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sábado, 12 de abril de 2014

Beato George Häfner, OCDS, Presbítero e Mártir


        Nós da OCDS (Ordem dos Carmelitas Descalços Seculares) temos mais um dos nossos que foi reconhecido como bem-aventurado pela Santa Igreja: o Beato George Häfner. Hoje trago ao conhecimento dos leitores do blog um resumo de sua vida, marcada pela fidelidade a Deus e à igreja, fidelidade essa que levou-o a testemunhá-la pela morte gloriosa do martírio. 


Würzburg-Alemanha (16/05/2011) – Pela primeira vez em 1300 anos de história de Würzburg, teve lugar uma beatificação; e era a do sacerdote mártir de Dachau, George Häfner (pronuncia-se “réfner”), ocds.
Nasceu em Würzburg em 1900. Desde a época de acólito, manteve uma estreita relação com as monjas carmelitas descalças de Würzburg, onde, em 1920, ingressou na Venerável Ordem Terceira (assim era conhecida a Ordem Secular naquela época) com o nome religioso de “Aloísio do Santíssimo Sacramento”.
Após seus estudos filosóficos e teológicos, foi ordenado sacerdote no dia 13 de abril de 1924 e “cantou” sua primeira Missa no dia 21 de abril.

Depois de haver desempenhado seu labor pastoral em diversas paróquias, no dia 12 de novembro de 1934 foi nomeado pároco da paróquia de Oberschwarzach, coincidindo sua atividade pastoral como pároco com a chegada ao poder de Adolf Hitler.
Rapidamente entrou em “choque” com as ideias e interesses dos agentes de Hitler, já que não fazia nunca a típica saudação nazista e defendeu sempre a doutrina e os direitos da Igreja.
Foi preso no dia 31 de outubro de 1941 e levado ao campo de concentração de Dachau em 12 de dezembro de 1941. Ali, como fiel sacerdote, estava exposto a toda classe de tormentos e injustiças, mantendo em todo momento uma atitude heroica ante cada humilhação e mau trato.

Foto do Beato George Häfner no dia que
foi preso pela polícia nazista, a Gestapo. 
Suas cartas escritas em Dachau dão testemunho de sua profunda fé e de sua capacidade de perdoar a seus verdugos. Uma de suas últimas frases ditas no campo de concentração foi: “Não queiramos maldizer a ninguém e nem tomar vingança. Queremos ser bons para com todos”.  Finalmente, esgotado pela enfermidade e, sobretudo, pela fome, morreu em 20 de agosto de 1942.
No dia 15 de maio de 2011, o cardeal Ângelo Amato, delegado do Papa Bento XVI, beatificou a George Häfner, ocds, determinando o dia 20 de agosto como dia de sua memória.
Que no Céu, nosso querido beato George interceda por todos nós, carmelitas descalços seculares, seus coirmãos, para que sejamos fiéis à nossa vocação humana-cristã-carmelitana e para que nossa amada Ordem se espalhe e irradie a luz de Cristo e da Virgem Maria por todo o mundo.

Beato George Häfner, rogai por nós!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Frei Miguel Ângelo Serafini, Presbítero Capuchinho



A pedido de nosso irmão Moisés da Cruz, ocds, membro da Comissão de Formação e responsável pela Escola de Formação Santa Edith Stein e que é natural de Aracaju - SE,  publico algumas matérias sobre o Frei Michelângelo de Cíngoli (Michelângelo Serafini), mais conhecido como Frei Miguel Ângelo, frade capuchinho italiano que viveu a maior parte de sua longa vida (faleceu com 104 anos) como missionário no Estado do Sergipe.
O religioso faleceu com grande fama de santidade e estima pública. Portanto, já existe um movimento dos confrades de sua Ordem e da Arquidiocese de Aracaju para encaminhar sua causa de beatificação para o Vaticano. Lembro aos leitores do blog que o processo diocesano (a primeira fase do processo de beatificação/canonização de um candidato aos altares) somente pode começar após pelo menos 05 anos da morte do candidato. Claro que isso não impede a grande veneração do povo e o túmulo do futuro servo de Deus já é bastante visitado, no qual orações são feitas a Deus para alcançar graças com a sua intercessão. Esperamos que em breve sua causa seja aceita e que um dia seja mais uma estrela gloriosa a ornar os nossos altares, pois, já orna o Trono do Altíssimo a quem tanto amou e tão perfeitamente serviu na terra.


