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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Santos Mártires de Nagasaki: São Pedro Batista, São Paulo Miki e 24 companheiros, Mártires.



SANTOS MÁRTIRES DE NAGASAKI

A palavra Nagasaki traz logo à memória a arrasadora bomba atômica lançada contra ela no final da II Guerra Mundial. Poucos sabem, entretanto, que esta cidade foi também palco do heroico testemunho de numerosos mártires da Fé.


A evangelização do Japão teve início em 15 de agosto de 1549, quando São Francisco Xavier pisou pela primeira vez o solo nipônico e começou a perfumá-lo com o odor de suas virtudes e dons admiráveis.
Inicialmente os jesuítas, e, algumas décadas após, os franciscanos, empreenderam com vigor e coragem a obra da salvação dos gentios japoneses. Empolgantes lances e dolorosas decepções, a par de conversões espetaculares, acompanharam passo a passo esses valentes soldados de Cristo. Em menos de meio século, eram já cerca de 300 mil cristãos no Império do Sol Nascente, e esse número tendia a aumentar cada vez mais.
Porém, a missão progredia em ambiente hostil à Fé, num país conturbado pela guerra civil. Sua reunificação, iniciada por um senhor feudal chamado Nobunaga, estava em processo de consolidação. Mas, com a súbita morte deste em 1582, seu sucessor, Hideyoshi, submeteu a nação a um despótico governo baseado na força das armas.
De início, Hideyoshi não perseguiu os católicos. Com o passar do tempo, porém, percebeu que seus vassalos convertidos ao Catolicismo - muitos dos quais ocupavam postos de destaque no exército - constituíam um empecilho para a realização de seus desígnios ditatoriais; e que a Lei de Deus era um obstáculo para os seus desmandos morais.
Em conseqüência, assinou em 1587 um decreto de expulsão dos missionários. Devido às medidas de prudência tomadas pelos jesuítas, essa iníqua decisão não foi executada. Não só permaneceram lá os filhos de Santo Inácio, mas, a partir de 1593, começaram a chegar missionários franciscanos provenientes das Filipinas, intensificando-se mais ainda a obra de evangelização.


Ambição e intrigas fazem desencadear a perseguição
Infelizmente, o ambiente político estava muito perturbado por intrigas, cobiças comerciais e maquinações dos inimigos da Religião cristã. E tudo pressagiava uma violenta perseguição do Governo imperial.
Nessas delicadas circunstâncias, deu-se em 1596 o lamentável incidente do naufrágio do galeão espanhol San Felipe, no litoral japonês. Tendo ficado sem leme, devido à tempestade, a nau encalhou e começou a afundar. A tripulação e os passageiros, missionários franciscanos vindos das Filipinas, foram salvos em pequenos barcos. Houve tempo também para retirar toda a carga, constituída de preciosos tecidos de seda.
Hideyoshi enviou um agente governamental, Masuda, para inspecionar e avaliar essas mercadorias. Este retornou com duas informações. A primeira, bem objetiva: o valor da carga era suficiente para revigorar as exauridas finanças do ditador. A segunda, de fonte bastante duvidosa: o piloto da nave lhe teria confidenciado que, nas conquistas espanholas, a pregação missionária precedia e preparava o terreno para a invasão militar.
Isso serviu de pretexto para Hideyoshi, já predisposto pelas intrigas dos bonzos, mudar radicalmente sua atitude de contemporização. Mandou prender os franciscanos e confiscar as mercadorias do galeão. Pouco tempo depois, ordenou o cerco das casas dos missionários em Osaka e Kyoto.


Humilhação transformada em triunfo
A missão franciscana tinha como centro de irradiação a Igreja de Nossa Senhora dos Anjos, em Kyoto, então Capital imperial. Lá foram presos em 2 de janeiro de 1597 os missionários: o Superior, Frei Pedro Batista; os padres Martín Loynaz de la Ascensión e Francisco Blanco de Galicia; o clérigo Filipe de Jesus e os irmãos leigos Francisco de San Miguel e Gonçalo García. Junto com eles, quinze nipônicos convertidos, entre os quais vários catequistas e três coroinhas, chamados Luís Ibaraki, Antônio e Tomás Kozaki.
Em Osaka foram encarcerados os catequistas João de Goto e Tiago Kisai, e um noviço jesuíta chamado Paulo Miki. De senhorial origem, este último nascera em 1568 e trabalhava com o Superior Provincial em Nagasaki. Pregador exímio, fazia intenso apostolado. Mais tarde, na prisão, os três tiveram o gáudio de serem oficialmente recebidos na Companhia de Jesus.
Os 24 prisioneiros foram reunidos numa praça pública de Kyoto, onde os algozes cortaram a orelha esquerda de cada um deles. Em seguida, transportaram-nos, cobertos de sangue, em pequenas carroças, para serem escarnecidos pela população.
Porém, as rudes carroças da ignomínia transformaram-se em tribuna de glória. No trajeto de Kyoto a Nagasaki, os mártires eram recebidos em triunfo pelos fiéis das aldeias católicas. Inumeráveis e comoventes conversões se deram ao longo dos caminhos e dos lugarejos por onde passaram.


