Páginas

sábado, 15 de fevereiro de 2014

BEATO MIGUEL SOPOCKO, Presbítero e Diretor Espiritual de santa Faustina Kowalska.


O beato padre Miguel Sopocko, confessor e diretor espiritual da irmã Faustina, por intermédio dela esteve diretamente ligado com o mistério das revelações de Jesus Misericordioso. Deus lhe confiou um papel extremamente importante – que foi a realização das exigências de Jesus Cristo transmitidas à Santa irmã Faustina. A essa causa ele dedicou quase toda a sua vida.


Miguel Sopocko nasceu numa família nobre no dia 1 de novembro de 1888, em Nowosady, na Lituânia. Desde os anos da infância foi educado num ambiente de profunda religiosidade e tradição patriótica. Apesar das difíceis condições existenciais, os pais se preocuparam com a sua educação fundamental. As difíceis condições de vida da família Sopocko, o pesado trabalho no campo, a necessidade de uma permanente luta pela subsistência familiar constituíam para os seus membros uma escola de vida e de caráter. A sadia moral dos pais, a sua profunda piedade e amor para com os filhos contribuíram para o adequado desenvolvimento espiritual de Miguel e de seus irmãos.

Na família, faziam parte da prática regular as orações diárias no lar e a participação das celebrações na igreja paroquial, a 18 quilômetros de distância, para a qual viajavam de carruagem. A atmosfera religiosa presente na casa dos Sopocko despertou nele, desde a infância, uma ardente piedade e o desejo de dedicar-se ao serviço de Deus no sacerdócio.

Em 1910 Miguel Sopocko iniciou os estudos no seminário, que duraram quatro anos. Não podia contar com a ajuda material da família, e foi apenas em razão de uma ajuda que lhe foi oferecida pelo reitor que pôde continuar os estudos. No dia 15 de junho de 1914 foi ordenado sacerdote.


Os primeiros anos do ministério sacerdotal em Vilna

Após a ordenação sacerdotal, o pe. Sopocko foi encaminhado para trabalhar na paróquia de Taboryszki, perto de Vilna, com a função de vigário. Nesse trabalho as tarefas a ele atribuídas não o sobrecarregavam. Por isso pediu que lhe fosse permitido promover a catequese dominical com os jovens. O primeiro ano do seu trabalho pastoral foi coroado com a solene primeira Confissão e Comunhão, das quais participaram cerca de 500 crianças.

No verão de 1915, passou por Taboryszki a frente de guerra russo-alemã. Apesar das ameaças resultantes das operações bélicas, o pe. Sopocko celebrou os serviços religiosos programados para esse período, bem como participou da vida dos paroquianos. Durante a sua estada em Taboryszki, o pe. Sopocko também desenvolveu atividade no campo cultural. Nas escolas da vizinhança ele abria novas escolas para as crianças. Com o tempo isso se tornou motivo de perseguição da parte das autoridades de ocupação, que no início se mostraram muito tolerantes diante da sua atividade e até a apoiavam materialmente. No entanto, com o decorrer do tempo esse relacionamento piorou, e finalmente as autoridades alemãs começaram a dificultar as viagens do pe. Sopocko a Vilna com o objetivo de trazer professores para as escolas que estavam sendo abertas. Dessa forma forçaram o pe. Miguel a deixar Taboryszki.

Em 1918 o pe. Miguel obteve das autoridades eclesiásticas em Vilna a autorização para viajar a Varsóvia, onde se matriculou na Faculdade de Teologia da universidade local. O início dos estudos foi impossibilitado por uma doença (ele contraiu tifo abdominal e por algumas semanas teve de permanecer hospitalizado) e pelas mudanças políticas que na época ocorriam na Polônia. Após o tratamento o pe. Sopocko voltou a Varsóvia para iniciar os estudos, mas então ocorreu que a universidade foi fechada, em razão da guerra no leste, que irrompeu logo após a proclamação da independência. por isso apresentou-se como voluntário para trabalhar na pastoral militar. O bispo campal do exército polonês nomeou-o capelão militar e encaminhou-o para o ministério pastoral no Hospital Campal, que na época estava sendo organizado em Varsóvia.

Passado um mês, pediu para ser enviado à frente de guerra. Obteve do bispo campal a transferência ao Regimento de Vilna, onde imediatamente se envolveu no trabalho pastoral entre os soldados que participavam da guerra. Entre as suas obrigações estava a celebração de missas e serviços religiosos e o atendimento de confissões, de que participavam muitos soldados. Também proporcionava ajuda aos feridos, que em razão da falta de um hospital encontravam-se em situação muito difícil.


Após longas marchas com o exército, o pe. Sopocko começou a ter problemas de saúde.
Em razão disso foi encaminhado para tratamento no hospital militar, onde durante o período de algumas semanas de recuperação ajudou na assistência espiritual aos doentes. Após o término do tratamento, foram-lhe atribuídas as funções de capelão militar no Campo de Treinamento para oficiais em Varsóvia.
Faziam parte das suas obrigações palestras semanais sobre religião e moral para os oficiais e suboficiais de diversas formações, bem como a assistência religiosa em dois hospitais militares.




O Padre Sopocko como capelão militar da Escola de Oficiais em Powazki

Durante os cursos que promovia, abordava questões de dogma e da história da Igreja.  Promovia o ensino do catecismo e abordava temas atuais relacionados com o serviço militar. A problemática religiosa e moral, por ele abordada nos cursos, foi avaliada positivamente pelos superiores. O Ministério da Guerra publicou essas preleções, obrigando os oficiais a transmitir o seu conteúdo aos recrutas em todos os destacamentos.

Em outubro de 1919, apesar da continuidade da guerra, reiniciaram-se as atividades da universidade. O pe. Sopocko matriculou-se no curso de teologia moral e em aulas de direito e filosofia. Além disso, dedicou-se ainda à organização da atividade social. Cuidava do funcionamento da Ajuda Fraterna Militar (da qual era presidente), do albergue militar e de uma escola militar para órfãos de famílias de militares.

No verão de 1920 o pe. Sopocko foi testemunha do rompimento da frente de guerra e logo depois, já em Varsóvia, vivenciou a heroica defesa da cidade e a vitória contra a ofensiva soviética. Anos depois, em suas Memórias, ele comentaria esse acontecimento como uma extraordinária obra da Divina providência e sinal de Divina misericórdia para a Polônia, alcançada pelas orações dos fiéis, que no mês de agosto acorriam em multidões às igrejas.

Cumprindo as funções de capelão militar e estudando no curso de teologia moral, o pe. Sopocko envolveu-se ainda em estudos adicionais no Instituto Superior de Pedagogia. Em 1923 obteve o título de mestre em teologia e dedicou-se mais à área da pedagogia. O resultado das suas pesquisas relacionadas com a influência do álcool sobre o desenvolvimento intelectual dos jovens serviu de base para escrever o seu trabalho de pós-graduação intitulado "O alcooolismo e a juventude escolar", que coroou os seus estudos no Instituto de Pedagogia.