Notícia publicada no jornal em 31/10/2012, portanto, antes de sua santa morte:

Frei Miguel Ângelo celebra 104 anos com missa em Aracaju
Fiéis celebraram a data na Igreja dos Capuchinhos no Bairro América. Religioso dedicou quase 80 anos de vida aos trabalhos comunitários.

“A noite desta terça-feira (30) na Igreja dos Capuchinhos, localizada no Bairro América, Zona Oeste de Aracaju, foi de celebração e festa pelos 104 anos do Frei Miguel Ângelo, que dedicou 77 anos da sua vida aos trabalhos comunitários na região. Os fiéis católicos lotaram a missa festiva e cantaram os parabéns ao homenageado.
Mesmo com a saúde um pouco abalada Frei Miguel assistiu toda a programação em uma cadeira de roda. Para a estudante universitária Lucineide Gomes dos Santos, o franciscano deu grandes contribuições à comunidade. ‘Ele fez uma verdadeira revolução no Bairro América com seus trabalhos humanitários. Um verdadeiro símbolo religioso’, comenta a universitária que faz referência a ajuda do padre na construção da Igreja São Judas Tadeu.
Frei Florêncio da ordem dos Capuchinhos de Aracaju também reafirma a opinião da estudante Lucineide. ‘Padre Miguel é uma figura representativa da Igreja Católica em Sergipe. Sempre atuou no trabalho apostólico aqui no bairro, além de já ter liderado missas em várias outras partes do estado’, comenta.

77 anos de trabalho comunitário

Michelângelo Serafini é italiano da cidade de Cíngoli, província de Macerata. Ingressou na ordem dos capuchinhos em 1925 vindo ao Brasil como missionário após ter sido ordenado em 1934. Aqui no país ficou conhecido popularmente como Frei Miguel.
Antes de se estabelecer em Aracaju, trabalhou nas paróquias de Santa Rosa de Lima, Divina Pastora, Rosário do Catete, Maruim e Santo Amaro. Quando chegou à capital recebeu a missão de construir a primeira igreja capuchinha da cidade.
Com quase 80 anos de atuação dos trabalhos comunitários, hoje Frei Miguel é um exemplo de vida para muitos seguidores.
‘Sou gaúcho, mas conheci o Frei há 30 anos quando me casei nesta igreja de Aracaju. Sempre que posso venho aqui e sou muito bem recebido por ele. Apesar da idade Frei Miguel ainda está lúcido e tem energia. Esperamos que ele seja beatificado pelo Vaticano’, acredita o militar Paulo Ademar”.



Testemunho de um confrade seu capuchinho:

Frei Miguelângelo Serafini, acaba de completar 104 voltas  ao redor do Sol, ele mesmo um raio de sol para quem recebeu a graça de conhece-lo.

Quem olha atentamente para esse homem de Deus - hoje com os estigmas da passagem do tempo bem visíveis em seu corpo, mas sempre com o brilho das estrelas nos seus olhos -não pode deixar de maravilhar-se   com a sua transparência. Frei Miguel é qual uma janela, uma window, aberta para o alhures e apontando para o site de Deus, onde não entra nenhum tipo de vírus. Só leveza e amor. 



Li, se não me engano em Rubem Alves, que quem lê um livro de teologia não tem acesso a Deus, mas ao coração do teólogo, que O desenha e pinta com traços e cores tirados de dentro de si. Quem lê esse texto humano, que é Frei Miguel, tem acesso, quase direto, ao coração de Deus. Ele torna Deus evidente.  Por isso mesmo, as pessoas que dele se acercam, querem tocá-lo. Porque dele continua saindo uma Força apaziguadora.

Comecei meu noviciado em Aracaju, junto com três companheiros de sonho.  O que nosso mestre, Frei Urbano, nos dizia acerca de São Francisco (que era um irmão menor, cheio de bom senso, bom gosto e bom humor), nós o encontrávamos, materializado, naquele frade de sorriso maroto, de poucas palavras, com observações sempre concisas e certeiras, quase no estilo dos koans dos mestres zen ou dos apotegmas dos Padres do Deserto.


Hoje – já se passaram 40 anos –, quis a Providência divina que eu voltasse a compor aquela Fraternidade. Quando Frei Rubival me comunicou que eu iria morar em Aracaju, pensei logo na honra e na alegria que seria, para mim, morar perto de Frei Miguel.

