança de Deus com o povo hebreu, adversário e destruidor do culto pagão de Baal, primeiro devoto de Nossa Senhora, o profeta Elias foi arrebatado vivo num carro de fogo. Onde se encontra? Voltará? Quando? Eis questões candentes a respeito de um dos mais extraordinários personagens da História.


Volta anunciada por Nosso Senhor

"E ele, respondendo, disse-lhes: Elias certamente há de vir [antes de minha segunda vinda], e restabelecerá todas as coisas" (Mt 17, 11).

São palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo a Pedro, João e Tiago, logo após o episódio da Transfiguração. Se aos profetas no Antigo Testamento coube a honra e a glória de anunciar a vinda do Salvador, Santo Elias teve o privilégio de ser anunciado pelo próprio Messias.




Quando desciam o monte Tabor, o Mestre proibiu aos três Apóstolos contar os fatos ocorridos lá no cimo, até sua ressurreição. Pelo caminho, vinham os discípulos conversando entre si a respeito do sentido da grandiosa cena à qual haviam assistido. Como todo judeu piedoso, acreditavam na necessidade de Elias preceder o Messias. E agora ele aparecera na Transfiguração de Jesus! Seria o começo? Um deles não se conteve e perguntou ao Mestre: "Por que dizem os escribas que Elias ainda há de vir?”.

E Jesus retorquiu com as palavras reproduzidas no início do presente tópico, confirmando a profecia sobre o retorno de Elias para restabelecer a ordem. Quando? Antes de examinar tal questão, vejamos quem foi esse varão tão grandioso.



Gládio e Fogo

Seu nome, que significa "o Senhor é meu Deus", aparece de forma abrupta na História do Reino de Israel, e já com um brilho prodigioso: "Suas palavras queimavam como uma rocha ardente. Elias, o profeta, levantou- se logo como um fogo" (Ecle 48, 1-10).

Sabe-se que ele nasceu em torno do ano 900 a.C. em Tesba de Galaad, junto à fronteira do país dos amonitas (atual Jordânia). "Quando Elias estava para nascer, seu pai Sabacha viu-o saudado por alvos anjos, envolvido por faixas de fogo e alimentado com chamas. Tendo ido a Jerusalém, relatou [no templo] a visão, e o oráculo lhe disse que não temesse, pois aquele que ia nascer habitaria na luz, suas palavras seriam sentença segura e julgaria Israel com gládio e fogo" (Doroteu, Sto. Epifânio e Metafrates, apud Cornelio a Lápide, Comentários ao Livro 1º dos Reis, cap. 17).

Sua vida foi repleta de aspectos extraordinários. Numerosos autores lhe atribuem a virgindade perpétua, embora essa virtude fosse rara em seu tempo. O famoso exegeta Cornélio a Lápide lhe confere, logo no início de seus comentários, a santidade, austeridade e inocência de vida. Mostra, depois, como o profeta se tornou fundador da vida monástica e eremítica, ao retirar-se para o Monte Carmelo, onde se dedicou à contemplação, reunindo Eliseu e vários discípulos.


Irrompendo no meio da apostasia

Naquele tempo, os israelitas haviam mesclado, ao culto do verdadeiro Deus, o culto pagão de Baal, deus da fertilidade, e quase já não conseguiam distinguir um do outro. Os 450 sacerdotes dessa religião sanguinária e imoral eram protegidos pela rainha, Jezabel, uma fenícia, sendo abrigados e alimentados no próprio palácio real. O rei Acab apoiava as ações de sua esposa, a ponto de edificar, dentro de sua residência, um templo para Baal.

Nesse ambiente irrompe como um raio o homem de Deus: "Elias, o tesbita, um habitante de Galaad, veio dizer a Acab: ‘Pela vida do Senhor, Deus de Israel, a quem sirvo, não haverá nestes anos orvalho nem chuva, senão quando eu o disser'." (1Reis 17, 1). Esse ardor nas palavras e essa impressionante certeza de que o Senhor o ouvia são característicos desse santo profeta. E ele entra pela primeira vez na História já se confrontando com o rei e os adoradores de Baal.

São João Crisóstomo se entusiasma com essa tempestuosa atitude de Elias, e comenta: "Quando ele, profeta santíssimo, pôs os olhos no povo prevaricador, quando viu claramente Baal e os ídolos serem sacrilegamente adorados, com desprezo do Senhor, quando todo o povo, abandonando o Criador, se entregava ao culto das estátuas de barro dos bosques, movido pelo zelo de Deus, decretou contra a Judéia a sentença da seca e do fim das chuvas. Então, subitamente, a terra lançou vapores, o céu se fechou, os rios secaram, as fontes se extinguiram, o bronze ferveu, a temperatura torturou, a tranquilidade ficou penosa, as noites se tornaram secas, os dias áridos, as searas se torraram, os arbustos feneceram, os prados desapareceram, os bosques enlanguesceram, os campos jejuaram, a terra tornou-se inculta, suas ervas morreram, e a ira de Deus se manifestou sobre todas as criaturas" (apud Cornelio a Lápide, idem).

A primeira fuga

Por ordem do Senhor, Elias retirou-se para a banda do Oriente, junto à torrente do Carit. Nesse local foi alimentado com pão e carne levados por corvos. Porém, a água secou, e ele teve de mudar de residência.

Deus lhe preparara hospedagem em casa de uma viúva, em Sarepta, na Fenícia. Seria ocasião de ele realizar mais milagres, em primeiro lugar ao multiplicar diariamente a farinha e o azeite da pobre mulher, ao longo de três anos, e ainda ao ressuscitar o filho único dela: "Depois de ter aprendido a misericórdia em seu retiro à margem da torrente do Carit, ensina à viúva de Sarepta a fé na palavra de Deus, fé que ele confirma por sua oração insistente: Deus devolve à vida o filho da viúva", diz o Catecismo da Igreja Católica (nº 2583), reiterando a confiança do santo profeta no atendimento de suas súplicas.

Extermínio do culto de Baal

Mas a fome tornava-se extrema em Israel. Acab, aflito por não encontrar Elias, saiu pelos áridos campos à procura de fontes e ervas. Enquanto o rei percorria em vão o país, vieram avisá-lo da aproximação de Elias. Acab foi ao seu encontro, e tão logo viu o homem de Deus, disse-lhe:

"Eis-te aqui, o perturbador de Israel". - "Não sou eu o perturbador de Israel," respondeu Elias, "mas tu, sim, e a casa de teu pai, porque abandonastes os preceitos do Senhor, e tu seguiste aos Baals. Convoca, pois, à montanha do Carmelo, junto de mim, todo o Israel com os 450 profetas de Baal e os 400 profetas de Asserá, que comem à mesa de Jezabel" (1Reis 18, 17-19).

Quando os convocados se reuniram no monte Carmelo, Elias, aproximando-se do povo, dirigiu-se a todos, dizendo: "Até quando claudicareis dos dois pés? Se o Senhor é Deus, segui-O, mas se é Baal, segui a Baal!" (1Reis, 18, 21). A bela imagem expressa o comportamento dos israelitas, de dobrar um joelho diante de Deus, e outro diante de Baal.

Deus sabe escolher o cenário para conferir valor e premiar o zelo dos varões de sua destra, pois o monte Carmelo era o lugar ideal para o grandioso episódio tão maravilhosamente narrado pela Escritura. Ergue- se alto, bem junto ao mar, na fronteira entre a Samaria e a Galileia, a 32 quilômetros de Nazaré. Hoje em dia, pelas suas encostas, avança a cidade de Haifa.

