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sábado, 12 de julho de 2014

SANTA JULIANA FALCONIERI, VIRGEM E FUNDADORA (Ordem das Servas de Maria) - dois relatos biográficos.



Primeiro relato:

Santa Juliana de Falconieri Nasceu Juliana em 1270, filha de Caríssimo e Ricordata. Caríssimo era irmão de santo Alexis Falconieri, um dos fundadores dos Servitas. Caríssimo tornou-se muito rico, por sua habilidade comercial; temendo não ter ganhado honestamente as suas posses, pediu ao papa Urbano IV a absolvição geral e empregou os seus haveres em boas obras. Era bem idoso já, quando lhe nasceu Juliana. As primeiras palavras que a menina pronunciou foram Jesus e Maria. Caríssimo morreu pouco tempo depois.

Desde 1284, recebeu o hábito de terceira na Ordem dos Servos de Maria (chamados de “Servitas”), dado por são Filipe Benício. Durante um ano foi objeto de admiração para sua família e para sua mãe. Na presença de são Filipe fez ainda a sua profissão; pouco tempo depois ele faleceu, não sem recomendar-lhe a Ordem toda, mas, particularmente, as Irmãs.

Há muito tempo Juliana conhecia os instrumentos de penitência; jejuava às quartas e sextas-feiras, não recebendo senão a santa comunhão; aos sábados comia apenas um pouco de pão e tomava água, e passava o dia a contemplar as Sete Dores de Maria; a sexta-feira era consagrada aos mistérios da Paixão do Senhor, em honra dos quais se flagelava até o sangue.
 Após a morte de sua mãe, ocupou-se em reunir aquelas que, querendo se consagrar a Deus como ela, até então tinham vivido nas casas de suas famílias. Uma vez todas instaladas na casa, ela própria quis pedir a admissão, de pés nus e com uma corda ao pescoço, batendo à porta.
O papa Bento XI, em 1304, declarou essa Congregação verdadeira Ordem religiosa. Dois anos mais tarde, Juliana aceitou ser superiora. Tendo viva consciência de que aquele que está mais altamente colocado deve ser o servo dos outros, procurava sempre os trabalhos mais humildes. Dormia pouco, estendida sobre chão nu; suas orações, que duravam até um dia inteiro, obtiveram-lhe a graça e a força de resistir às mais abomináveis tentações.
Pacificou discórdias civis, interessou-se pelos pobres e pelos doentes, que ela curava ao contato de suas mãos.

Morte de santa Juliana Falconieri
No fim de sua vida, por causa de doença do estômago, não suportou mais alimento algum, nem mesmo a comunhão. Na hora da morte, não podendo receber o viático, suplicou ao padre Tiago de Campo Regio que lhe trouxesse ao menos o cibório em sua cela; ela se estendeu então por terra, e com os braços em cruz, quis que um corporal fosse estendido sobre o seu peito e que a santa hóstia fosse aí depositada; esta, assim que foi depositada, desapareceu misteriosamente, e Juliana morreu dizendo: “Meu doce Jesus”! Era o dia 19 de junho de 1341.

Por ocasião da toalete fúnebre, encontrou-se sobre o coração da santa, a marca da hóstia como um selo, com a imagem de Jesus crucificado. O Senhor, que ela tanto desejara receber, tinha-a escutado para além de toda esperança. Em memória desse milagre, as “Mantellate” (assim foram apelidadas as irmãs Servitas) trazem sobre o lado esquerdo do escapulário a imagem de uma hóstia.
Seu corpo é venerado em Florença, na basílica da Santíssima Anunciada. Foi proclamada santa por Clemente XII em 1737.


Fonte: “Um santo para cada dia”, de Mario Sgarbossa e Luigi Giovannini, da Paulus. 







Santa Juliana Falconieri (estátua existente
na Basílica de São Pedro, Vaticano)

Segundo relato:

Na cidade de Florença havia dois irmãos, nobres e ricos, Caríssimo e Aléssio Falconieri; exerciam o comércio como a maior parte das mais ilustres famílias de Florença e de outras cidades da Itália. O bem-aventurado Aléssio Falconieri tinha devoção particular pela Mãe de Deus. Foi um dos sete comerciantes de Florença, todos bem-aventurados, que, com são Felipe Benício, seu compatriota, fundaram a ordem dos Servitas. Caríssimo Falconieri, avançando em idade, impressionou-se com o exemplo e as exortações do piedoso irmão.