O bispo de Vilna, Dom Jorge Matulewicz, conhecendo os méritos e as realizações do pe. Sopocko, bem como informado a respeito da preparação teológica e pedagógica do padre capelão, pretendia envolvê-lo no trabalho em sua diocese. Inicialmente queria confiar-lhe a organização da pastoral da juventude extraescolar. O padre Miguel aceitou a proposta do bispo e decidiu voltar a Vilna.

A decisão formal ocorreu no outono de 1924. Por força dela, o pe. Sopocko foi nomeado Diretor da Região Militar da Pastoral em Vilna, que envolvia 12 unidades autônomas, contando no total mais de 10 mil soldados. A transferência do Pe. Sopocko a Vilna era uma promoção, mas ao mesmo tempo lhe impunha maiores tarefas e maior responsabilidade. O pe. Sopocko e a conferência dos capelães militares decidiram que, além da assistência sacramental, pelo menos uma vez a cada duas semanas seriam realizadas em cada seção palestras religioso-morais. O trabalho pastoral do pe. Sopocko como capelão militar contou com o reconhecimento do marechal Józef Pilsudski. 

O pe. Sopocko assumiu também a tarefa que lhe havia sido confiada pelo bispo, a de organizar a pastoral da juventude extraescolar. Para isso pediu a cooperação dos professores e com a ajuda deles foi possível fundar algumas Associações da Juventude Polonesa. Apesar das numerosas tarefas pastorais, o pe. Sopocko continuou a distância os seus estudos de teologia, escrevendo a tese de doutorado em teologia moral intitulada "A família e a legislação nas terras polonesas".

Defendeu a sua tese de doutorado no dia 1 de março de 1926. A dedicação à pesquisa científica exigia o conhecimento de línguas estrangeiras, por isso estudava as línguas alemã, francesa e inglesa. As catequeses e as conferências do capelão militar pe. Sopocko apresentadas aos soldados em língua russa também despertavam um grande interesse entre os fiéis. Após a obtenção do doutorado, pretendia escrever uma outra dissertação, desta vez como requisito para a função de professor.

Em 1927 e 1928, exercendo sempre as funções de diretor da pastoral da Região Militar, foram atribuídos ao pe. Sopocko outras funções de grande responsabilidade: de diretor espiritual no seminário e de chefe da cátedra de teologia pastoral na Universidade de Vilna. Essas novas obrigações forçaram-no a gradualmente afastar-se da pastoral militar.


O pe. Sopocko com os seminaristas, Vilna, 29.09.1935

Como diretor espiritual do seminário, era ao mesmo tempo moderador do Sodalício Mariano, do Círculo Eucarístico, da Ordem Terceira de S. Francisco e do Círculo dos Seminaristas da União Missionária do Clero. Um outro trabalho exercido nesse período e que se estendeu por todo o tempo da permanência do pe. Sopocko em Vilna era a confissão das irmãs religiosas.
Após obter a dispensa parcial da pastoral militar, além da função de diretor espiritual no seminário, as suas tarefas básicas eram as aulas e o trabalho científico.

Visto que na época havia falta de manuais adequados, ele mesmo preparava apostilas para as matérias por ele lecionadas.Estas eram mimeografadas pelos estudantes e por muitos anos serviram de material de apoio nos estudos. As pesquisas científicas do pe. Sopocko estavam relacionadas principalmente com a preparação da sua tese de habilitação para professor e relacionavam-se com questões da educação religiosa. A fim de coletar materiais para a tese que escrevia, no verão de 1930 ele viajou para fazer pesquisas em bibliotecas da Europa Ocidental. Essa viagem foi proveitosa, tanto no aspecto científico como no religioso, visto que ele visitou ao mesmo tempo lugares de culto e centros de vida religiosa.

Além do trabalho relacionado com a redação da tese, o pe. Sopocko também escrevia artigos científicos e de divulgação científica na área da teologia pastoral e artigos para a enciclopédia eclesiástica, fazia conferências científicas e desenvolvia atividade jornalística. Envolvendo-se cada vez mais no trabalho científico, pediu para ser dispensado das funções de capelão e de diretor espiritual. Com alguma resistência inicial, o bispo campal e o arcebispo concordaram em dispensá-lo dessas tarefas.


Em setembro de 1932, o pe. Sopocko mudou-se para o convento das irmãs visitandinas, onde concluiu a redação da sua tese, que trazia como título "O objetivo, o sujeito e o objeto da educação religiosa segundo M. Leczycki". Com base nesse trabalho, no dia 15 de maio de 1934 obteve o título de professor doutor, e o Ministério das Religiões e da Instrução Pública nomeou-o docente da Universidade de Varsóvia, e a seguir esse título foi transferido à Cátedra de Teologia Pastoral da Universidade Stefan Batory em Vilna.




O ENCONTRO COM A IRMÃ FAUSTINA

Desde 1932 o pe. Sopocko era confessor das irmãs da Congregação de Nossa Senhora da Misericórdia, que então tinham em Vilna (Vilnius, Lituânia) a sua casa religiosa. Lá, em 1933, encontra a irmã Faustina Kowalska, que, após a sua vinda a Vilna em 1933, torna-se sua penitente. Esse encontro seria muito significativo para toda a sua vida subsequente e para a sua futura missão.

Na pessoa da irmã Faustina ele encontrou uma devota da Divina misericórdia, cujas graças ele mesmo muitas vezes alcançou na vida e pelo que bendizia a Deus. Tendo encontrado no pe. Sopocko um confessor e diretor espiritual culto, começou a apresentar-lhe cada vez mais detalhadamente as suas vivências e visões relacionadas com as revelações do Misericordioso Salvador. Ele ordenou que a irmã registrasse por escrito as suas experiências interiores. A seguir examinava o texto, avaliando o seu conteúdo. Assim surgiu o “Diário” Espiritual de Santa Faustina.


Fazendo alusão a revelações do Salvador, que havia tido ainda antes da vinda a Vilna e depois em Vilna, a irmã Faustina falava ao pe. Sopocko a respeito das ordens recebidas durante essas revelações. Era a exigência de pintar uma imagem do Misericordiosíssimo Salvador e de instituir a Festa da Misericórdia no primeiro domingo depois da Páscoa, bem como a fundação de uma nova congregação religiosa. Ela dizia também que a Divina providência havia confiado a realização dessas tarefas ao pe. Sopocko.

Em março de 1934 o pe. Sopocko realizou uma peregrinação à Terra Santa. A visita à Terra Santa foi para ele uma grande vivência, o que mais tarde expressou em suas Memórias, bem como em relatos apresentados em outras publicações.