E Elias tornou a dizer ao povo: "Eu sou o único dos profetas do Senhor que fiquei; mas os profetas de Baal chegam a 450 homens. Dê-se-nos, portanto, um par de novilhos; eles escolherão um, fá-lo-ão em pedaços, e o colocarão sobre a lenha, mas sem meter fogo por baixo; eu tomarei o outro novilho e o porei sobre a lenha, sem meter fogo por baixo. Depois disso, invocareis o nome de vosso deus, e eu invocarei o nome do Senhor. Aquele que responder pelo fogo, esse será reconhecido como o (verdadeiro) Deus". Todo o povo respondeu: "É uma boa proposta" (1Reis 18, 22-24).

O homem de Deus, varão da confiança total no Senhor, estava preparando os elementos para desmascarar, de modo espetacular, diante de todo o povo, a fraudulenta religião pagã. Com sua maneira de ser categórica e ao mesmo tempo diplomática, convidou os "profetas" do falso deus a começarem invocando Baal, "porque sois em maior número". Eles despedaçaram o novilho, colocaram-no sobre o altar, e deram início às suas cerimônias impetratórias:


"Puseram-se a invocar o nome de Baal, desde a manhã até o meio-dia, gritando: ‘Baal, responde-nos! ' Mas não houve voz, nem resposta. E dançavam ao redor do altar que tinham levantado. Sendo já meio-dia, Elias escarnecia- os, dizendo: ‘Gritai com mais força, pois (seguramente) ele é deus; mas estará entretido com alguma conversa ou ocupado, ou viagem, ou estará dormindo... e isso o acordará'! Eles gritavam, com efeito, em alta voz, e retalhavam- se segundo o seu costume, com canivetes e lancetas, até se cobrirem de sangue" (1Reis 18, 26-28).



Deus atende aos rogos de Elias

Esgotou-se o prazo para os 450 "profetas" de Baal; era hora de Elias clamar com confiança a ação do Deus de Israel: "Elias disse ao povo: ‘Aproximai-vos de mim', e todos se aproximaram". Reinava, decerto, um silêncio pleno de expectativa, com todos os olhos cravados na figura daquele homem de fogo: "Elias reparou o altar demolido do Senhor. Tomou doze pedras, segundo o número das tribos dos filhos de Jacó, a quem o Senhor dissera: Tu te chamarás Israel. E erigiu com essas pedras um altar ao Senhor. Fez em volta do altar uma valeta, com a capacidade de duas medidas de semente. Dispôs a lenha, e colocou sobre ela o boi feito em pedaços. E disse: ‘Enchei quatro talhas de água e derramai- a em cima do holocausto e da lenha'. Depois disse: ‘Fazei isto pela segunda vez'. Tendo-o eles feito, disse: ‘Ainda uma terceira vez'. Eles obedeceram. A água correu em volta do altar e a valeta ficou cheia. Chegou a hora da oblação. O profeta Elias adiantou-se e disse: ‘Senhor, Deus de Abraão, de Isaac e de Israel, saibam todos hoje que sois o Deus de Israel, que eu sou vosso servo, e que por vossa ordem fiz todas estas coisas. Ouvi-me, Senhor, ouvi-me, para que este povo reconheça que Vós, Senhor, sois Deus, e que Vós sois que converteis os corações'".

E Deus atende com abundância a oração confiante do servo fiel: "Então, subitamente, o fogo do Senhor baixou do céu e consumiu o holocausto, a lenha, as pedras, a poeira e até mesmo a água da valeta. Vendo isso, o povo prostrou-se com o rosto por terra, e exclamou: ‘O Senhor é Deus! O Senhor é Deus! ' Elias disse-lhes: ‘Tomai agora os profetas de Baal; não deixeis escapar um só deles! ' Tendo- os o povo agarrado, Elias levou-os ao vale de Cison e ali os matou" (1Reis 18, 30-40).



A nuvenzinha e a Mãe de Deus

Entre Elias, sua missão e os lugares onde viveu existe uma bela harmonia, muito bem ressaltada pelo autor do Livro dos Reis. E um dos méritos do escritor inspirado é o de fazer sentir esse acordo profundo. Carit evoca o espírito eremítico de Elias; o Horeb, sua intimidade com Deus; Sarepta, seu espírito de obediência ao Senhor e sua prudência.

O Carmelo, a montanha da renovação da Aliança de Deus com seu povo, recorda seu zelo pela glória do Altíssimo e sua fé inquebrantável. Carmelo é um nome derivado do hebraico Karem, que significa jardim ou pomar e vinha do Senhor. Era o local apropriado para Elias rogar fervorosamente a Deus pela chuva. Logo após o confronto com os 450 "profetas" de Baal, Elias subiu ao cimo desse monte e orou a Deus. Por sete vezes mandou seu servo olhar para as bandas do mar, para verificar se havia sinal de chuva. "Na sétima vez o servo respondeu: ‘Eis que sobe do mar uma pequena nuvem, do tamanho da palma da mão' (...) Num instante, o céu se cobriu de nuvens negras, soprou o vento e a chuva caiu torrencialmente" (1Reis 18, 42-45).

Deus ouvira novamente o santo profeta: "A oração fervorosa do justo tem grande poder" (Catecismo da Igreja Católica, nº 2582).

Segundo uma longa tradição na Igreja, aquela "nuvenzinha", prenunciadora da chuva, prefigurava a Santíssima Virgem. No Novo Testamento, Ela faria "chover sobre a humanidade" o Redentor, e, depois, as graças obtidas por sua intercessão. O profeta Elias é considerado seu primeiro devoto.



Encontro com Deus e renovação da Aliança

Apesar do comprovado milagre, Jezabel ficou devorada de ódio contra Elias, e mandou-lhe um mensageiro, avisando sua determinação de matá-lo no dia seguinte, tal qual ele fizera com os "profetas" de Baal.

Tomado de temor, o profeta caminhou sem parar em direção ao sul. No limiar do deserto, dispensou seu criado, e se embrenhou sozinho por aquelas paragens inóspitas, andando durante um dia inteiro até cair meio desfalecido. Mas Deus enviou um Anjo para revigorá-lo, oferecendo-lhe pão e água, e assim alimentado, Elias caminhou quarenta dias e quarenta noites até o monte Horeb, "a montanha de Deus" (1Reis, 19, 1-8).

Nesse simbólico lugar, onde séculos antes Moisés falara com Deus, Elias teve um encontro análogo com o Senhor. Somente ele e Moisés apareceram na transfiguração de Jesus; também os dois foram os únicos a presenciar a glória do Senhor no Horeb. Deus passou diante dele, e duas vezes lhe dirigiu a palavra, perguntando: "Que fazes aqui, Elias?" E o profeta respondeu: "Eu me consumo de zelo pelo Senhor Deus dos exércitos. Porque os israelitas abandonaram a vossa aliança, derrubaram vossos altares e passaram os vossos profetas ao fio da espada. Só eu fiquei, e querem tirar-me a vida" (1 Reis 19, 9-10).


Glorioso por seus prodígios

Deus o encarregou de várias missões, consistindo as principais em sagrar um novo rei de Israel e em ungir Eliseu, como profeta continuador de sua missão.

Esses encargos deram ocasião a outros episódios portentosos narrados no livro dos Reis. O Espírito Santo canta o brilho de seus feitos com essas palavras: "Quão glorioso te tornaste, Elias, por teus prodígios! Bem-aventurados os que te conheceram, e foram honrados com a tua amizade!" (Eclo 48, 4 e 11).

O ponto auge de sua história se verifica ao despedir- se de Eliseu, conforme no-lo relata o Segundo Livro dos Reis: "Continuando o seu caminho, entretidos a conversar (Elias e Eliseu), eis que de repente um carro de fogo com cavalos de fogo os separou um do outro, e Elias subiu ao céu num turbilhão" (2Reis 2, 11).

Ora, o céu propriamente dito ainda não havia sido aberto pelo Redentor. Assim, perguntamo-nos novamente: Onde está Elias e quando voltará?