E assim tem sido. Do alto dos seus 104 anos, nosso Miguilim (uma vez, venci a timidez e o chamei assim, e parece que ele gostou...) continua irradiando a bondade e a beleza do Grande Mistério. Sempre magnânimo, lembra um mahatma, um roshi, um discípulo de Jesus Cristo. Os sergipanos o veneram. E ele, na medida do possível, os atende com a mão que diz a palavra boa. Que abençoa. Com aquele sorriso, tímido e generoso, que é um dos sinais que mais o distinguem.

Tanto poderia testemunhar sobre Frei Miguel. Não podendo, entretanto, exceder o limite do que me foi pedido, digo, last but no least, que Frei Miguel não é apenas um irmão menor; ele é, como  no-lo revelou São Francisco no seu Testamento, o menor dos irmãos. O que para nós outros ainda é adjetivo e utopia, em Frei Miguel já é, visivelmente, um substantivo, uma eutopia. Sendo na prática o menor dos servos, ele nos desvela o maior segredo de Deus: Sua alegria e Sua simplicidade. Seu amor.

Frei José Edilson Bezerra OFMcap.



Notícia da morte do Frei Miguel publicada em 09/01/2013

Morre aos 104 anos, Frei Miguel Ângelo. O Frei, devido à idade avançada, vinha enfrentando problemas de saúde.

Foi em outubro do ano passado que centenas de fiéis e admiradores do trabalho de Frei Miguel Ângelo de Cíngoli, se reuniram na paróquia São Judas Tadeus, popularmente conhecida como Igreja dos Capuchinhos, para comemorar os seus 104 anos. Nessa quarta-feira (9), no entanto, os mesmos fiéis e admiradores se unem para a despedida. Frei Miguel morreu por volta das 6h de hoje.

Em junho de 2012, o frei foi internado no Hospital São Lucas. Na ocasião, a informação era que o frei estava sem querer se alimentar e precisou ser internado para recuperar as forças. Segundo os médicos, ele não sofria de doença nenhuma, nem diabetes, nem colesterol, não nada do tipo, apenas fraqueza por conta da idade.

Exéquias do Frei Miguel celebradas pelo Arcebispo de Aracaju, bispo
auxiliar e vários representantes do clero, bem como pelos confrades. 



Autoridades civis, eclesiásticas e o povo em geral lotam a igreja onde seu
corpo foi velado. 




O povo, com grande emoção, se despede do "frei santo", Frei Miguel
Ângelo, o "Santo de Aracaju". 


Adorado, não só pela comunidade em que se instalou na década de 60, o frei nasceu no ano de 1908, em Cíngoli, na Itália, e aprendeu desde cedo o espírito de sacrifício. Entrou no Seminário dos Frades Menores Capuchinhos da Província das Marcas de Ancona em 04 de outubro de 1926 e ordenou-se em 29 de julho de 1934 quando recebeu o nome de Frei Miguelângelo de Cíngoli.   Vindo para o Brasil no ano de 1935, fixou-se na Bahia onde lecionou para seminaristas e noviços.

Exerceu atividades missionárias também nos municípios baianos como Entre Rios, Rio Real, Jandaíra e Redondezas. Frei Miguel chegou à Aracaju em 1963 por designação da ordem e aqui exerceu o melhor da sua atividade pastoral e missionária.   São muitos anos de trabalhos exercidos com amor e perseverança com a comunidade de todo o Estado de Sergipe.

Na década de 70 e 80 o religioso foi vigário de Maruim, Santo Amaro, Rosário do Catete e General Maynard. Mas foi em Aracaju, especificamente no bairro América, que Frei Miguel marcou presença sempre paciente na hora de atender e ajudar a população.    


Seu venerável corpo foi velado na Igreja dos Capuchinhos, no bairro América, em Aracaju.

São João Batista de la Salle, Presbítero e Fundador dos Irmãos das Escolas Cristãs (Lassalistas)



“O verdadeiro apóstolo tem de sofrer e dar sangue de alma pela obra que deseja realizar” (São João Batista de La Salle).


Organizador do ensino primário católico gratuito

Era o ano de 1651. Na França, era a época do reinado do rei Luis XIV. Foi neste período que nasceu, na cidade de Reims, João Batista de La Salle, filho de Luis de La Salle – conselheiro de Luis XIV – e Nicole Moët. Era o mais velho de onze irmãos.

