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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Beato Álvaro del Portillo, Bispo da Prelazia do "Opus Dei" (Homilia do Cardeal Ângelo Amato, que em nome do Papa Francisco, beatificou a Dom Álvaro).



Beato Álvaro del Portillo, Bispo
«Pastor segundo o coração de Cristo, zeloso ministro da Igreja [1]». Este é o retrato que o Papa Francisco oferece do Bem-aventurado Álvaro del Portillo, bom pastor, que, como Jesus, conhece e ama as suas ovelhas, conduz ao redil as que se perderam, enfaixa as que estão machucadas e oferece a vida por elas [2].
O novo Bem-aventurado foi chamado desde jovem a seguir Cristo, para tornar-se depois um diligente ministro da Igreja e proclamar em todo o mundo a gloriosa riqueza do seu mistério salvífico: «É ele que nós anunciamos, instruindo cada um, ensinando cada um com sabedoria, a fim de podermos apresentar cada um perfeito em Cristo. Para isso, eu me afadigo e luto, na medida em que atua em mim a sua força [3]». E realizou este anúncio de Cristo Salvador com absoluta fidelidade à cruz e, ao mesmo tempo, com uma alegria evangélica exemplar nas dificuldades. Por isso, a Liturgia aplica-lhe hoje as palavras do Apóstolo: «Alegro-me nos sofrimentos que tenho suportado por vós, e completo, na minha carne, o que falta às tribulações de Cristo em favor do seu Corpo que é a Igreja [4]».
A serena felicidade diante da dor e do sofrimento é uma característica dos Santos. Além disso, as bem-aventuranças – também aquelas mais árduas, como as perseguições – não são mais que um hino à alegria.
2. São muitas as virtudes – como a fé, a esperança e a caridade – que o Bem-aventurado Álvaro viveu de modo heroico. Praticou esses hábitos virtuosos à luz das bem-aventuranças da mansidão, da misericórdia, da pureza de coração. Os testemunhos são unânimes. Além de destacar-se pela total sintonia espiritual e apostólica com o santo Fundador, distinguiu-se também como uma figura de grande humanidade.
As testemunhas afirmam que, desde criança, Álvaro era «um menino de caráter muito alegre e muito estudioso, que nunca deu problemas»; «era carinhoso, simples, alegre, responsável, bom... [5]» .
Herdou da sua mãe, dona Clementina, uma serenidade proverbial, a delicadeza, o sorriso, a compreensão, o falar bem dos outros e a ponderação ao julgar. Era um autêntico cavalheiro. Não era loquaz. Sua formação como engenheiro conferiu-lhe rigor mental, concisão e precisão para ir imediatamente ao núcleo dos problemas e resolvê-los. Inspirava respeito e admiração.
3. Sua delicadeza no relacionamento estava unida a uma riqueza espiritual excepcional, na qual se destacava a graça da unidade entre a vida interior e o afã apostólico infatigável. O escritor Salvador Bernal afirma que transformou em poesia a prosa humilde do trabalho diário.
Era um exemplo vivo de fidelidade ao Evangelho, à Igreja, ao Magistério do Papa. Sempre que acudia à basílica de São Pedro em Roma, costumava recitar o Credo diante do túmulo do Apóstolo e uma Salve-Rainha diante da imagem de Santa Maria, Mater Ecclesiae.
Fugia de todo personalismo, porque transmitia a verdade do Evangelho e a integridade da tradição, não as suas próprias opiniões. A piedade eucarística, a devoção mariana e a veneração pelos Santos nutriam a sua vida espiritual. Mantinha viva a presença de Deus com frequentes jaculatórias e orações vocais. Entre as mais habituais estavam: Cor Iesu Sacratissimum et Misericors, dona nobis pacem!, e Cor Mariae Dulcissimum, iter para tutum!; assim como a invocação mariana: Santa Maria, Esperança nossa, Escrava do Senhor, Sede da Sabedoria.
São Josemaria Escrivá e o Beato Álvaro
del Portillo. 
4. Um momento decisivo da sua vida foi a chamada ao Opus Dei. Aos 21 (vinte e um) anos, em 1935 (mil novecentos e trinta e cinco), depois de encontrar São Josemaria Escrivá de Balaguer – que então era um jovem sacerdote de 33 (trinta e três) anos –, respondeu generosamente à chamada do Senhor à santidade e ao apostolado.
Tinha um profundo sentido de comunhão filial, afetiva e efetiva com o Santo Padre. Acolhia o seu magistério com gratidão e o dava a conhecer a todos os fiéis do Opus Dei. Nos últimos anos da sua vida, beijava frequentemente o anel de Prelado que lhe tinha presenteado o Papa, para reafirmar a sua plena adesão aos desejos do Romano Pontífice. Particularmente, apoiava as suas petições de oração e jejum pela paz, pela unidade dos cristãos e pela evangelização da Europa.
Destacava-se pela prudência e retidão ao avaliar os acontecimentos e as pessoas; pela justiça para respeitar a honra e a liberdade dos outros; pela fortaleza para resistir às contrariedades físicas ou morais; pela temperança, vivida como sobriedade, mortificação interior e exterior. O Bem-aventurado Álvaro transmitia o bom odor de Cristo – bonus odor Christi [6]– , que é o aroma da autêntica santidade.