Um velho pai estimula o filho a morrer com alegria
No dia 8 de janeiro de 1597, Hideyoshi assinou o decreto de condenação à morte desses 24 heróis da Fé, por motivos exclusivamente religiosos. A eles se juntaram mais tarde dois outros que os haviam acompanhado no trajeto.
Hanzaburo Terazawa, irmão do governador de Nagoya, recebeu de Hideyoshi a ordem de executar todos os prisioneiros e foi encontrá-los num lugarejo próximo dessa cidade.
Quando viu Luís Ibaraki, ficou em extremo embaraçado. Sentindo-se responsável pela morte de uma inocente criança, ofereceu-lhe a liberdade, se ele quisesse entrar a seu serviço. O menino deixou a decisão a cargo de Frei Pedro Batista. Este respondeu em sentido afirmativo, com a condição de que lhe fosse permitido viver como católico.
Hanzaburo não contava com essa resposta. Após alguns instantes de perplexidade, replicou que, para continuar vivo, Luís deveria renegar a Fé católica.
"Nessas condições, não vale a pena viver" - treplicou o decidido coroinha. Outra forte emoção apossou-se de Hanzaburo, ao descobrir entre os prisioneiros seu velho conhecido Paulo Miki. Nos antigos tempos, havia ele assistido a algumas de suas aulas de catecismo. Quantas recordações remoeram seu espírito!
Vendo-o assim comovido, Paulo Miki aproveitou a oportunidade para lhe pedir três favores, os quais dificilmente poderiam ser negados: que a execução fosse na sexta-feira, e lhes permitisse antes confessar-se e assistir à Santa Missa. Hanzaburo consentiu, mas depois, receando a reação do tirânico Hideyoshi, voltou atrás.

Santos Mártires de Nagasaki: mortos por crucifixão e por transpassamento de lanças pelo tórax. 


Por sua ordem, ergueram-se 26 cruzes numa colina perto de Nagasaki.
Na manhã de 5 de fevereiro, a caminho do local do suplício, o catequista João de Goto viu aproximar-se seu venerável pai. Como despedida, vinha ele demonstrar ao filho como não há coisa mais importante do que a salvação da alma. Após estimular o jovem a ter muito ânimo e fortaleza de alma, exortando-o a morrer alegremente, pois morria a serviço de Deus, acrescentou que também ele e sua mãe estavam dispostos a derramar o sangue por amor de Cristo Jesus, se necessário fosse.


A graça do martírio atrai os cristãos japoneses
Chegando ao alto da colina, os 26 mártires foram fortemente amarrados nas cruzes preparadas com antecedência. Em torno deles aglomeravam-se cerca de quatro mil fiéis, muitos dos quais querendo ser também crucificados! Um problema inesperado para os embrutecidos soldados pagãos, que foram obrigados a usar de violência para... poupar a vida desses cristãos tão profundamente tocados pela graça do martírio.
Frei Martín entoou então o Cântico de Zacarias, "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e fez a redenção do seu povo", enquanto Frei Gonçalo recitava o "Miserere". Outros cantavam o "Te Deum". Os padres jesuítas Francisco e Pásio, enviados pelo Provincial de Nagasaki, os exortavam a permanecer firmes na Fé.
O menino Luís Ibaraki bradou alto e com voz firme: "Paraíso! Paraíso! Jesus, Maria!" Em um instante, todos os presentes gritavam a plenos pulmões: "Jesus, Maria! Jesus, Maria!"
O primeiro a consumar o martírio foi Frei Filipe de Jesús. Seu corpo estremeceu ao receber os tremendos golpes de duas lançadas que lhe perfuraram o peito, do qual jorrou o sangue copiosamente.
O pequeno coroinha Antônio pediu ao Pe. Batista para entoar o "Laudate pueri Dominum" (Louvai, meninos, ao Senhor). Este, porém, estando em profunda contemplação, nada ouvia. Antônio, então, iniciou sozinho o cântico, mas foi interrompido pelas lançadas que traspassaram seu coração infantil. Do alto da cruz, o Irmão Paulo Miki não cessava de encorajar, com divina eloqüência, os companheiros. Sua alma já prelibava o Céu.
Os golpes mortais das lanças foram sucedendo-se, um após outro, abrindo as portas do Paraíso aos felizes mártires. O último a expirar foi o Padre Francisco Blanco.
Na tarde desse mesmo dia, o Bispo de Nagasaki e os padres jesuítas, que não puderam assistir ao martírio devido à proibição de Hanzaburo, foram venerar os corpos dos santos mártires, cujo sangue havia sido piedosamente recolhido pelos católicos, como preciosa relíquia.
Decorridos 30 anos, em 1627, o Papa Urbano VIII reconheceu oficialmente seu martírio. E o Bem-Aventurado Pio IX os canonizou em 8 de junhode 1862.

Monumento aos Mártires de Nagasaki, construído no lugar do martírio. 





Monumento aos Mártires de Nagasaki visto por outro ângulo


A colina da execução ficou conhecida como Monte dos Mártires e tornou-se centro de peregrinação. Nela, inumeráveis outros católicos foram degolados ou queimados vivos, durante a dura e cruel perseguição que se prolongou por quatro décadas, até culminar no levante de Shimabara, em 1638, onde morreram 37 mil cristãos.
Com isto, ficou quase totalmente exterminado o Cristianismo em solo nipônico. Mas, o sangue de tantos milhares de mártires não correu em vão. Unido ao Preciosíssimo Sangue de Jesus, ele fecunda, não apenas o solo do Japão, mas o de todas as nações onde incontáveis missionários anunciaram e anunciarão o Evangelho, ao longo dos séculos. E seu exemplo comove e anima até hoje quem lê a história de sua morte sublime.
Formam eles uma esplendorosa coroa de glória sobre a fronte sacrossanta da Rainha dos Mártires.
(Oscar Macoto Motitsuki; Revista Arautos do Evangelho, Fev/2004, n. 26, p. 20 à 22)