Em julho de 1934 o arcebispo Jalbrzykowski nomeou o pe. Sopocko reitor da igreja de S. Miguel em Vilna, acontecimento que em anos posteriores teve um profundo significado. Foi nessa igreja, no dia 4 de abril de 1934, que foi benta e localizada, atendendo a um pedido expresso de Jesus Cristo, a primeira imagem de Jesus Misericordioso.

Irmã Faustina deixou Vilna em março de 1936. Permanecendo com ela em contato epistolar, e também visitando-a em Cracóvia, o pe. Sopocko ia realizando a obra, confiada também a ele, de apresentar ao mundo o mistério da Divina misericórdia.

Com base na doutrina da Igreja, continuou a busca de fundamentações teológicas para a existência do atributo da misericórdia em Deus, bem como bases para a instituição da festa ordenada nas revelações. Os resultados das suas pesquisas e argumentações em favor da instituição da festa foram apresentados em revistas teológicas e em trabalhos especiais a respeito do ideal da Divina misericórdia.


Em junho de 1936 publicou em Vilna a brochura “A Misericórdia Divina”, com a efígie do Cristo Misericordiosíssimo na capa. Enviou essa sua primeira publicação principalmente aos bispos reunidos na conferência do Episcopado em Czestochowa, mas de nenhum deles obteve resposta. Em 1937 publicou em Poznan uma outra brochura, intitulada “A Misericórdia Divina na liturgia”.

No final de 1937, o estado de saúde de irmã Faustina deteriorou-se significativamente. O pe. Sopocko visitou-a no início de setembro de 1938, já quase no leito da morte. Irmã Faustina afastou-se para o Senhor no dia 5 de outubro de 1938.

Após a eclosão da guerra, em setembro de 1939, o pe. Sopocko decidiu não ocultar por mais tempo a questão das revelações de irmã Faustina, visto que, no seu entender, a tragédia da guerra e os acontecimentos com ela relacionados começaram a confirmar as mensagens das revelações.

Com o ideal da Divina misericórdia estava relacionada também a questão da construção de uma nova igreja em Vilna com o mesmo título. Em 1938 foi formado o Comitê da Construção da igreja da Divina Misericórdia, que em breve obteve a confirmação da Administração da voivodia e do arcebispo R. Jalbrzykowski.

Com a eclosão da guerra e a ocupação de Vilna pelos exércitos soviéticos, ocorreu uma nova situação política, que interrompeu as ações iniciadas e finalmente as impossibilitou. Os exércitos soviéticos saquearam os materiais de construção que haviam sido reunidos. Perdeu-se também o dinheiro destinado à construção e depositado em bancos. Ainda em 1940 o pe. Sopocko empenhou-se junto às autoridades de ocupação para que fosse permitida pelo menos a construção de uma capela, no entanto teve o seu pedido negado.

A difícil situação da guerra, que envolvia cada vez mais amplamente o território da Europa e que atingia a população de muitas nações e o mal que juntamente com ela se propagava fortaleciam cada vez mais a convicção do pe. Sopocko a respeito da necessidade da compaixão Divina para com o mundo. Por isso, com convicção maior ainda começou a proclamar o ideal da Divina misericórdia, no qual percebia a salvação para o mundo.

Os párocos de Vilna e de fora da cidade convidavam-no para pronunciar conferências. Na Quaresma, durante as celebrações da paixão, o pe. Sopocko pregava na catedral de Vilna sermões sobre a Divina misericórdia, para os quais acorriam multidões de fiéis de toda a cidade e que tinham ampla repercussão em toda a região.

Nesse tempo o pe. Sopocko iniciou também a redação de um tratado sobre o ideal da Divina misericórdia e sobre a festa em sua honra: “De Misericordia Dei deque eiusdem festo instituindo” [Da Misericórdia de Deus e da instituição da Sua festa]. A esse trabalho ele havia sido estimulado ainda antes da guerra pelo cardeal Augusto Hlond, ao qual havia apresentado as suas pesquisas relacionadas com a causa da Divina Misericórdia.

Enquanto isso, em junho de 1940 a Lituânia foi novamente ocupada pelo Exército Vermelho e, um mês depois, incorporada à União Soviética como sua décima quinta república. O pe. Sopocko viu-se forçado a interromper os encontros dos grupos a que prestava assistência. Foi também privado da possibilidade de publicar um tratado sobre a Divina Misericórdia.

Veio prestar-lhe ajuda Edviges Osinska, que, como conhecedora da filologia clássica, cuidava da parte linguística do tratado e que, clandestinamente e com a ajuda de conhecidos seus, prontificou-se a mimeografar o trabalho. A seguir providenciou que exemplares da obra chegassem a diversas pessoas que tinham a possibilidade de viajar para fora de Vilna, e dessa forma a obra do pe. Sopocko espalhou-se por muitos países do mundo, especialmente da Europa.

Em razão de ser o divulgador do ideal da Divina misericórdia e da propagação do seu culto, o pe. Sopocko era procurado pela Gestapo. Avisado por uma funcionária do escritório de registro, conseguiu evitar a prisão. Por segurança viajou para fora de Vilna. Quando a ameaça passou, voltou à cidade e começou a dar aulas no seminário, no qual, apesar das difíceis condições materiais e residenciais, havia sido iniciado o novo ano acadêmico 1940/41. Novamente fixou residência junto à igreja de S. Miguel, onde estava localizada a imagem do Misericordiosíssimo Salvador, envolvida de veneração cada vez maior.

No dia 22 de junho de 1941 eclodiu a guerra russo-alemã. Vilna em breve encontrou-se sob uma nova ocupação. Foi então submetida a uma discriminação especial a população judia. Ainda antes da guerra o pe. Sopocko dedicava-se à catequese dos judeus que se apresentavam à Igreja e à preparação deles para o batismo. O fruto desses esforços foi o batismo de cerca de 65 pessoas. O pe. Sopocko também fornecia apoio material e espiritual aos judeus. Tal tipo de procedimento podia acarretar perigosas consequências, inclusive a perda da vida. A Gestapo descobriu os vestígios da sua atividade e por alguns dias até o manteve preso.

No final do ano de 1941, os alemães intensificaram o terror da ocupação. No último domingo do Advento, a pretexto de uma pretensa epidemia, fecharam todas as igrejas em Vilna. Seguiram-se as prisões. No dia 3 de março de 1942 os alemães empreenderam uma ampla ação contra o clero. Prenderam os professores e os estudantes do seminário e quase todos os padres que trabalhavam em Vilna.

No dia das prisões no seminário, os guardas alemães prepararam também uma armadilha na residência do pe. Sopocko, que foi avisado pela sua empregada. Conseguiu ainda chegar à Cúria Arquiepiscopal, onde informou ao arcebispo que estava sendo procurado pela Gestapo e pediu a dispensa das funções no seminário e a bênção para o período em que deveria permanecer escondido. Disfarçado, deixou Vilna, e as Irmãs religiosas Ursulinas esconderam-no numa casa que elas alugavam na beira do mato. A Gestapo procurou-o quase pela Lituânia inteira, indagando a respeito dele principalmente nas casas paroquiais e entre os padres.

