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sábado, 8 de fevereiro de 2014

São Jerônimo Emiliani, Presbítero e Fundador da Congregação dos Servos dos Pobres ou Padres Somascos.


A Providência serviu-se do extraordinário espírito de penitência de um pecador para fazer germinar prodigiosa obra de amparo aos pobres, órfãos e doentes, bem como recuperação de mulheres de má vida.

Para opor-se às nefastas influências do Renascimento e do protestantismo no século XVI, a Providência suscitou uma plêiade de grandes Santos que agiram nos mais variados campos da atividade humana. Um deles foi São Jerônimo Emiliani, do patriciado de Veneza, senador da República, militar brilhante e valoroso, que tudo deixou para amparar e dar formação cristã aos órfãos das inúmeras guerras e pestes do tempo. Sua festa comemora-se a 08 de fevereiro.

 Oriundo de uma família nobre que havia já dado ilustres membros à Igreja, ao Senado e às armas da Sereníssima República de Veneza, Jerônimo nasceu naquela cidade marítima em 1481. Seu pai, senador, tinha pouco tempo para dedicar à sua educação, que foi entregue à sua mãe. Piedosa e meiga, Dona Eleonora soube incutir no coração do menino profundas sementes de Religião, que mais tarde dariam fruto.

Mas, foi o nobre amor às armas, herdado de seus antepassados, que teve a preferência do pequeno Jerônimo, de tal sorte que já aos 15 anos, pouco depois de perder o pai, ele se alistava no exército da República veneziana.

Participando de várias batalhas, foi sempre notado por seu valor e brio militar. Mas, infelizmente, sofreu a má influência da vida licenciosa, já então comum em quartéis e acampamentos. Más amizades ajudaram-no a deslizar insensivelmente pela rampa do vício, e Jerônimo entregou-se a muitos excessos. Um deles era o da ira, que chegava facilmente a verdadeiro furor. Se ele não caiu mais baixo, foi porque, aspirando aos mais altos cargos em Veneza, necessitava ter uma conduta honrosa.

O contínuo apelo às armas não lhe permitiu formar um lar. Ou melhor, Deus não o permitiu, porque tinha desígnios sobre ele.


No cárcere, ouve a voz de Deus

Contava Jerônimo 28 anos quando, em 1508, os venezianos levantaram-se em armas contra a Liga de Cambray, formada pelo Papa e pelos Reis Luís XII da França, Maximiliano da Alemanha e Fernando o Católico, da Espanha. A ele foi confiada a difícil defesa de Castelnuovo. Vendo a desproporção entre os dois exércitos, o governador da cidade fugiu, deixando-o com todo o ônus da defesa. Jerônimo negou-se a render-se, e lutou até que a praça fosse arrasada.

Em seguida, segundo o costume do tempo, ele foi preso numa torre, carregado de correntes no pescoço, braços e pés. O pior, porém, era a perspectiva da morte e o lento passar do tempo.

Nas intermináveis horas em que jazia no cárcere, a graça foi produzindo seus frutos em sua alma, e ele começou a lembrar-se dos ensinamentos de piedade e virtude recebidos em criança, e do bom exemplo dos irmãos e da mãe. Considerou a vida desordenada que levava, tão afastado de Deus, e acabou por julgar que era um merecido castigo aquele que lhe fora infligido. Pediu a Deus, pela intercessão de Nossa Senhora de Treviso, que o aceitasse como expiação e lhe desse uma oportunidade de reparar condignamente a vida passada.

  
Auxiliado por Nossa Senhora, foge da prisão

Apareceu-lhe então Nossa Senhora, que lhe deu as chaves de suas correntes e do calabouço. Auxiliou-o a sair da prisão sem ser visto e a atravessar o campo inimigo, para chegar a Treviso. Lá, no altar da Virgem, Jerônimo depôs as correntes e as chaves que lhe tinham sido milagrosamente entregues. Quis que esse ato fosse registrado por um notário público, e depois pintado por um dos famosos pintores de Veneza.

Começou para Jerônimo Emiliani uma guerra muito mais árdua e sem quartel do que todas as outras: a luta contra seus próprios defeitos. Em busca de auxílio, procurou um piedoso sacerdote como diretor espiritual e recorreu com frequência aos Sacramentos. Prostrava-se diante de um Crucifixo e suplicava: “Ó Jesus, não sejais um Juiz para mim, sede antes o meu Salvador”. Ou, como Santo Agostinho: “Senhor, sede para mim verdadeiramente Jesus! Vós só podeis ser meu Salvador”.

Aos poucos foi controlando suas paixões, sobretudo a ira, pelo exercício da docilidade e paciência. Adquiriu assim a verdadeira humildade e mansidão de coração, tornando-se o homem mais afável e pacífico de Veneza.

O Senado da Rainha do Adriático – como era conhecida Veneza – para recompensá-lo por seu valor na defesa de Castelnuovo, nomeou-o governador dessa cidade. Mas ele teve pouco tempo para exercer esse cargo, pois necessitou tomar sobre si a tutela dos sobrinhos, que o repentino falecimento de seu irmão deixara órfãos. Tendo-lhes assegurado uma boa educação e um rendimento de acordo com sua alta categoria, ele ficou livre para cumprir então o que havia prometido.

Jerônimo Emiliani já não era o mesmo. Renunciara a todos os cargos e comodidades da vida, mesmo as mais legítimas, às belas roupas, e afligia seu corpo com jejuns e penitências extraordinários, passando longas horas em oração e empregando o tempo livre em socorrer os pobres e doentes.

Em 1528 uma grande carestia assolou a Itália, com fome geral. Todos os dias a morte ceifava inúmeras vítimas. Para socorrê-las, Emiliani vendeu até seus próprios móveis, transformando sua casa em hospital.
 
À fome sucedeu uma moléstia contagiosa, que fez muito mais vítimas. Jerônimo foi atingido tão fortemente, que chegou a receber os últimos Sacramentos. Mas pediu a Deus saúde para poder, por uma penitência mais longa, reparar a vida passada. Foi ouvido, e redobrou de zelo no amor a Deus e ao próximo.


Orfanato: obra precursora de uma família religiosa

A fome e a peste haviam deixado grande número de órfãos, que vagavam pelas ruas reduzidos à mendicidade e exposto aos piores vícios. O Santo começou a recolhê-los em uma casa que comprara para isso; procurou mestres para ensinar-lhes alguns ofícios, e proveu, sobretudo, à saúde de suas almas. Fazia com eles as orações da manhã e da noite. Levava-os a assistir à Missa diariamente e a alternar o trabalho manual com momentos de silêncio, o cântico de ladainhas e outras orações. Fazia-os confessarem-se uma vez por mês, e nos dias de festa levava-os, todos vestidos de branco, a visitar os principais santuários de Veneza, cantando ladainhas pelas ruas e praças. Toda a cidade via emocionada aquele que fora um cavaleiro tão brilhante, agora transformado no pai dos órfãos.