5. No entanto, há uma virtude que Monsenhor Álvaro del Portillo viveu de modo especialmente extraordinário, considerando-a um instrumento indispensável para a santidade e o apostolado: a virtude da humildade, que é imitação e identificação com Cristo, manso e humilde de coração [7]. Amava a vida oculta de Jesus e não desprezava os gestos simples de devoção popular, como, por exemplo, subir de joelhos a Scala Santa em Roma. A um fiel da Prelazia, que tinha visitado esse mesmo lugar, mas que tinha subido a pé a Scala Santa, porque – assim o comentou – se considerava um cristão maduro e bem formado, o Bem-aventurado Álvaro respondeu-lhe com um sorriso, e acrescentou que ele a tinha subido de joelhos, ainda que o ambiente estivesse cheio de pessoas e com pouca ventilação [8]. Foi uma grande lição de simplicidade e de piedade.
Monsenhor del Portillo estava, de fato, “contagiado” pelo espírito de Nosso Senhor Jesus Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir [9]. Por isso, rezava e meditava com frequência o hino eucarístico Adoro Te devote, latens deitas. Da mesma maneira, considerava a vida de Maria, a humilde escrava do Senhor. Às vezes recordava uma frase de Cervantes, das Novelas Exemplares: «sem humildade, não há virtude que o seja [10]» . E frequentemente recitava uma jaculatória comum entre os fiéis da Obra: «Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies[11]» ; não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado.
Para ele, como para Santo Agostinho, a humildade era o lar da caridade[12]. Repetia um conselho que o Fundador do Opus Dei costumava dar, citando umas palavras de São José de Calasanz: «Se queres ser santo, sê humilde; se queres ser mais santo, sê mais humilde; se queres ser muito santo, sê muito humilde[13]» . Tampouco esquecia que um burro foi o trono de Jesus ao entrar em Jerusalém. Os seus companheiros de estudos, além de destacar a sua extraordinária inteligência, recordam a sua simplicidade, a inocência serena de quem não se considera melhor que os outros. Pensava que o seu pior inimigo era a soberba. Uma testemunha assegura que era “a humildade em pessoa[14]” .
A sua humildade não era áspera, chamativa, exasperada; mas carinhosa, alegre. Sua alegria nascia da convicção do seu escasso valor pessoal. No início de 1994, o último ano da sua vida na terra, em uma reunião com as suas filhas, disse: «digo-o a vós, e digo-o a mim mesmo. Temos que lutar toda a vida para chegar a ser humildes. Temos a escola maravilhosa da humildade do Senhor, da Santíssima Virgem e de São José. Vamos aprender. Vamos lutar contra o próprio eu, que está constantemente levantando-se como uma víbora, para morder. Mas estamos seguros se estamos perto de Jesus, que é da linhagem de Maria, e é quem esmagará a cabeça da serpente[15]» .
Para Dom Álvaro, a humildade era «a chave que abre a porta para entrar na casa da santidade», enquanto que a soberba constituía o maior obstáculo para ver e amar a Deus. Dizia: «a humildade arranca de nós a máscara de papelão, ridícula, que levam as pessoas presunçosas, confiadas em si mesmas[16]» . A humildade é o reconhecimento das nossas limitações, mas também da nossa dignidade de filhos de Deus. O melhor elogio da sua humildade foi expresso por uma mulher do Opus Dei, depois do falecimento do Fundador: «quem morreu foi Dom Álvaro, porque o nosso Padre continua vivo no seu sucessor[17]» .
Um cardeal testemunha que, quando leu sobre a humildade na Regra de São Bento ou nos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, parecia-lhe contemplar um ideal altíssimo, mas inalcançável para o ser humano. Mas, quando conheceu e conviveu com o Bem-aventurado Álvaro, entendeu que era possível viver a humildade de uma maneira total.
6. Podem-se aplicar ao Bem-aventurado as palavras que o Cardeal Ratzinger pronunciou em 2002, por ocasião da canonização do Fundador do Opus Dei. Falando da virtude heroica, o então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé disse: «Virtude heroica não significa exatamente que uma pessoa levou a cabo grandes coisas por si mesmo, mas que na sua vida aparecem realidades que não foram realizadas por ele, porque ele se mostrou transparente e disponível para que Deus atuasse [...]. Isso é a santidade[18]» .
Esta é a mensagem que nos entrega hoje o Bem-aventurado Álvaro del Portillo, «pastor segundo o coração de Jesus, zeloso ministro da Igreja[19]» . Convida-nos a sermos santos como ele, vivendo uma santidade amável, misericordiosa, afável, mansa e humilde.
A Igreja e o mundo necessitam do grande espetáculo da santidade, para purificar, com o seu aroma agradável, a podridão dos muitos vícios ostentados com arrogante insistência.
Agora, mais do que nunca, necessitamos de uma ecologia da santidade, para combater a contaminação da imoralidade e da corrupção. Os santos convidam-nos a introduzir no seio da Igreja e da sociedade o ar puro da graça de Deus, que renova a face da terra.
Que Maria, Auxílio dos Cristãos e Mãe dos Santos, nos ajude e nos proteja.