Passando uma acurada revista na vida, muito se inquietou com a possibilidade de ter adquirido algo por vias injustas. Pediu esclarecimentos a Deus, fez restituições e esmolas. Enfim, em 1263, suplicou ao Papa Urbano IV lhe concedesse uma absolvição geral por todos os erros que poderia ter cometido sem saber. O soberano Pontífice concedeu-lhe sob certas condições, que Caríssimo cumpriu com zelo.

Além das restituições e das esmolas, mandou construir em Florença uma igreja da Anunciação que, pela riqueza e beleza de arquitetura, é ainda hoje considerada uma maravilha. Foi recompensado de mais de uma maneira. Era já velho, quando lhe nasceu uma filha, que foi Santa Juliana Falconieri. Era pelo ano de 1270: a alegria foi grande para toda a família.

Juliana perdeu o pai pouco depois; apenas se lembrava de tê-lo visto. Mais tempo conservou o bem-aventurado tio Aléssio, que foi seu pai na piedade. As primeiras palavras que Juliana aprendeu a balbuciar foram os nomes de Jesus e Maria. Pronunciava-as tão frequentemente, que a ama muito se admirava, e sua piedosa mãe a via com alegria.

O bem-aventurado Aléssio dizia à cunhada que ela havia dado à luz não uma menina, mas um anjo, À medida que crescia, Juliana ocupava-se muito mais nos exercícios de devoção que lhe ensinava o santo tio, do que nos afazeres das mulheres, a que sua mãe se empenhava por habituá-la. Em lugar de manejar as agulhas e o fuso, construía pequenos altares, lia livros de piedade, cantava louvores da santa Virgem, recitava orações. Sua mãe com ela ralhava por vezes, dizendo que não sabia manter um ofício e dificilmente encontraria um marido. Juliana contentava-se em responder: Quando vier o tempo, a santa Virgem providenciará.

Como se tornasse muito bela com o correr dos anos, e virtuosa, a mãe alimentava dia por dia maiores esperanças em vê-la encontrar um dos mais honrosos partidos; já falava disso com o pessoal da casa. Mas Juliana tinha pensamentos inteiramente outros. De acordo com as inspirações do santo tio, havia resolvido guardar a virgindade, e consagrar-se ao serviço da Santa Virgem. Eis porque, nada obstante as exortações de sua mãe, nada obstante as carícias da família e do mundo, ligou-se pelo voto de continência, pronta a renunciar ao mundo e à família, para seguir Jesus Cristo pobre, desde que obtivesse permissão.

Completados, pois, seus dezesseis anos, recebeu das mãos de são Felipe Benício o hábito da ordem terceira dos Servitas. Meditou piedosamente nos mistérios durante o ano de provação. A túnica negra representava-lhe a tristeza de Maria sobre o Calvário, e a grandeza de seu martírio entre os sofrimentos do filho: a cintura de pele representava-lhe a pele do Salvador dilacerada pelos açoites, pelos pregos e pela lança; o véu branco a pureza da Virgem; a coroa os louvores que lhe foram rendidos pelo arcanjo. O livro lhe sugeria as meditações sobre a paixão de Jesus Cristo; o manto lhe recordava a proteção da mão de Deus, a quem se rejubilava em pertencer; o círio esta lâmpada acesa que devia trazer pronta, como virgem prudente, para ir ao encontro do esposo. Meditando assim sobre o seu piedoso hábito, Juliana foi uma edificação constante para a mãe, a família e todas as irmãs. No ano seguinte, 1285, fez profissão diante de São Filipe, que morreu pouco após.