A caridade de Jerônimo Emiliani não se circunscreveu a Veneza, mas logo atingiu também Bérgamo, Bréscia, Como e Somasca. Já nesse tempo havia recebido a ordenação sacerdotal, e a ele tinham se reunido mais dois santos sacerdotes, que, a seu exemplo, distribuíram aos pobres tudo o que possuíam, para abraçar a pobreza voluntária.


Congregação e depois Ordem de amparo à pobreza

Jerônimo pensou logo em fundar uma Congregação regular para dar mais estabilidade à sua obra. Escolheu para isso Somasca, entre Milão e Bérgamo, para estabelecer a casa-mãe e o seminário. Daí veio o nome pelo qual ficaram conhecidos, Clérigos Regulares de Somasca ou “padres somascos”. O Santo escreveu os primeiros regulamentos para essa Congregação, a base dos quais era a santa pobreza, que deveria manifestar-se em todas as coisas, desde o hábito até o mobiliário da casa. Os alimentos mais requintados foram abolidos de sua mesa, devendo eles contentar-se com a comida comum dos camponeses. Durante as refeições haveria leitura espiritual. Observariam o silêncio e as mortificações da regra. Empregariam parte da noite em oração, e durante o dia, se não estivessem atendendo os órfãos ou os doentes, deveriam entreter-se com algum trabalho manual. A finalidade principal dos Clérigos Regulares era a instrução das crianças e de jovens eclesiásticos.

Em Bérgamo, o Santo procurou também reconduzir para o bom caminho mulheres perdidas, que ele havia convertido. Obteve que fossem fechadas as casas que serviam para sua libertinagem. Aumentando o número das arrependidas, reuniu-as em uma casa especial, com uma regra de vida, para que perseverassem nos bons propósitos.


Um Papa e um Santo defendem Jerônimo Emiliani

Sua Congregação foi aprovada como Ordem religiosa pelo Papa Paulo III, grande amigo de Jerônimo. Esse Pontífice, juntamente com São Caetano de Thienne (fundador dos Teatinos), era um de seus mais ardorosos defensores e benfeitores.

Vendo o bem que o Santo fazia, o Senado de Veneza ofereceu-lhe a direção do hospital dos incuráveis, que Jerônimo aceitou pela oportunidade que tinha de dar assistência a muitos doentes terminais. Quando via-se sem recursos materiais para acudir a tantas iniciativas, escolhia quatro de seus orfãozinhos com menos de oito anos de idade, portanto mais inocentes, para fazer ao Céu violência com suas orações.

Entrementes, a fama de santidade de Jerônimo atraía-lhe muitos doadores e novos membros para sua Congregação.


Morte: último ato de caridade numa epidemia

Embora contasse pouco mais de 55 anos, Jerônimo teve certa premonição de que seu fim estava próximo. Procurou então consolidar sua obra, visitando todas as casas da Ordem. Ia sempre a pé e não tomava outro alimento senão pão e água.

Uma terrível peste afligiu Bérgamo, fazendo inúmeras vítimas. Para lá acorreu Jerônimo Emiliani com o mesmo ardor de sempre. Contraiu também a peste e viu que seus dias estavam contados. Alegre, repetia com São Paulo: “Quero a morte, para viver com Cristo”. Reuniu seus discípulos para os últimos conselhos. Os benditos nomes de Jesus e de Maria não lhe saíam dos lábios.
 
Enfim, no dia 8 de fevereiro de 1537, tendo recebido os últimos Sacramentos, entregou sua alma a Deus, na idade de 56 anos.

Pio XI o proclamou patrono universal dos meninos órfãos e abandonados.

(fonte: blog “Catolicismo”, por Plinio Maria Solimeo)


quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Beato ZEFERINO NAMUNCURÁ, Jovem Índio da Etnia Mapuche e Aspirante Salesiano.


        Zeferino Namuncurá, um fruto da espiritualidade salesiana. 

Caros irmãos e irmãs, membros todos da Família Salesiana e caros jovens: é com o coração transbordante de alegria pela beatificação dos Mártires espanhóis, da qual pude participar domingo, dia 28 de outubro, na Praça de São Pedro, que hoje lhes escrevo. O Senhor nos abençoou com 63 novos bem-aventurados, que vêm reafirmar quanto dizia o padre Rua: “A santidade dos filhos comprove a santidade do Pai”. Eles são um estímulo para o nosso empenho de fazer da santidade um programa de vida, sobretudo neste tempo em que a sociedade precisa de testemunhas apaixonados por Cristo e de servidores das pessoas.

A alegria cresce, como um rio que se avoluma, com a próxima beatificação de Zeferino Namuncurá, domingo, 11 de novembro, desta vez em Chimpay, Argentina, berço que o viu nascer e que de há muito se converteu em meta de peregrinações. A sua fama de santidade remonta ao ano de 1930, quando o padre Luís Pedemonte começa a recolher e a publicar testemunhos e é reconhecida antes com a declaração de venerabilidade feita pelo Papa Paulo VI, em 1972, e, depois, com o decreto de beatificação assinado pelo Papa Bento XVI no dia 6 de julho de 2007.

A santidade de Zeferino é expressão e fruto da espiritualidade juvenil salesiana, essa espiritualidade feita de alegria, amizade com Jesus e Maria, cumprimento dos próprios deveres, dedicação aos outros. Zeferino representa a prova convincente da fidelidade com que os primeiros missionários mandados por Dom Bosco conseguiram repetir quanto ele fizera no Oratório de Valdocco: formar jovens santos. Este continua sendo o nosso empenho hoje, num mundo necessitado de jovens impelidos por um transparente sentido da vida, audazes nas suas opções e firmemente centrados em Deus enquanto servem os outros.

Nasceu em Chimpay no dia 26 de agosto de 1886 e foi batizado dois anos mais tarde pelo missionário salesiano padre Milanésio, que havia mediado o acordo de paz entre os Mapuches e o exército argentino, tornando possível ao Pai de Zeferino conservar o título de “Grande Cacique” para si e também o território de Chimpay para o seu povo.


Tinha 11 anos quando o pai o matriculou na escola governativa de Buenos Aires: queria fazer do filho o futuro defensor do seu povo. Mas, ali, Zeferino não se sentia à vontade. O pai por isso o mudou para o colégio salesiano “Pio IX” (Buenos Aires). Foi aí que iniciou a aventura da graça que transformaria um coração não iluminado ainda pela fé numa testemunha heroica de vida cristã.

Demonstrou logo muito interesse pelo estudo, enamorou-se das práticas de piedade, apaixonou-se pelo catecismo e se tornou simpático a todos, colegas e superiores. Dois fatos o impulsionaram para os cimos mais altos: a leitura da vida de Domingos Sávio, de que se tornou ardoroso imitador, e a primeira Eucaristia, na qual vinculou um pacto de absoluta fidelidade com o seu grande amigo Jesus. Desde então, aquele rapaz, que sentia dificuldades em “entrar na fila” e “obedecer ao sinal do sino”, tornou-se um modelo.