[1]Francisco, Breve Apostólico de Beatificação do Venerável Servo de Deus Álvaro del Portillo, Bispo, Prelado do Opus Dei, 27-IX-2014.
[2] Cf. Ez 34, 11-16; Jn 10, 11-16.
[3] Col 1, 28-29.
[4] Ibid., 24.
[5] Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis, 2010, vol. I, p. 27.
[6] 2 Cor 2,15.
[7] Mt 11, 29.
[8] Cf. Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis, 2010, vol. I, p. 662.
[9]Mt 20, 28; Mc 10, 45.
[10] Miguel de Cervantes, Novelas Exemplares: “A conversa dos cachorros”. Cf. Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis, 2010, vol. I, p. 663.
[11]Sal 51 [50], 19.
[12] Santo Agostinho, De sancta virginitate, 51.
[13]São Josemaria Escrivá, palavras recolhidas em A. Vázquez de Prada, El Fundador del Opus Dei, vol. I, Rialp, Madrid 1997, p. 18.
[14] Positio super vita, virtutibus et fama sanctitatis, 2010, vol. I, p. 668.
[15]Ibid., p. 675.
[16]Ibid.
[17]Ibid., p. 705.
[18]Ibid., p. 908.
[19]Francisco, Breve Apostólico de Beatificação do Venerável Servo de Deus Álvaro del Portillo, Bispo, Prelado do Opus Dei, 27-IX-2014.


Nota: nas citações dos textos litúrgicos seguiu-se a tradução oficial da Conferência Episcopal Brasileira.

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

SANTA MARIA FRANCISCA DAS CINCO CHAGAS DE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO, Virgem Terciária Franciscana, Mística e Estigmatizada.