Por intermédio de pessoas de confiança, obteve uma identidade falsa com o nome Waclaw Rodziewicz. A partir de então passou por carpinteiro e marceneiro, fabricando ferramentas simples e utensílios para a população local. Todos os dias, nas primeiras horas da manhã celebrava a missa e depois tinha muito tempo para a oração e a reflexão pessoal. Em intervalos de algumas semanas dirigia-se à casa das irmãs em Czarny Bór com o objetivo de realizar a confissão. Além disso, dedicava-se ao trabalho científico, com base na literatura que lhe era fornecida pela Sra. Osinska e por suas companheiras.

No outono de 1944, apesar das condições extremamente difíceis de vida, o arcebispo Jalbrzykowski confiou-lhe o reinício das aulas no seminário. O pe. Sopocko voltou a Vilna,  assumiu as tarefas que lhe haviam sido confiadas e, juntamente com outros padres e seminaristas, viajava todos os domingos às paróquias do interior com o objetivo de coletar produtos agrícolas, para que o seminário pudesse subsistir.

O pe. Sopocko envolvia-se também no trabalho pastoral fora de Vilna, realizando-o muitas vezes para difundir o ideal da Divina misericórdia. Apesar da postura antirreligiosa, no início as autoridades da República toleravam a atividade pastoral dos sacerdotes. Aos poucos, no entanto, começaram a restringir o trabalho deles, especialmente tornando mais difíceis as autorizações para a catequese dos jovens e das crianças.

Embora fossem realizados na clandestinidade, informações sobre esses encontros chegaram às autoridades. O pe. Sopocko foi chamado à delegacia de polícia. Surgiu o perigo real de serem adotadas sanções contra ele, inclusive com a possibilidade do exílio à Sibéria.


Coincidentemente com esses acontecimentos, em julho de 1947 recebeu do arcebispo R. Jalbrzykowski, que se encontrava em Bialystok, na Polônia, um convite providencial para ir trabalhar nessa parte da arquidiocese. Diante disso decidiu abandonar Vilna quanto antes, tanto mais que estava se encerrando o período assinalado para a repatriação dos poloneses da Lituânia.

Antes da partida, com a ilusória esperança de que a separação de Vilna não duraria muito, visitou a capela de Nossa Senhora da Misericórdia em Ostra Brama (Ausros Vartai − Vilnius, Lituânia) e no final de agosto de 1947 viajou a Bialystok. Fez isso no último transporte de população polonesa que se dirigia à Polônia.

Tendo chegado a Bialystok, o pe. Sopocko apresentou-se ao arcebispo Jalbrzykowski com o objetivo de receber ordens para assumir novas funções. No final de setembro de 1947 viajou para passar alguns dias em Myslibórz, onde Edviges Osinska e Isabel Naborowska (as primeiras madres da Congregação fundada pelo pe. Sopocko) estavam organizando o início da sua vida religiosa comunitária. Esse foi o primeiro encontro com as irmãs após a partida delas de Vilna. A partir de então o pe. Sopocko manteve contato permanente com as irmãs, servindo-lhes com o conselho e o apoio espiritual e material e velando pelo desenvolvimento geral da Congregação fundada.


Padre M. Sopocko - Bialystok

Em outubro de 1947 iniciaram-se as aulas no seminário em Bialystok. O pe. Sopocko dava as mesmas aulas que em Vilna (Vilnius, Lituânia): catequese, pedagogia, psicologia e história da filosofia. Mas o trabalho e a presença dele no seminário não se restringiam às aulas. Era também o confessor dos seminaristas. Muitas vezes, a pedido do diretor espiritual, promovia retiros para eles. Desenvolvia ao mesmo tempo atividade pastoral, religiosa e sociocultural. Uma parte importante da sua atividade era o trabalho contra o alcoolismo.
A obra que mais o envolvia e que lhe era a mais cara era a questão do culto da Divina Misericórdia, ao qual foi devotado e fiel até o fim. Sem se desencorajar com a resistência das autoridades eclesiásticas para a aprovação do culto, cujas causas eram as anormalidades na devoção espontânea que se difundia entre o povo, bem como as publicações que abordavam o ideal da Divina misericórdia de forma nem sempre correta, o pe. Sopocko corrigia incansavelmente os erros e esclarecia os fundamentos teológicos desse culto.

Da mesma forma que em Vilna, também em Bialystok era confessor das irmãs religiosas. Confessava, por exemplo, as irmãs da Congregação das Missionárias da Sagrada Família, que então tinham a sua casa na Rua Poleska. Ao prestar ali a assistência espiritual, ele percebia a possibilidade de estendê-la aos moradores das redondezas. Graças aos empenhos do pe. Sopocko, no dia 27.11.1957, na solenidade de Cristo Rei, realizou-se a bênção da capela da Sagrada Família.

Após ter-se aposentado, o pe. Sopocko residiu na casa das irmãs, desempenhando o ministério pastoral entre os habitantes da região até o fim da sua vida. A rica personalidade sacerdotal do pe. Sopocko, a sua espiritualidade e autoridade, resultantes de extraordinárias experiências de vida, além da sua grande modéstia pessoal, atraíam os fiéis. Atualmente se encontra ali uma sala da sua memória e uma casa religiosa da Congregação das Irmãs de Jesus Misericordioso, fundada por ele.

No final dos anos 50, o pe. Sopocko empreendeu mais uma iniciativa para construir uma igreja em Bialystok. Conseguiu comprar um terreno com uma casa, tendo coberto quase a metade dos custos com economias próprias. Com a projetada igreja ele ligava os planos, esboçados ainda em Vilna, de construir um santuário sob a invocação da Misericórdia Divina. Mas também dessa vez teve de conformar-se com o desmoronamento dos seus propósitos.

Enquanto pregava um retiro para os padres em 1958, o pe. Sopocko sofreu uma lesão do nervo facial. A partir de então, falar em voz alta para um auditório maior custava-lhe grandes esforços. Deixou uma marca em sua saúde também um acidente automobilístico que sofreu em 1962 em Zakopane, onde participava de um encontro de professores de teologia pastoral. Nessa situação, tornou-se indispensável passar à aposentadoria.

Tornou-se indispensável passar à aposentadoria, o que surpreendeu o pe. Sopocko. Sempre ativo, envolvido em inúmeros trabalhos e tarefas, pela primeira vez na vida, com exceção do período em que se ocultou em Czarny Bór, dispunha de um tempo ilimitado exclusivamente à sua disposição. Exercendo o ministério sacerdotal na capela da Rua Poleska, dedicou-se então a concluir os trabalhos relacionados com o ideal da Divina misericórdia que havia iniciado e logo, quando o clima em torno dessa questão começou a mudar, dedicou-se a ele com um novo entusiasmo. Dispondo agora de mais tempo, dedicou-se ao aprofundamento científico do ideal da Divina misericórdia.