A lembrança desse santo homem despertava nela de dia para dia, maior desejo de perfeição. Continuou junto de sua mãe, mas aumento muito as austeridades precedentes. Nas quartas e sextas-feiras tomava por alimento apenas a santa comunhão. Jejuava ainda no sábado, a pão e água, em honra da Virgem Santa, em cujas sete dores meditava. Empregava as sextas-feiras na meditação da paixão do Salvador. Para se tornar semelhante a ele, macerava a carne até o sangue, com rudes disciplinas. Muitas vezes foi arrebatada em êxtases, pelo veemente desejo de ser crucificada com Jesus sofredor. À sua morte encontraram-lhe uma cintura de ferro sobre os rins e tão fundo tinha penetrado na carne, que não puderam retirá-la sem lesar o corpo; isso faz crer que ela a carregasse desde a juventude. Seu tio, o bem-aventurado Aléssio Falconieri, dava-lhe o exemplo; recusou sempre ser promovido nas ordens sacras, e permaneceu a vida inteira na ordem leiga, dedicando-se aos mais humildes misteres, e mendigando todos os dias o pão para os irmãos. Da mesma maneira a sobrinha, em lugar de viver nobremente de seus bens, preferia ganhar a vida com o trabalho das mãos e partilhar o lucro com as irmãs. Imitou principalmente Filipe Benício, no zelo pela conversão das almas.

Com a morte da mãe, entrou no convento de suas irmãs da ordem terceira, e atraiu para lá várias nobres jovens de Florença. Em 1316, foi mister dar a esta casa uma regra definitiva e uma superiora. Juliana foi eleita prioresa por unanimidade. Recusou por longo tempo, julgando-se incapaz e indigna, e acabou aceitando por lembrar-se das palavras de são Filipe Benício, que lhe recomendara a congregação nascente, como prevendo que ela seria, um dia, a segunda fundadora. Foi-o menos pela autoridade do que pelo exemplo. A longevidade era como que um privilégio hereditário na família; seu tio, o bem-aventurado Aléssio, tinha cento e dez anos quando morreu, em 17 de Fevereiro de 1310. Se Juliana não ultrapassou os setenta, deve-se atribuir o fato às grandes austeridades. As religiosas da ordem terceira dos Servitas devotavam-se particularmente ao serviço dos enfermos e a outras obras de caridade. Juliana sofreu também longa e penosa enfermidade, que suportou com paciência inalterável. Um vômito contínuo não permitia lhe administrassem o santo viático nos últimos momentos.


Morte de Juliana Falconieri, após a Sagrada Hóstia ter sido
colocada por sobre seu peito. 


Corpo incorrupto de Santa Juliana Falconieri


O Salvador dignou-se fazer um prodígio para unir-se à esposa: a santa hóstia, colocada sobre o seu coração, desapareceu subitamente. No mesmo instante ela faleceu. Era no dia 19 de Junho de 1340. A verdade de diversos milagres, operados por sua intercessão, foram juridicamente provados, e Bento XIII beatificou-a em 1729 e Clemente XII terminou o processo de canonização.

domingo, 6 de julho de 2014

SANTA MARIA GORETTI, Virgem e Mártir da Virtude da Pureza



A verdadeira felicidade exige coragem e espírito de sacrifício, rejeição de todo compromisso com o mal e disposição para pagar com a própria vida a fidelidade a Deus e aos seus Mandamentos.

"Nessa tarde, em Ferriere di Conca, um maníaco sexual, aproveitando a ausência de familiares, tentou violentar uma garota de 12 anos que morava na mesma casa que ele. A menina, que se chamava Maria, reagiu às tentativas do agressor e foi morta."

Fatos semelhantes a esse se tornaram frequentes em nossos dias. Para muitos, este ato vil e ignóbil, já tem a aparência de corriqueiro... E, considerando apenas a frequência com que acontecem e são noticiados, até que seria fácil considerá-los banais, caso neles não estivessem envolvidos aspectos tão graves e elevados como a vida humana, os bons costumes, a moral e os mandamentos da Lei de Deus.

A notícia que transcrevemos acima pode ser tida como mera repetição: não é! Um dos aspectos que a tornam sublime é o fato de a vítima ter se transformado em exemplo: por amor a Deus, ela enfrentou seu algoz para defender sua pureza; morreu virgem. No artigo que publicamos você conhecerá o que leva essa notícia a não ser banal, mas, sublime. Você saberá por que uma menina, há mais de cem anos, foi capaz de defender a virgindade até o martírio e tornar-se santa. Você saberá quem foi Santa Maria Goretti.