Relação dos Santos Mártires de Nagasaki:
  1. SÃO PEDRO BATISTA BLÁSQUEZ y BLÁSQUEZ, Sacerdote Franciscano
  2. SÃO MARTINHO LOINAZ AMUNABARRO [AGUIRRE] (MARTINHO DA ASCENÇÃO), Sacerdote Franciscano.
  3. SÃO FRANCISCO BLANCO, Sacerdote Franciscano.
  4. SÃO FELIPE LAS CASAS MARTÍNEZ (FILIPPO DE JESUS), Clérigo Franciscano. São Felipe de Jesus é o primeiro mexicano elevado à honra dos altares. Não é considerado mártir mexicano, pois deu testemunho da fé no Japão. É mártir do Japão. 
  5. SÃO GONÇALO GARCIA, Irmão Franciscano.
  6. SÃO FRANCISCO ANDRADE (FRANCESCO DE SÃO MIGUEL), Irmão Franciscano.
  7. SÃO PAULO MIKI, Clérigo Jesuíta. Era noviço da Companhia de Jesus. Antes da execução, juntamente com outros dois companheiros, pronunciou os votos perpétuos. Era de nobre estirpe. Famoso pelas belas pregações que fazia. 
  8. SÃO JOÃO SOAN, Clérigo Jesuíta
  9. SÃO TIAGO KISAI, Irmão Jesuíta
  10. SÃO PAULO SUZUKI, Leigo, Catequista e Franciscano Secular.
  11. SÃO GABRIEL DUIZKO, Jovem leigo, catequista e Franciscano Secular.
  12. SÃO JOÃO KINUYA, Leigo, Catequista e Franciscano Secular
  13. SÃO TOMÁS DANGI, Leigo, Catequista e Franciscano Secular.
  14. SÃO FRANCiSCO DI MIYACO, Leigo, Médico, Escritor e Franciscano Secular.
  15. SÃO JOAQUIM SAKAKIBARA, Leigo e Franciscano Secular.
  16. SÃO BOAVENTURA DE MIYACO, Leigo e Franciscano Secular.
  17. SÃO LEÃO KARASUMARU, Leigo, Catequista e Franciscano Secular. Homem de vida austeríssima.
  18. SÃO MATIAS DE MIYAKO, Leigo e Franciscano Secular. Substituiu expontaneamente um outro Matias (a quem procuravam) que, no entanto, não estava no convento dos frades no momento em que foram presos.
  19. SANTO ANTÔNIO DE NAGASAKI, Menino e Franciscano Secular.
  20. SÃO PAULO IBARAKI, Leigo, Catequista e Francisco Secular, * Owari (Giappone), ? - catechista.
  21. SÃO LUÍS IBARAKI, Menino e Franciscano Secular. Sobrinho de São Paulo Ibaraki. Tinha apenas 12 anos de idade.
  22. SÃO MIGUEL KOZAKI, Leigo e Franciscano Secular. Socorrina pobres e doentes em sua própria casa.
  23. SÃO TOMÁS KOZAKI, Menino e Franciscano Secular. Filho de São Miguel Kosaki. Tinha somente 14 anos.
  24. SÃO PEDRO SUKEJIRO, Leigo e Franciscano Secular.
  25. SÃO COSIMO TAKEYA, Leigo e Catequista . Pertencia a uma família nobre do Japão.
  26. SÃO FRANCISCO KICHI, Leigo e Franciscano Secular.




Beata Maria Rivier, Virgem e Fundadora (da Congregação das Irmãs da Apresentação de Maria)