Possuía muito material coletado, trabalhos iniciados, além de novas ideias. Por isso dedicou-se com afinco a escrever. Em consequência escreveu uma série de obras, entre as quais ocupa lugar de destaque a obra em quatro volumes: “A Misericórdia de Deus em Suas obras”. O primeiro volume foi publicado em Londres ainda em 1959, e os três restantes, nos anos 60, em Paris, graças à generosidade de pessoas dedicadas à causa da Divina misericórdia e que residiam no Ocidente. Essa obra foi também traduzida para a língua inglesa.

Uma circunstância importante que estimulava o engajamento do pe. Sopocko era o fato do contínuo desenvolvimento da devoção à Divina Misericórdia, bem como o interesse de outros teólogos por esse ideal. Um outro impulso e estímulo importante para o trabalho missionário em prol da Divina Misericórdia foi o início, em 1965, pelo arcebispo de Cracóvia Karol Wojtyla, do processo informativo da Irmã Faustina Kowalska. O pe. Sopocko também foi envolvido nesse processo, apresentando-se no papel de testemunha.

O padre Sopocko viveu até os belos jubileus dos 50 e 60 anos do ministério sacerdotal. Nas solenidades comemorativas desses aniversários, as mais edificantes eram as palavras do próprio aniversariante. Fatigado pela idade e pelas labutas da vida, bem como por dolorosas experiências interiores, esse sacerdote que se aproximava do final dos seus dias, no mais curto dos discursos pronunciados nessa ocasião, expressou primeiramente uma profunda gratidão a Deus pelo dom do sacerdócio e a seguir, com grande humildade, confessou que nem sempre em sua longa vida sacerdotal havia sido fiel às tarefas a ele confiadas, pelo que desejava sinceramente pedir perdão a Deus, pedindo orações aos presentes para que o Deus Misericordioso lhe perdoasse as suas infidelidades.

Essa solenidade, no parecer e na avaliação de muitos participantes, foi uma recompensa moral muito atrasada. Uma recompensa ao venerável sacerdote dedicado à causa Divina – especialmente à propagação do ideal da Divina misericórdia. O único sinal de reconhecimento dos variados méritos do padre aniversariante diante da Igreja e da arquidiocese foi a sua nomeação, mas apenas no ocaso da vida, em 1972, como cônego gremial do Capítulo da Basílica Metropolitana.

Durante toda a sua vida o padre Sopocko foi um homem de ação, baseada num firme fundamento espiritual. Quando começou a lhe faltar a destreza física e vieram as enfermidades, a esfera do espírito tornou-se a área do seu envolvimento e serviço às causas divinas.

Citações de leituras, deixadas em seu ”Diário”, testemunham que era justamente assim que ele entendia o seu último ministério:

 “A velhice deve ser tratada como uma vocação a um amor mais profundo a Deus e ao próximo. Deus tem em relação aos idosos novos planos de aprofundamento da pessoa, revelando-lhes face a face a sua vida interior. O único ato eficaz de que então somos capazes é a oração. Nessa ativa passividade tudo se prepara, tudo se decide, tudo se elabora. O céu será a recitação do “PAI NOSSO”.


Houve esforços recíprocos no sentido de que o padre Sopocko passasse o período final da sua vida na casa geral da Congregação por ele fundada das Irmãs de Jesus Misericordioso em Gorzów Wielkopolski. Entretanto, em razões dos problemas de saúde que o afetavam, e que em grande medida lhe dificultariam a adaptação no novo ambiente, ele permaneceu até o final da vida em Bialystok. Faleceu na noite do sábado, 15 de fevereiro de 1975, em seu quarto na Rua Poleska, no dia da memória de são Faustino, padroeiro da irmã Faustina Kowalska.

No ”Diário” de S. Faustina encontra-se registrada a promessa de Jesus Cristo relacionada com o seu confessor padre Miguel Sopocko:

“Haverá tantas palmas na sua coroa quantas almas se salvarem por essa obra” (Diário, 90).


No dia 28 de setembro de 2008, no Santuário da Misericórdia Divina em Bialystok (Polônia), realizou-se a beatificação do pe. Miguel Sopocko.

Santa Benedita Cambiagio Frassinello, Religiosa e Fundadora


“Conformar-se a Cristo no abandono a amorosa Divina Providência".

