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sábado, 1 de março de 2014

OS SANTOS E O CARNAVAL: Opinião dos Santos sobre o Carnaval. Estariam eles errados ou seriam uns "exagerados"?


Santa Faustina Kowalska diz: “Nestes dois últimos dias de carnaval, conheci um grande acúmulo de castigos e pecados. O Senhor deu-me a conhecer num instante os pecados do mundo inteiro cometidos nestes dias. Desfaleci de terror e, apesar de conhecer toda a profundeza da misericórdia divina, admirei-me que Deus permita que a humanidade exista” (Diário, 926).




Santa Margarida Maria Alacoque escreve: “Numa outra vez, no tempo de carnaval, apresentou-me, após a santa comunhão, sob a forma de Ecce Homo, carregando a cruz, todo coberto de chagas e ferimentos. O Sangue adorável corria de toda parte, dizendo com voz dolorosamente triste: Não haverá ninguém que tenha piedade de mim e queira compadecer-se e tomar parte na minha dor no lastimoso estado em que me põem os pecadores, sobretudo, agora”? (Escritos Espirituais).



São Francisco de Sales dizia: “O carnaval: tempo de minhas dores e aflições”.  Naqueles dias, esse santo fazia o retiro espiritual para reparar as graves desordens e o procedimento licencioso de tantos cristãos.
O santo, não contente com a vida mais recolhida que então levava, pregava ainda na igreja diante de um auditório numerosíssimo. Tendo conhecimento que algumas pessoas por ele dirigidas, que se relaxavam um pouco nos dias de carnaval, repreendia-as com brandura e exortava-as à comunhão frequente.



São Vicente Férrer dizia: “O carnaval é um tempo infelicíssimo, no qual os cristãos cometem pecados sobre pecados, e correm à rédea solta para a perdição”.







        

O Servo de Deus João de Foligno dava ao carnaval o nome de: a “Colheita do diabo”.




Santa Catarina de Sena, referindo-se ao carnaval, exclamava entre soluços: “Oh! Que tempo diabólico!”.











São Carlos Borromeu jamais podia compreender como os cristãos podiam conservar este perniciosíssimo costume do paganismo.
Nos dias de Carnaval, o santo castigava o seu corpo com disciplinas e penitências extraordinárias.







Santo Afonso Maria de Ligório escreve:
“Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação, Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto, os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer e por um divertimento momentâneo. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm vergonha de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra o Santo Nome de Deus. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus. Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes” (Meditações).
    Por este amigo, a quem o Espírito Santo nos exorta a sermos fiéis no tempo da sua pobreza, podemos entender que é Jesus Cristo, que especialmente nestes dias de carnaval é deixado sozinho pelos homens ingratos e como que reduzido à extrema penúria. Se um só pecado, como dizem as Escrituras, já desonra a Deus, o injuria e o despreza, imagina quanto o divino Redentor deve ficar aflito neste tempo em que são cometidos milhares de pecados de toda a espécie, por toda a condição de pessoas, e quiçá por pessoas que lhe estão consagradas. Jesus Cristo não é mais suscetível de dor; mas, se ainda pudesse sofrer, havia de morrer nestes dias desgraçados e havia de morrer tantas vezes quantas são as ofensas que lhe são feitas.
É por isso que os santos, a fim de desagravarem o Senhor de tantos ultrajes, aplicavam-se no tempo de carnaval, de modo especial, ao recolhimento, à penitência, à oração, e multiplicavam os atos de amor, de adoração e de louvor para com o seu Bem-Amado.



Santa Teresa dos Andes escreve: “Nestes três dias de carnaval tivemos o Santíssimo exposto desde a uma, mais ou menos, até pouco antes das 6h. São dias de festa e ao mesmo tempo de tristeza. Podemos fazer tão pouco para reparar tanto pecado”...  (Carta 162).




                                                        



   São Pedro Claver
     Um oficial espanhol viu um dia São Pedro Claver com um grande saco às costas.
— Padre, aonde vai com esse saco?
— Vou fazer Carnaval; pois não é tempo de folgança?
O oficial quer ver o que acontece: acompanha-o.
O Santo entra num hospital. Os doentes alvoroçam-se e fazem-lhe festa; muitos o rodeiam, porque o Santo, passando com eles uma hora alegre, lhes reparte presentes e regalos até esvaziar completamente o saco.
— E agora? – pergunta o oficial.
— Agora venha comigo; vamos à igreja rezar por esses infelizes que, lá fora, julgam que têm o direito de ofender a Deus livremente por ser tempo de Carnaval.



No tempo do carnaval, Santa Maria Madalena de Pazzi, carmelita e grande mística, passava as noites inteiras diante do Santíssimo Sacramento, oferecendo a Deus o sangue de Jesus Cristo pelos pobres pecadores.






O Beato Henrique Suso guardava um jejum rigoroso a fim de expiar as intemperanças cometidas.












São Filipe Néri convocava o povo para visitar com ele os santuários e realizar exercícios de devoção.












Nota do autor do blog:
Quando lemos as afirmações e exortações acima, ditas por santos e santas, a respeito do Carnaval, palavras duras e fortes ditas naqueles tempos nos quais o Carnaval ainda era “inocente”, se comparado com o dos tempos atuais, eu me pergunto: imaginem o que diriam esses mesmos santos e santas diante das imoralidades, escândalos, nudez, bebedeiras, desordens, vícios e crimes cometidos no Carnaval do século XXI? Tenho até medo do que seriam capazes de dizer...