Santa Maria Francisca das Cinco Chagas
de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Ana Maria nasceu em Nápoles no dia 25 de março de 1715, filha de Francisco Gallo e Bárbara Basini, comerciantes, porém, de condição modesta. Aos quatro anos pediu à mãe que a levasse à igreja para participar do Santo Sacrifício da Missa. Obteve também, nessa idade, o privilégio de poder confessar-se, embora tivesse que esperar até os sete anos para fazer a Primeira Comunhão. Depois disso, sua surpreendente maturidade levou o confessor a permitir-lhe comungar diariamente, privilégio muito raro na época.  Desde pequena mostrou tanta piedade e prática de virtudes, que foi chamada de "a santinha”.
Quando chegou à adolescência, o pai colocou-a em sua pequena fábrica, onde já trabalhavam sua mãe e suas irmãs. Ana Maria soube conciliar o trabalho com a vida de piedade.
Mesmo contrariando o pai, que lhe preparava um “vantajoso casamento” com um rico cavalheiro, tomou o hábito franciscano com apenas 16 anos de idade, tornando-se terceira franciscana, seguindo a Regra e a orientação dos frades menores, que tinham o convento de Santa Lucia do Monte em São João José da Cruz. Na ocasião, precisou pedir autorização a seu pai. Disse-lhe: “Meu pai, não posso fazer a sua vontade, porque estou resolvida a deixar o mundo e a tomar o hábito religioso na Ordem Terceira de São Francisco, para o que desde já lhe peço autorização”.
Essa determinação foi um rude golpe para o avarento pai, que julgava tal união ocasião de melhora da situação econômica da família. Por isso empregou todos os meios para convencer a filha a ceder, inclusive agressão física. Trancou-a depois, por vários dias, em um quarto da casa, não lhe fornecendo senão pão e água para alimentar-se. Finalmente, a intervenção de um religioso muito respeitável levou Francisco a conceder a autorização pedida.
Com sua consagração a Deus, mudou seu nome para Maria Francisca das Cinco Chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ana Maria foi admitida na Ordem Terceira de São Francisco, na reforma de São Pedro de Alcântara, em 1731, escolhendo os nomes de “Maria”, por devoção a Nossa Senhora, “Francisca”, por devoção a São Francisco, e “das Cinco Chagas”, por devoção à sagrada Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo. Permaneceu no mundo, porém, viveu na mais perfeita observância da severa Regra Franciscana, submetendo seu corpo, já cansado por um contínuo trabalho, a flagelações, vigílias e cilícios.
Êxtases, transes, arroubos místicos, profecia, eram para ela situações vulgares. Parecia viver em outro mundo, sendo, por isso, incompreendida, perseguida e submetida a vários exames pelas autoridades eclesiásticas. Em sete anos de duro martírio suportou todos os mal-entendidos com inalterável mansidão.
Nos últimos anos da sua vida, estava impedida de participar da Santa Missa, por causa de uma grave doença que a mantinha acamada. Muitos sacerdotes, principalmente o religioso barnabita, padre Bianchi, viam que durante a Missa desaparecia um pedaço da Hóstia Magna consagrada e um pouco de vinho consagrado. Era o Anjo da Guarda da Santa que levava a Comunhão à religiosa.
Para Santa Maria Francisca das Cinco Chagas era a Comunhão Espiritual o único alívio para a dor aguda que sentia, quando ficava fechada em casa, longe do seu Amor, especialmente quando não lhe era permitido fazer a Comunhão Sacramental. Então, ela subia ao terraço da casa e, olhando para a Igreja, suspirava entre lágrimas: “Felizes aqueles que hoje Te puderam receber no Sacramento, ó Jesus! Felizes os Sacerdotes que estão sempre perto do Amabilíssimo Jesus!” E assim só a Comunhão Espiritual podia tranquilizá-la um pouco.
Santa Maria Francisca,
patrona de Nápoles
Em 1763, Santa Maria Francisca conheceu, por revelação divina, que o reino de Nápoles seria desolado por uma grande fome seguida por terrível epidemia. Ela mesma foi atingida pela enfermidade chegando às portas da morte, tendo recebido os últimos Sacramentos.
Assistida por muitos religiosos fiéis, fortalecida pela Eucaristia, morreu serenamente no seu quarto no dia 6 de outubro de 1791, aos 76 anos. Seu corpo foi sepultado na igreja de Santa Luzia do Monte, onde é venerado, incorrupto, ao lado do túmulo de São João José da Cruz.
Foi canonizada pelo Papa Pio IX a 29 de junho de 1867. 