Nascido numa família muito religiosa, La Salle desde cedo sentiu uma forte inclinação para o sacerdócio. Aos dez anos entrou para o colégio dos “Bons Enfants” (Bons Meninos). Foi nesta mesma época que pediu aos seus pais para ser sacerdote, obtendo o seu consentimento. Logo entrou para o seminário de São Sulpício, em Paris.

Quando tinha quinze anos foi nomeado cônego da catedral de Reims, posição muito avançada para um menino de sua idade, mas assumida com responsabilidade. Só para ter uma idéia, do corpo de cônegos de Reims haviam saído quatro papas, 43 cardeais, 28 bispos e um santo. Estaria La Salle destinado a ser mais uma das personalidades a fazer história?

Em 1678, após licenciar-se em Filosofia e em Teologia, La Salle ordenou-se sacerdote, celebrando a sua primeira missa na catedral de Reims. Após ordenado sacerdote, La Salle passou a ser diretor espiritual de algumas Comunidades Religiosas, além de continuar o seu ofício na Catedral.

Nesse época, em Rouen, uma senhora fundara uma escola gratuita para meninas órfãs. Em Reims, quiseram imitar esse exemplo, mas para os meninos. Adrien Nyel, encarregado de iniciar as suas funções de educador nessa cidade, foi hospedado por São João Batista, que escreveu então: “Se, [antes de abraçar minha vocação], eu soubesse que a simples caridade que eu tomava para com os mestres de escola, transformar-se-ia no dever de morar com eles, eu os teria abandonado. Porque como eu colocava abaixo de meus criados as pessoas que trabalhavam em escolas, o único pensamento de que seria obrigado a viver com eles me pareceria insuportável”.
E assim começou a missão de São João Batista. A organização do ensino primário católico gratuito, e dos Irmãos das Escolas Cristãs.

Em 1679 surgiu a primeira escola lassalista. Foi muito difícil, especialmente em se tratando de encontrar mestres, uma vez que naquele tempo não havia tanta facilidade em se conseguir professores, e ainda os mesmos não eram formados.

Aos poucos a obra foi crescendo e novas escolas gratuitas foram surgindo. Nyel, porém, era um sonhador e não se preocupou muito com o tamanho da expansão da obra. E logo acabou deixando La Salle sozinho para tomar conta de tudo.

Com a preocupação de preparar bem os professores, La Salle tomou a decisão de reuni-los na casa de sua família. Mas, sendo homens rudes, não foram bem aceitos e La Salle acabou alugando uma pequena casa onde poderia morar com eles e ao mesmo tempo iniciá-los na arte de educar. Estava, assim, criada a primeira Escola Normal, e também o núcleo da congregação dos Irmãos das Escolas Cristãs (Irmãos Lassalistas).



Sofrimentos e injúrias

Foram muitas as dificuldades: os mestres não demonstravam vocação, nem perseverança. Além disso, as escolas de La Salle, por serem gratuitas, recebiam franca oposição das outras escolas que eram pagas. Os donos de escolas pagas saqueavam as escolas lassalistas, queimavam o material, quebravam tudo... além de processarem La Salle diversas vezes alegando maus tratos para com os alunos.

 
Uma das ações de La Salle foi doar todos os seus bens aos pobres, além de renunciar ao cargo de Cônego em favor de um sacerdote muito pobre. Os próprios irmãos não gostaram nada disso e murmuraram contra o santo achando “um absurdo” mesmo ter abjurado de toda a sua fortuna, podendo utilizá-la para eles mesmos que passavam necessidade. Porém, La Salle desejava outra coisa: que sua obra fosse totalmente dirigida pela Divida Providência e não por “recursos financeiros”. A partir do momento em que fez isso, os Irmãos e as escolas passaram a viver confiando apenas na providência de Deus. E, felizmente, embora às vezes tenha faltado comida, sempre tiveram alguma coisa com que repartir com quem precisava mais do que eles.

Organizado o Instituto e as escolas, começaram as perseguições dos mestres-leigos. Seu hábito simples mereceu-lhe vaias na rua e a injúria de lhe lançarem lama no rosto.


Amarguras até “entrar na terra prometida dos eleitos”

Mais tarde, difundindo a comunhão freqüente, e recebendo cheio de alegria e submissão a bula “Unigenitus”, João Batista é atacado pelos jansenistas, e abandonado pelos próprios irmãos. Idoso e alquebrado por suas austeridades, em 1717, la Salle pensa em descansar no noviciado de Saint Yon, mas o padre que o serve em suas doenças, o maltrata. E dois dias antes de sua morte, em suas querelas religiosas, o arcebispo de Rouen tira-lhe todos os poderes, como a um padre indigno.
“Espere — diz João Batista com um sorriso — que logo serei libertado do Egito, para ser introduzido na verdadeira terra prometida dos eleitos”. E ele conseguiu isso, na Sexta-Feira Santa de 1719.