E nós somos praticamente obrigados a ouvir as músicas mais indecentes possíveis, a presenciar o "cortejo" de mulheres seminuas e nuas, ver adolescentes de 12 a 16 anos, moças e rapazes embriagados, drogados e cometendo os pecados e vícios os mais escandalosos possíveis! E tudo isso com o apoio das autoridades federais, estaduais e municipais. Que triste! 

Muitos, talvez, dirão: "mas, podemos brincar o Carnaval de forma inocente, só entre amigos e familiares". Assim, são promovidos até em escolinhas de crianças pequenas os chamados "bailinhos" de Carnaval. Mas, mesmo nesses "bailinhos", muitas vezes, são tocadas, cantadas e dançadas músicas com letras de duplo sentido ou mesmo com explícito sentido imoral. É muito difícil fazer com que em 100% das escolas, escolinhas e nos lares de boas famílias sejam tocadas APENAS músicas sem conotação indecente, com uso de fantasias que não exponham os corpos, principalmente das meninas, adolescentes e jovens... 

Infelizmente, como instituição, o Carnaval  é, na imensa maioria dos casos, um período permissivo, onde a luxúria (adultérios, fornicações, nudez, imoralidades, prostituição, etc), a embriaguez, o desrespeito, a desordem e toda espécie de desmandos são cometidos e tidos como "normais" ou "naturais"... 

Não é fácil opor-se contra o Carnaval, visto que a coisa já faz parte do "calendário oficial" das "festas" em nosso país, conhecido mundialmente pela infeliz alcunha de: "país do Carnaval". Que triste. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

SÃO GABRIEL DE NOSSA SENHORA DAS DORES, Religioso Passionista



Movido por uma poderosa voz interior, aquele jovem vivaz, gentil e cheio de afeto decidiu tornar-se religioso. E, já revestido do hábito passionista, em um êxtase, sorriu pela última vez, aos 24 anos de idade.

A graciosa cidade italiana de Spoleto, na Perúgia, acordou radiante de alegria numa manhã da Oitava da Assunção de Maria, em 22 de agosto de 1856. Seus habitantes celebravam com júbilo a festa da Padroeira, agradecendo de modo especial o terem sido libertos da peste que devastara a região nos últimos anos.

Um belo quadro da Mãe de Deus, conhecido como a Madonna Del Duomo – Nossa Senhora da Catedral – ou a Sacra Icona - Sagrada Imagem –, havia sido retirado de seu relicário para ser conduzido pelas ruas, em solene procissão. Era um ícone de estilo bizantino doado à cidade pelo imperador Frederico Barba Ruiva, em 1155, como sinal de reconciliação e de paz.

Segundo a tradição, teria sido pintado por São Lucas e se conservara na Catedral de Constantinopla até a época das perseguições iconoclastas. Não havia, naquelas animadas ruas, quem não caísse de joelhos ao ver desfilar com grande pompa a milagrosa imagem da Rainha do Céu. Todos esperavam receber d'Ela uma graça almejada, um consolo, uma bênção particular.


"O que fazes no mundo? Não foste feito para ele!"

Entre a multidão dos fiéis, aguardando a passagem do venerado ícone, destacava-se, naquele dia, um jovem de porte distinto e jovial. Quando a Sagrada Imagem da Santíssima Virgem passou diante dele e seu olhar fitou os olhos arrebatadores da imagem, ouviu de modo claro em seu interior estas inesquecíveis palavras: “Francisco, o que fazes no mundo? Tu não foste feito para ele. Segue a tua vocação”!

Nesse momento, dando livre curso a abundantes lágrimas de agradecimento e compunção, tomou a firme resolução que há tempo vinha postergando: ser religioso, decidindo entrar na Congregação dos Passionistas. “Oh! Em que abismo não teria certamente caído se Maria, benigna até para com aqueles que não A invocam, não tivesse acorrido misericordiosamente em meu auxílio naquela Oitava de sua Assunção”!, exclamaria ele, algum tempo depois. Tal episódio comovedor foi o decisivo ponto de inflexão na vida curta, mas gloriosa, de um dos grandes santos do século XIX: São Gabriel de Nossa Senhora das Dores, conhecido como “o santo dos jovens, dos milagres e do sorriso”.


Vivaz, gentil e cheio de afeto

Nascido em 1º de março de 1838, em Assis, foi ele batizado no mesmo dia com o nome de Francisco, em honra ao Poverello. Undécimo filho de uma família de treze irmãos, seu pai, o advogado Sante Possenti, exercia na época o cargo de prefeito. A mãe, Angese Frisciotti, pertencia a uma família de nobre ascendência, e morreu quando ele tinha apenas quatro anos.

Apesar de possuir um coração propenso à generosidade e simpatia, imperava no espírito daquele terno menino um temperamento indômito que, quando contrariado, se exteriorizava inúmeras vezes em ímpetos de cólera, durante os quais seus olhos escuros tornavam-se brilhantes e os pés batiam no chão com energia.

Tendo ele três anos de idade, a família Possenti transferiu-se para Spoleto, onde transcorreriam sua infância e adolescência. Ali Francisco se distinguiu por seu caráter vivaz, cheio de afeto, gentil, palavra fácil e cheia de graça, voz sonora e olhar penetrante. Seu diretor espiritual, o padre Norberto Cassinelli assim o descreve: “Reunia em si muitos dotes dificilmente encontráveis numa só pessoa. Era em verdade belo de alma e de corpo”.


"Eu não vivia senão por um pouco de fumaça!"

Esse temperamento amável e privilegiado não excluía o amor ao risco, tão comum na adolescência. O comandante da guarnição militar de Spoleto, grande amigo de seu pai, instruíra o jovenzinho a manejar com certeira pontaria a pistola e o fuzil. Sendo a caça seu lazer favorito, em um ano ganhou como presente de Natal uma bela escopeta... que não deixaria de ocasionar sobressaltos e preocupações a seu progenitor.