Um dia – Zeferino era já aspirante salesiano, em Viedma – Francisco de Salvo, vendo-o chegar a cavalo como um raio, gritou-lhe: “Zeferino, do que é que você mais gosta?”. Esperava uma resposta que se referisse à equitação, arte na qual os Araucanos eram exímios. O rapaz, freando o cavalo: “Ser sacerdote”! – responde –. E retoma a corrida desabalada.

    Foi exatamente naqueles anos de crescimento interior que adoeceu: tuberculose. Fizeram-no voltar ao clima da terra natal. Não foi suficiente. Dom Cagliero, então, achou que na Itália poderia receber cuidados melhores. A sua presença não passou inobservada no país: os jornais falaram com admiração do «Principe de las Pampas». O padre Rua o fez sentar à mesa com o Conselho Geral. Pio X o recebeu em audiência particular, ouvindo-o com interesse e presenteando-o com uma sua medalha ‘ad principes’. No dia 28 de março de 1905 foi necessário hospitalizá-lo no Fatebenefratelli, da Ilha Tiberina (Roma), onde morreu no dia 11 de maio seguinte, deixando após si um marco de bondade, diligência, pureza e alegria inimitáveis.

Era um fruto maduro da espiritualidade juvenil salesiana. Os seus restos se encontram agora no Santuário de Fortín Mercedes, Argentina, e aquele seu túmulo é meta de contínuas peregrinações, porque grande é a fama de santidade de que ele goza entre o povo argentino.

Zeferino encarna em si os sofrimentos, as angústias e as aspirações da sua gente mapuche, aquela mesma gente que no decorrer dos anos da sua adolescência encontrou o Evangelho e se abriu ao dom da fé sob a guia de sábios educadores salesianos. Há uma expressão que reúne em si todo o seu programa: “Quero ser útil ao meu povo”. Zeferino, de fato, queria estudar, ser sacerdote e voltar à sua Gente a fim de contribuir para o crescimento cultural e espiritual do seu povo, como havia visto fazerem os primeiros missionários salesianos.
O santo não é nunca como um meteorito que corta de repente o céu da humanidade; é antes o fruto de uma longa e silenciosa gestação de uma família e de um povo que exprimem no filho as suas melhores qualidades.

A beatificação de Zeferino é um convite a crer nos jovens, também nos apenas evangelizados; a descobrir a fecundidade do Evangelho, que não destrói nada do que é realmente humano, e a contribuição metodológica da educação nesse estupendo trabalho de configuração da pessoa humana que chega a reproduzir em si a imagem de Cristo.

Quem achar que a fé religiosa é uma forma de acomodação ou de falta de empenho pela mudança social, erra. Ela é, ao contrário, a energia que torna possível a transformação da história. A santidade, que para alguns evoca a singularidade de uma situação considerada pouco aderente à vida cotidiana, significa ao invés a plenitude da humanidade traduzida em ato.
O santo é uma pessoa autêntica, realizada, feliz. Os testemunhos dos contemporâneos de Zeferino são unânimes em confirmar a bondade do seu coração e a seriedade do seu empenho. “Sorri com os olhos”, diziam os colegas. Era um adolescente admirável, santo, que hoje pode – deve – ser proposto como modelo e exemplo aos jovens.
A Argentina salesiana, reconhecida a Deus pelo extraordinário dom que lhe deu em Zeferino, tem a obrigação de sentir-se responsável por manter viva a sua memória, convencida de poder continuar a propor aos jovens itinerários concretos de santidade.
Enquanto louvamos e rendemos graças a Deus por esta nova pedra do belo mosaico da santidade salesiana, renovamos a nossa fé nos jovens, na inculturação do Evangelho e no Sistema Preventivo.


Padre PASCUAL CHÁVEZ VILLANUEVA, SDBReitor-Mor.




 


Beato Zeferino Namucurá, rogai por nós e pelos jovens latino-americanos! 

Santa Joana de Valois, Princesa e Fundadora (Ordem das Anunciadas).


Santa Joana de Valois, Princesa e Fundadora
Joana de Valois nasceu no dia 23 de abril de 1464 no Castelo Plessis-les-Tours; era filha de Luís XI, rei da França e da rainha Carlota de Saboia, irmã do beato Amadeu IX. Luís, que ansiosamente esperava pelo nascimento do herdeiro do trono, não disfarçou o seu desapontamento quando ela nasceu, ainda mais quando soube que a criança era coxa.
     Por uma ordem despótica do rei a menina foi afastada da mãe: com cinco anos foi entregue aos cuidados do barão François de Linières e sua esposa Anne de Culan que, no Castelo de Linières, dispensaram à princesinha uma cuidadosa educação. O casal não tinha filhos e se dedicou a ensinar a ela leitura e poesia, escrita e aritmética, desenho e pintura, bordado e tapeçaria, bem como os fatos históricos de seus ancestrais. Muito católicos, eles deram a ela uma sólida fé. Muito cedo Joana se voltou para Deus e para a Virgem Maria. Os mistérios da Anunciação e da Encarnação eram seu prazer.
     Tendo chegado à idade de 12 anos, Luís XI contratou o casamento de Joana com seu primo, Duque de Orleans, de 14 anos, que não fazia segredo da profunda antipatia que tinha por sua noiva. O casamento foi celebrado em 8 de setembro de 1476 no Castelo de Montrichard, na presença do Bispo de Orleans.
     Em pouco tempo Joana se convenceu da impossibilidade de convivência com um marido dissoluto e perverso. Com maior dedicação entregou-se aos exercícios de piedade e às obras de caridade, tudo em completa conformidade com a santa vontade de Deus.
     Tendo um dia notícia da grave enfermidade do seu esposo, pressurosa correu para junto dele em Bourges, oferecendo-lhe sua assistência de solícita enfermeira. Porém, recebeu apenas ingratidão, insultos e declarações injuriosas, suportando-as e dando provas de paciência heroica e humildade.

     Em 1483 o rei Luís XI faleceu, sucedendo-o seu filho Carlos VIII. Anos depois o Duque de Orleans sucedeu-o no trono como Luís XII. O marido de Joana repudiou-a então e fez anular canonicamente o seu casamento com ela para se unir à filha do Duque de Bretanha. Joana suportou isto também com serenidade cristã. O matrimônio de Joana com o rei foi declarado nulo pelo Papa Alexandre VI.
     Em 26 de dezembro de 1498 foi feita Duquesa de Berry, recebendo a província para governar. Indo viver em Bourges, a capital do ducado, Joana administrou-o com sabedoria e se devotou ao bem estar dos súditos. Pondo-se a serviço do povo, irrestritamente trabalhou para sua própria santificação sob a direção de são Francisco de Paula. Durante a peste eclodida de 1499 - 1500 ela demonstrou quão grande era sua caridade.

