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domingo, 4 de maio de 2014

Beata Maria Ràfols Bruna, Virgem e Fundadora, heroína da nação espanhola.



Beata Maria Ràfols Bruna, Virgem: “o heroísmo do silêncio”.


Realmente eu gosto muito da vida dessa beata espanhola! Trago hoje ao blog Santos, Beatos, Veneráveis e Servos de Deus mais um relato sobre a vida e obra dessa grande "santa" (as aspas referem-se ao fato de a mesma ser ainda uma beata), famosa naquele país tanto por sua santidade como por seu heroísmo: a beata Maria Ràfols Bruna, a fundadora da Congregação das Irmãs da Caridade de Santa Ana.
Uma filósofa espanhola, Concepción Arenal, uma vez pronunciou uma grande frase que diz: "as grandes obras de caridade tem sempre pequenos princípios, como se necessitassem, em sua origem, do selo da humildade e da modéstia, sem os quais não podem viver".
Esta frase se aplica perfeitamente à vida de Maria Ràfols, que nasceu em Vilafranca de Penedès (Girona), em 05 de novembro de 1781, em Molí d'En Rovira, lugar simples e humilde, filha de agricultores catalães: Cristòfol Ràfols e Margarida Bruna.
Pouco depois de seu nascimento e batismo, em 07 de novembro, a família se translada a outro moinho, o Molì de Mascaró, em Bleda, onde a menina passou sua infância. Não se sabe muito sobre esse período, porém, é provável que fosse pobre e humilde, como qualquer outra menina camponesa.
Muitos testemunhos falam de sua candura e piedade. Em 1794, quando tinha apenas nove anos de idade, morreu seu pai e sua mãe contraiu novo matrimônio com Josep Marcer de Vilanova, pelo que a família se trasladou a Garraf. A situação econômica parece que melhorou, pois há registro de que Maria Ràfols estudou interna em um colégio de Barcelona (Colégio de l'Ordre de Nostra Senyora). Em 1804, morre sua mãe em Vilanova.
Maria devia ter conhecimentos e formação como enfermeira, pois trabalhava nesta função, como voluntária, no Hospital de La Santa Creu de Barcelona – o cargo das Irmãs Hospitaleiras de São João de Deus – quando a encontrou o padre Juan Bonal. Este sacerdote era capelão do hospital e estava buscando religiosos para abastecer o Hospital de Gracia de Zaragoza, que carecia de pessoal adequado para atender aos enfermos, e, requerido pela junta de Zaragoza, reuniu doze homens e doze mulheres que lhe ajudaram em sua tarefa. Já então devia ver em Maria o talento e a personalidade necessárias para tal tarefa, pois ela, com apenas 23 anos, se converteu na superiora desta recém-nascida congregação.
Como e onde tomaram hábito estas doze mulheres? Não se sabe. É provável que fosse o próprio Juan Bonal quem as orientara, lhes dera hábitos e as admitira com os habituais votos de pobreza, obediência e castidade. Porém, estamos falando, pela primeira vez, de uma congregação religiosa feminina que exercerá o apostolado e que terá um atividade fora das paredes do convento. Neste sentido, Maria Ràfols foi uma pioneira deste apostolado feminino, numa época em que as religiosas ainda não haviam deixado a clausura e que o apostolado até então era negado às mulheres.
A viagem de Barcelona a Zaragoza a realizaram em uma "carroça", com todos os inconvenientes e incomodidades da época, chegando em 28 de dezembro de 1804. Nesse mesmo dia vão a prostrar-se diante à Virgem do Pilar (Padroeira principal de todo o mundo hispânico), à qual imploraram sua proteção. O caminho que se apresentava a Maria era duríssimo: tinha apenas 23 anos e devia organizar àquela comunidade e por ordem no Hospital de Gracia, um "mundo de dor", onde se amontoavam enfermos, dementes, meninos abandonados e todo tipo de misérias, com uma dotação instrumental lamentável e deficiente, e sendo mal recebidos pelo pessoal do hospital, que fizeram tudo quanto puderam para amargar-lhes a existência, maltratando-os continuamente. De fato, após 03 anos, os homens, cansados da dura experiência, abandonaram. Porém, as religiosas não o fizeram. As mulheres, paradoxalmente conhecidas como "sexo frágil", seguiram adiante, com Maria à cabeça.
Intitulei o presente artigo pondo como lema “o heroísmo do silêncio”, porque de Maria não se conhecem grandes frases. Segundo as crônicas, tudo que fez o fez “com muita prudência e discrição”, sabendo que se arriscava e que não era apreciada em seu entorno. Tudo que fez deve ter feito bem, pois, em pouco tempo, o número das religiosas aumentava. Ela mesma, com algumas irmãs, se apresenta ao exame de “flebotomia”, organizado pela Junta, para demonstrar sua habilidade na prática da sangria, intervenção habitual na medicina de então. Algo impensável para a mulher daqueles tempos, à qual não se permitia intervir diretamente sobre o enfermo.
O estalido da Guerra do Francês – ou Guerra da Independência – causará um terrível golpe para a cidade de Zaragoza, que, como sabemos, padeceu um terrível sítio (1808 – 1809). É aqui onde a madre Ràfols dará mostra de seu heroísmo, onde levará a cabo suas grandes ações, sempre me silêncio, sempre sem que dela se conheçam grandes discursos. No primeiro sítio, as tropas francesas bombardeiam a cidade, e o Hospital da Graça é destruído e incendiado. Foi necessário organizar o traslado dos enfermos e feridos a um recinto menor, com todo o caos e a aglomeração que era de se supor. Entre balas, canhões e ruínas, expôs uma e outra vez sua vida para salvar aos enfermos e aos feridos, acompanhada por umas poucas irmãs, pedindo esmola e alimento, com grande dificuldade para manter o hospital. Chegou a privar-se do próprio alimento para que o mesmo fosse dado a seus pacientes, porém, não bastava para todos (havia mais de 6000 internos no hospital).
O segundo sítio de Zaragoza foi ainda pior, chegando-se a uma situação desesperadora. Maria tomou uma resolução admirável: foi até ao acampamento do inimigo para pedir ajuda. Os franceses, ao mando do marechal Lannes, estavam acampados no atual bairro de Torrero. Ainda que ela e as religiosas que a acompanharam sofreram, em um primeiro momento, as piadas e insultos dos soldados, finalmente lograram ser atendidas pelo general, homem de reconhecido mau caráter e impiedade, que, porém, ficou comovido pelo ato da madre. Assim o descreve José Maria de Javierre:
“Escolheu a duas irmãs acompanhantes, tomaram em suas mãos uma bandeira de trapo branco, sinal da paz, e percorreram a rua tomando o caminho das portas de Santa Engrácia diretamente até as posições francesas, sem preocupar-se com bombas nem disparos... Quisera eu poder ter contemplado o rosto dos atiradores sitiados quando as viram passar sem deter-se; o rosto dos soldados franceses quando as viram chegar: três freiras com seu hábito negro empunhando uma bandeira branca. Jamais nas batalhas europeias presenciaram tal espetáculo”.