Maria Rivier, Marinette para os seus familiares, nasceu a 19 de dezembro de 1768, em Montpezat-sous-Bauzon, Ardeche, França. Por volta dos dezesseis meses, no fim de abril de 1770, Marinette sofreu uma queda e em consequência fraturou o quadril; desde então não se mantinha de pé, nem sequer com a ajuda de muletas. Ana Maria também sofria de raquitismo: tinha o torso e a cabeça normalmente desenvolvidos, mas os braços e as pernas eram fracos e, na idade adulta, não terá mais de um metro e trinta e dois de altura.
A senhora Rivier, mulher de uma grande fé, recorreu à Virgem Maria. Todos os dias, levava a pequena para junto da imagem de Nossa Senhora da Piedade, na Capela dos Penitentes que fica próxima de sua casa.
Durante aquelas visitas, explicava à menina quem é essa Mãe em pranto que leva em seus braços seu Filho morto descido da Cruz. O amor de Cristo e de sua Mãe, o desejo de fazer algo por eles, o horror aos pecados que são a causa de seus sofrimentos e, sobretudo, uma confiança absoluta em Maria, penetram pouco a pouco no generoso e terno coração da menina. Um dia ela declara sem rodeios à sua mãe: “A Senhora da capela me curará!
Em casa, conta histórias edificantes para as crianças do povoado, e sabe captar maravilhosamente a atenção de seu pequeno auditório para mantê-lo tranquilo. Ensina-lhes o catecismo e a rezar. Mais tarde dirá: “Também experimentava mais que nunca um vivo desejo de curar-me”.
Em 1774, seu pai falece e o sepultamento tem lugar no dia 8 de setembro, festividade da Natividade da Santíssima Virgem. Nesse mesmo dia, Maria pede as muletas e diante do espanto de todos, as utiliza e consegue dar três voltas pela casa. No dia de sua festa, a Virgem quis conceder-lhe um presente permitindo que caminhasse com a ajuda das muletas. Mais do que nunca ela cuida das outras crianças organizando pequenas procissões, todos rezando o Rosário.
Em 31 de julho de 1777, Maria, que então está com nove anos, cai da escada e fratura um osso. Uma nova intervenção de Nossa Senhora fará com que ela caminhe após este acidente.
Sua mãe a ensinara a ler e a escrever, depois a enviou para aprimorar seus conhecimentos com religiosas de Nossa Senhora, em Pradelles. Ao regressar, seu zelo a leva a realizar numerosas obras pastorais e caritativas: dá catequese, encaminha os jovens à Missa e ao confessionário, cuida dos enfermos e assiste aos moribundos. Sua vida interior se sustenta com a comunhão diária, a reza do Rosário e do Oficio Parvo da Imaculada Conceição. Sua influência é tão grande, que lhe pedem para fazer novenas com diferentes intenções.
Aos dezessete anos, Maria solicita seu ingresso nas religiosas de Nossa Senhora, mas o conselho das irmãs rechaça sua admissão por causa de sua má saúde.
Em 1786, após muita insistência sua, o pároco acaba cedendo e lhe dá permissão para montar uma escola em uma casa pertencente às religiosas dominicanas. A escola logo fica cheia de filhas de gente notável, mas sobretudo de meninas pobres acolhidas gratuitamente. Ela consegue êxitos alentadores com suas alunas. Seu segredo? Audácia, tenacidade, uma alegria comunicativa e muita coragem.
Eis alguns conselhos que daria mais tarde às novas professoras: “Às vezes as meninas têm malícia suficiente para por à prova o caráter de uma irmã recém-chegada, para verificar se ela é enérgica e vigilante, ou se poderão praticar alguma burla contra ela impunemente. Assim, aquelas pessoas que são cuidadoras de um curso devem mostrar um aspecto severo e sério que dá a entender que cumprirá seus deveres sem hesitação, e também um tom de bondade e de educação para conquistar as meninas”.
Velai pela limpeza e a abundância dos alimentos, pois as jovens devem comer suficientemente. O sono e o exercício são necessários. Que não fiquem com os pés úmidos. Se têm frio, dê-lhes algo quente para beber. Se estão doentes, chamem o médico sem dar-lhes “remédios de velhas”. Não lhes imponham alimentos aos quais mostram uma irresistível repugnância...”.
Em 1789, quando a Revolução Francesa arrebenta, todo ato religioso se torna suspeito. Maria Rivier faz todo o possível para que os padres perseguidos por sua fidelidade ao Papa consigam exercer em segredo suas funções. Seu zelo pela salvação das almas lhe inspira grandes audácias: embora muito prudente, permanece a apóstola com coração de fogo!
Em Montpezat, a casa dominicana não foi vendida apesar de ter sido declarada bem nacional. Maria continua dirigindo ali sua escola. Logo consegue meia dezena de internas, às quais tenta dar forma de comunidade religiosa, pois ela continua com sua ideia de criar um convento.
A povoação de Thueyts chama-a. Ela parte como verdadeira missionária. Em breve, quatro jovens juntam-se a ela e deixam-se abrasar pelo fogo do Evangelho. Maria atribui a cada uma delas um povoado da região para ali ensinar o catecismo e dar apoio às jovens para permanecerem fieis à Santa Igreja. Numa época em que todos os conventos se fechavam, Maria Rivier iria abrir o seu!
Em 1794, o governo revolucionário vende a casa das dominicanas de Montpezat. Maria Rivier e suas companheiras, que devem mudar-se, pedem a Virgem um sinal de ânimo: a imagem de Nossa Senhora lhes sorri. Reconfortadas por aquele milagre, se instalam em Thueyts, em outra casa também das dominicanas, fundando ali uma escola.
O bispo concede as primeiras autorizações e em 21 de novembro de 1796, festa da Apresentação de Maria no Templo, Maria Rivier e as suas quatro companheiras consagram-se a Deus e à juventude, sob o patrocínio de Nossa Senhora da Apresentação. “Não éramos nada, não tínhamos nada, não podíamos fazer nada”, diria ela mais tarde. “Depois disso, por acaso duvidais que fosse Deus quem conduzia as coisas?
Em 1801, o Arcebispo Mons. D’Aviau aprova as regras provisórias que a Madre Maria Rivier lhe havia apresentado. Ela é confirmada como superiora e doze religiosas são consagradas. Em 1815, a maior parte da comunidade se traslada de Thueyts para Bourg-Saint-Andéol, para o enorme convento das salesianas adquirido com dificuldades pela fundadora. “Sempre busquei o dinheiro por meio da oração, e ele sempre chegou!”, confessará mostrando uma imagem da Santíssima Virgem.
A nova comunidade multiplicou-se rapidamente, apesar da sua pobreza. Para Maria Rivier e para as suas irmãs, a educação cristã da juventude é e permanecerá uma prioridade. Contudo, a educação na fé estendeu-se também aos adultos. Os pobres são os seus privilegiados; o primeiro orfanato é aberto a 21 de novembro de 1814.
Nada detém o ardor apostólico de Maria Rivier. Os párocos pedem-lhe, por vezes, que exorte os seus paroquianos, que reúna as mulheres e as jovens. Maria fala com uma clareza, uma energia, uma unção, que tocam os corações. Animada por uma força interior, exclama: “Ou fazer conhecer Jesus Cristo ou morrer!”
No momento de abandonar esta terra para finalmente ver a Virgem Maria, a quem tanto amara neste mundo, sua Congregação contava com 300 religiosas vivendo em 141 centros. Hoje em dia, as Irmãs da Apresentação são cerca de 3.000, em nove províncias, três das quais se encontram na Europa e seis nos Estados Unidos. São ao mesmo tempo educadoras, enfermeiras e educadoras paroquiais.
No dia 3 de fevereiro de 1838, enquanto rezava a segunda parte da Ave-Maria: “... Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós, pecadores, agora e na hora de nossa morte”, a Madre Maria Rivier, com a idade de 69 anos, faleceu placidamente.
Maria Rivier, que é apelidada pelo Beato Pio IX de “mulher-apóstolo”, foi beatificada em Roma por São João Paulo II a 23 de maio de 1982.

Fontes: www.santiebeati/it; www.apresentacaodemaria.com;

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Santo Isidoro (ou Isidro) Lavrador, Leigo e Esposo. Patrono dos Agricultores e da cidade de Madrid, Espanha.