     Em Benedita Cambiagio Frassinello (1791-1858) a Igreja nos mostra um exemplo de santa esposa, religiosa e fundadora. Ela deixou-se conduzir pelo Espírito Santo através das experiências do matrimônio, de educadora e de consagração religiosa, até fundar, junto com o marido, uma congregação que é o único caso na História da Igreja.
     Benedita Cambiagio nasceu no dia 2 de outubro de 1791, em Langasco, Gênova, última de sete filhos de José Cambiagio e Francisca Ghiglione. Ela foi batizada dois dias depois de seu nascimento. Seus pais eram camponeses e depois das revoluções napoleônicas a família vê os problemas econômicos se agravarem. Junto com outras famílias de Langasco, eles emigraram para Pavia quando Benedita tinha 13 anos.
     Ela recebeu uma educação católica rigorosa e se dedicou aos estudos, sobretudo como autodidata, privilegiando a leitura de biografias de Santos e o aprofundamento da doutrina católica. Em 1812, Maria, sua irmão mais velha, se casa. Aos 20 anos Benedita tinha uma forte inclinação para a oração e a vida contemplativa, pensando em talvez fazer-se religiosa, mas, na dúvida, prevaleceu o parecer da família mais propensa ao seu casamento. Dia 7 de fevereiro de 1816, aos vinte e cinco anos, casou-se na Basílica de São Miguel com João Batista Frassinello, camponês e carpinteiro, fervoroso católico de Ronco Scrivia.
     Dois anos depois, sem filhos, de comum acordo, Benedita e João Batista passaram a viver como irmão e irmã na mesma casa. De fato, o grande desejo de castidade de Benedita contagiou o cônjuge. Ela conta o episódio em suas Memórias: "Vivi por dois anos sujeita a ele, como o Senhor ordenara. Mas o meu desejo era de viver como irmão e irmã. Um dia eu pedi a meu marido para secundar-me neste desejo que desde menina eu tinha; ele imediatamente atendeu-me, para infinita consolação de minha alma, pois outra coisa eu não desejava".
     Na época, sua irmã Maria, gravemente doente de câncer intestinal, se hospedava em sua casa e o casal passou a cuidar dela com amor e dedicação até sua morte, em 1825. O cuidado da doente fez nascer neles a vocação de ajudar os necessitados sem reservas. Em consequência, João Batista entrou como irmão leigo na comunidade religiosa dos padres Somascos e Benedita na comunidade das Irmãs Ursulinas de Capriolo.
     Em 1826, Benedita retorna a Pavia devido a graves problemas de saúde. Teve então uma visão onde lhe apareceu São Jerônimo Emiliani, ficando curada por completo. Benedita, inspirando-se naquele grande santo, que tivera atenção especial pelo aspecto educativo das pessoas, começou a trabalhar na educação das jovens e das meninas abandonadas pelas famílias. Para esta obra ela pede e obtém a aprovação do bispo D. Luís Tosi, o qual chama de volta a Pavia seu marido, João Batista, para auxiliá-la nos trabalhos. Este atendeu logo, voltou para a esposa-irmã, renovando ambos o voto de castidade perfeita pelas mãos do bispo.
     Em 29 de setembro de 1826, Benedita aluga uma casa em Vicolo Porzi. Para conseguir os meios necessários para manter sua obra, vai de casa em casa pedindo ajuda. Sua intenção era lutar, por meio da educação, contra a solidão, a ignorância, a pobreza, que são a base dos maus costumes, agindo no universo totalmente feminino. Com a ajuda e o apoio de várias professoras, ensinava as jovens a ler, a escrever, a trabalhar, formando uma instituição escolar de excelente nível, cujo estatuto foi aprovado pelas autoridades eclesiásticas.
     Na época, a instituição escolar era muito precária e Benedita fez um alerta às autoridades de Pavia, a primeira mulher da cidade e do Estado a advertir sobre essa necessidade. Pavia era então governada pelo Império Austro-húngaro, e o governo austríaco reconheceu seu trabalho e deu a ela o título de “Promotora da Educação Pública”.
     A dedicação constante de Benedita nasceu e cresceu do seu fervor a Cristo na Eucaristia e da contemplação de Jesus na Cruz. Tinha em Deus seu sustento e sua defesa. Não lhe faltaram na vida experiências espirituais que se repetiam especialmente durante as Missas. Porém, isso não interferia nos seus compromissos cotidianos.
     Seu primeiro biógrafo, Joaquim Semino, que a conheceu pessoalmente, nos dá este retrato dela: "E eu não devo silenciar como ela tinha um rosto entre o majestoso e o amável, de maneira que parecia ter sido feita para orientar as jovens. Ela tinha uma forma de dizer gentil e doce, um jeito de fazer franco e jeitoso, ao mesmo tempo enérgico e forte, que despertava o amor e a reverência de todos".
     Mas, nem tudo corria sem complicações. Como sua obra educadora recebesse doações, no dia 4 de fevereiro de 1837 o jornal ''La Gazzetta di Pavia'' promoveu uma subscrição com a finalidade de ajudá-la. Esta iniciativa fez emergir muitos de seus opositores que lhe fizeram pesadas acusações. Ela demonstrou sua transparência cedendo a direção da Instituição a uma colaboradora, Catarina Bonino, e entregando toda a sua obra ao bispo. Com cinco irmãs deixou Pavia indo para Ligúria.
     Sua biografia não diz claramente por que certo momento ela ficou sozinha e mau vista. Podemos conjecturar que a presença de eclesiásticos de ideias jansenistas entre os conselheiros do Bispo Luís Tosti, ou, então, a existência de funcionários maçons na administração pública da cidade, ou ambas as coisas, foram a causa dessa situação. Entretanto, o que parecia um fim, foi outro começo.
     Na cidade de Ronco Scrivia, Benedita abriu uma escola para jovens com as cinco companheiras e a ajuda do esposo. Adquiriu algumas casas e finalmente fundou, no dia 28 de outubro de 1838, a Congregação das Irmãs Beneditinas da Providência, escrevendo ela mesma a Regra e a Constituição, e logo a colocou sob a autoridade do Bispo de Gênova. A Instituição se desenvolveu rapidamente, tanto que em 1847 uma nova casa foi inaugurada em Voghera.
     Em 1851, Benedita retorna a Pavia atendendo a um pedido do Conde João Dessi, preocupado com o aumento das condições de miséria depois da guerra de 1848. Incógnito, o conde comprara o antigo mosteiro de São Gregório. Ali Benedita abriu uma nova casa para meninas, enquanto continuava a dirigir a de Ronco Scrivia. Aqueles foram anos de muito empenho por parte dela e do esposo, enquanto seus críticos continuavam a denegri-la sem sucesso. Em 1857, abre outra escola em São Quirico, Valpolcevera.
     No dia 21 de março de 1858, com 67 anos de idade, Benedita morre santamente em Ronco Scrivia, no dia e hora por ela previstos. Logo acorre um grande número de pessoas para uma última manifestação de estima e para chorar aquela que consideravam uma santa. Foi sepultada no cemitério de Ronco Scrivia. Em 1944, durante a II Guerra Mundial, um bombardeio destruiu o pequeno cemitério e as suas relíquias foram dispersas.
     Beatificada por João Paulo II em 10 de maio de 1987, o mesmo pontífice a canonizou em 19 de maio de 2002. Sua festa foi fixada em 21 de março, dia de seu falecimento.

     Benedita pode ser proposta como modelo e intercessora para as pessoas consagradas, os esposos, os jovens, os educadores e as famílias.

SÃO CLÁUDIO DE LA COLOMBIÈRE, Presbítero Jesuíta e Diretor Espiritual de Santa Margarida Maria Alacoque.



São Cláudio de La Colombière, Presbítero 
No ano de 1675, um novo superior foi designado para a casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sendo ele confessor extraordinário das vizinhas freiras da Visitação, foi estar com a superiora, Madre de Saumaise, a fim de se pôr à disposição do mosteiro. Esta lhe apresentou toda a comunidade e, enquanto o sacerdote dirigia às religiosas breves palavras de incentivo à prática da virtude heroica, uma delas, irmã Margarida Maria Alacoque, ouviu uma voz interior lhe dizendo:

- Eis aí quem te envio!

Fazia poucos anos que pertencia a freira à Congregação e já havia sido beneficiada pelo Sagrado Coração de Jesus com numerosas visões e revelações. Naquele momento, porém, passava ela pelo drama da dúvida. Seus superiores e algumas autoridades eclesiásticas a consideravam "uma visionária", levando-a a se perguntar se não estaria sendo vítima da ilusão ou enganada pelo demônio.

O Divino Mestre fizera-lhe, então, uma promessa: "Eu te mandarei meu fiel servo e amigo perfeito". Tratava-se do padre Cláudio de La Colombière, que Jesus enviava naquele momento à Irmã Margarida, para confirmar-lhe "em seus caminhos e para torná-lo participante de grandes graças do seu Sagrado Coração".



Formação em colégios da Companhia

Da infância do padre de La Colombière, pouco se conhece. Nasceu a 2 de fevereiro de 1641, na aldeia de Saint-Symphorien, mas aos nove anos mudou-se com a família para Vienne, onde os beneditinos de Saint Andrés-le-Bas lançaram em sua alma as primeiras sementes de sua ardorosa devoção à Sagrada Eucaristia e lhe ministraram a Primeira Comunhão.