O marechal não só lhes deu alimento e remédios para as vítimas do sítio, como também lhes proporcionou um salvo conduto para que regressassem quantas vezes necessitassem para pedir mais recursos.  E assim foi: Maria regressou uma e outra vez para trazer remédios, ataduras e os restos de comida que não queriam os franceses, para reparti-los em seu hospital. Inclusive chegou a interceder por alguns prisioneiros e lograr sua liberação.
O cântaro que se enchia milagrosamente
de água.

Neste contexto de guerra, se conta um milagre da beata: o chamado “prodígio do cântaro”. Havendo-se ficado os pacientes do hospital sem água, Maria não duvidou em ir à capela e pegar um cântaro de barro onde se guardava a água benta e dar de beber a todo aquele que o necessitou. Quando foi devolver o cântaro à capela e o deixou em seu lugar, comprovou maravilhada, que voltava a estar cheio de água, tal e qual o havia pegado.

Não lhe faltaram mais dificuldades. A Junta do hospital, de nova nomeação por parte do governo francês, interferiu notadamente na vida da nascente Congregação. O padre Juan Bonal foi eleito e se impuseram as normas redigidas pelo bispo Miguel Suárez de Santander, mas afeito aos franceses, o que obrigou a Maria a demitir-se como “presidente”. Porém, em 1824, uma nova norma foi redigida. A associação passou a ser formalmente uma Congregação Religiosa e Maria voltou a ocupar o cargo de Superiora até sua renúncia em 1829.