Isidoro nasceu em Madri, na Espanha, em 1070, filho de pais camponeses, simples e seguidores de Cristo. O menino cresceu sereno, bondoso e muito caridoso, trabalhando com os familiares numa propriedade arrendada. Levantava muito cedo para assistir a missa antes de seguir para o campo. Quando seus atos de fé começaram a se destacar, já era casado com Maria Toríbia e pai de um filho.

Sua notoriedade começou quando foi acusado de ficar rezando pela manhã, na igreja, em vez de trabalhar. De fato, tinha o hábito de parar o trabalho uma vez ao dia para rezar, de joelhos, o terço. Mas isso não atrapalhava a produção, porque depois trabalhava com vontade e vigor, recuperando o tempo das preces.

Certa vez, a seu patrão João de Vagas foi relatado que Isidoro havia deixado de trabalhar para ir à Igreja. Seu patrão, tocado pelo testemunho de piedade e vigor servil do jovem, permitiu-lhe assistir à missa e depois iniciar seus trabalhos. Isidoro ia crescendo em graça e santidade, sendo fiel aquilo que Deus lhe confiava.

Certo dia, o patrão foi fiscalizar seu trabalho e teve a visão de um anjo arando a terra juntamente com Isidoro. O patrão, perplexo com o que viu, exaltou a devoção de Isidro e pediu que nunca deixasse seus compromissos de oração e piedade e reconhecia não ter na região um campo melhor cultivado.

Não era só na oração que Isidoro se destacava. Era um homem muito preocupado com os mais necessitados, os quais acolhia e distribuía com eles seus bens ficando somente com o mínimo necessário para sua família. Era tão solidário que dividia com os mais pobres tudo o que ganhava com seu trabalho. A vida de oração praticamente contínua, de abnegação e confiança na vontade de Deus era tal no santo casal que, quando seu filho morreu, ainda criança, Isidoro e Maria não se revoltaram, ao contrário, passaram a se dedicar ainda mais aos necessitados.

Isidoro Lavrador morreu pobre e desconhecido, no dia 15 de Maio de 1170, em Madri, sendo enterrado sem nenhuma distinção. A partir de então começou a devoção popular. Muitos milagres, atribuídos à sua intercessão, são narrados pela tradição do povo espanhol. Quarenta anos depois, seu corpo foi trasladado para uma igreja.

Humilde e incansável foi esse homem do campo, e somente depois de sua morte, e com a devoção de todo o povo de sua cidade, as autoridades religiosas começaram a reconhecer o seu valor inestimável: a devoção a Deus e o cumprimento de seus mandamentos, numa vida reta e justa, no seguimento de Jesus.


Foi o rei da Espanha, Filipe II, que formalizou o pedido de canonização do santo lavrador, ao qual ele próprio atribuía a intercessão para a cura de uma grave enfermidade. Em 1622, o papa Gregório XV canonizou santo Isidoro Lavrador, no mesmo dia em que santificou Inácio de Loyola, Francisco Xavier, Teresa d'Ávila e Filipe Néri.

Hoje, ele é comemorado como protetor dos trabalhadores do campo, dos desempregados e dos índios. Enfim, de todos aqueles que acabam sendo marginalizados pela sociedade em nome do progresso. Santo Isidoro Lavrador é o padroeiro de Madri.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

SANTO EXPEDITO, Mártir. Conhecido como "Santo das Causas Urgentes".



Santo Expedito era um militar romano, comandante da XII Legião Romana baseada em Melitene, na Capadócia (atual Armênia), legião esta intitulada "Fulminante", devido a gloriosa vitória contra os bárbaros às margens do rio Danúbio, e composta em sua maioria de cristãos. Era muito conhecida, também, pela rapidez no deslocamento das tropas.
Levava uma vida devassa; mas um dia, tocado pela graça de Deus, vendo uma grande luz, resolveu mudar de vida. Converteu-se ao cristianismo, mesmo sob ameaças de perseguição do Imperador Galério. Foi então que o demônio lhe apareceu, sob a forma de um corvo e lhe segredou: "Cras ... cras ... cras", palavra latina que significa: amanhã ... amanhã ... amanhã, isto é, deixe para amanhã, não tenha pressa, adie sua conversão. Mas Santo Expedito, pisoteando o corvo, esmagou-o gritando: "Hodie!”, que significa hoje, nada de protelações ... é pra já!

O glorioso mártir de Melitene é pouco conhecido dos historiadores, mas, sua existência é certa. Santo Expedito, segundo a tradição, era armênio, não se conhecendo o lugar de seu nascimento, mas parece provável que seja Metilene, localidade onde sofreu seu martírio. A Armênia é uma região da Ásia Ocidental, situada ao Sul do Cálcaso, entre o Mar Negro e o Mar Cáspio, nas margens dos Rios Tigre e Eufrates.

Geralmente Santo Expedito é representado
"como um jovem", muito embora, possivelmente,
por ter sido um general, já devia estar na idade
madura: em torno dos 50 anos de idade. 
Essa região foi sempre considerada uma terra de predileção. Aliás, pelo testemunho da Sagrada Escritura, foi sobre as montanhas armênias do Ararat que a Arca de Noé pousou quando as águas do dilúvio baixaram (Gênesis, 8.5). A Armênia foi uma das primeiras regiões a receber a pregação dos apóstolos Judas Tadeu, Simão e Bartolomeu, mas também local de inúmeras perseguições aos cristãos. Essa região foi regada com o sangue de muitos mártires, entre eles nosso querido Santo Expedito. Sua cidade natal (com toda probabilidade) não passa hoje de uma pequena localidade chamada Melatia, cidade construída no século II pelo imperador romano Trajano. A partir de Marco Antonio, tornou-se residência da XII Legião, conhecida como “Fulminante”, cuja missão era defender o império romano dos bárbaros asiáticos.