Beata Cecília Eusepi, Virgem e Terciária Servita (uma "nova Teresinha de Lisieux")



Beata Cecília Eusepi, virgem

     Esta é a história de uma mocinha. Não era um gênio, não deixou obras. Nada de excessivo, em suma, nada de especial. Se não fosse que para Alguém (Deus) tivesse sido tão preciosa.
     Cecília Eusepi é o nome desta jovem que viveu no início do século XX num vilarejo às portas de Roma e morta pela tuberculose com apenas dezoito anos. De si não deixou mais do que poucos cadernos com as suas recordações de infância e um diário, escritos apenas para obedecer ao seu confessor quando já estava tomada pela doença.
     A beatificação, introduzida pouco depois da sua morte, procedeu sem obstáculos. No dia 1º de junho de 1987 foi declarada venerável por São João Paulo II, e no dia 17 de junho de 2012 foi proclamada Beata pelo Papa Bento XVI.
     Hoje já há quem a considere uma irmã espiritual de Santa Teresa de Lisieux, à qual Cecília Eusepi é semelhante em muitos aspectos.


      Vida e Morte
     Nepi é uma antiga cidadezinha da Tuscia a quarenta quilômetros de Roma. Um dos muitos sonolentos vilarejos que tempos atrás pertenciam à Itália camponesa. Foi neste ambiente que foi morar Cecília, vinda de Monte Romano, uma cidadezinha próxima na qual tinha nascido no dia 17 de fevereiro de 1910, última de onze filhos. Com a mãe viúva e o tio materno estabeleceram-se a três quilômetros do vilarejo, numa propriedade chamada “La Massa” que pertencia aos Duques Lante della Rovere, onde o tio trabalhava como caseiro.

A beata com sua avó. 
   Muito vivaz e sensível, cresceu circundada por um afeto particular, principalmente por parte do tio, a cujos cuidados seu pai, antes de morrer, a tinha confiado. Aos seis anos, como muitas meninas do povoado, foi mandada à escola junto ao mosteiro cisterciense de Nepi, que hospedava na comunidade as órfãs de guerra. Pela destacada sensibilidade e a rapidez de aprendizado de tudo aquilo que lhe ensinavam, as monjas não esconderam a esperança de tê-la um dia entre os muros do claustro.
     Mas não era a vida monacal que atraía Cecília. Um pouco mais adiante, a cem metros do convento, encontrava-se a paróquia de São Ptolomeu mantida pelos Servos de Maria, à qual tinha anexo o seminário, que então era lotado de aspirantes sacerdotes para as missões. Em torno da paróquia de São Ptolomeu gravitava toda a vida juvenil do vilarejo.

     Concluída a escola primária, Cecília passava o seu tempo ali, e foi neste contexto que amadureceu precocemente e com surpreendente clareza a sua vocação. Tanto que com apenas doze anos, junto com outras colegas maiores, pediu para entrar como terciária na Ordem dos Servos de Maria e, no ano seguinte, apesar da tenra idade e das tentativas para dissuadi-la por parte dos familiares, obteve do bispo a dispensa para entrar postulante entre as “Mantellates” Servas de Maria. Foi estudar em Roma, em Pistóia e depois em Zara.
     Mas a sua aspiração de partir como missionária não se realizaria. Em outubro de 1926, atingida pela doença que dois anos depois a levaria à morte, foi obrigada a voltar para Nepi.
     A pedido do Pe. Gabriele Roschini, seu confessor, escreveu suas memórias e as entregou em junho de 1927 num caderninho de escola.