Relaxamento do empenho apostólico

Para bem situarmos a pessoa de São João Batista de la Salle em meio às vicissitudes por ele vividas, devemos considerar que, naquela época, em virtude das guerras de religião — muito exacerbadas na França — entre protestantes e católicos, que desorganizaram profundamente a estrutura eclesiástica da Igreja Católica, de um lado; de outro, em virtude do fato de que os efeitos salutares da Contra-Reforma haviam passado, estava se reintroduzindo nos fiéis, e também no clero, um grave relaxamento de costumes e de empenho apostólico.

Como resultado dessa tibieza, procurava-se muito o apostolado junto aos mais ricos, aos nobres, às pessoas importantes da corte, aos magistrados, enfim, às pessoas que, a qualquer título, tivessem um situação social. Em contrapartida, desdenhava-se o apostolado junto aos pobres e, especialmente, os meninos carentes. Noutros termos, favorecia-se antes as relações que pudessem trazer vantagens, com detrimento para a gente desprovida de recursos. Resultado, imensa quantidade de crianças do povo crescia sem ter formação ou ensino religioso.


À procura dos abandonados

Ora, São João Batista de la Salle nascera numa família de magistrados e, portanto, de certa categoria. Além disso, tornou-se cônego, e os cônegos naquele tempo possuíam rendas. Poderia ele, portanto, seguir o movimento geral e candidatar-se com seu título de cônego para freqüentar meios mais gabaritados que os dele. Poderia almejar uma boa carreira eclesiástica, eventualmente como bispo, talvez cardeal. Entretanto, São João Batista de la Salle segue uma orientação diversa.

Pessoa modelar que era, abnegado, desinteressado dos bens desse mundo, vai procurar aqueles que estão sendo abandonados, e constituiu uma congregação religiosa de irmãos leigos, especialmente destinados a ensinar a religião para as crianças.

Catequista primoroso

Há outro aspecto que merece ainda mais nossa consideração. São João Batista de la Salle foi um exímio professor de catecismo, e desempenhou essa função santamente, ou seja, perfeitamente. Existem modos de lecionar o catecismo em nível primário, de maneira que se marque o rumo da alma para a vida inteira. E pessoas há que se mantiveram firmes na virtude e no ideal católico, ao longo de toda a sua existência, por causa de uma catequese bem dada. São João Batista de la Salle foi desses primorosos catequistas, ensinando os fundamentos do catolicismo com toda a atenção, o recolhimento e a influência que pode haver na lição de catecismo proferida por um santo.

Mas, fez ele coisa muito melhor. Não apenas deu aulas, como fundou uma congregação religiosa voltada para a catequese no ensino primário. Ou seja, suscitou vocações de homens que deixaram o mundo para se consagrar exclusivamente ao ensino do catecismo. Portanto, milhares de pessoas que, desde aquela época, têm passado a maior parte de suas vidas nessa nobre tarefa.



Sofrimentos e contrariedades

Agora, em torno dessa linha mestra, de um traçado límpido como um canal, aparecem as sinuosidades dos sofrimentos, das dificuldades, das oposições que ele encontrou à sua frente. Cumpre tê-las presente, para se contemplar, na sua verdadeira perspectiva, a vida e a obra de São João Batista de la Salle. É bela a luta que ele teve de enfrentar contra tantas incompreensões, das quais as mais dolorosas vieram da parte dos seus próximos.

Uns se arrepiaram diante de um quotidiano confiado apenas à Providência, sem rendas nem patrimônios garantidos: “O senhor é cônego, tem bom ordenado, é fácil confiar na Providência quando, todos os meses, cai um montante na sua bolsa. Mas, para nós, coitados, onde está o nosso dinheiro? Queremos patrimônio”!
 São João Batista de la Salle renuncia ao seus próprios bens, e a reclamação passa a ser outra. Ele diz:

 — Pronto. Estou pobre como vocês.
— Que loucura! Dispensar esse dinheiro! Era só o que tínhamos! É um crime!

Ou seja, aqueles mesmos que deviam apoiá-lo e ajudá-lo na sua obra, não compreendiam todo o alcance do que ele desejava fazer. Muito lhe terá custado passar por essas adversidades, até que os horizontes se clareassem e seus seguidores se pusessem à altura do santo.