No ano de 284 d.C, assumiu o poder o imperador Deocleciano. Por seu ambiente e por seu caráter, parecia oferecer aos cristãos garantias de benevolência, pois havia em seu palácio a liberdade de religião, sendo, inclusive, sua esposa Prisca e sua filha Valéria, cristãs, ou ao menos, catecúmenas. Sob influências de Galero, seu genro, pagão convicto, determinou a perseguição dos cristãos, ordenando a destruição de igrejas e livros sagrados, a cessação das assembleias cristãs e a abjuração de todos os cristãos.

Galero, sempre incitado por sua mãe, também pagã, queria abolir para sempre o Cristianismo e através de insinuações maldosas e hábeis calúnias, fez crer a Deocleciano, que o cristianismo conspirava de várias formas contra a augusta pessoa do imperador. Deocleciano, então, empreendeu a exterminação sistemática dos cristãos, envolvendo, inclusive, os membros de sua própria família e os servidores de seu palácio. Foi uma hecatombe sangrenta: oficiais, magistrados, o bispo da Nicomédia (Antino), padres, diáconos, simples fiéis foram assassinados ou afogados em massa. Somente em 324, com a retomada da autoridade do imperador cristão Constantino, foi que tiveram fim as terríveis perseguições que durante três séculos tinham ensangüentado a Igreja.

Durante essa terrível perseguição do sanguinário imperador Diocleciano, o general Expedito foi intimado a adorar os deuses pagãos. Recusou-se corajosa e terminantemente. Sumariamente condenado, foi flagelado e depois decapitado em 303, no dia 19 de abril, data em que é celebrada sua memória litúrgica. 

Santo Expedito é representado de pé, vestido de soldado romano, com uma capa vermelha, tendo na mão esquerda a palma do martírio e na direita uma cruz, onde está escrito: HODIE.

Esmaga com o pé direito um corvo, junto ao qual aparece a palavra CRAS e tem no chão, ao lado do pé esquerdo, o capacete militar romano, simbolizando que deixou de lado a obediência às leis do imperador romano para adorar unicamente a Jesus Cristo e empunhar a cruz, símbolo do cristão.
Esta pintura já o representa com uma idade
mais madura... 
Pelo seu próprio nome, o santo é invocado nos casos que exigem solução imediata, nos negócios em que qualquer demora poderá causar prejuízo. Protetor da juventude, os estudantes a ele recorrem para ter êxito nos exames. Santo Expedito não adia seu auxílio para amanhã. Ele atende hoje mesmo ou na hora que precisar de sua ajuda. Mas ele espera que também não deixemos para amanhã nossa conversão.

Seu culto, iniciado no local do martírio, passou para Alemanha Meridional, Itália, especialmente na Sicília, onde é padroeiro de Aci Reale. Venerado no sul da França e na Espanha, sua devoção no Brasil vem sendo cada vez mais difundida.
Na Região de Presidente Prudente, mais precisamente na cidade de Santo Expedito, está em construção o grande Santuário Nacional.





segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

São Brás, Bispo e Mártir. Invocado para a cura das doenças da garganta.



No dia 3 de fevereiro, lembramos a vida São Brás, venerado tanto no Oriente como no Ocidente. Nasceu na Armênia, no século III. Foi médico e bispo em Sebaste. Como médico, usava dos seus conhecimentos para resgatar a saúde, não só do corpo, mas também da alma, pois se ocupava em evangelizar os pacientes.

No tempo deste santo aconteceu uma forte perseguição religiosa, por isso, como santo bispo, procurou exortar seus fiéis à firmeza da fé. Por sua vez, São Brás, que era testemunho de segurança em Deus, retirou-se para um lugar solitário, a fim de continuar governando aquela Igreja, porém, ao ser descoberto por soldados, disse: "Sede benditos, vós me trazeis uma boa-nova: que Jesus Cristo quer que o meu corpo seja imolado como hóstia de louvor".

Morreu em 316. Quando as perseguições começaram sob o Imperador Diocleciano (284-305), São Brás fugiu para uma caverna onde ele cuidou dos animais selvagens. Anos mais tarde, caçadores o encontraram e o levaram preso para o governador Agrícola, da Capadócia na Baixa Armênia, durante a perseguição do então Imperador Licinius Lacinianus (308-324). São Brás foi torturado com ferros em brasa e depois foi decapitado.

O costume de abençoar as gargantas no seu dia continua até hoje, sendo usadas velas nas cerimônias comemorativas. São utilizadas para lembrar o fato da mãe do menino curado por São Brás, ter levado a ele velas na prisão. Muitos eventos miraculosos são mencionados nos estudos sobre São Brás. Este santo bispo é muito venerado na França e Espanha.

Suas relíquias estão em Brusswick, Mainz, Lubeck, Trier e Cologne na Alemanha. Na França, em Paray-le-Monial. Em Dubrovnik, na antiga Iugoslávia e em Roma, Taranto e Milão na Itália.

Na liturgia da Igreja Católica São Brás é mostrado com velas nas mãos e em frente a ele, uma mãe carregando uma a criança com mão na garganta, como pedindo para ele cura-la. Daí se originou a benção da garganta no seu dia.



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Aos pés de uma montanha, numa gruta, nos campos de Sebaste, na Armênia, morava um homem puro e inocente, doce e modesto. O povo da cidade, movido pelas virtudes do Santo Varão, inspirado pelo Espírito Santo, o escolheu como Bispo. Os habitantes da cidade, e até os animais, iam procurá-lo, para obter alívio de seus males.

Um dia, os soldados de Agrícola, governador da Capadócia, procuravam feras nos campos de Sebaste, para martirizar os cristãos na arena, quando depararam com muitos animais ferozes de todas as espécies, leões, ursos, tigres, hienas, lobos e gorilas convivendo na maior harmonia. Olhando-se estupefatos e boquiabertos, perguntavam-se o que acontecia, quando da negra gruta surge, da escuridão para a luz, um homem caminhando entre as feras, levantando a mão, como que as abençoando. Tranquilas e em ordem voltaram para suas covas e desertos de onde vieram.