       Como Santa Teresa de Lisieux
     Quem lê aquela narração talvez poderá se admirar com o modo infantil e confidencial de Cecília falar da sua ligação de pertença a Jesus, mas toda sua sabedoria está neste ser criança abandonada à graça de Deus. Exatamente como Santa Teresa de Lisieux. Ela mesma diz isso: “Chegarei a Jesus por um pequeno atalho, breve, muito breve, que me foi traçado pela pequena Teresa do Menino Jesus”.
     Foi justamente a leitura de "História de uma Alma" que provocou em Cecília ainda menina o desejo de abraçar a vida religiosa. Cecília ainda não tinha completado dez anos e Teresa de Lisieux não tinha sido proclamada venerável. Mais tarde diria: “Jamais pensei em chamá-la de irmã, embora tivesse notado entre a minha alma e a Sua uma grande semelhança, não pela correspondência à graça, mas pelos dons de graça que Jesus nos concedeu”.
     No dia 23 de outubro de 1926, com a volta para Nepi, para Cecília se inicia o último e breve percurso da sua vida, marcado pela manifestação e agudeza progressiva da tuberculose. Período que se tornou ainda mais doloroso pela solidão do chamado por ela “exílio em La Massa”. Um exílio sofrido pela consciência de não poder mais professar os votos, pelo afastamento de Nepi, e as calúnias por parte dos proprietários do local. Único conforto, a devoção filial a Nossa Senhora das Dores que ela chama o seu “coração” e à Eucaristia, o seu “tesouro”, que Pe. Roschini, duas vezes por semana, com qualquer condição de tempo, pontualmente levava para ela.
     Não faltam, para romper o exílio, as frequentes visitas dos camponeses, dos colegas da Ação Católica, e dos jovens seminaristas acompanhados pelos padres, os quais com frequência pedem a essa mocinha doente e pouco instruída conselhos para as homilias.

A beata em seu leito de doença e morte.
     Nestes últimos anos Cecília terá do “pequeno caminho” uma lúcida consciência: “Humildade, abandono, amor”. Até o fim não diminuiria a sua simplicidade e alegria, faleceu cantando as orações à Maria que tinha aprendido quando pequena. Era o dia 1º de outubro de 1928. E também esta data parece quase uma coincidência. Teresa morrera no dia precedente, dia 30 de setembro de 1897. Em 1927, ano em que foi proclamada por Pio XI padroeira das missões, no dia 1º de outubro Teresa apareceu num sonho de Cecília, assim como está documentado no seu diário, preanunciando sua morte exatamente para aquele dia.
     Cecília desejava repousar para sempre na igreja de São Ptolomeu, aos pés do altar de Nossa Senhora das Dores, ali onde estava o seu “coração”. E também este desejo foi concedido durante a guerra, quando por temor dos bombardeamentos os frades decidiram transportar os seus restos para o interior da igreja. Naquela ocasião foi feito um reconhecimento dos seus restos e os presentes viram com surpresa que o corpo estava intacto (assim como se encontra até agora) “e a pele era tão macia”, lembra Pe. Pietro, atual pároco de São Ptolomeu, “que parecia que estava dormindo...”.



Painel de sua beatificação
     
 Milagre
     Uma junta médica aprovou por unanimidade, no dia 1° de outubro de 2009, a cura de Thomas Ricci, ocorrida em 4 de agosto de 1959, depois que ele sofreu uma queda acidental. Sua recuperação milagrosa foi a condição necessária para a continuação da causa de beatificação da Serva de Deus Cecilia Eusepi.



Fontes: 30 Dias; http://www.carmelitasmensageiras.com.br/

domingo, 5 de outubro de 2014

SÃO CIPRIANO, BISPO, E SANTA JUSTINA, VIRGEM, MÁRTIRES

Deus é glorificado em seus santos! Hoje trago a história de São Cipriano, que, antes da conversão, fora feiticeiro ou "bruxo", adepto da "magia negra", e de Santa Justina, virgem, que por causa de sua constância na fé, suas orações e exemplo, serviu de canal para a conversão de Cipriano. Vejam que história maravilhosa... 