* * * * * * * * * *

O século XX se iniciou sob a égide do progresso nas comunicações. Com o aperfeiçoamento da fotografia e da imprensa, jornais, folhetos e revistas pululavam por toda parte, noticiando acontecimentos ocorridos nos mais distantes rincões da Terra.

Foi este um fator preponderante para que, em 1902, o mundo cristão pudesse tomar conhecimento da trágica história de uma camponesa italiana de apenas onze anos de idade, brutalmente assassinada com 14 punhaladas, enquanto defendia até o martírio a virtude angélica. Seu nome - Maria Goretti - "se nos apresenta como um incitamento ao zelo da Igreja pela pureza, ao valor dessa virtude que ela sempre inculcou. De tal maneira que mais vale a pena à pessoa sacrificar sua vida do que perder a castidade”. 1 Entretanto, a firmeza dessa pequena mártir não nasceu de um momento para outro, mas foi fruto de uma intensa vida espiritual, fortalecida pelo Pão Eucarístico nas suas últimas semanas de vida. Este fato, quiçá, tenha contribuído de modo decisivo para, oito anos depois, o Papa São Pio X facultar a Primeira Comunhão às crianças tão logo lhes desponte o uso da razão, pressentindo os maravilhosos efeitos que a presença de Cristo iria produzir nos corações infantis. "Haverá santos entre as crianças", afirmou ele.

Muito se escreveu já a respeito do martírio dessa santa, tão bem cognominada como um "Anjo da Pureza". Contudo, pouco se comenta de sua breve e piedosa vida, cujo desfecho não foi senão uma decorrência da fé e do amor a Jesus, levados às últimas consequências. É o que teremos oportunidade de contemplar nestas linhas.


Lar pobre, profundamente cristão

Nascida em 16 de outubro de 1890, na aldeia de Corinaldo, próxima do mar Adriático, a segunda filha de Luigi Goretti e Assunta Carlini foi batizada logo no dia seguinte, com o nome de Maria Teresa. A família era pobre, mas profundamente católica, e, seguindo o costume vigente naquele tempo, os pais fizeram com que Marietta - como passou a ser carinhosamente chamada - recebera o Sacramento da Crisma com apenas seis anos de idade.



Verdadeiro rosto de Santa Maria Goretti (foto da santa)

Mudança de casa e de vida

Quando a menina tinha tão só sete anos, o pequeno campo de Luigi Goretti tornou-se insuficiente para manter a família, e ele decidiu emigrar para Colle Gianturco, nos arredores de Paliano, distante a uns 50 quilômetros de Roma, em busca de melhores oportunidades. Todavia, ali também não tiveram êxito: apesar da dura labuta sob o Sol abrasador, mal conseguiam o necessário para alimentar-se.

Dois anos depois, nova mudança se fez necessária, desta vez para Ferrieri di Conca, triste e pantanosa localidade agrícola, onde Luigi faleceu um ano depois de haverem ali chegado, com apenas 41 anos de idade, vítima da malária que grassava naqueles úmidos campos.

Marietta manifestava um caráter bondoso, dócil e humilde, e se revelou de uma maturidade precoce impressionante, diante da necessidade da mudança de vida que se lhe apresentou. Ajudou nos cuidados do pai enfermo como uma pessoa adulta e, após sua morte, assumiu os encargos do lar, para a mãe poder substituir o marido nos trabalhos do campo. Limpava a casa, buscava água na fonte, rachava lenha, cozinhava e cuidava dos quatro irmãos menores como uma pequena mãezinha. Quando lhes faltava o alimento, conseguia algo a custa de alguns trabalhos, como a venda de pombos e ovos no mercado da cidade próxima, Nettuno.

Não se esquecia da educação dos irmãozinhos: repreendia-os pelas travessuras, ensinava-lhes as boas maneiras, as orações e os rudimentos do Catecismo. Apaixonada pelo Santo Rosário, rezava-o todas as noites em companhia da mãe e dos irmãos, com uma piedade edificante. E depois de todos se recolherem, recitava mais um terço em sufrágio da alma de seu falecido pai.