     Joana era devotíssima de Nossa Senhora e foi uma das primeiras figuras entre as veneradoras do puríssimo Coração de Maria, cujo imenso amor ao gênero humano lhe foi revelado em uma celestial visão.
     Livre de outras obrigações, Joana sentiu ressurgir a ideia que concebia desde a infância de fundar uma Congregação dedicada às virtudes da Santíssima Virgem. Pôs mãos à obra e já em maio de 1500, onze noviças, primícias da Anunciada, eram visitadas pela duquesa que a elas se associava nas devoções.
     No dia de Pentecostes de 1504 as primeiras monjas pronunciaram votos dando início à Ordem das Monjas da Bem-Aventurada Virgem Maria, ditas da Anunciada, cuja Regra teve a aprovação dos Papas Alexandre VI e Leão X. A fundadora construiu um convento para a Ordem.
     Joana fez a profissão a titulo privado em 26 de maio de 1504, mas permanece no mundo, fiel ao seu soberano. Em 3 de dezembro de 1503, Luís XII havia aprovado a fundação da “sua caríssima e amadíssima sobrinha Joana de França, Duquesa de Berry”, tomando o convento sob sua “proteção e salvaguarda especial”.
     Era intensão da fundadora de confiar a sua obra aos Frades Menores da Observância: no dia 21 de novembro de 1504 as religiosas entram na clausura.
     Joana rezava incessantemente pelo marido, e deixou como orientação à Ordem rezar pela alma dele, pela de seu irmão e pela de seu pai.
     Em 22 de janeiro de 1505, atacada de um grave mal-estar, Joana mandou fechar a porta de comunicação de sua cela com o convento; no dia 02 de fevereiro não conseguia se comunicar e depois de uma existência cheia de sacrifícios, provações e sofrimentos, mas não menos de uma vida dedicada à oração, Joana faleceu em 04 de fevereiro de 1505, na idade de 41 anos. Pessoas próximas a ela afirmaram terem visto a cabeça da falecida rodeada de uma luz misteriosa.
     O povo venerava Joana como santa. Milagres se sucederam após sua morte, e em 1514 o papa Leão X permitiu às Anunciadas honrarem-na por um ofício especial.

     Nas perseguições religiosas no século XVI seu túmulo foi  profanado. Fanáticos queimaram o corpo da Santa e atiraram as cinzas ao ar.
     A Congregação das Anunciadas se espalhou: antes da Revolução Francesa as Anunciadas contavam com 45 casas pela França, Bélgica e Inglaterra. Destas casas permanecem ainda hoje os mosteiros de Thiais e de Villeneuve-sur-Lot.

     A causa de Joana de Valois foi introduzida por Urbano VIII em 3 de maio de 1632; ela foi beatificada por Bento XIV em 18 de junho de 1742; em 28 de maio de 1950, Dia de Pentecostes, por ocasião do Ano Santo, o Papa Pio XII elevou-a às honras dos altares, canonizando-a. Sua festa é celebrada em 4 de fevereiro.


(fonte: blog "Heroínas da Cristandade")

Beata Elizabete Canori Mora, Mãe de Família, Terciária Trinitária e Mística.



Beata Elisabete, Esposa, Mãe de família,
Terciária Trinitariana e Mística. 
Elizabete Canori é filha de Tomás Canori, grande proprietário de terras romano, e de Teresa Primoli, aistocrática dama da Cidade dos Papas. Nasceu no dia 21 de novembro de 1774; recebeu esmerada educação familiar.
     Um alto prelado conhecendo os problemas econômicos e a qualidade espiritual da família Canori, propôs colocar Elizabete e a irmã mais nova, Benedita, no mosteiro das Oblatas de São Felipe, encarregando-se de todas as despesas. Mas somente Benedita aceitou; Elizabete permaneceu junto à família.
     Em 10 de janeiro de 1796, desposou um jovem advogado, Cristóvão Mora, filho de um rico médico da mesma Roma. Do casal nasceram quatro filhas, duas das quais morreram com pouca idade: Mariana nasceu em 1799 e Maria Lucina em 1801.
     Tudo augurava ao novo matrimônio um brilhante futuro. Mas a tragédia veio logo. O marido arruinou a família e abandonou o lar, seduzido por uma mulher de má vida. Foi preso pela polícia pontifícia, primeiro num cárcere, depois num convento. Jurou mudar de vida, mas após retornar ao seu lar, tentou repetidas vezes assassinar sua esposa Elizabete. Ela foi de uma fidelidade heroica, oferecendo pelo marido enormes sacrifícios. E profetizou que ele acabaria morrendo sacerdote.
     Quando abandonada pelo esposo, incompreendida pelos familiares, Elizabete teria caído na miséria se benfeitores compassivos não a tivessem auxiliado. Entre eles encontravam-se Prelados romanos, que narraram ao Papa Pio VII os seus méritos. O Pontífice, beneficiado pelas orações e sacrifícios dela, concedeu privilégios pouco comuns à capela privada da sua humilde casa.
Elizabete: exemplo de esposa abnegada
e mãe de família exemplar e dedicada. 
     Tendo que ganhar o sustento da família com seu trabalho, Elizabete não descuidava dos mais pobres. Sua casa tornou-se ponto de referência e muitos a procuravam para solucionar dificuldades espirituais e materiais.
     Ela conheceu e aprofundou a espiritualidade dos Trinitários e abraçou a sua ordem secular, correspondendo com dedicação à vocação familiar e de consagração secular.
     Depois de uma vida toda dedicada à conversão do esposo, de dedicação ao Papado, à Santa Igreja e à sua cidade, Roma, a Bem-aventurada faleceu em 05 de fevereiro de 1825. Após seu falecimento, Cristóvão caiu em si e fez-se religioso, levando exemplar vida de penitência. Foi ordenado sacerdote e morreu rodeado de grande consideração.
     A causa de sua beatificação foi introduzida em 1874, durante o pontificado do Bem-aventurado Pio IX. O decreto de heroicidade de virtudes foi concedido em 1928; Elizabete Canori Mora foi beatificada em 24 de abril de 1994 por João Paulo II.