São Cipriano¹, cognominado “o feiticeiro”, natural de Antioquia, na Fenícia, foi pelos pais introduzido em todos os segredos da superstição, astrologia e feitiçaria. Para ampliar os conhecimentos na arte mágica, fez grandes viagens e visitou os centros principais do mundo, como Atenas, Menfis, Argos e a Índia.
Mestre em todas as artes diabólicas da feitiçaria, entregou-se a uma vida desbravada. Para a religião cristã, havia só insultos; crianças inocentes eram as suas vítimas prediletas; tendo-as enforcado, oferecia o sangue das mesmas como holocausto ao demônio, e nas entranhas ainda palpitantes procurava conhecer os segredos do futuro. Perseguição atroz fazia às donzelas, aproveitando-se de enredos diabólicos para demovê-las do caminho da virtude. Malogravam, porém, estes artifícios diante das jovens cristãs.
Uma delas era Justina, que morava em Antioquia, cristã fervorosa, porém, filha de pais pagãos. Formosa de corpo e de espírito, pelo seu exemplo fez com que toda a família se convertesse ao cristianismo.
Agládio, jovem pagão, ardia em paixão pela jovem cristã. Não podendo, porém, cativar-lhe a afeição, recorreu aos artifícios mágicos de Cipriano. Justina experimentou em si os acessos diabólicos, os quais conseguiu debelar pela oração e pelo sinal da cruz. Vendo-se tão rudemente assaltada pelas tentações mais horríveis, a virgem recomendou-se frequentemente à Rainha das Virgens e saiu vitoriosa das insídias do inimigo.
O fracasso de seus estratagemas mais poderosos, fez Cipriano duvidar do poder dos demônios, tanto que tomou a resolução de livrar-se deles. Lutas terríveis foram as consequências desta mudança; pois o demônio não ia privar-se de um instrumento para ele utilíssimo, como era Cipriano. Apoderou-se do espírito deste uma profunda tristeza e a lembrança dos feitos passados levou-o quase ao desespero.
Deus mandou-lhe alívio pelo sacerdote Eusébio. As orações e as palavras confortadoras deste santo homem, fizeram com que Cipriano não desfalecesse no meio do caminho. Grande foi a surpresa dos fiéis, quando viram o grande e terrível feiticeiro num domingo entrar na igreja, conduzido por Eusébio. O próprio bispo não quis acreditar no que via e pôs-se a duvidar da sinceridade desta conversão. Cipriano, porém, trouxe todos os livros cabalísticos e entregou-os ao fogo, Na presença de todo o povo, e distribuiu a sua fortuna entre os pobres.


À vista desta mudança radical, o bispo consentiu que Cipriano fosse batizado. Junto com ele, Agládio recebeu o sacramento do Batismo. Justina, vendo as maravilhas da divina graça, cortou a sua linda cabeleira e pelo voto de virgindade perpétua, dedicou-se ao serviço de Deus.
A conversão de Cipriano foi sincera e constante. Os escândalos da vida passada, reparou-os pela conduta exemplar e pela prática das mais belas virtudes. A dedicação à causa de Deus mereceu-lhe a dignidade de sacerdote e mais tarde de bispo.
Veio a perseguição diocleciana. Cipriano foi Levado a Tiro, onde sofre atrozmente. Também Justina, acusada de cristã, foi apresentada ao governador da Fenícia, que a submeter à flagelação crudelíssima. Transportados para Nicomédia, onde se achava Diocleciano, pelo próprio imperador foram sentenciados à morte pela decapitação. A sentença foi executada em 304.
As relíquias dos dois Mártires foram trasladadas para Roma, onde Rufina, cristã fervorosa da família dos Cláudios, erigiu uma igreja sob a invocação de Cipriano e Justina. Hoje, os corpos destes dois grandes mártires, descansam na igreja de São João de Latrão, em Roma.



1.   Observação: não confundir com São Cipriano de Cartago.