Mama Assunta, mãe de Santa Maria 

Goretti (foto dela já bem idosa)
Mais de uma vez viu a mãe sem um centavo na bolsa e sem uma fatia de pão no armário, chorando e lamentando- se pela falta do esposo. Nessas ocasiões, com o coração compungido, a menina a abraçava e beijava, esforçando- se para não chorar também, e dizia-lhe: "Coragem, mãezinha! Coragem! Dentro em pouco estamos crescidos, depressa nos faremos todos grandes... De que tem medo? Nós a sustentaremos!... Nós a manteremos!... Deus providenciará!...".

Estes são alguns lampejos de sua alma angelical. Sua mãe, depois de falecida a filha, não deixava de dar testemunho de sua virtude: "Sempre, sempre, sempre obediente a minha filhinha! Nunca me deu o mais pequenino desgosto. Mesmo quando recebia alguma repreensão imerecida, por faltazinhas involuntárias, nunca se mostrou rebelde, nunca se desculpou, mas mantinha-se calma, respeitosa, sem nunca ficar amuada".



Malfadada sociedade com os Serenelli

Em Ferrieri, Luigi trabalhava numa propriedade do conde Lorenzo Mazzoleni, em sociedade com Giovanni Serenelli e seu filho Alessandro. Viúvo, muito dado ao vinho e sem discrição nas palavras, Giovanni não se preocupara com a educação do filho. Este, com 19 anos de idade, era um rapaz de caráter introvertido, sem qualquer formação religiosa. Nunca ia à Missa e apenas vez por outra acompanhava os Goretti na recitação do rosário, num canto da sala.

Sendo o único daquela casa que sabia ler, seu pai lhe trazia jornais com artigos de cunho anticlerical, além de novelas inconvenientes, contendo ilustrações que despertavam sua imaginação e exacerbavam- -lhe os maus desejos. Ele as utilizava como decoração para as paredes de seu quarto.
Entretanto, devido à malfadada sociedade de trabalho estabelecida entre Luigi e Giovanni, as duas famílias residiam no mesmo imóvel. E Alessandro, como ele próprio confessou mais tarde, mesmo reconhecendo a candura daquela menina que o tratava como a um irmão mais velho, passou a fitá-la com olhares mal-intencionados, alimentando uma paixão que pouco tempo depois culminaria na conhecida tragédia.

Antes de morrer, Luigi - movido talvez por um mau pressentimento - havia aconselhado a esposa a voltar para Corinaldo. Ela, porém, presa pelo contrato e pelas dívidas, não tinha meios para sair da casa dividida com os Serenelli. Apesar de os quartos serem separados, a cozinha era comum e a pequena Marietta, embora com tão pouca idade, atendia às duas famílias nos afazeres domésticos.

Primeira Comunhão

Naquela época era necessário ter doze anos para receber a Sagrada Eucaristia, e Marietta sofria por não poder alimentar-se do "Pão dos Anjos" e do "Vinho que engendra virgens". Seu desejo aumentava a cada domingo, quando ia à Missa com a mãe e a madrinha, enfrentando quatro horas de caminhada num caminho polvorento, até a igreja mais próxima.

Às suas insistentes súplicas de poder preparar-se para fazer a Primeira Comunhão, sua pobre mãe lhe respondia que, não sabendo ler, ela não tinha como aprender a doutrina. Além disso, na situação de penúria em que se encontravam, onde conseguir dinheiro para o vestido e as outras prendas? Determinada, a menina não se deixava abater.

Por fim, obteve autorização para ir certos dias à residência dos Mazzoleni, a fim de receber ensinamentos de sua piedosa governanta, e participar do Catecismo dos domingos, ministrado pelo senhor Alfredo Paliani para um grupo de jovenzinhos.

Sem prejuízo de seus afazeres domésticos, estudou e rezou durante onze meses, dando belos exemplos de virtude. Para assegurar-se da boa preparação da filha, Assunta fê-la submeter-se a um exame com o Arcipreste de Nettuno, o qual garantiu estar ela apta para receber Jesus em seu coração.

Após fazer os exercícios espirituais preparatórios, pregados por um sacerdote passionista, Marietta voltou para casa muito compenetrada e disse, em tom de voz sério: "Sabes, mamãe, o padre narrou-nos a Paixão de Jesus. E depois nos disse que quando nós cometemos um pecado, renovamos a Paixão do Senhor". Manifestava, com esta grave afirmação, o propósito de evitar a todo custo o pecado.