Aos 13 anos começou a frequentar a escola dos jesuítas, onde se sobressaía a todos os companheiros. Ele "era o preferido para declamar nas soirées acadêmicas. [...] Todos o queriam, tudo lhe sorria, tudo corria de acordo com seus desejos... Seu maior gosto era brilhar nas festas, nos saraus e no teatro"

Também o baile constituía para ele grande motivo de atração. Dançava com tal habilidade que se tornou conhecido pelo apelativo de "il ballerino", e como tal animava os mais cotados salões da cidade.

Esses momentos passados em frívolas distrações atormentaram depois sua consciência, levando-a a exclamar com frequência: “Ó, vaidade de meus passatempos!... Que cegueira a minha!... Eu não vivia senão por um pouco de fumaça”.


Um cilício sob as roupas elegantes

Porém, o jovem Francisco professava no seu interior uma fé pura e sincera. “Nunca se aproximava dos Sacramentos sem deixar transparecer os profundos sentimentos de fé e de religioso respeito dos quais estava compenetrado”, declarou um dos seus mais íntimos amigos da época. “Quantas vezes o vi de mãos juntas, olhos umedecidos pelas lágrimas e como que arrebatado em profundos pensamentos”!

Sobretudo, ninguém podia imaginar que aquele jovem aplaudido e aprovado por todos levava, sob as roupas elegantes e luxuosas, um rude cilício de couro cravejado de agudas pontas de ferro. No vaivém superficial dos acontecimentos, o anseio de trilhar algum dia na vida religiosa começava a despontar em sua alma. Faltavam, todavia, alguns lances decisivos para dar o derradeiro adeus ao mundo.


Árdua renúncia, feita com alegria

Após a morte da mãe, sua irmã mais velha, Maria Luísa, fora para ele um de seus principais esteios. Muito formosa, encontrava- -se ela na flor da idade quando irrompeu em Spoleto uma assoladora epidemia de cólera, da qual foi a primeira vítima... A morte da jovem, ocorrida no ano de 1855, causou em Francisco o impacto de um raio.

Disso se valeu a Providência para abrir-lhe os olhos sobre sua vocação. Logo após o falecimento, ele expôs a seu pai a resolução de ingressar num convento. Este, entretanto, recusou sua autorização, temendo que tal desejo fosse o fruto efêmero de um momento de dor. Receio, na aparência, confirmado, pois, com o correr do tempo, as atrações do mundo começaram a abafar de novo aquele anelo interior... “Podia eu - escreveria depois Francisco a um de seus companheiros - gozar de mais prazeres e diversões? E o que ficou de tudo aquilo? Nada mais do que vergonha, temores e turbações”.

Foi nessa situação que veio dar-se o crucial encontro com a Sacra Icona, graças ao qual o renitente jovem decidiu abraçar para sempre a vida religiosa.

Poucos dias depois desse episódio, em 05 de setembro, a mais seleta sociedade de Spoleto reunia-se no salão de cerimônias do Liceu Jesuíta, para assistir à distribuição dos prêmios de fim de curso. Enquanto presidente da Academia Literária, Francisco ocupava no salão um lugar proeminente.


Chegada a hora de subir ao cenário, a assistência prorrompeu em exclamações de entusiasmo, vendo um adolescente de dezoito anos apresentar-se com tanta elegância e distinção. “Aquele timbre de voz, aquela sonoridade, aquela vocalização e, sobretudo, aquela graça de expressão e de gestos eletrizavam e sacudiam os corações mais apáticos”. Terminado o discurso, todos desejavam felicitá-lo, aclamá-lo, cumprimentá-lo, e ele respondia com seu habitual sorriso.

A decisão, porém, estava tomada. No dia seguinte, ele partiria para uma mudança de vida. Com apenas 18 anos, trocava um brilhante porvir por uma vida de renúncia e recolhimento. Dava, sim, um passo árduo, mas com o coração pervadido de alegria.


Passionista para sempre

Na manhã seguinte, Francisco partiu feliz de Spoleto em direção a Loreto, onde passou alguns dias estreitando os laços de amor e devoção a Maria Santíssima, no célebre Santuário.

De lá, dirigiu-se a Morrovalle para dar início ao noviciado passionista. “Ele, o elegante bailarino, o brilhante animador dos salões de Spoleto, escolheu entrar no austero Instituto dos Passionistas, fundado em 1720 por São Paulo da Cruz, com a missão de anunciar, através da vida contemplativa e do apostolado, o amor de Deus revelado na Paixão de Cristo”.

A mudança do nome para Gabriel de Nossa Senhora das Dores marcou a morte para a vida passada e o começo da caminhada nas vias da perfeição. Quando, em conversa com seus companheiros de convento, o assunto recaía sobre os acontecimentos do mundo, ele a interrompia com um sereno sorriso: “Por que falarmos daquilo que temos de abandonar para sempre? Deixem que os mortos enterrem seus mortos”.

Não pensemos, entretanto, que a adaptação à austera vida religiosa foi fácil para aquele jovem de vida acomodada. Acostumado às comidas finas, “os insípidos alimentos do pobre convento passionista causavam-lhe uma repugnância invencível. Apesar dos protestos de sua natureza, insistia ele em comê-los, até que seus superiores, compadecidos, permitiram-lhe, temporariamente, algum alívio”.  O mesmo acontecia com outros aspectos de observância da disciplina, mas ele fazia questão de cumprir eximiamente os horários e obrigações do noviciado, por muito esforço que isso lhe custasse, dada sua delicada compleição.