Um enorme leão de juba ruiva permaneceu. Os soldados, mortos de medo, viram-no levantar a pata e logo após, Brás aproximou-se dele para extrair-lhe uma farpa que lá se cravara. O animal, tranquilo, foi-se embora.

Sabendo do fato, o governador Agrícola mandou prender o homem da caverna. Brás foi preso sem a menor resistência.

Não conseguindo vergar o santo ancião, que se recusou a adorar os ídolos pagãos, Agrícola mandou que o açoitassem e depois o prendessem na mais negra e úmida das masmorras.

Muitos iam procurar o Santo Bispo, que os abençoava e curava. Uma pobre mulher o buscou, aflita, com seu filho nos braços, sufocando por causa de uma espinha de peixe que lhe atravessava a garganta. Comovido com a fé daquela pobre mãe, São Brás passou a mão na cabeça da criança, ergueu os olhos, rezou por um instante, fez o sinal da cruz na garganta do menino e pediu a Deus que o acudisse. Pouco depois a criança ficou livre da espinha que a maltratava.

Por várias vezes o santo foi levado à presença de Agrícola, mas sempre perseverava na fé de Jesus Cristo. Em revide era supliciado. Movido por sua fidelidade e amor a Nosso Senhor Jesus Cristo, São Brás curava e abençoava. Sete mulheres que cuidaram de suas feridas, provocadas pelos suplícios de Agrícola, foram também castigadas. Depois, o governador foi informado que elas haviam atirado seus ídolos no fundo de um lago próximo, e mandou matá-las.

São Brás chorou por elas e Agrícola, enfurecido, condenou-o à morte, decretando que o lançassem no lago. Brás fez o sinal da cruz sobre as águas e avançou sem afundar. As águas pareciam uma estrada sob seus pés. No meio do lago parou e desafiou os soldados:

- Venham! Venham e ponham à prova o poder de seus deuses!

Vários aceitaram o desafio. Entraram no lago e afundaram no mesmo instante.

Um anjo do Senhor apareceu ao bom Bispo e ordenou que voltasse à terra firme para ser martirizado. O governador o condenou à decapitação. Antes de apresentar a cabeça ao carrasco, São Brás suplicou a Deus por todos aqueles que o haviam assistido no sofrimento, e também por aqueles que lhe pedissem socorro, após ter ele entrado na glória dos céus.

Naquele instante, Jesus lhe apareceu e prometeu conceder-lhe o que pedia. Morreu São Brás em plena época de ascensão do Cristianismo, em Sebaste, a 03 de fevereiro. Era natural da Armênia.

Brás significa “brasa”, isto é, chama do amor de Deus, chama da fé e do amor ao próximo. A vida heroica de São Brás é um estímulo para que mantenhamos também acesa em nossas almas a brasa da fé, que em meio às trevas sempre arda de zelo, fidelidade e intrepidez a favor do bem.

Dentre os milagres que cercaram a vida deste grande santo, há um que chama particularmente a atenção: seu domínio sobre os animais ferozes, que, na companhia do santo, se tornavam mansos como cordeiros. Qual o sentido de tal fato?

No Paraíso Terrestre, antes do pecado original, Adão e Eva tinham poder sobre os animais, que vi­viam em harmonia com o homem, e o serviam. Como castigo do primeiro pecado, que foi uma revolta contra Deus, a natureza se insurgiu contra o violador da ordem, e os animais passaram a hostilizar o homem.

Pelo apaziguamento que São Brás operava sobre os animais selvagens, quis Deus mostrar aos peca­dores o poder da virtude, que ordena até a natureza indomável das feras.

Hoje em dia, a humanidade geme sob o peso do caos, provocado pelo pecado. E os homens praticam atos de ferocidade nunca vistos. Procuremos a so­lução para a desordem do mundo na Lei de Deus. Pela força da virtude, não só os homens, mas também a própria natureza entrará em ordem. E então que belezas não surgirão de uma sociedade, onde todos pratiquem o bem e amem a verdade?


(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Fevereiro/2002, n. 2, p. 22-23)

SÃO JOÃO GABRIEL PERBOYRE, Presbítero, Missionário Lazarista e Mártir na China.

“Eu nunca vou desistir da fé em Jesus Cristo

Jean-Gabriel (João Gabriel) nasceu em Perboyre-Mongesty perto de Cahors no sul da Françano dia 06 de janeiro de 1802 em uma família que deu à Igreja três vicentinos e duas Filhas de Caridade. Em tal ambiente ele respirou na fé e compreendeu o significado da vida como um dom de Deus.
A pedido de seus pais, acompanhou seu irmão mais novo que entrava no seminário. Iria acompanhá-lo no período de adaptação à vida de seminarista. Devia ficar por lá por pouco tempo, no entanto, a graça divina tinha outros planos. Tocado por ela, também decidiu servir ao Senhor no sacerdócio.
 A Igreja da França acabava de sair da experiência da Revolução Francesa, com vestes roxas do martírio de alguns e com o sofrimento da apostasia de um bom número. O panorama nos primeiros anos do século XIX foi “decepcionante”, com a destruição de muitos edifícios da Igreja. Saquearam conventos e mosteiros; seminários foram fechados;  padres mortos ou exilados... Muitas almas ficaram sem pastores.  Portanto, não foi por acaso que, à primeira vista, ser sacerdote para o jovem Jean-Gabriel não soou como um bom estado de vida, mas, como o destino de verdadeiros heróis.
Seus pais, surpreendidos, aceitaram a escolha de seu filho, o acompanharam e o incentivaram.  Isso explica porque em 1818 o ideal missionário de Jean-Gabriel aflorou… “À cette époque la mission signifiait principalement la Chine”. Ir para a China era o "ideal" ou o "sonho" de muitas almas que se sentiam inclinadas à missão católica. Muitas missões estavam focadas na China. 
 Mas a China era uma "miragem" distante… Pareceu-lhe natural escolher a Congregação da Missão (Padres Lazaristas) fundada por São Vicente de Paulo em 1625 com a finalidade de evangelizar os pobres, formar bem o clero e, sobretudo, motivar seus membros à santidade. De 1818-1835 ele foi um missionário em seu próprio país. Durante o período formativo no seminário foi um seminarista modelo… Depois de sua ordenação sacerdotal (em 1826), foi encarregado da formação dos seminaristas. Denota-se, portanto, a boa fama da qual gozava, pois, sendo ainda um jovem sacerdote, havia sido escolhido para o tão importante cargo de formador. 