No dia da Primeira Comunhão, antes de sair para a igreja, estando já pronta, com o vestidinho branco que sua mãe lhe obtivera com muito esforço e um singelo véu que recebera de presente, pediu perdão de suas faltas à mãe, aos irmãos, aos Serenelli e aos vizinhos.


 Um lar pobre, mas profundamente cristão

Era a festa de Corpus Christi de 1902, quando, não tendo ainda completado 12 anos, Maria Goretti recebia Nosso Senhor em seu coração. Quais terão sido as impressões e os colóquios divinos, nesse primeiro encontro entre Jesus Eucarístico e aquela alma inocente, disposta a nunca ofendê-Lo pelo pecado, mesmo à custa da própria vida? Só se saberá na eternidade...

A alegria e disposição de alma consequentes com o grande passo dado na vida espiritual manifestaram-se logo que Marietta chegou a casa. Abraçando a mãe, prometeu- -lhe: "Mãezinha, ó minha mãezinha, serei sempre e cada vez melhor!".


É melhor morrer do que pecar

Os frutos da Primeira Comunhão logo se fizeram sentir. Um dia, regressou ao lar contando haver visto uma companheira da catequese conversando maliciosamente com um jovem libertino. Imediatamente fugira do local e, ainda horrorizada, afirmou: "É melhor morrer, mamãe, do que dizer palavras feias".

Santa Maria Goretti, "anjo"
da virtude da pureza
Poucas semanas se passaram e a pequena não comungara mais que duas ou três vezes, sempre aos domingos. No sábado, 5 de julho, manifestou o desejo de ir, no dia seguinte, acompanhada de uma amiga, receber novamente a Sagrada Comunhão. Estava disposta a caminhar dez quilômetros até Nettuno ou Campomorto, sob o Sol inclemente e em jejum, para receber seu amado Jesus.

Seus planos foram, porém, modificados pela sanha de Alessandro. Este já a havia assediado por duas vezes e fora energicamente repelido. Ameaçou então matá-la, e não só ela, mas também a Assunta, caso falasse a alguém sobre isso. Marietta nada dissera à mãe, para não afligi-la ainda mais, mas pedia-lhe para não deixá-la sozinha em casa e procurava estar sempre na companhia de algum dos irmãos.

Naquela tarde, todavia, a jovem ficara cosendo na sacada exterior, tendo apenas junto a si a irmã mais nova, que dormia placidamente. Alessandro arranjara um jeito de escapar-se do trabalho e, retornando para a residência, arrastou Marietta à força para dentro. Percebendo suas infames intenções, ela exprobrava-lhe a ação pecaminosa: "Não, não! Deus não quer isso! Se o fazes, irás para o inferno"!

Tomado de fúria, o criminoso desferiu-lhe então 14 cruéis punhaladas. Em seguida, jogou fora a arma e foi trancar-se no seu quarto. A menina, porém, depois de um curto desmaio, conseguiu caminhar até o terraço e pedir socorro. A notícia do acontecido logo se espalhou pela vizinhança e o assassino foi preso.



Últimas horas no hospital

A alma de Maria Goretti partindo para o Céu...
Marietta foi conduzida de ambulância ao hospital de Nettuno, onde a submeteram a uma dolorosa laparotomia. Foram duas horas de operação, sem anestesia! Aliás, a tentativa de salvá-la era vã, pois tinha perfurados o pericárdio, o coração, o pulmão esquerdo, o diafragma e o intestino. Os médicos não compreendiam como ainda estava viva.

Voltando da sala de cirurgias para junto de sua mãe, mostrava-se preocupada em tranquilizá-la; dizia-lhe que estava bem e perguntava pelos irmãos. A desidratação causada pela perda de sangue a fazia sofrer terrivelmente, mas a gravidade das feridas impedia-lhe de sorver uma gota d'água sequer. Nessa situação, recordar a sede padecida por Jesus no alto da Cruz trazia-lhe consolo.