Amor à Paixão de Cristo e a Maria Santíssima

Durante sua vida de religioso, nele sobressaía, sem dúvida, um arraigado amor à Paixão do Senhor. Tal veneração sentia pelos sofrimentos de Jesus que nunca se separava do crucifixo: “Quando conversava, mantinha-o dissimuladamente na mão e o apertava com carinho; quando dormia, colocava-o sobre o peito; quando estudava, punha-o junto ao livro e, de vez em quando, o fitava e osculava com tanto afeto e fervor, que a imagem de metal foi-se gastando até ficarem apagados todos os traços da fisionomia”.

 

A essa devoção característica da congregação em que ingressara, no entanto, unia-se um amor “entusiasta, engenhoso e aceso à Santíssima Virgem”. Seu famoso Credo de Maria revela-nos o encanto dessa alma apaixonada pela Mãe de Deus:

“Creio, ó Maria, [...] que sois a Mãe de todos os homens. [...] Creio que não há outro nome, fora do nome de Jesus, tão transbordante de graça, esperança e suavidade para aqueles que o invocam. [...] Creio que quem se apoia em Vós não cairá em pecado, e quem Vos honra alcançará a vida eterna. [...] Creio que vossa beleza afugentava todo movimento de impureza e inspirava pensamentos castos”.


Curta existência, pontilhada de atos heroicos

São Gabriel aos pés de seu diretor espiritual,
o Venerável Norberto Cassinelli. 
Na mente do noviço Gabriel, não havia espaço para nenhum outro pensamento a não ser Jesus e Maria. E sentia uma tão entranhada necessidade de levar às últimas consequências sua entrega a Deus e a Maria Santíssima que, certa vez, ao ouvir os passos de seu diretor espiritual, o Venerável Servo de Deus Padre Norberto Cassinelli, abriu a porta da cela e, arrojando-se a seus pés, lhe suplicou: “Padre, se achar em mim qualquer coisa, por pequena que seja, que não agrade a Deus, eu, com sua ajuda, quero arrancá-la a todo custo”!  O sacerdote respondeu-lhe que, no momento, nada via, contudo não deixaria de alertá-lo ao perceber algum sinal. Com essa garantia, o dócil religioso acalmou-se completamente.

Sua curta existência foi pontilhada de atos admiráveis, pois tudo praticava com espírito de inteira elevação e sublimidade: “Nossa perfeição não consiste em fazer coisas extraordinárias, mas em executar bem as ordinárias”, costumava dizer.


O último sorriso

Após um ano e meio de noviciado, em fevereiro de 1858, Gabriel deu início aos estudos para o sacerdócio, passando a morar finalmente no convento de Isola del Gran Sasso, onde viria falecer. Em 25 de maio de 1861, recebeu as ordens menores na Catedral de Penne. Pelos arcanos desígnios da Providência, porém, não chegaria a tornar-se presbítero.

No final desse mesmo ano, uma terrível tuberculose o acometeu. Ora, longe de impedir-lhe o avanço nas vias da virtude, a fatal enfermidade servia-lhe para escalar com mais rapidez os píncaros da santidade. Deus dispôs que ele fosse sendo consumido aos poucos pela doença, para aumentar-lhe os méritos e dar aos outros ocasião de se edificarem com seu exemplo.

 

No leito de morte, restava-lhe ainda enfrentar o pior drama da sua vida: os derradeiros assaltos do demônio e a terrível provação decorrente de uma “noite escura da alma”. Entretanto, também dessa última prova saiu vencedor. O sacerdote que lhe prestava assistência na hora suprema ouviu- o repetir três vezes, em curtos intervalos de tempo, esta frase de São Bernardo, pela qual ele reconhecia diante de Deus sua própria fraqueza: “Vulnera tua, merita mea. Meus méritos são vossas chagas, Senhor”!

Na manhã de 27 de fevereiro de 1862, com o coração transbordante de alegria, as mãos cruzadas sobre o peito, apertando o crucifixo e a imagem da Virgem Dolorosa, Gabriel sorriu pela última vez, extasiado, ao contemplar com os olhos da alma Aquela a quem servira na Terra com tanta doçura. O “santo do sorriso” tinha, então, apenas 24 anos de idade.

 


No sesquicentenário de sua morte, São Gabriel de Nossa Senhora das Dores continua sendo, para a juventude atual, um inapreciável exemplo de renúncia intransigente ao pecado, de amor entusiasmado à Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo e de devoção entranhada a Maria Santíssima.

                                                                                                  (Revista Arautos do Evangelho, Fev/2012, n. 122, p. 32 à 35)

Observação: São Gabriel de Nossa Senhora das Dores (versão mais utilizada em nosso país) é também conhecido como "São Gabriel da Virgem Dolorosa" ou "São Gabriel da Virgem das Dores", que concorda mais com seu nome em italiano: Gabriele della Vergina Adolorata". 