Pouco depois de ter chegado à cidade, começou a estudar gramática com os padres jesuítas e, três anos depois, mudou-se para Lyon, a fim de cursar Humanidades, no colégio da Companhia. Foi também nessa cidade, na qual morou por cinco anos, que começou a tomar contato com a obra do grande Francisco de Sales, através das Irmãs da Visitação de Bellecour, em cujo convento falecera o santo fundador.

Cumpridos já dezessete anos, enquanto passava alguns dias de férias na casa dos pais, Cláudio decidiu tornar-se jesuíta. De temperamento reservado, um pouco tímido e muito afetuoso, custou-lhe separar-se da família. Mas o fez de bom grado e por completo, compreendendo consistir a verdadeira felicidade na entrega a Deus por um amor exclusivo.

Mais tarde afirmaria: "Jesus Cristo prometeu cem por um, e posso dizer que nunca fiz nada sem ter recebido, não cem por um, mas mil vezes mais do que havia abandonado".



Do noviciado ao sacerdócio

Corria o ano de 1658, quando Cláudio ingressou no Noviciado de Avignon. Ali se alternaram provas e alegrias, períodos de aridez com outros marcados por uma luz transbordante. Dois anos depois, proferiu os primeiros votos e, havendo concluído o curso de Filosofia, dedicou-se ao magistério no colégio da Companhia, conforme determinavam as regras, antes de prosseguir os estudos para o sacerdócio.

Por sua grande capacidade intelectual, estro literário e modo de fazer os sermões, o Superior Geral decidiu enviá-lo, em 1666, para estudar Teologia no Colégio de Clermont, em Paris. Ali se revelou exímio orador e excelente professor de retórica. Seu valor acadêmico e o exemplo ilibado de vida religiosa valeram- lhe o cargo de preceptor dos filhos de Colbert, o célebre Ministro do Tesouro de Luís XIV. Teve, assim, de frequentar os ambientes da corte, fazendo neles muitos amigos e dando mostras de grande talento, fino trato e elevada educação, além de se destacar pela firmeza de princípios e exímia virtude.



A Terceira Provação

Em 6 de abril de 1669, Cláudio recebeu as sagradas ordens e cinco anos depois chegou para ele o tempo chamado por Santo Inácio de "Escola do Afeto".

A sabedoria do fundador bem via quanto os largos anos de estudo, magistério e apostolado podiam ser para seus filhos espirituais motivo de diminuição do fervor inicial, contaminado por aspirações mundanas, quando não por sentimentos de vanglória pelos êxitos obtidos. Por isso, estabeleceu que cada jesuíta passasse por este novo período de noviciado, também chamado de Terceira Provação, antes de fazer a profissão solene. Nesse tempo, sob a orientação paternal de um instrutor, o religioso fazia um balanço de sua vida, visando desapegar-se de toda preocupação humana para deixar-se levar inteiramente pela luz divina.

A Casa São José, em Lyon, foi o lugar onde o padre Cláudio atravessou esse período, durante o qual fez um voto particular de cumprimento exímio das regras do Instituto, "sem reservas", dispondo-se a aceitar com alegria as determinações da Santa Obediência e romper de uma vez por todas as cadeias do amor-próprio. Ao mesmo tempo consolidou- -se em sua alma a confiança - também sem reservas - na misericórdia divina, sem a qual ser-lhe-ia impossível manter-se fiel aos propósitos feitos em prol da própria santificação e a dos outros.

Esse tempo de solidão e recolhimento fê-lo também desapegar-se de todos os relacionamentos humanos, aos quais era extremamente sensível, para ter Nosso Senhor como único e verdadeiro amigo: "Meu Jesus [...] tenho certeza de ser amado, se vos amo. [...] Por mais miserável que eu seja, não me tirará vossa amizade nenhum indivíduo mais nobre que eu, nem mais culto ou mais santo".

Antes mesmo de concluir o tempo regulamentar, foi admitido aos votos solenes, feitos quando completava 34 anos, em 2 de fevereiro de 1675. Logo em seguida, recebeu o encargo de superior da casa dos jesuítas em Paray-le-Monial. Sua alma estava com a têmpera ideal para empreender a grande missão que o aguardava.



Três corações unidos para sempre

O padre de La Colombière não sabia o que encontraria nessa pequena cidade, mas seus superiores, inteirando-se das visões de Santa Margarida Maria Alacoque e das polêmicas que haviam gerado, o escolheram exatamente por causa do seu equilíbrio de alma. Padre Cláudio era perfeitamente capaz de sustentar os bons critérios frente às controvérsias criadas, dentro e fora do convento.

De fato, sem se importar com as críticas e juízos desfavoráveis, logo viu a mão de Deus nas visões de Irmã Margarida Maria e a tranquilizou e apoiou, recebendo, como recompensa, recados e favores do Divino Mestre.

O Sagrado Coração de Jesus e os corações
de são Cláudio e santa Margarida Maria. 

Um deles ocorreu, certa vez, durante a Missa celebrada para a comunidade, quando a religiosa viu, na hora da Comunhão, o Sagrado Coração de Jesus como uma fornalha ardente e dois outros corações abismando-se n'Ele: o do padre de La Colombière e o seu próprio, enquanto ouvia estas palavras: "É assim que meu puro amor une esses três corações para sempre. Esta união destina-se à glória de meu Sagrado Coração. Quero que descubras seus tesouros, ele fará conhecer seu preço e utilidade. Para tanto, sejais como irmão e irmã, partilhando igualmente os bens espirituais".

Apressou-se ela em transmitir o fato ao sacerdote e depois relatou sua reação. "As mostras de humildade e as ações de graças com que ele recebeu essa comunicação e várias outras coisas que lhe transmiti da parte de meu soberano Senhor e que lhe diziam respeito, comoveram-me e foram-me mais proveitosas que todos os sermões que eu poderia ouvir".



Apostolado da confiança e do reafervoramento

No curto período de dezoito meses de sua permanência em Paray--le-Monial, quiçá tenha feito o padre de La Colombière mais pelas almas que em todos os anos anteriores de sua vida. O jansenismo, então em pleno auge na França, minava nos corações a confiança na bondade de Nosso Senhor e de sua Mãe Santíssima, e afastava os fiéis dos Sacramentos, sobretudo da Sagrada Comunhão.
São Cláudio de La Colombière, Apóstolo da
da devoção ao Coração de Jesus. 

O apostolado feito por São Cláudio em suas cartas, pregações e direções espirituais ia justamente no sentido contrário: promovia a confiança em Maria e a devoção ao Santíssimo Sacramento. Atraiu assim muitas ovelhas desgarradas, trazendo-as de volta ao redil do Salvador.