Visões e Revelações
     Além de todas as suas virtudes, a Beata Elizabete Canori Mori nos legou uma extraordinária narração dos favores místicos com que foi agraciada pela Providência. As visões e revelações contidas em um diário no qual ela anotava as mensagens celestes são proféticas e seriam endossadas, anos mais tarde, pelas aparições de Nossa Senhora em La Salette, França, e em Fátima, Portugal.
     Por brevidade, somente reproduziremos as mais importantes, se é que podemos analisar assim mensagens celestes, mas aos que se interessarem por maiores detalhes, indicamos a revista Catolicismo de maio de 2002, de onde tiramos alguns trechos que seguem.
    No Natal de 1813, a Beata foi arrebatada a um local inundado de luz, onde inúmeros santos rodeavam um humilde presépio. Nele, o Menino Jesus chamava-a docemente. A própria Elizabete descreve sem preocupações literárias a surpresa que teve:

Estampa de Jesus agrilhoado (Ecce Homo) com o 
escapulário os trinitários, que era venerada 
pela beata Elizabete. 
     "Só de pensar, me causa horror. [...] Vi o meu amado Jesus recém-nascido banhado no seu próprio sangue [...], nesse momento compreendi por via intelectual qual era a razão de tanto derramamento de sangue do Divino Infante apenas nascido. [...] A má conduta de muitos sacerdotes seculares e regulares, de muitas religiosas que não se comportam segundo o seu estado, a má educação que é dada aos filhos por parte dos pais e mães, como também por aqueles a quem incumbe uma obrigação similar. Estas são as pessoas por cujo bom exemplo deve aumentar o espírito do Senhor no coração dos outros. Mas eles, pelo contrário, apenas nasce [o espírito de Nosso Senhor] no coração das crianças, fazem-lhe uma perseguição mortal com sua má conduta e maus ensinamentos".
Beata Elisabete em oração diante da estampa
de Jesus agrilhoado. 
     Deus foi-lhe revelando o lamentável agir de certos setores eclesiásticos que atraíam a cólera divina, acumpliciados com a Revolução que derrubava tronos e seculares costumes cristãos na ordem temporal. Tais visões patenteiam, um século antes das revelações na Cova da Iria, que o mal já se infiltrara na Igreja e na sociedade civil. Vê-se bem que em Fátima Nossa Senhora fez uma advertência final para esse mal, que progredia apesar de todos os avisos em sentido contrário.
     Em 22 de maio de 1814, enquanto rezava pelo Santo Padre, "vi-o viajando rodeado de lobos que faziam complôs para atraiçoá-lo". A visão repetiu-se nos dias 2 e 5 de junho. Nesta última, narra a vidente: "Vi o sinédrio de lobos que circundavam [o Papa Pio VII, então reinante] e dois anjos que choravam. Uma santa ousadia me inspirava a lhes perguntar a razão da sua tristeza e do pranto. Eles, contemplando a cidade de Roma com olhos cheios de compaixão, disseram o seguinte: ‘Cidade miserável, povo ingrato, a Justiça de Deus castigar-te-á'”.
     Em 16 de janeiro de 1815, o que mais a impressionou foi ver Deus indignado. Num local altíssimo e solitário, viu Deus representado por "um gigante forte e irado até o extremo contra aqueles que O perseguiam. Suas mãos onipotentes estavam cheias de raios, o seu rosto estava repleto de indignação: só o seu olhar bastava para incinerar o mundo inteiro. Não tinha nem anjos nem santos que o circundassem, mas somente a Sua indignação circundava-o por todas partes".
     Tal visão durou apenas um instante. Segundo Elizabete, "se tivesse durado mais um momento, certamente eu teria morrido". A descrição acima lembra a visão do inferno apresentada a Lúcia, Francisco e Jacinta. Entre ambas as visões há uma correlação profunda. Enquanto Deus manifestou à Beata sua justa indignação pelas ofensas que sofre, Nossa Senhora em Fátima apontou o destino das almas que ofendem a Deus e morrem impenitentes.
     Na visão de 29 de junho de 1820, após as purificadoras punições descritas, a Beata Elizabete viu São Pedro retornar do Céu num majestoso trono pontifical. Logo a seguir, desceu com grande pompa o Apóstolo São Paulo. Ele "percorria todo o mundo e algemava aqueles malignos espíritos infernais, e os conduzia diante do Santo Apóstolo São Pedro, o qual, com uma ordem cheia de autoridade, voltava a confiná-los nas tenebrosas cavernas das quais tinham saído [...]. Nesse momento viu-se aparecer sobre a terra um belo resplendor, que anunciava a reconciliação de Deus com os homens".
     A pequena grei dos católicos fiéis, refugiada sob as árvores com forma de Cruz, foi então conduzida aos pés do trono de São Pedro. "O santo escolheu o novo Pontífice — acrescenta a vidente —, toda a Igreja foi reordenada segundo os verdadeiros ditames do Santo Evangelho; foram restabelecidas as ordens religiosas, e todas as casas dos cristãos tornaram-se outras tantas casas penetradas de religião; tão grande era o fervor e o zelo pela glória de Deus, que tudo era ordenado em função do amor de Deus e do próximo. Desta maneira tomou corpo num momento o triunfo, a glória e a honra da Igreja Católica: Ela era aclamada por todos, estimada por todos, venerada por todos, todos decidiram segui-la, reconhecendo o Vigário de Cristo, o Sumo Pontífice".
     Deus lhe fez ver várias vezes uma esplendorosa nave nova, símbolo da Igreja restaurada, que estava sendo armada pelos anjos. Também, em 10 de janeiro de 1824, mostrou-lhe o principal obstáculo para a conclusão dessa nave. Ela viu cinco árvores de desmesurado tamanho: "Observei que essas cinco árvores com suas raízes alimentavam e produziam um emaranhadíssimo bosque de milhões de plantas estéreis e selváticas". Deus lhe fez entender que essas cinco enigmáticas árvores simbolizavam "as cinco heresias que infeccionam o mundo nos nossos tempos".
     A Beata Elizabete faleceu quase um século antes da manifestação de Nossa Senhora em Fátima. Mas suas visões e revelações, das quais demos algumas amostras, patenteiam o grandioso desígnio divino que sobrepaira a História e mostram que o plano do Reino de Maria, como profetizado em Fátima, é como um imenso palácio que a Divina Providência vem preparando há séculos e que quando finalizado ultrapassará toda expectativa. E elas nos mantêm firmes na certeza de que a promessa de Nossa Senhora se cumprirá: "Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará”

(Fonte: blog "Heroínas da Cristandade")

domingo, 2 de fevereiro de 2014

São João Teófano Vénard, Presbítero do Seminário de Paris para as Missões Estrangeiras e Mártir.

Um santo pode ser devoto de outro? A resposta é sim. Nossa irmã Santa Teresinha do Menino Jesus, famosa carmelita descalça francesa e doutora da Igreja, era muito devota de um jovem presbítero mártir, João Teófano Vénard, cuja história também hoje publico em nosso blog. 
Santa Teresinha, já muito doente, em seu leito, tinha por cima da cabeceira da cama um santinho com a estampa do mártir a quem tanto queria bem. Sentia-se intimamente ligada a ele, pois admirava-lhe a alma angelical e o puro amor que tinha por Deus. 
Em suas preces, conversava familiarmente com esse seu "irmão do Céu", confiava-lhe os anseios, pedia-lhe a intercessão e forças para suportar a tão dura prova à qual estava sendo submetida pela bondade divina. 
Vamos conhecer um pouco esse santo mártir que partiu do Seminário de Paris, que formava padres para as Missões Estrangeiras, para evangelizar a China.