 








terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Beato Bernardo de Offida, Irmão Capuchinho


Bernardo Peroni de Offida (Ascoli Piceno), nasce na Villa d’Appignano, nos arredores de Offida aos 7 de novembro de 1604, no mesmo ano da morte de São Serafim de Montegranaro, quase uma entrega. Entre os santos e beatos capuchinhos é certamente o mais longevo. Morrerá em Offida no dia 22 de agosto de 1694 aos 90 anos de idade.
 Domenico, assim o chamou o pai Giuseppe na fonte batismal, cresce robusto e sadio, pastor de rebanhos e semeador de campos nutre a sua fé no livro da cruz e na devoção à Virgem Maria. A vida bela e austera dos capuchinhos que se tinham estabelecido em Offida em 1614 torna-se para ele um forte chamado, mas esperará ainda alguns anos antes de vestir o hábito capuchinho em Corinaldo aos 15 de fevereiro de 1626 e para fazer a sua profissão um ano depois em Camerino.
 Bernardo de Lama, esse o topônimo mais exato do mais notável cidadão de Offida, por obediência acolhe a sua primeira destinação, Fermo. Por quase vinte anos permaneceu nesse convento, no silêncio. Nenhuma fonte documentária fala: é o tempo que o Senhor utiliza para prepará-lo para a sua missão: “ávido de almas”.
Uma breve permanência em Ascoli, quase um embriagar-se na santidade de Serafim de Montegranaro e depois outras ainda mais breves até chegar a Offida em 1650. Aqui, por 45 anos louvará o Pai da misericórdia, adorará o Cristo na Eucaristia e servirá o Corpo do Senhor nos irmãos pobres e doentes.  Uma vida simples, escondida, humilde, uma vida feitas dos serviços ordinários do irmão capuchinho: cozinheiro, hortelão, enfermeiro, esmoleiro, porteiro, todo caridade, todo oração, todo louvor ao Senhor.
 Apaixonado pela Eucaristia, não se dava conta do tempo que passava, das moscas que o incomodavam, dos olhos dos irmãos e das pessoas que o espiavam, do barulho ao redor. Os dias de festa solene para ele eram dias de alegria ainda maior porque podia passar o dia inteiro servindo Missas, inflamando-se de ardor da consagração até a comunhão.  O seu coração, de tão habituado a lançar afetos a Deus com ardentes expressões de amor, muitas vezes, também diante de pessoas, se deixava fugir sem se aperceber.



O Amor que se manifestava no seu rosto estimulava à oração. O Amor que lhe era doado na Eucaristia ele o restituía carregando os fardos pesados de quem encontrava cansado pelo caminho, pacificando as desavenças de quem não se sentia mais irmão, acudindo as fadigas e as dores de quem jazia doente acamado. E ninguém resistia à sua candura, à sua bondade, ao seu grito angustiado: “Permaneçam com Deus! Temam a Deus! Amem a Deus! Fujam do pecado! Sejam bondosos"!

 Depois de um dia pesado e cansativo, retirava-se, como merecido repouso, para longas horas de oração diante do Sacrário ou da imagem de Nossa Senhora ou do altar de São Félix de Cantalício. Aqui encontrava a força para colocar-se de novo a serviço, multiplicando a caridade através de suas mãos.
Ninguém que batesse à porta saía de mãos vazias; ninguém que quisesse o seu conforto porque doente, ficava desiludido; ninguém que pedisse a sua oração ficava sem receber a graça do Senhor. Encontramos, registrada por atuários, a memória de crianças devolvidas vivas às próprias mães, de doentes curados e de muitos episódios extraordinários operados por sua intercessão. Carisma e dom do Senhor que Frei Bernardo escondia servindo-se do óleo e da lâmpada que ardia no altar de São Félix de Cantalício.

Nem mesmo nos últimos anos de vida, em condições precárias, encolhido e paralítico, renunciava a estar por longo tempo diante do Sacrário. Tinha mandado fazer um par de muletas exatamente para manter-se de pé em adoração já que não podia estar de joelhos como era seu costume.

Vendo aproximar-se o fim de sua vida terrena, quase nonagenário, carregado de anos e dos achaques da idade, mas radioso mais do que nunca no espírito a ponto de fazer quem o encontrava exclamar que tinha “tanta alegria no rosto e nas palavras que não parecia enfermo, mas que se deliciasse”, quis restituir tudo, pedindo ao seu guardião “a caridade” de fazer uso unicamente do hábito.


Tendo recebido os sacramentos, quase arrebatado em êxtase, recomendou aos irmãos a observância da Regra, da paz, do amor entre si e ao próximo e que rezassem pelos benfeitores.

Morria ao amanhecer de um novo dia, aos 22 de agosto de 1622. Floresceram graças e milagres, mas o caminho para levá-lo à glória dos altares foi longo e difícil tendo-se concluído somente no dia 19 de maio de 1795 quando o Papa Pio VII o inscrevia no catálogo dos beatos. Seis dias depois, na Basílica Vaticana, era celebrada a sua beatificação.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

São Benedito de San Fratello ou de Palermo, dito "o Negro" ou "o Mouro", Religioso Franciscano.



Quando me pus a publicar histórias de santos, beatos, veneráveis e servos de Deus neste blog, havia feito o propósito de publicar apenas sobre aqueles que são "quase desconhecidos" do grande público. No entanto, lendo a vida de são Benedito, o "Preto" ou "o Negro" ou ainda "o Mouro", percebi uma coisa: que ele não é desconhecido - muito pelo contrário - que é um santo até "famoso" e bastante popular, porém, tenho certeza, a história de sua vida é praticamente desconhecida. Realmente a achei muito bela e resolvi publicar em nosso blog para que quem quiser ter acesso, ler e aumentar ainda mais a devoção por esse santo cujas imagens abundam nas várias paróquias que o tem como padroeiro ou nas igrejas que trazem em seu interior sua imagem. Boa leitura!



BENEDITO, O SANTO NEGRO.