Fundou uma Congregação Mariana para nobres e burgueses, na qual agrupou os cavalheiros católicos da cidade, bem como reorganizou a dos alunos do colégio da Companhia. Reestruturou o hospital dos peregrinos e indigentes, e pregou missões nos povoados vizinhos, com grandíssimos frutos de reafervoramento.



"Eis o Coração que tanto amou os homens"

Mas sua máxima missão foi participar, por desígnio do próprio Jesus, na chamada "Grande Revelação" feita a Santa Margarida Maria, em um dia da Oitava de Corpus Christi de 1675, quando rezava diante do Santíssimo Sacramento: a difusão da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, bem como a instituição de sua festa e da consagração reparadora.

Assim transcreveu a santa as célebres palavras proferidas por Nosso Senhor, enquanto lhe mostrava seu Divino Coração: "Eis o Coração que tanto amou os homens, que não poupou nada até esgotar-Se e consumir- -Se, para manifestar-lhes seu amor. E como reconhecimento, não recebo da maior parte deles senão ingratidões, desprezos, irreverências, sacrilégios, friezas que têm para comigo neste Sacramento de amor. E é ainda mais repugnante, porque são corações a Mim consagrados"

Em seguida, pediu-lhe o Senhor que a primeira sexta-feira após a Oitava de Corpus Christi fosse consagrada como festa especial para honrar seu Coração, com um ato público de desagravo e comunhões reparadoras. Acrescentou a promessa formal de conceder copiosos favores espirituais para quem praticasse tal devoção.

A religiosa alegou sua indignidade e incapacidade de realizar a missão, e recebeu esta resposta: "Dirige- te a meu servo Cláudio e dize-lhe, de minha parte, que faça todo o possível para estabelecer esta devoção e dar esse gosto a meu Divino Coração; que não desanime diante das dificuldades que encontrará, pois estas não faltarão, mas ele deve saber que é todo poderoso quem desconfia de si mesmo para confiar unicamente em Mim".8

Assim, na sexta-feira seguinte, São Cláudio, Santa Margarida e a comunidade da Visitação de Paray-le-Monial celebraram, pela primeira vez, a Festa do Sagrado Coração de Jesus, consagrando-se inteiramente a Ele.



Missão junto à Duquesa de York

Quando estava no auge de suas atividades em Paray-le-Monial, o padre de La Colombière recebeu ordem de partir para Londres, como capelão da Duquesa de York, Maria de Módena, que era católica fervorosa e só consentira em se casar com o Duque, irmão de Carlos II, após ser autorizada pelo governo inglês a ter sempre um sacerdote junto a ela.

Por meio da santa vidente, o Coração de Jesus recomendou a São Cláudio algumas atitudes a serem observadas em sua nova missão: não se assustar com a investida dos infernos contra seu carisma para atrair as almas, mas confiar inteiramente na bondade de Deus, pois seria Ele seu sustentáculo; usar de doçura e compaixão para com os pecadores; ter o cuidado de nunca separar o bem de sua fonte. Sua partida foi muito dolorosa para Santa Margarida, valendo- -lhe uma censura de Nosso Senhor: “Não te basto Eu, que sou teu princípio e teu fim”?

De sua parte, São Cláudio permaneceu fiel ao voto e aos propósitos feitos no período da Terceira Provação, mantendo-se, "sem reservas", afastado da vida da Corte. Sendo capelão da Duquesa de York, vivia no palácio Saint James, mas fazia-o num regime de profundo recolhimento e grandes mortificações. Preocupava-se apenas em propagar a devoção à Sagrada Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus, apesar das dificuldades criadas pela hostilidade contra a Igreja.

Acabou, entretanto, por converter famílias inteiras e atrair para a vida consagrada muitos membros da aristocracia londrina. Alguns destes os encaminhou para instituições religiosas na França; outros, os reuniu na própria Londres, num mosteiro clandestino, por ele fundado, próximo da Catedral de São Paulo.

Foi por essa época que Titus Oates acusou injustamente os jesuítas e outros membros da Igreja de estarem tramando o assassinato de Carlos II, a fim de substituí-lo por seu irmão, o Duque de York, convertido ao catolicismo. Embora o próprio rei considerasse absurda essa denúncia, ela deu origem a violentas perseguições contra os católicos, injustamente acusados de terem participado no chamado "complô papista".

A pretexto de tais acontecimentos, São Cláudio foi denunciado e encarcerado pelo crime de proselitismo religioso. Cumpria-se, assim, a premonição que tivera quatro anos antes, quando se havia visto "coberto de ferros e correntes, e arrastado a uma prisão, acusado, condenado por ter pregado Cristo crucificado".

As péssimas condições da enxovia onde foi lançado terminaram de minar sua saúde, já debilitada por uma tuberculose incipiente. Ali teria morrido em pouco tempo, se não tivesse sido libertado por força de uma intervenção de Luís XIV.



Consumação do holocausto

Chegou de volta à França em meados de 1679, quase sem forças. Depois de recuperar um pouco a saúde, dirigiu-se para o Colégio da Santíssima Trindade, em Lyon, onde outrora fizera seus primeiros estudos, para assumir o cargo de diretor espiritual dos alunos de Filosofia. Ali, embora fisicamente muito desgastado, não deixava de propagar a devoção ao Divino Coração, defendendo-a contra os inúmeros ataques e incompreensões de que era objeto.

No inverno de 1681, retornou a Paray-le-Monial, cujo clima parecia resultar- lhe um pouco mais benéfico. À vista, porém, do intenso frio daquela rigorosa estação, pensou-se em trasladá-lo para Vienne, onde ficaria aos cuidados de seu irmão, arcediago daquela Diocese. Mas o superior da casa mandou-lhe permanecer, após ter recebido São Cláudio um bilhete de Santa Margarida, com este recado do seu Divino Amigo: "Ele me disse que quer o sacrifício de sua vida aqui".12

O holocausto não tardaria muito em ser consumado. Em 15 de fevereiro de 1682, com apenas 41 anos de idade, Cláudio de La Colombière foi encontrar-se com Aquele de quem fora servo fiel e amigo perfeito nesta Terra. Algumas horas depois dos funerais, Irmã Margarida, cujo coração permanecia unido ao seu, no Sagrado Coração de Jesus, pôde fazer esta recomendação: "Deixem já de afligir-se; invoquem-no com toda confiança porque ele pode socorrer-nos".

Contudo, a grande missão de São Cláudio só se realizaria plenamente muitos anos depois, em 8 de maio de 1928, quando Pio XI elevou à suprema categoria litúrgica a Solenidade do Sagrado Coração de Jesus, por meio da Encíclica Miserentissimus Redemptor.

Um ano mais tarde, Cláudio de La Colombière seria beatificado pelo mesmo Papa. E coube a João Paulo II, em 31 de maio de 1992, a honra de incluir no catálogo dos santos o nome deste sacerdote jesuíta, tão amado pelo Divino Coração de Jesus.



(Revista Arautos do Evangelho, Fev/2011, n. 110, p. 48 à 51)