Sua missão ainda não terminou

Arrebatado em corpo e alma num carro de fogo, Elias ainda não morreu, segundo uma consagrada tradição na Igreja Católica. Onde se encontra agora? Não se sabe. A Sagrada Escritura, na versão dos Setenta, diz ter sido ele arrebatado "quasi in coelum" ("quase ao céu"). E esta é, comumente, a opinião dos Santos Padres e Doutores. Para alguns deles, Elias foi levado ao Paraíso Terrestre, o lugar de onde haviam sido expulsos Adão e Eva, apósSanto_Elias.jpg cometerem o Pecado Original. Para outros, foi conduzido para uma região ignorada da terra. Entre os da primeira opinião estão Santo Irineu, Tertuliano, Santo Isidoro e Santo Tomás de Aquino, e entre defensores da segunda, São Gregório Magno. Teodoreto manifesta indecisão, por achar insuficientes os dados da Escritura, como pensam também São João Crisóstomo e Santo Agostinho.

Voltará Elias, e quando? A tradição judaica, no Antigo Testamento, bem como a cristã, acreditam em seu retorno. E esta crença é corroborada por várias passagens da Bíblia.

O já citado livro do Eclesiástico é taxativo a esse respeito. Referindo-se ao profeta, exclama: "Tu, que foste arrebatado num turbilhão de fogo, num carro puxado por cavalos ardentes. Tu, que foste escolhido pelos decretos dos tempos para amenizar a cólera do Senhor, para reconciliar o coração dos pais com os filhos, e para restabelecer as tribos de Jacó" (Eclo 48, 9-10).

E através do profeta Malaquias, Deus repete essa predição: "Vou mandar-vos o profeta Elias, antes que venha o grande e temível dia do Senhor, e ele converterá o coração dos pais para os filhos, e o coração dos filhos para os pais, de sorte que não mais ferirei de interdito a terra" (Ml 3, 23-24).

De tal modo a ideia da volta de Elias estava fixa na mente dos judeus, que tomaram Jesus por ele (Mt 16, 14; Lc 9, 8), e pensaram o mesmo de São João Batista (Jo 1, 21). Este último negou que o fosse, embora tivesse vindo "no espírito e no poder de Elias, reconduzir os corações dos pais aos filhos e os rebeldes à sabedoria dos justos, para preparar ao Senhor um povo bem disposto" (Lc 1, 17).

Acima de tudo, são decisivas as já citadas palavras de nosso divino Salvador: "E ele, respondendo, disse-lhes: Elias certamente há de vir (antes de minha segunda vinda), e restabelecerá todas as coisas" (Mt 17, 11).

Assim, antes da primeira vinda do Messias ao mundo, São João Batista foi enviado como precursor. Antes da segunda vinda, próxima do grande e terrível julgamento final, Elias deverá retornar. Ele, o príncipe dos profetas e prefigura de Nosso Senhor Jesus Cristo, ainda não terminou sua missão: há quase três milênios aguarda a chegada do fim dos tempos.


(Artigo publicado pela Revista Arautos do Evangelho, Jul/2002, n. 7, p. 7 à 10).

domingo, 20 de julho de 2014

Beatos Manuel Gómez González, presbítero, e seu coroinha Adílio Daronch, mártires.


Padre Manuel Gómez González

O Padre Manuel Gómez González nasceu em São José de Ribarteme, Puenteareas, na província de Pontevedra na Galícia, em território espanhol.
Os habitantes da localidade dedicavam-se à agricultura, especialmente à cultura de videiras. A população era pobre, habitando antigas casas de pedra, herdadas de seus ancestrais. Não havia indústrias e o comércio também tinha pouca vitalidade e parcos eram os meios de comunicação.
Ribarteme distava muito das cidades maiores da região. A paróquia fazia parte da diocese de Túy e sua população era igualmente pequena.
Seus pais, José Gómez Rodrigues e Josefa González Duran, eram agricultores modestos. Seu primeiro filho foi Manuel, que recebeu o batismo no dia seguinte ao do nascimento, a 30 de maio de 1877.
A família de Manuel, segundo o testemunho do próprio pároco, era bem considerada por suas virtudes morais, cívicas e religiosas. O espírito religioso da família despertou no menino Manuel, a vocação para o sacerdócio.
Não é de estranhar, quem num ambiente tão piedoso, surgisse uma vocação religiosa, como foi a do jovem Manuel, que ainda criança foi crismado na igreja de Santiago de Ribarteme, por Dom João Maria Babero, bispo de Túy.
Precocemente, como decorrência do ambiente cristão em que vivia, Manuel sentiu o chamado da vocação sacerdotal. Depois de sua primeira comunhão, ingressou no seminário Diocesano de Túy.


O Beato Adílio foi um dos
patronos da Jornada Mundial da
Juventude no Rio/ 2013
 O coroinha Adílio Daronch

A família de Adílio Daronch veio da Itália na leva dos imigrantes italianos que ingressaram no Brasil a partir de 1875. Eram seus avós Sebastiano Daronch e Francesca Schena, que aqui chegaram em 1890. Pedro, o pai de Adílio também era italiano, nascido em Agordo, terra natal de Albino Luciani, que viria a ser o papa João Paulo I, em 05 de janeiro de 1883, portanto contava 07 anos quando veio para o Brasil.
A família Daronch partiu do porto marítimo de Gênova, possivelmente embarcados no navio Savoie, tendo chegado ao Rio de Janeiro em 01 de dezembro de 1890. No Rio Grande do Sul, a família adquiriu o lote no 519, do Núcleo Soturno, em Linha 11, no atual município de Nova Palma, onde se dedicaram ao cultivo da terra e criação de animais domésticos. Pedro, aos dezoito anos, deixou a casa paterna como aprendiz de sapateiro e seleiro, casando-se a seguir com a senhorita Judite Segabinazzi, a 15 de janeiro de 1905.
O casal foi morar em Dona Francisca, então 5º distrito do município de Cachoeira do Sul. Adílio nasceu ali, em 25 de outubro de 1908. Foi o terceiro filho do casal Pedro e Judite. Foi batizado em 1º de novembro desse ano, pelo padre Germano Schrör tendo sido seus padrinhos, o Sr. Alexandre Socal e a Sra. Rosa Martini.
Em 1912, a família de Pedro Daronch transferiu-se para o município de Passo Fundo, onde Pedro atuou como fotógrafo. Passados alguns anos, transferiu-se novamente e agora para Nonoai, continuando como fotógrafo e mantendo uma loja e uma pequena farmácia homeopática. Pedro gozada de bom conceito junto à comunidade de Nonoai e Dona Judite era apreciada pela sua bondade.
A família Daronch se destacava na prática da caridade e colaborava muito com o Padre Manuel, ajudando-o nas missas e nas cerimônias litúrgicas e religiosas.
Desde cedo Adílio manifestava predileção pelas coisas da igreja e gostava de servir o padre como coroinha e ajudante em geral. Feita a primeira comunhão, começou a auxiliar no serviço do altar. Por sua vez, o Padre Manuel era, com frequência, hóspede da família Daronch e lá muitas vezes fazias suas refeições.
Adílio era um menino alegre, embora de temperamento um tanto reservado, gostava de futebol e desde pequeno se manifestava pela sua liderança inata, ponteando os jogos e orientando os colegas na condução das diversões, porém, não descurava o serviço de acólito por causa dos folguedos. Levava muito a sério sua missão. Com o passar do tempo, acompanhava o Padre Manuel pelo interior, troteando em seu burrinho, ao lado do seu protetor e mestre.
O pai do jovem Adílio falecera em 05 de maio de 1923, traiçoeiramente assassinado, no município de Marcelino Ramos, em disputas entre maragatos e chimancos, que a partir de 1923 tomaram vulto e se alastraram por toda a parte, como integrante nas fileiras dos combatentes, deixando a esposa com seus sete filhos, todos menores.
Como não podia deixar de ser, a viúva de Pedro e seus filhos, após o triste acontecimento, tiveram o apoio decisivo do pastor e amigo Padre Manuel, que os confortou e acompanhou nessa triste etapa de suas vidas.
Após a morte do chefe da família Daronch, as dificuldades cresceram e o grupo familiar se dispersou, cada qual seguindo seu caminho, em diversas direções e Dano Judite mudou-se para o município de Dona Francisca, aonde veio a falecer, a 23 de março de 1932.
O fim do coroinha Adílio será considerado mais adiante, quando na companhia do Padre Manuel, veio a sofrer o martírio de forma cruenta, em Três Passos.