São Benedito, "o Mouro" ou "o Preto",
religioso da Ordem Franciscana
Diz o Ofício Litúrgico de São Benedito do próprio da Ordem Franciscana: "Benedito que pela sua cor preta foi chamado o santo preto". Benedito era de família descendente da África. Seus avós eram etíopes. Benedito, portanto, tinha a pele de cor negra. Uma piedade falsa dos séculos 19 e 20 (até os anos 50) queria atribuir uma cor de pele morena, quase branca, ao nosso santo, como se não ficasse bem a glorificação nos altares da raça negra. Assim como Benedito, também santo Elesbão e santa Efigênia são de cor negra e deram muitas glórias ao Senhor e à Igreja.
                                                                            
    Humilde foi a origem do santo negro. Benedito era filho de Cristóvão Manasseri e Diana Larcan, descendentes de escravos trazidos da Etiópia, África, para a Sicília, Itália. O pai fora escravo de um rico senhor, Vicente Manasseri, e dele recebera o sobrenome. Diana, sua mãe, fora libertada por um cavalheiro da Casa de Lanza. E como os escravos tomavam o nome de seu senhor, veio a chamar-se Diana Larcan ou de Lanza.

Casados, Cristóvão e Diana viviam como bons cristãos, fiéis à Lei do Senhor e humildes, numa vida de oração e trabalho. Sua mãe, conforme consta no processo de beatificação de são Benedito, era devota fervorosa do Santíssimo Sacramento e extremamente caridosa para com os pobres, dons que Benedito herdaria por toda a vida. Cristóvão era fervoroso, voltado para Deus, à família e ao trabalho. Recitava diariamente com edificante piedade o Rosário de Maria e o ensinava a quantos com ele trabalhava. Diante dele ninguém blasfemava ou dizia obscenidades. Tantas vezes podia, aproximava-se da Mesa Eucarística. Mereceu a confiança dos patrões, pela honestidade e retidão que o caracterizavam no trabalho. Por isso, foi nomeado chefe dos trabalhadores. Dispunha os seus bens em favor dos mais pobres.

Um fato que chama a atenção na vida do pai de Benedito: por ciúmes, alguns companheiros de trabalho o caluniaram, dizendo que ele dilapidava os bens do patrão em nome da caridade. O honesto feitor viu-se do dia para a noite deposto de seu cargo, sofrendo vergonha e humilhação. Deus veio em seu socorro: os negócios de Manasseri não iam bem e sua terras já não produziam como antes. Morriam seus animais e seus campos eram vítimas de pragas. O patrão percebeu a injustiça que havia cometido e mandou chamar Cristóvão e o reintegrou no cargo de ofício, com mais poder  e autoridade que antes. Fez ainda mais: deu ao escravo piedoso e fiel, toda a liberdade para socorrer os pobres que o procurassem. Deu muitas esmolas e os negócios de Manasseri prosperaram.
Outro fato que chama a atenção nos pais de Benedito é de que fizeram voto de castidade ao contraírem matrimônio, vivendo na penitência, no trabalho e na oração. Foi o patrão quem persuadiu os pais a exercerem seus direitos de matrimônio, prometendo dar liberdade aos seus descendentes. Assim o fizeram, assim nasceu Benedito, fruto de uma bênção especial de Deus: Bendito! Bendito! Bendito! Era o ano de 1524. Nasceu livre quanto à condição, e mais livre quanto à santa liberdade dos remidos pelo Sangue do Cordeiro. Dele se dizia: negro e muito formoso, devido os traços finos de seu rosto.


A formação cristã do pequeno Benedito se deve à sua mãe, Diana, virtuosa e rica da graça do Senhor. Benedito crescia em idade, sabedoria e graça diante de Deus e dos homens. Cristóvão e Diana, repartindo o tempo entre a oração, o trabalho e a educação de seu primogênito, viviam santamente e Benedito era levado à Igreja pelas mãos paternas. Tiveram outros filhos: Marcos, Baldassara e Fradella. Esta se casou com um escravo chamado Antonio Nastasi, com o qual teve uma filha, Violante, que mais tarde entrou para um convento da Ordem Terceira de São Francisco, recebendo o hábito de seu tio Benedito. Chamou-se Sóror Benedita e viveu santamente. Morreu em Palermo, e há testemunhas que atestam milagres operados por Deus com a sua intercessão.

Benedito foi pastor de ovelhas. Foi muito fiel ao seu dever. Enquanto pastoreava, rezava piedosamente o Rosário. Procurava os lugares mais afastados, pelos altos montes, com boa pastagem e água para seu rebanho, para poder também orar e meditar. Certa vez, o encontraram escondido em uma gruta, num momento de folga, de joelhos, olhos fixos no céu, todo arrebatado em êxtase. A partir desse dia, nunca mais o ridicularizaram.

Aos dezoito anos, Benedito se abrasou no amor do Senhor e demonstrou interesse em se dedicar totalmente a Jesus. Com sacrifícios, conseguiu comprar uma junta de bois, e com eles passou a ganhar alguns trocados e socorrer os pobres. Isso durou até completar vinte e um anos de idade.

Frei Jerônimo Lanza, natural de San Marco, abandonou o mundo e se recolheu com alguns companheiros num eremitério de Santa Dominica, na região de Caronia. O Papa Júlio III autorizou aos novos eremitas professarem a Regra Seráfica de São Francisco, juntando ainda aos votos de pobreza, obediência e castidade, o voto de vida quaresmal, que os levava a jejuar três dias por semana.

Numa de suas viagens, Jerônimo conheceu Benedito, que num momento de descanso era injuriado e zombado pelos companheiros de trabalho por causa da cor da pele. Frei Jerônimo ouviu e repreendeu severamente os injustos e lhes disse em tom profético: "Ah! Hoje fazeis caçoada e ridicularizais este pobre negrinho; mas daqui a poucos anos vereis a sua fama correr  todo o mundo!".  Voltando-se para o patrão lhe disse: “Eu vos recomendo muito este moço porque logo ele virá em minha companhia e se há de tornar  um santo religioso”!