Alegre pela ordenação presbiteral

“Deus estava no meio de nós, e com cada um de nós”, dizia o recém-ordenado padre Teófano em carta que enviou a seu pai e aos irmãos Melânia e Henrique após celebrar sua primeira Missa na festa da Santíssima Trindade, em 6 de junho de 1852. “Amanhã pela manhã irei, com meus colegas, os novos padres, consagrar o sacerdócio a Nossa Senhora das Vitórias e a Ela agradecer por ter-me levado à ordenação”, acrescentou. Mesmo fazendo parte de uma família muito unida, nenhum parente de Teófano pôde comparecer à sua ordenação presbiteral, o que prefigurava, de certa forma, a separação que faz parte da vida de todo missionário. “Pensei em vocês, o que farei sempre que oferecer o Santo Sacrifício”, escreveu alegre ao mesmo tempo em que lhes enviava a bênção.


O martírio de um conterrâneo lhe causa uma santa inveja

João Teófano nasceu em 21 de novembro de 1829 em Saint-Loup-sur-Thouet, na diocese de Poitiers, na França. Era o segundo entre quatro irmãos (Melânia, Teófano, Henrique e Eusébio). Contava ele nove anos quando lhe chegou às mãos um livreto no qual era relatada a vida e morte de São João Carlos Cornay, missionário martirizado pouco antes em Tonkin (região na qual se localiza a cidade de Hanói, e que se estendia por áreas geográficas que na atualidade pertencem à China, ao Laos, e ao Vietnam). O mártir, nascido também na França em uma localidade situada a trinta quilômetros de Saint-Loup (também diocese de Poitiers), tivera seu corpo cortado em pedaços, e sua história fez o pequeno Teófano entusiasmar-se com a leitura: “também quero ir para Tonkin; também quero ser mártir”, almejava.


Decide-se pela vida sacerdotal
Abrindo a alma ao seu pai, cristão exemplar, Teófano manifestou seu desejo de tornar-se padre, e iniciou seus estudos em Doué, cinquenta quilômetros ao norte de onde sua família residia. Durante os estudos perdeu sua mãe, cuja morte deu-se em 1843. Sua irmã mais velha, Melânia, ocuparia o lugar da falecida mãe para receber os afetos de Teófano, inexistindo segredos entre ambos, porém a influência mais profunda no grupo familiar era exercida pelo pai, o que emana do eloquente epistolário que sobreviveu ao martírio do santo sacerdote.

                                               Entra nas Missões Estrangeiras
Já próximo ao fim dos estudos necessários à ordenação presbiteral, Teófano migrou para as Missões Estrangeiras de Paris, de onde partiam missionários para a Índia e para o Extremo Oriente. Corria o ano de 1851 quando o jovem clérigo pediu ao pai permissão para se tornar missionário: apesar da dor, o temperamento cristão do Sr. Vénard o fez conformar-se com a vontade de Deus. Teófano partiu, juntamente com outros missionários, tendo ao fim da Missa de despedida os pés beijados pelo superior e pelas demais pessoas presentes, ocasião solene em que os futuros mártires eram venerados por antecipação (já que o esperado para todos era o martírio, sendo excepcional a morte por causas orgânicas/naturais nas terras de missão).

Atua clandestinamente como sacerdote missionário em Tonkin
Destinado inicialmente à China, Teófano foi depois direcionado ao desejado Tonkin, exercendo por alguns anos o seu ministério clandestinamente sob as ordens de Mons. Retord, vigário apostólico. Porém a perseguição religiosa se intensificava, e os seminaristas locais tiveram de se dispersar, mas apesar das dificuldades Teófano dava apoio ao ensino religioso, ministrava os sacramentos do Batismo, Eucaristia, Reconciliação, Matrimônio e Unção dos Enfermos, além da Confirmação para o que recebera delegação do vigário apostólico, o qual não tinha condições de atender pessoalmente a todo o rebanho que lhe fora confiado. Diversas vezes Teófano teve de se ocultar, chegando a ficar escondido em um minúsculo compartimento sob uma casa, evitando qualquer mínimo ruído para não ser encontrado. Mas uma traição fez findar sua “liberdade”, palavra inapropriada para se referir às condições em que perigosa mas voluntariamente exercia sua ação missionária.

Informa sua prisão à família
Em dezembro de 1860 comunicou sua prisão à família: “O bom Deus, em sua misericórdia, permitiu que eu caísse nas mãos dos maus. Foi no dia de Santo André [30 de novembro] que fui posto em uma jaula [gaiola feita de bambu] que foi levada à subprefeitura, onde traço essas linhas com muita dificuldade, pois tenho apenas um pincel para escrever. Amanhã, 04 de dezembro, serei levado à prefeitura; ignoro o que me está reservado. Mas nada temo: a graça do Altíssimo está comigo. Maria Imaculada não deixará de proteger seu mísero servidor”.
Em 02 de janeiro seguinte escrevia Teófano, também aos familiares: “Escrevo-lhes no início deste ano que será, sem dúvida, o último de minha peregrinação pela Terra. Já lhes escrevi um bilhetinho pelo qual lhes fiz saber de minha prisão em 30 de novembro, dia de Santo André, em uma aldeia cristã. O bom Deus permitiu que eu fosse traído por um mau cristão”. Sobre a cadeia que lhe atou o pescoço e as pernas, disse Teófano que “eu a beijei, bela cadeia de ferro, verdadeira corrente de escravidão a Jesus e Maria, que eu não trocaria por seu peso em ouro”.

Interrogado por um juiz
Na mesma carta o futuro mártir descreve seu interrogatório no tribunal de justiça criminal, para o qual invocou o Espírito Santo a fim de fortificá-lo e para falar por sua boca conforme prometera Jesus. Após servir uma taça de chá, o juiz perguntou de onde ele era, tendo por resposta “do grande Ocidente, do reino chamado França”.
- Que vieste fazer aqui em Anam [nome da região, atual Vietnam]?
- Vim unicamente para pregar a verdadeira religião àqueles que não a conhecem.
- Que idade tens?
- Trinta e um anos.
O juiz comentou, com um toque de pena: ‘é ainda bem jovem’, e em seguida indagou:
- Quem te enviou
- Nem o rei nem os mandarins da França me enviaram. Foi meu chefe que me disse para pregar aos pagãos, e meus superiores na religião que me destinaram o reino anamita como distrito.