Unidos na fé, no amor a Deus, 
na fidelidade ao Cristo e na coroa
do martírio.
O martírio dos servos de Deus

No exercício de seu ministério sacerdotal e pastoral naquela região conflituosa, Pe. Manuel sabia do perigo que enfrentava. Não foi nada fácil como ele próprio expressa numa de suas cartas, datada há 11 de janeiro de 1916, a Dom Miguel Lima Verde, bispo de Santa Maria: "Com bastante dificuldade terei que lutar, mas tudo desaparecerá com a ajuda de Deus” (Carta ao Bispo de Santa Maria, D. Miguel de Lima Valverde, datada de 11 de janeiro de 1916). Pe. Manuel refere-se ao contexto histórico da Revolução de 1923.

Enio Felipin e Teresinha Derosso, em recente publicação, descrevem esse cenário com detalhes: "O Rio Grande do Sul viu seu chão, manchado pelo sangue de homens, tombados pela cruel Revolução de 1893, que teve como marca a degola, dilacerando vidas e trazendo desgraça e tristeza para muitas famílias. Essa Revolução deixou sentimentos de vingança e violência em muitos corações, que teve quase continuidade na Revolução de 1923, ocorrendo nesta, muito banditismo misturado às causas do combate. Homens violentos e vingativos, sem seleção alguma, integravam os corpos provisórios da infantaria, espalhando a morte e o terror por onde passavam... A região norte do Estado, o Alto Uruguai, foi a primeira a sofrer pela revolução, por anos de sangue, saques e baixas vinganças. As cidades de Passo Fundo e Palmeira das Missões foram atacadas pelos caudilhos Mena Barreto e Leonel da Rocha. O general Fermino de Paula defendeu Passo Fundo e o general Valzumiro Dutra defendeu Palmeira. Eram maragatos e chimangos promovendo cenas de sangue, fazendo o povo sofrer muito. Até o padre Manuel Roda, pároco de Palmeira, sofreu perseguições pelos revolucionários, retirando-se para a Argentina" (DEROSSO, Teresinha e FELIPIN, Enio. Mártires da Fé: Pe. Manuel Gómez Gonzalez e Coroinha Adílio Daronch.Gráfica e Editora Pluma, 2003, pp. 22-23)

Em 1924, devido à vacância da Paróquia de Palmeira das Missões, o Bispo de Santa Maria, determinou ao Pe. Manuel para atender os cristãos do sertão do Alto Uruguai.
Lá foi ele com a missão de batizar, celebrar casamentos e primeiras comunhões, e catequizar o povo daquela vasta região, mas sabendo do perigo que devia enfrentar. Noutra carta expressa sua angústia: "Devido ao meu estado de saúde, a anormalidade deste município e não havendo garantias de vida, por estar toda esta zona desde Nonohay até Palmeira em poder dos revolucionários... e temendo ser agredido na estrada... ou ficar de a pé, suplico a Vossa Excelência Reverendíssima, humildemente me dispense deste cargo ao menos enquanto durar este estado anormal..." (Carta ao Bispo de Santa Maria, datada há 08 de agosto de 1923). Encorajado pela fé pôs-se à missão.


"Chão Sagrado" - Local do Martírio

Foi a caminho dessa missão e numa perseguição pelas comunidades de colonos, próximo de Três Passos, distante 250km de Nonoai, sua paróquia, que Pe. Manuel e seu coroinha Adílio caíram numa emboscada armada por soldados provisórios.
Nas proximidades de um matagal em lugar ermo em que se encontravam, os facínoras os apearam de suas montarias, os conduziram para o interior do mato, onde foram atados a árvores. E a seguir mortos sumariamente, com tiros de armas de fogo: dois tiros no sacerdote e três tiros no menino de 15 anos. Era dia 21 de maio de 1924
Perpetrada a dupla criminosa chacina, os assassinos impiedosos roubaram das vítimas o que puderam, inclusive suas montarias e voltaram para o Alto Uruguai.
A comunidade de Três Passos aguardou ansiosa pela chegada do padre Manuel e do seu auxiliar Adílio, durante horas, mas em vão, imaginando que o sacerdote tivera contratempos ou que tivesse ido atender a algum chamado urgente de outra localidade intermediária. No dia seguinte ao atentado macabro, começaram as buscas. Informados pelo dono do bolicho onde haviam pernoitado, sobre o possível local em que poderiam ser encontrados os dois viajantes, foram conduzidos ao capão de mato, onde se depararam com a tétrica cena do massacre.
Releva salientar, que apesar de terem percorrido tantas horas após a morte dos mártires, os corpos ao serem encontrados, estavam preservados e não haviam sido sequer tocados pelos animais da floresta, então densa e repleta de feras e não apresentavam nenhum outro sinal de violência, além da perpetrada pelos vis assassinos.

Manuel, homem de fé, com bondade e paciência, soube exercer seu trabalho pastoral. Reativou o apostolado, realizou um fecundo trabalho com as crianças, abrindo uma escola gratuita. De espírito humanitário trabalhou pelo bem da cidade e do seu povo: constrói uma olaria, hotel e, com a ajuda da comunidade, construiu casas para os sem-teto de Nonoai. De preocupação inovadora, introduziu o cultivo de novos produtos junto aos agricultores de sua região. Incansável propagador da paz fez ecoar sua voz por todos os cantos: "Peço a Deus que isto que se está dando em nosso Estado cesse quanto antes e venha uma paz para ambos os partidos".(Carta ao Bispo de Santa Maria, D. Atico Eusébio da Rocha, datada de 18 de julho de 1923).

Adílio, testemunho leigo, deixou-se seduzir pelo Senhor e colocou-se a serviço de seu Altar redentor. Vítima inocente de uma época de violências mostrou sua coragem e sua fé. Um exemplo de zeloso cuidado com as coisas de Deus. Nele nossos adolescentes e jovens devem buscar a inspiração para seus ideais.

E, por fim, poderíamos dizer que "destruíram os corpos, mas continua a seiva viva do testemunho a correr nas pessoas que conheceram e que creem no projeto dos dois ‘mártires’".



Raras fotos dos beatos

Exéquias e fama de santidade dos mártires

Levados os corpos dos mártires com sentida aflição e desconsolo dos amigos e fiéis, foram sepultados com grande acompanhamento em Três Passos. No local do martírio, foi construída uma capela, para onde começaram a acorrer em seguida e de forma crescente, devotos, peregrinos e romeiros, com a finalidade de pedir favores e agradecer pelas graças alcançadas.
O local do sepultamento tornou-se então um centro devocional, atraindo pessoas de muitas localidades e dando origem à romaria, que ora se realiza todos os anos, no terceiro domingo de maio, em Nonoai, para onde foram transladados os restos mortais dos dois mártires, sepultados ao lado do Santuário de Nossa Senhora da Luz, num complexo de visitação de fiéis, que ali ocorrem, deixando seus ex-votos em sala contígua, em razão das graças alcançadas.
Em Três Passos, Terra Sagrada onde aconteceu o martírio, desde 1993, é realizado no último domingo de maio a Romaria onde os fiéis saem em caminhada da frente da igreja matriz Santa Inês, percorrendo 5 km até a localidade do Feijão Miúdo, local onde aconteceu o martírio, hoje denominado Parque do Santuário dos Beatos Mártires do Rio Grande do Sul.