Alguns dias depois, Frei Jerônimo voltou àquele lugar e diz ao ver Benedito: “Que fazes aqui? Vamos! Vende estes bois e vem comigo”.  Benedito não teve dúvidas e o seguiu. Seus pais, não obstante necessitassem da ajuda monetária do filho, não se opuseram à vocação do filho.

Os irmãos Eremitas Franciscanos levavam vida austera, em extrema pobreza. Mendigavam o pouco de pão nas vizinhanças, e tinham algumas ervas e água para sustentar. A habitação era paupérrima, estreita e sem conforto. Vestiam-se de grosseiro pano e passavam longas horas em oração. Depois da sua profissão solene, Benedito quis usar um manto parecido com o de São Paulo Eremita, feito de folhas de palmeira, com um capuz de lã muito velha protegendo a cabeça. Em 1562, contando o santo com 38 anos de idade, o Papa Pio IV, ouvindo os apelos de eremitas que não suportavam os rigores do 4º voto, o de vida quaresmal, ordenou que os eremitas de frei Jerônimo se recolhessem a qualquer dos conventos franciscanos regulares, dispensando-os do 4º voto.

Benedito, indeciso quanto ao convento em que se recolheria, foi orar na Catedral Metropolitana de Palermo, diante da imagem de Nossa Senhora, sob o título de Madona di Libera Inferni e, chorando, pediu a intercessão da Mãe para a sua escolha. Ouviu a voz da Mãe falando no seu coração: “Meu filho, é vontade de Deus que entres para a Ordem dos Frades Menores Reformados”: Sua vocação estava resolvida! Agradecendo à Maria, foi imediatamente ao Convento de Santa Maria di Gesú, a duas milhas de Palermo.

Fatos importantes da vida de Benedito no Convento de Santa Maria di Gesú:



  1. Foi recebido em festa pelo Guardião dos Franciscanos, Frei Arcângelo de Scieli, que conhecia sua fama de santidade.

 2.    Depois de poucos dias, foi enviado ao Convento de Sant'Ana di Giuliana, um dos mosteiros mais fervorosos da Ordem;

 3. Após três anos, voltou ao Convento de Santa Maria di Gesú, onde ficaria até a morte;

4.    Seu primeiro ofício foi o de cozinheiro, juntando a atividade de Marta à contemplação de Maria (Lucas 10, 38-42). Fez da cozinha um santuário de oração, vivendo sempre alegre e cheio de mansidão para com todos;

5.    Início dos prodígios: o Capítulo da Ordem iria se realizar no Convento. Devido à neve, os frades não poderiam mendigar conforme a Regra estabelecia. Por descuido, o Superior não providenciou o necessário. Como a situação era grave, Benedito chamou um de seus auxiliares e o mandou encher umas vasilhas de água. Diante do espanto do Irmão, que sabia não haver carnes ou peixes para a refeição, Benedito replicou: enche as vasilhas e cobre-as com tábuas. Recolheu-se aos seus aposentos e pôs-se a rezar. Ao amanhecer, chama seu auxiliar e vão à cozinha. Ali ocorreu o milagre: grandes peixes, suficientes para várias refeições, estavam nas panelas;

6.    Certo dia a carne chegou atrasada e os frades começaram a pedir a mesma. Benedito disse que a mesma estava ao fogo há poucos minutos, mas iria ver o que fazer. Encontrou a carne bem temperada, cozida e pronta;

7.    Trinta operários prestavam serviços voluntários no convento. Certo dia, porque vieram sem prévio aviso, encontraram as despensas do convento vazias. Benedito pôs-se em oração e serviu farta refeição aos operários e ainda sobraram alimentos para a despensa;

8.    Sem lenha para o fogão, Benedito subiu ao monte e encontrou uma grande árvore derrubada por raio. Seriam necessários vários homens fortes para conduzirem a mesma. No entanto Benedito a colocou no ombro sem nenhum esforço, causando espanto a todos os que viam a cena;

9.    O Arcebispo de Palermo, Dom Diogo d´abedo, gostava de se recolher uns dias para descansar e rezar no Convento de Santa Maria di Gesú. Vindo para as festas do Natal, trouxe consigo grande quantidade de víveres. Na missa da aurora do Natal, frei Benedito, abrasado de santo amor, vai receber a Santa Comunhão. Sente o Menino Jesus em seu coração como no presépio de Belém. Chora ao contemplar um quadro ao lado do Altar. Caiu em êxtase, ficando ali várias horas arrebatado, sem pensar nos trabalhos da cozinha. Quando estava para começara Missa solene Pontifical, o Superior foi à cozinha e viu o fogo apagado. Clamou por Benedito, reclamando o almoço para logo depois da Missa. O Convento ficou em polvorosa, para não fazer feio diante do Arcebispo. Foi o turiferário quem encontrou Benedito a contemplar o Menino Jesus, chamando sua atenção quanto ao almoço. A resposta de Benedito o desconcertou: “Não se aflija, irmão”! Após a Missa, acendeu uma vela e voltou a rezar. Os irmãos o injuriavam, revoltados com a preguiça e o descaso do frade negro. Viam a vergonha diante dos olhos. Benedito calou-se e calmamente acendeu o fogo. Quando chegou o horário da refeição e o Superior ordenou a arrumação da mesa, viram dois belos "jovens" (eram anjos) acabando de preparar suculento banquete para o Arcebispo e todos do convento. As injúrias se transformaram em louvores e graças ao Senhor e ao humilde servo.

* Benedito era leigo e analfabeto. Mesmo assim, tornou-se Superior do Convento e modelo admirável no governo daquela casa.