Outra contrariedade a vencer: tornar-se professor primário. Percebe-se pela narração que ele, em virtude da formação que recebera na família, não tinha em grande conta a figura de mestre-escola, “colocando-a abaixo de seus criados”. A Providência bate à porta de sua alma e lhe chama: “Meu filho, convido-o para ser professor primário e catequista”. Sem hesitação, ele deixa as honrarias e antigos hábitos, aceita o chamado e passa a viver no meio dos professores primários. Pode-se bem conjecturar que São João Batista esperasse encontrar, entre esses últimos, uma acolhida amável e um trato afetuoso. Não! Mais incompreensões, vistas limitadas, estupidezes.



Regou com o próprio sangue a árvore de sua obra

Ele adota uma vestimenta muito simples, para indicar a modéstia da profissão e das suas condições. Em lugar de respeito, as pessoas o vaiam na rua e chegam a jogar-lhe lama no rosto. Para onde se voltasse, encontrava ele recusa e maus tratos. Apesar de tudo, sua obra caminhava e prosperava.
Quer dizer, a Providência quis que ele sofresse tanto para, com os méritos dos seus padecimentos, com seu sangue, regar a semente que lhe fora confiada plantar e fazer vicejar.

Permitam-me chamar a atenção para essa regra da qual não se esquiva nenhuma obra apostólica: o apóstolo autêntico, ou sofre e dá o sangue de alma — mais dolorido e precioso que o do corpo — pelo que deseja realizar, ou absolutamente não é apóstolo.

Todo apóstolo tem de sofrer. E uma das suas aflições mais pungentes é a de se sentir, de um lado, chamado a empreender uma obra, e, de outro, perceber as ondas contrárias que parecem tornar sem sentido o chamado que recebeu. Essa coarctação da vocação, esse enfrentar obstáculos que parecem opor-se à via do Espírito Santo, constitui uma das dilacerações mais penosas que uma alma pode sofrer.

De maneira que São João Batista de la Salle agiu como verdadeiro homem de Deus, suportando todas essas contrariedades. Por fim, a morte o libertou de tudo, e ele encontrou a sua coroa no Paraíso.

As escolas se multiplicavam. Em pouco tempo, eram várias espalhadas pela França. Isso, ao mesmo tempo em que gerava respeito, aumentava o ódio dos demais donos de escola contra La Salle.

O desgaste fez com que ele ficasse muito doente. Sua saúde foi se desgastando e tanto ele como os Irmãos sofreram muito. La Salle chegou a pensar ser ele o culpado por tantos transtornos e afastou-se do Instituto que ele mesmo, com tanto carinho, fundara.

Refugiou-se na Parmênia, uma bela região entre as montanhas, e procurou orientação espiritual com uma irmã com fama de santidade que lá vivia, a irmã Luísa. Porém os Irmãos não souberam viver sem o seu amado pai, e enviaram uma carta ordenando que voltasse e reassumisse a sua missão como Irmão e como superior. Humildemente, La Salle obedeceu.


Alquebrado pela idade (conta já com 68 anos, um número muito elevado para a expectativa de vida na França de sua época), em 1719, La Salle sente-se muito mal. Na quaresma sente que seus dias chegam ao fim. Já havia deixado no ano anterior de ser superior. Na quarta-feira santa pediu os últimos sacramentos e na sexta-feira da Paixão, 07 de abril de 1719, entregou sua alma ao Criador. O comentário que se ouviu nas ruas foi: “Morreu um santo”.



No ano de 1900, João Batista de La Salle passou a ser oficialmente um santo da Igreja Católica. E no dia 15 de maio de 1950, o papa Pio XII proclamou-o padroeiro universal de todos os educadores. Nada mais natural para quem dedicou a sua vida integralmente à causa da educação.

A nós cabe admirar e imitar esse modelo de santidade, de confiança e de resolução que levou a bom termo a obra para a qual a Providência o suscitou. Obra cujos frutos enriquecem e torna mais digna de nosso amor a Igreja Católica Apostólica Romana.

A congregação dos Irmãos Lassalistas, em seus três séculos de história, além de sua grandiosa obra educacional espalhada pelo mundo inteiro (inclusive no Brasil), já concedeu à Igreja muitos santos e bem-aventurados, entre confessores e mártires. 


São João Batista de La Salle, Patrono dos
Professores e Professoras Cristãos.