Romaria ao Santuário

Crescendo a devoção aos mártires da fé, que foram sacrificados no cumprimento do ministério da evangelização e constatadas tantas graças alcançadas por seu intermédio, foi encaminhado a Roma o processo de beatificação dos mártires rio-grandenses, em setembro de 1988, por iniciativa do então bispo da diocese de Frederico Westphalen, Dom Bruno Maldaner.
No dia 13 de fevereiro de 2001, a Causa da Beatificação foi aprovada por unanimidade, pela Comissão de Consultores Históricos, presidida pelo relator Geral, Frei Ambrogio Eszer.


Missa de Beatificação

Em 21 de outubro de 2007, na cidade de Frederico Westphalen, sede da diocese, foi realizada missa de beatificação. Além de ser a primeira beatificação realizada no Rio Grande do Sul, Adílio Daronch é o primeiro gaúcho e o primeiro coroinha do mundo a ser beatificado.


Beatos Manuel e Adílio, rogai por nós e por toda a Igreja
Católica no Brasil! Rogai pelos jovens e pelas famílias! 

Oração

Nas Tuas Santas Mãos, ó Pai de Amor e de Misericórdia, colocamos a nossa vida. Nós te suplicamos poder contemplar a cruz de Teu Filho como os Bem-aventurados Manuel e Adílio o fizeram.
Que sejamos tuas fiéis testemunhas até o fim. Que a fé em Ti nos encoraje a enfrentar todas as dificuldades da vida e que um dia estejamos em comunhão contigo na Unidade do Espírito Santo. Amém.


Oração pela Canonização


Ó Deus de bondade, que Vos comprazeis de acudir às necessidades de vosso povo em atenção aos méritos dos justos, concedei-nos, por intermédio de vossos Beatos Manuel e Adílio, a graça que Vos pedimos, pois eles foram fiéis na terra, testemunhando com o próprio sangue sua fé no Redentor.

Fazei que, para vossa maior glória e proveito dos fiéis, sejam glorificados na terra com a honra da canonização. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

BEATO MARIANO DE LA MATA APARÍCIO, Presbítero Agostiniano - um "santo" na cidade de São Paulo.





O Bem-Aventurado padre Mariano não fez milagres quando era vivo, nem realizou ações extraordinárias, mas levou uma vida aparentemente comum na enorme e dinâmica cidade de São Paulo.

Outrora residência real, a espanhola Palência é uma cidade tranquila. E densamente histórica também, pois ali foi fundada a primeira universidade da Espanha, no longínquo ano de 1208. Entre suas joias arquitetônicas está a catedral - "A Bela Desconhecida" -, pouco visitada por turistas, já que sua austera fachada não deixa transparecer nada de seu esplêndido interior.

Embora sejam numerosos os detalhes encantadores, os monumentos históricos e as obras de arte, a principal riqueza local não é, entretanto, material ou cultural, mas humana: os seus santos - e estes são muitos. "A Igreja de Palência não está edificada sobre arqueologia românica ou pré-românica, mas sobre pedras vivas", disse seu jovem bispo, Dom José Ignacio Munilla Aguirre, referindo- se a esses heróis da fé.
Um deles é o Beato Mariano.


Um santo ao gosto do bondoso povo brasileiro

Ele é uma "pedra viva" também da Igreja de São Paulo, um santo "admirável e imitável", ao gosto do bondoso povo brasileiro. Em sua vida podemos apreciar uma autêntica heroicidade, aquela que tem o amor como motor, até nas mínimas ações.
Mariano nasceu no solar de la Mata, no último dia de 1905, no seio de uma família verdadeiramente católica de quatro irmãos e quatro irmãs. Todos os varões se tornaram agostinianos. Dos casamentos de suas quatro irmãs, nasceram 27 sobrinhos. Destes, três foram sacerdotes e três religiosas missionárias.

Em agosto de 1921, Marianito ingressou como noviço no Seminário Menor dos Padres Agostinianos de Valladolid. Fez a profissão solene em 1927 e recebeu a ordenação sacerdotal no dia 25 de julho de 1930. Partiu para o Brasil em 21 de agosto de 1931.
De 1945 a 1948 foi Superior da Vice Província Agostiniana do Brasil. A partir de 1961, viveu no Colégio-Paróquia Santo Agostinho, em São Paulo, como professor, diretor espiritual das Oficinas de Santa Rita e vigário paroquial.


Impossível conhecer o Pe. Mariano e não conhecer o amor de Deus

Debrucemo-nos sobre o carisma deste genuíno filho de Santo Agostinho.
Algumas pessoas que o conheceram dão testemunho de episódios de sua vida: uma de suas sobrinhas, Irmã María Paz Martín de la Mata AM, o Pe. Pablo Tejedor Fernandez OSA, atual pároco da Igreja de Santo Agostinho, na capital paulista, e muitos outros familiares e irmãos de hábito. De modo especial, o Vice-Postulador da causa de beatificação, o incansável Pe. Miguel Lucas OSA, que narrou sua vida e a estampou em belas pinturas, expondo-o à veneração dos fiéis.
Todos os que privaram com Pe. Mariano são unânimes em reconhecer o que disse lapidarmente sua sobrinha agostiniana, Irmã María Paz: "Conhecer o Pe. Mariano e não conhecer o amor de Deus era impossível. Qualquer pretexto era bom para falar aos outros de Deus, que era o grande motivo e orientação de sua vida. Sempre se esforçava por fazer a vontade de Deus. Todas as suas obras tinham a clara intenção de estender o Reino de Cristo".
Escrever sobre o Pe. Mariano é recordar o "mensageiro da caridade", que percorria as ruas de São Paulo, quer a pé, quer em seu modesto carro azul, para visitar as dezenas de casas das Associações e Oficinas da Caridade de Santa Rita de Cássia, onde se confeccionavam roupas para os pobres. Foi diretor espiritual dessa obra de assistência durante quase 31 anos.
Procurava os recursos com que socorrer os necessitados. Visitava os enfermos. Nas horas de angústia e dor, consolava as viúvas e filhos dos falecidos. Era o "anjo dos enfermos" e um verdadeiro pai para todos.



Fator de harmonia no convívio

O Pe. José Luiz Martínez conviveu com nosso Beato durante vários anos e testemunha que ele era "um exemplo de sacerdote trabalhando com os leigos, com as associadas das Oficinas de Santa Rita. Seu amor à Ordem Agostiniana era demonstrado em seu costume de trajar sempre o hábito de religioso. Cultivava constantemente a oração. Vivia em harmonia e concórdia com os demais companheiros, até nos momentos mais difíceis. Sua presença era desejada, porque significava um elemento de equilíbrio e de paz".
E continua: "Quando em 1980 celebrou Missa de jubileu de ouro sacerdotal, disse: ‘Meus queridos paroquianos, quero dizer a todos aqui presentes, e aos que não puderam vir, que se eu, nesses cinquenta anos de sacerdote, ofendi a alguém, hoje lhes peço perdão’".
De caráter reto, irrepreensível, conciliador, às vezes alguém o enganava, ou melhor, ele se deixava enganar, desde que isso servisse para ganhar os outros para Deus. Nunca falava mal do próximo, nem comentava os defeitos alheios. Relacionava-se tão bem com os pobres quanto com os ricos ou as autoridades.
Pe. Mariano tinha uma alma expansiva e jovial, e uma simplicidade contagiante e acolhedora. Nunca se vangloriava de suas qualidades, mesmo quando exercia cargos importantes. Como professor, era muito querido tanto por seus alunos quanto por seus colegas, porque sabia fazer de cada pessoa um amigo. Estava sempre disposto a sacrificar seus direitos, contanto que a unidade não se desfizesse. Muito extrovertido, mostrava-se sempre pronto a festejar os sucessos dos outros.