* Em 1578, reuniu-se o Capítulo Provincial dos Franciscanos no Convento de Santa Maria dos Anjos, em Palermo. Houve a separação da Reforma e da Observância da Regra, sendo que o Convento onde Benedito morava passou à Ordem Reformada.
Frei Benedito foi eleito Superior, por sua santidade e servidão. Enquanto todos se alegravam, Benedito se entristeceu e procurou o Padre Superior, rogando que o liberasse desse cargo, pois era analfabeto e ignorante. Seu Superior não o liberou e, em nome da Santa Obediência declarou: Doravante serás o Superior do Convento de Santa Maria di Gesú. A Benedito coube somente obedecer;

* Sua firmeza e observância das Regras faziam com que o Convento tivesse uma vida ativa e cheia de graça; alguns autores dizem ter sido Frei Benedito Mestre de Noviços. Há autores que discordam, pois esse cargo era exercido somente por Presbíteros. Mas a dúvida continua, pois já havia acontecido a exceção quando Benedito foi indicado para o cargo de Superior, exercido também por um Presbítero; os noviços tinham grande admiração por Benedito e tinham nele um grande conselheiro;

* Benedito tinha o Dom da Ciência Infusa. Sem saber ler ou escrever, conseguia dar aulas sobre todos os assuntos ligados à Religião, à Ordem ou à Fé. Tinha muita clareza, espírito e unção. Teólogos e Mestres ouviam atentamente o grande santo;

* Segundo Frei Giacomo di Pazza, uma das testemunhas do processo de beatificação, não se passava um dia sem que acontecesse um prodígio operado pela intercessão de São Benedito.

* Um dos milagres operado em vida: várias senhoras, num carro puxado por cavalos, sofreram um grave acidente, no qual D. Eleonora caiu sobre uma criança de cinco meses de idade, tendo a criança morrido asfixiada.    Diante do desespero de todos, Benedito tomou a criança nos braços, põe a mão na testa gelada e recita algumas orações. Entregando a criança, disse: a senhora já pode amamentar a criança. A criança morta, em contato com o seio da mãe, adquire vida novamente e suavemente suga o leite da mãe (na imagem tradicional, São Benedito está carregando essa criança, e não o Menino Jesus, como muitos acreditam).

* Uma criança morreu esmagada sob o peso do pai e do carro puxado por cavalos em que estava. Pedindo confiança em Deus e em Nossa Senhora, Benedito toma nos braços a criança, enquanto inicia a oração. Ao fazer o  sinal da Cruz sobre a criança, esta abre os olhos e pôs-se a chorar e gritar. Ressuscitara maravilhosamente

* Também um cego recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre os olhos; outro cego, que perdera a visão há um ano, sem conseguir resultados com os médicos, recupera a visão quando Benedito lhe faz o sinal da Cruz sobre os olhos;

* Incrível! Até um cavalo é ressuscitado por Benedito, o cavalo que era do serviço do Convento e que caíra num abismo;

* Após servir os pobres, Frei Vito vira chegar soldados espanhóis famintos e sedentos. Assustado, viu que havia poucos pães em seu cesto. Instado por Benedito a servir os soldados, percebeu que o cesto não se esvaziava e assim pôde alimentar grande contingente de soldados;

* um pescador pobre, pai de sete filhos, não conseguia pescar um mísero peixe sequer. Vendo a aflição do pobre homem, Benedito orou e o pescador viu quantidade inacreditável de peixes em sua rede;

* Muitas curas físicas foram realizadas por Deus sob a intercessão de São Benedito, em vida e após a sua morte.

Em fevereiro de 1589 Benedito caiu gravemente enfermo. Embora seu médico, de grande fama na região, previsse sua morte, Benedito o alertou que ainda não havia chegado sua hora. Portanto, recuperou-se. Em março tornou a adoecer, com uma febre muito alta. Nenhum remédio o aliviava. Previu então sua morte e fez um pedido estranho: "enterrem logo o meu corpo para que não tenham contrariedade".

    Recebeu a Unção dos Enfermos e o Viático, preparando-se para o encontro com o Senhor. Não aceitou ainda a colocação das velas em suas mãos, pois avisaria quando chegasse a hora. Recebeu a visita de santa Úrsula e as onze mil virgens em visão. Daí poucos minutos, chamou frei Guilherme e mandou que acendesse a vela e pusesse em suas mãos. Era chegada a hora. Exclamando  "Jesus! Jesus! Minha Mãe doce Maria! Meu pai São Francisco", Benedito faleceu na paz do Senhor. Eram 19 horas de 04 de abril de 1589, terça-feira de Páscoa, aos 65 anos de idade, dos quais passara 21 anos no mundo, 17 no Eremitério e 27 na Ordem Franciscana.


Corpo incorrupto de são Benedito


A profecia de que era preciso enterrar logo o seu corpo, cumpriu-se após o velório. Multidão invadiu o Convento querendo relíquias ou lembranças do grande santo. Em 07 de maio de 1592, seu corpo foi transladado pela primeira vez. Do seu corpo exalava sublime perfume, sendo seu corpo encontrado em perfeito estado de conservação, sem uso de qualquer produto químico. Em 03 de outubro de 1611 foi feita a segunda transladação do corpo, colocado em urna de cristal. Ainda hoje continua conservado, exposto em urna mortuária para visitação pública, numa Capela lateral da Igreja de Santa Maria, em Palermo, Itália.


(Fonte: São Benedito, o Santo Negro - Monsenhor Ascânio)


Relíquias de são Benedito: o hábito que o santo
usava em vida. 


Estátua "tradicional" de são Benedito, trazendo
um "menino" ao colo. Conforme vimos, não
se trata do Menino Jesus, mas, da criança
ressuscitada através da oração do santo. 
São Benedito: outro modelo de iconografia do
santo.