Este é o papel que Maria desempenhou na guerra: um exemplo de amor, caridade e entrega ao próximo, por cima de sua própria vida. No entanto, esse heroísmo humilde e silencioso não seria reconhecido em vida. Não seria até muito depois de sua morte, durante o primeiro centenário dos Sítios de Zaragoza (1908) quando se reconheceria seu impressionante trabalho, sendo proclamada Heroína dos Sítios de Zaragoza. Título que, por certo, ostenta outra mulher, a catalã Agustina Zaragoza i Domènech, dita “Agustina de Aragón”, que se fez famosa por manejar ela sozinha um canhão contra as tropas francesas. Dizem que as comparações são odiosas, porque, enquanto Agustina se fez “heroína” mediante um ato de violência, Maria se fez com um ato de entrega e amor. Em todo caso, além da reflexão que suscita semelhante comparação, as duas dão um bom exemplo do ridículo que resulta sempre qualificar as mulheres como “sexo frágil”. Tanto uma como a outra dão mostra, em seu campo, os ápices aos quais pode chegar o valor e a fortaleza de um ser humano.
Porém, voltemos a Maria. Acabada a guerra, em 1815, se retira a descansar durante dois escassos meses a Villafranca, seu povoado natal. Deste 1813 até 1834, se põe à frente da Inclusa, departamento de órfãos do hospital, onde permanecerá quase toda sua vida. Os meninos órfãos, os abandonados, serão seu novo campo de atuação. Vigiava os meninos que viviam ao relento, em condições lamentáveis, se ocupava dos meninos da rua, resgatava os recém-nascidos abandonados, os ilegítimos e os filhos de mães solteiras, protegendo-os, defendendo-os, dando-os em adoção ou, inclusive, acolhendo-os ela mesma quando via que não estavam recebendo o tratamento adequado.

Porém, em 1834, se viu golpeada pelo contexto das guerras carlistas. Aquela que havia servido ao próximo e à cidade de Zaragoza, de pronto se viu metida em uma conspiração e foi acusada de alta traição. Como é possível? Tudo foram calúnia e conspiração contra ela. A existência de uma prancha de chumbo que ela usava para bordar flores na roupa, serviu para acusa-la. Duas pessoas, debaixo de falso testemunho, declararam que o sacerdote do hospital, o capelão Nerin, usava essa prancha para fabricar cartuchos e balas, e que era a madre Ràfols quem a havia dado a ele. Acusada de conspirar contra a rainha, Maria foi encarcerada e passou dois meses na prisão da Inquisição, para monjas dominicanas, onde se encerrava por motivos políticos. Apesar de sofrer com resignação ao cárcere e que tenha sido declarada inocente ao comprovar-se que tudo era montagem, incompreensivelmente foi condenada ao exílio:

[...] havendo-se visto pela Real Sala do Crime a causa em se inculpou à madre Ràfols, ainda que não se tenha chegado a cumplicidade alguma, se a desterra à região onde nasceu [...].