Sacerdote exemplar, protetor da inocência e educador de esportistas

Alma inocente, por isso muito amigo das crianças, de quem se via sempre rodeado. No seu bolso nunca faltavam caramelos que distribuía às mancheias. Suas conversas com elas eram preciosos diálogos cheios de transparente ingenuidade; sabia captar-lhes a atenção, adaptava-se aos seus interesses, misturava-se aos seus festejos, deleitando-se como elas francamente.
Tinha verdadeira paixão pelas plantas, especialmente pelas flores. Entre suas puras mãos, no caixão, podia-se ver, além do santo Rosário, uma orquídea de cor lilás, símbolo da América, mais precisamente do Brasil. Demonstrava afeição também por selos, moedas e fotos. Ainda hoje se conserva sua coleção de 25 álbuns, com temáticas especiais: Nossa Senhora, Vaticano, Espanha e Brasil.
Distribuía santinhos e medalhas de Santo Agostinho e Santa Rita entre os operários de uma grande construção próxima à sua igreja. Levava-lhes também alguma comida e, sobretudo, muita fé e coragem.

Era um sacerdote cumpridor ao máximo de suas obrigações religiosas e ministeriais. Madrugava muito. Pouco depois das seis horas, já se podia vê-lo a preparar o altar para as missas. Tinha uma devoção acrisolada à Eucaristia. Quando alguma pessoa aflita lhe pedia orações, invariavelmente acrescentava: "Tenha fé, vai alcançar a graça".
Cecília Maria de Queiroz, secretária da Igreja de Santo Agostinho, declara: "Pe. Mariano falava muito da devoção ao terço. Vi-o muitas vezes caminhar de um lado para o outro, rezando seu breviário e seu terço. Era um sacerdote piedoso. Recomendava- nos orar muito e sempre. Edificava vê-lo no altar, ou participar de suas celebrações eucarísticas. Punha as coisas de Deus sempre em primeiro lugar".

Nunca ia à Espanha, de férias, sem visitar o Santuário do Pilar. A devoção a Maria era seu ambiente ideal. Quando passava por uma capela ou ermida a Ela dedicada, sempre entrava para rezar uma Salve Rainha ou cantar-lhe um hino próprio.

Pode ser considerado um santo protetor dos esportistas, não só porque organizava, orientava e motivava os jovens, mas, sobretudo, pelos sábios conselhos que costumava dar antes da competições. Por exemplo, esta do dia 9 de novembro de 1960, num programa radiofônico em São José do Rio Preto: "Durante os jogos, uma coisa é obrigatória: o cavalheirismo. É preciso aprender a ganhar ou a perder com fidalguia. Eis a lição primordial que a todos obriga sobremaneira. Esquecê-la por uns instantes sequer é uma falta que é preciso fazer desaparecer das competições esportivas. Os jogos, além de enrijecer os músculos do corpo, fortalecem a vontade, fomentam o companheirismo, reanimam o coração nas lutas que se apresentam e oferecem descanso ao intelecto que reclama algumas horas de lazer".

No capítulo epistolar, as numerosas cartas circulares, ofícios, atas ou simples missivas refletem sua obediência imaculada aos superiores, sua caridade fraterna com os irmãos de hábito, seu amor perfeito à Ordem Agostiniana e seu ardor infatigável na conquista de novas vocações religiosas. As cartas dirigidas aos familiares demonstram ternura de alma, uma fortaleza que não teme sacrifícios, pitadas de saudável humor e muito amor fraternal.


Edificante morte

A manifestação de santidade de uma pessoa cresce ao longo de sua vida e, por assim dizer, atinge o auge nos momentos derradeiros. Aquele que com tanta dedicação se entregara aos doentes, foi visitado pela doença. Numa tarde de 1983, Pe. Mariano sentou-se numa escada do Colégio, fato absolutamente inusitado para quem mantinha sempre uma postura composta, sem afetação.
Perguntado por que ele se sentara ali, respondeu: "Estou sentindo como se um gato me arranhasse o estômago..." Era o câncer.
Aceitou e suportou a doença com grande resignação. Sofria grandes dores, mas esquecia-se de si, para preocupar-se apenas com os outros doentes do Hospital do Câncer, onde fora internado. Apesar dos atrozes sofrimentos, conservava uma constante alegria. Seus gestos de amor para com os visitantes, o pessoal de serviço e os demais enfermos, eram causa de admiração para todos eles.

Na Quinta-Feira Santa, recebeu a visita dos confrades da Ordem, dos amigos e de Dom Paulo Evaristo Arns, Cardeal-Arcebispo de São Paulo. A todos correspondia com extenuadas forças e franca amabilidade. Insistiu muito com sua sobrinha, Ir. María Paz, que acabara de chegar da Espanha, para ir visitar a unidade de crianças com câncer. Como era "o dia do amor", pediu que todos fossem celebrar juntos a Eucaristia.

Passou tranquilo a noite. Na manhã seguinte teve muita dificuldade em falar. À tarde, já não falava, e assim permaneceu no Sábado Santo e no Domingo de Páscoa. Na segunda-feira, por volta das oito horas da manhã, partiu para celebrar no Céu a Páscoa eterna: sem nenhum movimento, nem o mínimo gesto, simplesmente parou de respirar, inclinando suavemente a cabeça para o lado direito...
Pe. Mariano faleceu aos 78 anos de idade, no dia 5 de abril de 1983.
As exéquias foram a mais clara manifestação de como era querido aquele homem de Deus. A igreja estava coberta de flores. O desfile diante do féretro foi impressionante. Uma mulher simples e decidida cortou um pedacinho de seu hábito, para guardar como relíquia. "Um fato surpreendente - conta sua sobrinha - revelou a admiração que a gente tinha pelo Pe. Mariano: em um abrir e fechar de olhos, desapareceram de seu quarto todos os seus objetos de uso pessoal. A enfermeira ainda teve tempo de ficar com o rosário, pois tudo o mais já tinha sido levado".

O MILAGRE

No dia 26 de abril de 1996, João Paulo Polotto, de seis anos de idade, aluno do colégio agostiniano de São José do Rio Preto (SP), foi atropelado por um caminhão que o projetou a vários metros de distância. Sofreu fratura no osso parietal direito e lesão na base do osso temporal esquerdo. Seu estado era gravíssimo, com sangramentos na região do ouvido esquerdo, nariz e boca. O médico, Dr. Odérzio Marcato, constatou também um afundamento do crânio.  João Paulo entrou no hospital de Jaú (SP) com o diagnóstico de traumatismo crânio encefálico grave, paralisia esquerda, batimentos cardíacos lentos, respiração vagarosa até parar, globo ocular projetado para a frente.
Enfim, estava em estado de coma. Alguns minutos após o acidente, os padres do colégio agostiniano e vários familiares começaram a pedir a intercessão do Pe. Mariano, para obter o estabelecimento do menino.  E este se recuperou tão rapidamente que, dez dias depois, o médico que o tinha atendido no hospital foi visitá-lo e o encontrou perfeito, brincando com os colegas, andando de patins, sem nenhuma sequela do trágico desastre, como se nada tivesse acontecido. Está hoje com 24 anos.

BEATIFICAÇÃO

Durante a Missa de 5 de novembro, na Catedral de São Paulo lotada de fiéis, realizou-se a cerimônia de beatificação do Pe. Mariano de la Mata. Após o Kyrie, o Cardeal Cláudio Hummes deu início ao solene ato:

"Com alegria e simplicidade, eu, Cláudio Hummes, primeiro servidor na Arquidiocese de São Paulo, pedi humildemente ao Sumo Pontífice Bento XVI que inscrevesse no número dos beatos o venerável Servo de Deus Mariano de La Mata Aparício."