Com inspiradas palavras despede-se dos familiares
Nessa carta de 2 de janeiro Teófano despede-se dos familiares, mas o faz novamente em nova correspondência datada de 20 de janeiro endereçada ao pai: “Caríssimo, honradíssimo e bem amado pai; como minha sentença ainda está em espera, quero lhe enviar um novo adeus, que será provavelmente o último”. E acrescenta que “desde o grande mandarim até o último soldado, todos lamentam que a lei do reino me condene à morte”. Informa que “não pude sofrer torturas, como muitos de meus irmãos. Um rápido golpe de sabre separará minha cabeça, como uma flor primaveril que o dono do jardim recolhe para seu prazer. Somos todos flores plantadas nesta terra que Deus colhe no tempo apropriado, por vezes mais cedo, outras vezes mais tarde. Uma é a rosa avermelhada, outra o lírio virginal e outra é a humilde violeta.  Tratemos de agradar, conforme o perfume ou o aspecto que nos foram dados, ao soberano Senhor e Mestre”.

Na mesma data escreve ele à sua irmã Melânia: “Já é quase meia noite. Perto de minha jaula há lanças e longos sabres, e em um canto da sala alguns soldados jogam dados. De tempo em tempo sentinelas batem um tambor. A dois metros de mim, uma lâmpada [de óleo] projeta sua luz vacilante sobre minha folha de papel chinês e me permite traçar estas linhas. Espero dia a dia minha sentença. Talvez amanhã eu seja conduzido à morte. Feliz morte, não é? Morte desejada, que conduz à vida. Segundo todas as probabilidades terei a cabeça cortada: desonra gloriosa da qual o céu será o prêmio. A essa notícia, cara irmã, chorarás, mas de felicidade. Veja então teu irmão, com a auréola dos mártires coroando-lhe a cabeça, a palma dos que triunfam levantada nas mãos! Mais um pouco e minha alma deixará a Terra, findará seu exílio, terminará seu combate. Subo ao céu, alcançando a pátria, ganharei a vitória. Entrarei nessa residência dos eleitos, vendo as belezas que o olho do homem nunca viu, ouvindo as harmonias que o ouvido nunca escutou, desfrutando das delícias que o coração jamais provou”.
A um irmão, escreveu Teófano no mesmo dia: “Caro Eusébio, amei e ainda amo esse povo anamita [vietnamita] com um amor ardente. Se Deus me tivesse dado longos anos, creio que eu me consagraria inteiramente, corpo e alma, à edificação da Igreja tonquinense [de Tonkin]. Se minha saúde, fraca como uma palha, não me permitiu grandes obras, tenho pelo menos o coração nesse trabalho. Dizemos: ‘o homem propõe e Deus dispõe’. A vida e a morte estão em Suas mãos; se Ele nos dá a vida, vivamos para Ele; se nos dá a morte, morramos para Ele”.  E ao outro irmão, Henrique, também na mesma data (20 de janeiro de 1861) dirigiu Teófano edificantes conselhos: “Eras ainda bem jovem quando me destes o adeus. Talvez teu espírito tenha seguido as coisas da época e idéias mundanas, e buscado, com falsos amigos, a felicidade onde ela não existe. O coração do homem é grande demais para que as falsas e passageiras alegrias daqui de baixo o satisfaçam. Meu caro Henrique, não uses a tua vida nas inutilidades do mundo. Tu tens agora vinte e nove anos. É a idade do homem. Sê, portanto, um homem. Resistir às inclinações da carne e à escravidão do espírito, mantendo-se atento contra as ciladas do demônio e os prestígios do mundo, observando os preceitos da religião: eis o que é ser um homem. Não agir assim é ser um animal”.

Últimos momentos de vida
Preso, aguardando o martírio, recebeu diversas vezes a Eucaristia, que lhe era levada por uma piedosa cristã. A sentença de morte foi pronunciada pelo imperador Tu-Duc, tendo a decapitação sido feita no alvorecer de 02 de fevereiro de 1861, dia de uma festividade mariana. Precedendo a execução, foi lido o documento condenatório, e Teófano pôde fazer algumas considerações, afirmando que ele não estava ali pregando uma religião falsa. Pessoas presentes pediram-lhe que não voltasse após a morte para se vingar sobre elas, pedido que ele gentilmente aceitou, tranquilizando-as.
Chegando o momento final, mais um sofrimento foi imposto a Teófano: o carrasco, desastrado, não desferiu o golpe com habilidade, tendo que repeti-lo mais quatro vezes. A cabeça, exposta por três dias, foi lançada ao rio, sendo depois encontrada.
 Contam testemunhas que sua cabeça durante os três dias nos quais foi colocada à mostra fincada em um espeto, além de não apresentar o menor sinal de decomposição, à aproximação de curiosos, abria e fechava os olhos, olhava para seus observadores e às vezes parecia que abria a boca como se quisesse falar. Não poucos, vendo o fenômeno, viram nele um claro sinal de que aquele homem era servo do verdadeiro Deus.
 Beatificado por São Pio X, Teófano foi canonizado por João Paulo II em 1988.
Teófano – cujo nome significa “manifestação de Deus” – foi muito admirado por Santa Teresinha do Menino Jesus, que em meio aos sofrimentos da doença que lhe precedeu a morte teve o consolo de receber uma estampa e uma relíquia do missionário mártir. Na Basílica-Santuário da Padroeira das Missões, em Lisieux, uma capela é dedicada ao mártir a quem ela venerava e também invejava.

Os 117 mártires do Vietnam assim morreram: 75 decapitados, 22 estrangulados, seis queimados, cinco esquartejados, e nove mortos nas prisões como consequência das torturas.

SANTA CATARINA DE RICCI, Virgem Dominicana e grande Mística do Séc. XVI.


   Santa Catarina, uma das maiores Santas da Idade Moderna, nasceu em Florença, de família ilustríssima. Deus infundira no coração da criança um grande amor a oração e outras práticas de piedade, amor este que a levou ao desprezo de tudo que é do mundo. Com sete anos de idade foi confiada às religiosas do convento de Monticelli. Uma vez em contato íntimo com a vida religiosa, tanto se lhe afeiçoou, que, mais tarde, quando teve de voltar ao lar paterno, no meio dos trabalhos domésticos conservou os costumes do convento.

 Bem a contragosto da jovem, o pai tratou de ligá-la pelos laços matrimoniais a um moço distinto de suas relações. Tantas foram as insistências da filha, que afinal desistiram do plano, consentindo que tomasse o hábito da Ordem dominicana, no convento de Prado, na Toscana. Catarina tinha apenas quatorze anos.

Tendo operado a separação definitiva do mundo, Catarina não só sentiu a alma invadida da mais pura alegria, como tratou, desde o primeiro instante, de adquirir as virtudes de religiosa perfeita. A bula da canonização confirma que sua vida no noviciado foi de uma santidade angélica. Admirável era sua humildade, que a fazia não recuar diante dos trabalhos mais humildes de casa, ficando-lhe o espírito sempre unido a Deus. Tendo apenas 25 anos de idade, foi eleita superiora, cargo que ocupou até a morte, contribuindo assim para maior satisfação das Irmãs, para as quais era uma verdadeira mãe. Governava pelo bom exemplo na prática de todas as virtudes, conseguindo assim que na comunidade reinasse sempre ótimo espírito, e as religiosas se esforçavam a seguir o exemplo da superiora.