No dia seguinte teve a graça de receber a almejada Comunhão, mas em circunstâncias quão diversas das que ela imaginara! O Arcipreste de Nettuno, Dom Signori, levara-lhe o Santo Viático ao hospital, e quando lhe perguntou se sabia Quem iria receber, ela respondeu: "Sim, é aquele mesmo Jesus que dentro em pouco irei ver face a face".
O sacerdote recordou-lhe ter Nosso Senhor perdoado a todos no alto da Cruz e prometido ao bom ladrão que ainda naquele dia estaria com Ele no Paraíso. Perguntou-lhe, então, se perdoava seu assassino: "Sim, por amor a Jesus, perdoo-lhe. E também quero que esteja comigo no Paraíso!... Lá do Céu, rogarei pelo seu arrependimento!".

Com este estado de espírito recebeu os Sacramentos. Algumas horas depois, entrou no delírio da morte. Instintivamente osculava o crucifixo e a medalha de Nossa Senhora, insígnia da Associação das Filhas de Maria, na qual fora admitida já no leito de morte. Invocou muitas vezes a Virgem Maria, e por volta das três horas da tarde expirou.


Aparição de Maria Goretti a seu assassino Alessandro
Catorze lírios cintilantes
A morte de Maria Goretti foi chorada por todos os que a conheceram. Logo se espalhou a fama de sua santidade e, apenas dois anos depois, seus restos mortais foram depositados no grandioso monumento erigido em sua honra, no Santuário Pontifício de Nossa Senhora das Graças, em Nettuno.

Um dos fatos prodigiosos que contribuíram para sua canonização foi a conversão de Alessandro. Em 1910, depois de haver passado por um período de frieza e rebeldia, tendo inclusive pensado em se suicidar, o infeliz assassino foi visitado por sua vítima no cárcere de Noto. Marietta lhe apareceu vestida de branco, oferecendo-lhe lírios que, ao serem tocados por ele, se transformavam em chamas cintilantes. Eram ao todo 14... O mesmo número das punhaladas recebidas!

Assistido pelos padres passionistas, Alessandro se converteu. Cumpridos 27 anos de prisão, foi libertado e dirigiu-se a Corinaldo, onde então morava a mãe de Marietta, para pedir-lhe perdão. Imitando a atitude da filha, ela o perdoou e comungaram lado a lado, na Missa de Natal. Depois, o assassino arrependido fez-se terciário franciscano e terminou seus dias, já ancião, como servente e jardineiro num convento capuchinho.


Dia da Canonização de Santa Maria Goretti, por Pio XII


Mensagem para a juventude do terceiro milênio

Santa Maria Goretti foi canonizada pelo Papa Pio XII, em 24 de junho de 1950. A cerimônia, da qual participou sua mãe, junto com os filhos e netos, teve de ser realizada na Praça de São Pedro, por não haver espaço suficiente para a multidão no interior da Basílica.  Em 6 de julho de 2003, concluindo as comemorações do centenário de sua morte, o Beato João Paulo II perguntava, em seu pronunciamento do Angelus: "O que diz aos jovens de hoje esta jovem frágil, mas cristãmente madura, com a sua vida e, sobretudo, com a sua morte heroica?"



Urna com os restos mortais de Maria Goretti


E continuava: "Marietta, assim era chamada familiarmente, recorda à juventude do terceiro milênio que a verdadeira felicidade exige coragem e espírito de sacrifício, rejeição de todo compromisso com o mal e disposição para pagar com a própria vida, mesmo com a morte, a fidelidade a Deus e aos seus Mandamentos. "Como é atual esta mensagem! Hoje se exaltam, muitas vezes, o prazer, o egoísmo ou até a imoralidade, em nome de falsos ideais de liberdade e de felicidade. É preciso reafirmar com clareza que a pureza do coração e do corpo deve ser defendida, porque a castidade ‘guarda' o amor autêntico.

"Santa Maria Goretti ajude todos os jovens a experimentar a beleza e a alegria da bem-aventurança evangélica: ‘Felizes os puros de coração, porque verão a Deus' (Mt 5, 8). A pureza de coração, como qualquer virtude, exige um treino cotidiano da vontade e uma constante disciplina interior. Pede, acima de tudo, o recurso assíduo a Deus, na oração".

(Revista Arautos do Evangelho, Julho/2011, n. 115, p. 30 à 33)



Relicário com uma costela da santa