A estas palavras, o Cardeal José Saraiva Martins, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, respondeu fazendo a leitura da Carta Apostólica do Papa Bento XVI: "Nós, acolhendo o desejo do nosso irmão Cláudio Hummes, Arcebispo de São Paulo, (...) com nossa Autoridade Apostólica concedemos que o venerável Servo de Deus Mariano de la Mata Aparício, presbítero da Ordem de Santo Agostinho, que consagrou sua existência no ministério pastoral a serviço das crianças, dos pobres e enfermos, de agora em diante , seja chamado Beato."

quinta-feira, 17 de julho de 2014

SANTA ISABEL DE PORTUGAL, Rainha e Franciscana Secular.


Santa Isabel de Portugal, Rainha
Mãe e rainha, bondosa e decidida, corajosa e pacificadora, foi amada com paixão por seus súditos. Seu segredo: o amor a Jesus crucificado acima de todas as coisas. 

Quem alguma vez teve a aprazível oportunidade de visitar Coimbra, certamente terá admirado suas numerosas maravilhas: desde o precioso jazigo de Dom Afonso Henriques, fundador do Reino de Portugal, até os variados e belos parques que adornam a cidade. Brilha ainda a histórica Universidade que, através de suas sólidas raízes e requintados frutos, é a instituição que representa a maior expressão da Língua Portuguesa.

Contudo, quem vem de longe não deixa de notar o sincero carinho dos habitantes por sua insigne padroeira, a Rainha Santa Isabel: o anjo de bondade e de paz que o Senhor mandou para Portugal.

Curiosamente, Santa Isabel não é portuguesa de nascença. Quis a mão da Providência colhê-la no solo aragonês, onde veio ao mundo no longínquo ano de 1271. Precedeu-a em nobreza e santidade sua tia-avó, Santa Isabel da Hungria, de quem herdou, além do nome, os mais excelentes predicados. A pequena filha de Pedro III de Aragão e de Constança da Sicília foi, a exemplo de sua tia, grande seguidora de São Francisco de Assis e uma alma toda voltada para os pobres e necessitados.

      Pacificou ânimos e guerras desde o berço até a hora da morte, e não houve, entre o primeiro nobre e o último, doente quem se furtasse à sua tão benéfica influência. Todos saíam de sua presença dispostos a reconciliar-se com Deus e a perdoar o próximo.



Uma menina que dulcificava os corações

Quando nasceu Santa Isabel, havia uma briga entre seu pai e seu avô, Jaime I, o Conquistador. Há tempo não se falavam, porque esse rei de Aragão não aprovava o casamento de seu filho Pedro com Dona Constança. Apenas nasceu a santa menina, foram-se apagando as desavenças domésticas e houve grande harmonia naquela casa real. O destemido avô não ocultava sua grande predileção por essa criança e fez questão de que ela fosse educada em seu palácio, para poder gozar de sua companhia. A razão mais profunda pela qual não queria separar-se dela era o sensível influxo de bênçãos e a suavidade que emanavam de sua pessoa. Num ambiente carregado de tensões e pesados encargos, aquele precioso tesouro dulcificava os corações. Após o falecimento de Jaime I, a infanta permaneceu ainda alguns anos com seus pais. Muito em breve ela se tornaria rainha de Portugal.



Santa Isabel de Portugal, Rainha 
Na corte de Portugal

Em 1282 partiu para as terras lusas, a fim de contrair matrimônio com Dom Dinis, que acabava de subir ao trono. Nunca se tinha visto ali uma soberana de tamanha modéstia e amabilidade. Seu recolhimento e união com Deus não tardaram a cativar o povo, o qual logo retribuiu o amor de que estava sendo objeto. Para aumentar a confiança de todos na jovem soberana, concorreu a paz que ela obteve, logo ao chegar, entre Dom Dinis e seu irmão que lhe disputava a coroa.

Sua vida na corte foi uma constante busca do sobrenatural. Sem omitir nenhuma das obrigações impostas pela sua condição de rainha, o seu coração não se prendeu a esta terra. Estava presente em todas as festividades do reino e sinceramente se regozijava com o povo; cingia a coroa e trajava os mais ricos vestidos para, ao lado do rei, receber as autoridades ilustres que vinham honrá-la e colocar-se a seu serviço. Entretanto, nem por isso envaideceu-se e desejou aquelas glórias para si. Julgava-se pecadora e teria preferido mil vezes ser pobre a possuir todos os tesouros reais.



Precursora da devoção à Imaculada

A oração e a vida de piedade exerceram papel primordial em sua existência, e foram a causa de todas as conquistas pelo bem do reino e das almas que ela obteve. Toda manhã assistia à Santa Missa em seu oratório com o espírito absorto em santas considerações. Desde os oito anos de idade recitava o Ofício Divino, e acrescentou depois a recitação diária dos salmos penitenciais e outras devoções em honra dos Santos e de Nossa Senhora.

Sua devoção a Maria Santíssima foi terna e fecunda, legando à posteridade um traço indelével para a espiritualidade luso- brasileira: o patrocínio da Imaculada Conceição. De fato, foi Santa Isabel quem A escolheu como padroeira de Portugal e fez com que se celebrasse por primeira vez a sua festa, em 8 de dezembro de 1320, quando os raios das disputas teológicas em favor da Conceição Imaculada de Maria espargiam seus primeiros fulgores.



Sofrimentos de esposa e rainha
 
Assim amparada pelas forças divinas, ela preparou-se para as grandes cruzes e dissabores que a aguardavam. Após o nascimento de seus dois filhos, Constança e Afonso, a Rainha Santa suportou heroicamente a vida dissoluta que Dom Dinis passou a levar. Sem murmurar ou impacientar-se, ela muito rezou e fez penitência pela conversão do soberano.

Assistiu ainda com maior sofrimento às inimizades entre governantes cristãos seus parentes, que por ambição disputavam entre si terras e honrarias e, em consequência de suas pretensões, causavam derramamento de sangue.

Corajosamente, Santa Isabel ergueu-se em toda a sua estatura e impediu uma grande quantidade de combates que estavam a ponto de estalar. Dom Dinis e Dom Afonso - irmão do rei - estavam em pé de guerra pela coroa de Portugal. O mesmo rei seu esposo tinha com o monarca de Castela, Sancho IX, sérias contendas em torno das fronteiras entre os reinos. Anos mais tarde, Dom Fernando IV de Castela - seu genro - e Dom Jaime II de Aragão - seu irmão - nutriam mutuamente uma feroz inimizade que caminhava para um terrível enfrentamento. Seu irmão, Frederico da Sicília, e Roberto de Nápoles guerreavam violentamente por razões políticas...

Quantas lágrimas este quadro desolador custou a seu reto coração! Erguendo constantes preces a Deus e implorando a cada um desses soberanos que ouvisse a voz da justiça, ela saiu vitoriosa em todas as desavenças nas quais interveio. A Rainha Santa provou que a paz não se deve tanto a tratados e a considerações de caráter econômico, quanto a almas santas que aplaquem a ira e o ódio por meio da mansidão e da clemência. Coragem e intrepidez de mãe

A mais pungente atuação de Santa Isabel, a que lhe custou mais sofrimentos e angústias, foi a de enfrentar a rebeldia de seu filho contra o rei. Desejoso de mandar logo no reino e julgando que a coroa tardava muito, o invejoso herdeiro quis proclamar-se rei e declarou guerra a Dom Dinis. Desprezando todos os bons exemplos que sua mãe sempre lhe dera, organizou um exército e defrontou-se contra o autor de seus dias.