Tomara para exemplo o modelo Jesus Crucificado, a quem dedicava o mais terno amor. A Sagrada Paixão e Morte de Jesus estava-lhe sempre diante dos olhos, e os lábios pronunciavam constantemente jaculatórias e saudações ao bem amado na Cruz, cuja meditação era, por assim dizer, o pão de cada dia da Santa. O maior desejo consistia-lhe em poder participar dos sofrimentos de Jesus Cristo e sentir no corpo o que Ele sentiu nas três horas de agonia.

Sempre que nas quintas-feiras de tarde começava a meditação da Sagrada Paixão e Morte de Jesus, entrava em êxtase, permanecendo neste estado até o dia seguinte. Era nestas ocasiões que sua alma via a Sagrada Paixão e Morte de Jesus em todos os pormenores, tomando parte mais ou menos ativa no grande sofrimento do divino Mestre. Além destes sofrimentos místicos, Deus mandou-lhes outros em forma de doenças graves e dolorosas. Em vez de lhe diminuírem a fé, aumentavam-na, e na santa Comunhão encontrava a graça e força divinas, para levar a cruz com merecimento.

As Irmãs observaram muitas vezes que Catarina, tendo recebido a santa Comunhão, parecia rodeada de luz celestial, e o corpo elevava-se acima do leito. Inimiga do próprio corpo, castigava-o com duras mortificações, quanto às Irmãs dedicava as maiores atenções, vendo-as sofrer qualquer coisa. Durante 48 anos não se alimentava senão de pão e água concedendo ao corpo um repouso noturno de três horas apenas. Tanto mais é para admirar este espírito de penitência, sabendo-se que a santa nunca cometera um pecado mortal.

Grandes e extraordinárias foram também as graças, de que Deus cumulou sua serva. Catarina possuía o dom da profecia, do conhecimento de coisas ocultas, da cura de doenças e da multiplicação de mantimentos em favor dos pobres.
Maria Santíssima dignou-se de aparecer à serva de Deus e reclinou-lhe nos braços o Menino Jesus Cristo, que a consolava com dulcíssimos colóquios, e lhe imprimiu os sinais das chagas nas mãos, nos pés e no lado. Célebre é a visão de Jesus Cristo Crucificado, o qual desprendeu a mão da Cruz e a abraçou ternamente.


 Em outra visão lhe ofereceu um anel, em sinal de sua união mística. (O Papa Bento XIV menciona na bula de canonização todos estes fatos extraordinários. O sábio e esclarecido Papa não o teria feito, se, após sério estudo, não tivesse certeza da autenticidade dos mesmos). Catarina, porém, permaneceu humilde, procurando ocultar perante os homens todas as provas de predileção divina.



Tendo tido notícia de que uma das irmãs havia tomado nota do que de extraordinário e louvável lhe ocorrera na vida, deu ordem para que tudo fosse entregue às chamas. Contudo não lhe era possível impedir que a fama de sua santidade se divulgasse dia por dia. De toda a parte vinham pessoas, entre as quais algumas de alta colocação social e política, ouvir seus conselhos e pedir-lhe intercessão junto a Deus. Sendo-lhe insuportável isto, pediu a Deus que restringisse os benefícios ou, que pelo menos não os manifestasse aos homens. Também este pedido teve acolhimento. 

Deus permitiu que a fama se transformasse em desprezo, e que Catarina por muitos fosse taxada de impostora e hipócrita. Esta provação Catarina a suportou com maior indiferença e uma paciência admirável. Conhecedores da vida religiosa dizem que a santidade de Catarina mais se manifestou e brilhou nos dias tristíssimos da difamação e calúnia, do que na época das profecias e grandes milagres. São Felipe Neri, contemporâneo de Catarina, tinha em grande consideração a serva de Deus, com a qual mantinha viva correspondência. Ele mesmo diz que, por uma graça excepcional de Deus, teve a visão da Santa, com a qual se deteve demoradamente.
 Pelo fim da vida, Catarina foi acometida de doenças gravíssimas e dolorosas. Se a Sagrada Paixão e Morte de Jesus lhe era sempre a meditação predileta, muito mais no momento em que a alma se lhe preparava para as núpcias eternas. Com muita devoção recebeu os últimos Sacramentos, segurando sempre nas mãos a imagem do Crucifixo. Na hora da morte abriu os braços em cruz, e nesta posição entregou o espírito a Deus. As Irmãs que se achavam presentes, ouviram distintamente uma música de harmonias celestiais e Santa Madalena de Pazzi, que se achava em Florença, viu numa visão a alma de Catarina fazer a entrada triunfal no céu, acompanhada de grande multidão de Anjos.
Catarina morreu aos 11 de fevereiro de 1590, tendo sido canonizada em 1746, pontificado de Bento XIV.




        Reflexões:

Devoção terníssima a Jesus Crucificado caracterizava a vida de Santa Catarina. Por seu amor desejava sofrer. Nas dores era o olhar para o Crucifixo seu consolo e conforto. Não mereces o nome de cristão, se não tiveres muita devoção à Sagrada Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. Se não sentes desejo nenhum de sofrer por Jesus, ao menos aceita com paciência a cruz, que Deus te deu.
Oxalá não pertenças ao número daqueles de que diz Didaco Stela: “Muitos há que da Sagrada Paixão e Morte de Cristo só se lembram dela quando veem diante de si a morte. Então é que se agarram à imagem do Crucificado, de quem durante a vida toda não tiveram lembrança”. Ler maus livros, passar noites inteiras na banca do jogo, levar ao colo um animal, a que se dispensa mil carinhos e atenções, tudo isto lhes parece muito mais útil e importante do que tomar um Crucifixo e osculá-lo reverentemente. Para que não te aconteça que, na hora da morte, a imagem do Crucificado desperte em tua alma mais remorsos e temor, do que amor e confiança, acostuma-te desde já a te ocupar muitas vezes com o doce mistério do amor, que se revelou no monte Calvário.

Santa Catarina dava ao corpo um tratamento de inimigo. Obrigava-o a jejuar, a fazer penitência de toda a sorte, privava-o de divertimentos, tirava-lhe o repouso e expunha-o aos rigores do calor e do frio. Tu, pelo contrário, vês no corpo teu melhor amigo, a quem dispensas as maiores atenções, muitas vezes até a custa da alma. Não te vem, de vez em quando a lembrança de proporcionar-lhe um salutar castigo ? Parece que o bem-estar do corpo é o fim principal para que foste criado. Ainda assim achas ser coisa a mais natural receber um dia a glória no céu, quando Santa Catarina considerava a eterna bem-aventurança o prêmio de muitas penitências. Como Santa Catarina opinam os maiores Santos. Com os Santos no céu viverá quem, com eles na terra, levou uma vida de abnegação e penitência.