Aceitando sem protesto a injusta condenação, Maria tão somente solicitou que a trasladassem a uma casa que sua Congregação tinha em Huesca, petição que lhe foi concedida.
No exílio passou seis anos. A situação econômica do hospital de Huesca era também lamentável e apenas havia recursos para subsistir. Neste clima depauperado, a saúde de Maria foi se deteriorando lentamente. Em 1891, temendo encontrar-se próxima a morrer, pede para regressar de novo a Zaragoza e isto lhe é novamente concedido. Não por caridade, nem por compaixão, senão por um motivo estritamente político: a mudança de governo ocorrido com o exílio da regente Maria Cristina e a nova regência do general Espartero. Em Zaragoza, retorna à Inclusa e se entrega de novo aos meninos órgãos e abandonados, porém, a enfermidade vai agravando-se e, por fim, morre em 30 de agosto de 1853, rodeada de suas filhas espirituais.
Faltava-lhe pouco para completar 72 anos de idade e 49 como Irmã da Caridade. Sua morte foi como sua vida: cheia de serenidade, paz, carinho e agradecimento a todos os que a haviam rodeado. Não chegou a ver aprovada a Congregação que a mesma havia fundado, porém, seus alicerces eram sólidos. Em 1858, com a autorização e ajuda da rainha Isabel II, se expande até estar presente, na atualidade, em todos os continentes.
Logo após sua morte, começa a crescer a fama de sua santidade. Em 1908, como já foi dito, é proclamada Heroína dos Sítios de Zaragoza. O corpo é trasladado, em 1925, à capela do que hoje é o noviciado da Congregação em Zaragoza, onde atualmente repousa. Um ano mais tarde, se inicia seu processo de beatificação, que, em 1944, é paralisado pelo Papa Pio XII devido à existência de um texto incômodo: “As Profecias da Madre Ràfols”, que fazem referência a uns acontecimentos ocorridos 50 anos depois de sua morte e que ela havia anunciado em vida. Isto gerou uma aura mística e superstição que incomodou consideravelmente ao papado e ao Vaticano, que decidiu paralisar o processo e recomendar silêncio. No entanto, se demonstrou que os escritos atribuídos à madre eram totalmente falsos, e, em 1980, o arcebispo de Zaragoza, dom Elias Yanes, acompanhado pela maioria dos bispos espanhóis, pediram ao Papa João Paulo II a revogação da suspensão do processo, coisa que ele fez. Catorze anos depois, em 16 de outubro de 1994, este mesmo papa beatificava a Maria Ràfols, dizendo que ela era o verdadeiro símbolo de que a “a caridade não morre, não passa jamais: a grande lição de uma caridade sem fronteiras, vivida na entrega de cada dia”.
A história de Maria Ràfols é de uma mulher que fez grandes coisas através do silêncio e a da humildade, feita toda caridade e em pobreza, tanto material como espiritual. A sociedade da época a pagou com o desprezo, o cárcere e o desterro. Teve que esperar a sua morte para se começasse a reconhecer o valor de sua existência. Sua Congregação, atualmente expandida por todo o mundo, se dedica à educação, ao apostolado e à saúde, campos nos quais a mesma se destacou.
Uma cristã autêntica e sublime, porém, também uma mulher forte, valente, empreendedora, de comportamento exemplar com os feridos da guerra, os enfermos do hospital e os meninos da Inclusa. Através do silêncio e a humildade, somente mediante suas obras, reivindicou pela primeira vez na Espanha um papel que a sociedade e a Igreja havia negado até esse momento à mulher: o apostolado da ação e a atenção sanitária. Uma autêntica heroína em silêncio.

Oração à beata Maria Ràfols Bruna:
Damos-te graças, Senhor, porque enriquecestes a beata Maria Ràfols com teus dons e virtudes e a chamaste a exercer a caridade, principalmente com os mais pobres e necessitados.
Concedei-nos, por sua intercessão, e para seu enaltecimento, a graça que agora te pedimos: _______
Assisti-nos com teu Espírito, para que possamos aceitar na fé a tua vontade, compreender a dor do irmão, imitar à tua serva na caridade e lograr com nossas atitudes na vida um mundo mais humano e mais de Cristo. Amém.


OS DOIS MILAGRES DE LIVRAMENTO DA MORTE

Não poderia encerrar a história da beata Maria Ràfols sem relatar dois grandes prodígios que lhe ocorreram: as duas vezes que escapou de ser assassinada por fuzilamento. São relatos tão impressionantes que parecem obra de ficção, mas, foram testemunhadas por pessoas idôneas.

Primeiro prodígio
Na primeira vez, vinha a beata pelas ruas de Zaragoza quando soldados inimigos com fuzis apontados para ela, ameaçaram atirar. Nossa heroína correu na tentativa de escapar da morte quando tiros foram disparados. Um projétil atingiu o crucifixo que trazia à cintura e ricocheteou, outro passou pelo pano do hábito bem na região da axila direita, outro, porém, atingiu-lhe em cheio as costas, transpassando seu tórax. Ao invés de cair imediatamente morta, milagrosamente, ao ser atingida pelo disparo, sentiu-se forte, revigorada e invadida por uma grande alegria e intenso júbilo. Saiu correndo ainda mais velozmente e conseguiu escapar dos soldados. No peito, não ficou a não ser uma cicatriz como lembrança do grandioso milagre.

 Segundo prodígio
     Outra vez, vinha ela com duas companheiras quando foram abordadas por um pelotão de soldados franceses. O comandante do pelotão ordenou que fossem fuziladas imediatamente. A beata calmamente começou a rezar e a entregar sua alma a Deus quando, à ordem de “fogo!”, os fuzis dos soldados, como que movidos por uma força, caíram todos no chão. Atônitos, sem entender o que estava acontecendo, deixaram que fossem embora.