De um lado, o rei marcha diante de seus homens, disposto a tudo para manter o cargo que lhe cabe por direito. De outro, o filho insolente o enfrenta e despreza o mandato divino que obriga a honrar pai e mãe. No momento em que o silêncio nos dois campos inimigos indica o início da batalha, surge a figura intrépida da rainha: em sua veloz montaria, ela rasga a arena da discórdia e se interpõe entre as criaturas que mais ama neste mundo, para implorar o perdão e a paz.

Seu olhar, sempre carregado de doçura, volta-se desta vez severo e penetrante para o filho ambicioso: "Como te atreves a proceder deste modo? Pesa-te tanto assim a obediência que deves a teu pai e senhor? Que podes tu esperar do povo no dia em que te caiba governar o reino, se estás a legitimar a traição com este mau exemplo? Enfim... se de nada te servem os meus conselhos e carinho de mãe, teme ao menos a ira de Deus, que justamente castiga os escândalos"!


Santa Isabel , promotora da paz
Seria possível resistir a este apelo materno, feito diante de milhares de súditos? Arrependido e cheio de confusão, o filho ajoelha-se sem replicar, pede perdão ao rei e jura-lhe fidelidade. Mais uma vez, a Rainha Santa afasta as negras nuvens do horizonte e faz brilhar, para gáudio de todos, o arco-íris da bonança.



A caridade e o amor aos pobres

A par de seu espírito pacificador, foi na prática da caridade e no amor aos pobres que o seu amor a Deus se projetou inteiramente. Tanto se dedicou aos fracos, cuidou dos enfermos, fundou hospitais e protegeu toda categoria de desvalidos, que não é possível encontrar explicação humana para a fecundidade assombrosa de suas iniciativas.

Quando a querida rainha saía no paço, uma multidão de infelizes a seguia, pedindo socorro, e nunca algum deles se retirava sem ser generosamente atendido. Gostava de cuidar pessoalmente dos leprosos mais repugnantes, tratar-lhes as chagas e lavar- lhes as roupas; encaminhava para uma vida digna os órfãos e as viúvas e até na hora da morte não abandonava os infelizes, para os quais providenciava uma sepultura digna e mandava celebrar Missas em sufrágio de suas almas. Como corolário de sua fé inabalável, não poucos eram os doentes que saíam de sua presença inteiramente curados.



Morre como terciária franciscana

Ao morrer Dom Dinis, em 1325, Santa Isabel contava 54 anos de idade, e ainda viveu mais onze. Nesse período abraçou a Ordem Terceira de São Francisco e abandonou as pompas da corte, a fim de viver exclusivamente para a oração e a caridade. Sua virtude heroica e a doação de si mesma atingiram o máximo esplendor; ela estava pronta para reinar no Céu.

No dia 4 de julho de 1336, enquanto intermediava uma ação de paz em Estremoz, veio Maria Santíssima buscá-la para a pátria definitiva, onde gozaria da glória eterna. Enquanto todos choravam a perda insuperável, ela se rejubilava por estar na iminência da posse definitiva do Deus a quem tão bem servira. Suas últimas palavras foram: "Maria, Mãe da graça, Mãe de misericórdia, protege-nos do inimigo e recebe-nos à hora da morte". Era desejo seu ser enterrada em Coimbra, no convento de Santa Clara, fundado por ela.

Sua memória rapidamente ultrapassou as fronteiras do reino, e em todo o orbe cristão era conhecida aquela soberana que foi o mais belo ornato do glorioso Portugal.



Uma canonização singular

O modo singular como Santa Isabel foi canonizada bem serve para mostrar o quanto, sendo a vontade Deus glorificar algum de seus filhos ilustres, nenhum obstáculo humano é capaz de impedi-Lo.

Inumeráveis foram os milagres obtidos junto a seu corpo, que permanecia surpreendentemente incorrupto e exalava um bálsamo odorífico. Em Portugal e na Espanha os devotos ansiavam por vê-la nos altares e dedicar igrejas em sua honra. Os soberanos que dela descendiam insistiam junto às autoridades eclesiásticas para acelerarem o processo.

Nos primórdios do séc. XVII, a canonização era o termo final de uma série de autorizações concedidas pela Santa Sé para a veneração dos santos. Sendo assim, era comum que apenas em algumas dioceses ou regiões se pudesse celebrar um bem-aventurado, mas saindo daquela jurisprudência o culto já não fosse oficial. Esse sistema, somado a uma série de numerosas canonizações naquele período, acabou levando o Papa Urbano VIII a instituir um sistema minucioso e cauto para a admissão de novos bem-aventurados no rol dos santos.

Neste intuito reformador, apenas subiu ao sólio pontifício e logo declarou que não haveria de canonizar nenhum santo! E justo agora que tudo propiciava a glorificação definitiva da querida Rainha Isabel... Que fizeram os devotos agradecidos? Encomendaram aos céus o filial intento, e obtiveram pela oração o que pelos meios humanos não conseguiram.

Após ter enviado várias cartas reforçando o pedido, e também um representante que muito insistiu junto a Urbano VIII, tudo o que o soberano então reinante, Filipe IV, conseguiu foi que o Papa, por educação e cortesia, aceitasse uma imagem da veneranda rainha.

Entretanto, pairava um desígnio superior sobre o intrincado caso. Tendo o Papa caído gravemente enfermo, com febres malignas e já quase sem esperança de vida, lembrou-se da rainha de Portugal. Tanto se falava de seu amor pelos doentes, de seu incansável zelo por curar-lhes o corpo e a alma... Encomendou-se a ela o Papa também, esquecendo-se de sua prudente reserva para com os justos de Deus.

Eis que no dia seguinte amanheceu bom, sem nenhum risco de vida! Tão comovido ficou por ver a bondade de sua protetora que mudou seu parecer. Canonizaria, por uma especial exceção, a rainha de Portugal; e o faria com o "coração grande", alistando-se ele também nas fileiras de seus devotos. Assim se explica a magnífica cerimônia que teve lugar na Basílica de São Pedro, em 25 de maio de 1625. Nem antes nem depois, nos 21 anos de seu pontificado, Urbano VIII canonizou qualquer outro santo! 

Como é eloquente o exemplo que nos deu a bondosa rainha Santa Isabel, a qual se abriu sem reservas para a mensagem do Evangelho e compreendeu que o tempo é breve e a figura deste mundo passa! Enfrentando as amargas consequências do vício e da vanglória que a rodeavam, ela manteve a integridade de quem não se entregou ao pecado e correspondeu com alegria aos desígnios divinos. Em Coimbra se conserva um precioso manuscrito com estas belas palavras a seu respeito: "A Cruz e os espinhos do meu Senhor são o meu cetro e a minha coroa". Eis o segredo de todos os maravilhosos frutos que ela colheu ao longo de sua vida: o amor a Jesus crucificado acima de todas as coisas. Sigamos seu rastro luminoso de quem só almeja os bens do alto, e obteremos também o inestimável dom da paz para nossos dias.



(Revista Arautos do Evangelho, Julho/2007, n. 67, p. 22 à 25)




Nota do publicador do blog:  
Um fato curioso e milagroso que é narrado em sua história e colocado em sua iconografia: um dia, quando a rainha Isabel saiu para fazer sua caridade levando pães para os pobres, o rei, que lhe havia proibido peremptoriamente isso, pôs-se a segui-la para flagrar-lhe a desobediência. Quando a alcançou, perguntou-lhe apontando para o volume que a santa trazia e que estava cheia de pães: "Que é isso? Que trazes aí"? Ao que a santa respondeu: "são flores, meu senhor". "Pois então mostra-me"! A santa, mantendo a calma e a paz, abre o manto que envolvia os pães e, deixando-os cair, eis que imediatamente se transformam em belíssimas flores! O rei, aturdido e confuso, pedindo desculpas à sua rainha, deixa-a seguir em paz. A santa recolheu as flores, envolvendo-as no manto. E seguiu. Assim que o fez, as flores voltaram a transformar-se em pães e ela pode levá-los a seus amados pobres.