 A atração para a missão

 Um fato novo e, certamente, não acidental, veio para mudar o rumo de sua vida. O protagonista era mais uma vez o seu irmão Louis. Ele também entrou na Congregação da Missão e pediu para ser enviado para a China, onde, um filho de São Vicente havia sido martirizado, na pessoa do Padre Francisco Régis Clet (assassinado no dia 18 de fevereiro de 1820).  No entanto, durante a viagem para a China, o jovem Louis, que tinha apenas 24 anos, foi chamado ao Céu. 
 Jean-Gabriel chegou à China em agosto de 1835.  No Ocidente, na época, não se sabia quase nada do “Império Celestial”. Havia uma ignorância mútua.  Os dois mundos foram atraídos um pelo outro, mas o diálogo era difícil. Nos países europeus, não se houve falar de uma civilização chinesa, mas apenas de superstições, rituais e costumes tidos como “ridículos”. Os julgamentos eram de fato prejudicados. Para Jean-Gabriel, após um prazo de aclimatação em Macau, iniciou-se uma longa jornada: a pé ou a cavalo, depois de oito meses, chegou a Honan, em Nanyang, onde começou a estudar o mandarim, língua chinesa.
 Após cinco meses, apesar de algumas dificuldades, foi capaz de falar bem a língua local e imediatamente entrou no ministério, para visitar a pequenas comunidades cristãs.  Em seguida, foi enviado a Hubei, que faz parte da região dos lagos formados pelo rio Yangtze, conhecido no ocidente como "rio azul". Embora fosse um apostolado intenso, ele sofreu muito no corpo e no espírito… Para quem vê as coisas de fora, é difícil imaginar como um missionário, ocupado em tantos e tantos afazeres, poderia entrar em uma noite escura. Mas, o Espírito Santo estava preparando Jean-Gabriel, no vácuo da humildade e do silêncio de Deus, para o testemunho supremo. 


 Acorrentado a Cristo

 Duas coisas que, aparentemente independentes, vieram perturbar o horizonte em 1839. Primeiro, é o início da perseguição, depois que o imperador Manchu Quinlong (1736-1795) proibiu o cristianismo. 
Segundo, é o foco da guerra Sino-Britânica, conhecida como a “Guerra do Ópio” (1839-1842).  O fechamento das fronteiras da China e a reivindicação do governo chinês de exigir um ato de lealdade dos embaixadores estrangeiros haviam criado um "clima interno" muito instável. O estopim veio com o confisco das transferências de ópio em barcos ancorados no porto de Cantão, em detrimento dos comerciantes, em grande parte ingleses.

Eles relataram a presença de uma coluna de uma centena de soldados que se aproximava da região onde estava os missionários. Talvez eles estivessem indo em outra direção, alguém poderia ter pensado... E em vez de serem cautelosos, eles continuaram o trabalho missionário despreocupadamente. No entanto, quando não se tinha mais dúvida sobre a direção dos soldados, já era tarde demais.  Baldus e Rizzolati decidiram fugir para longe. Perboyre escolhe se esconder no vale entre as montanhas vizinhas cobertas com florestas de bambu e cavernas escondidas.  No entanto, os soldados, utilizando-se de ameaças, forçaram um noviço a revelar o local onde o missionário estava escondido.


 O prisioneiro não tinha direito, não era protegido por lei… Ele estava sujeito aos caprichos de seus guardas e seus juízes.  Como ele foi preso, assumiu-se que ele era culpado e se ele era culpado, ele poderia ser punido.
 A primeira foi realizada em KouChing Hien. As respostas do mártir eram admiráveis:
 – Você é um sacerdote cristão?
 – Sim, eu sou um padre e eu professo essa religião.
- Você pode renunciar a sua fé?
 – Eu nunca vou desistir da fé em Jesus Cristo.
 Pediram-lhe para entregar a seus irmãos na fé e dizer por que ele havia violado as leis da China. Na verdade, eles queriam a vítima como culpada.  Mas uma testemunha de Cristo não é um informante.  Além disso, ele fez uma pausa.
 O prisioneiro foi depois transferido para Siang-Yang.  O interrogatório tornou-se mais brutal.  Puseram-no de joelhos, por várias horas, sobre as cadeias de ferro enferrujado; foi suspenso por seus polegares e os cabelos com um feixe (hangtzé de punição); foi espancado com bastões de bambu. Porém, mais do que a violência física, foi atacado e ridicularizado no tocante aos valores em que acreditava: a esperança de vida eterna, o valor dos sacramentos e a fé.
 O terceiro ensaio foi realizado em Wuchang. Foi mencionado antes dos quatro tribunais e foi submetido a 20 interrogatórios. Às perguntas foram adicionados à tortura e ser ridicularizado de forma ainda mais cruel. Processaram o missionário… Entre as falsas acusações que inventaram contra o inocente missionário, destacou-se uma terrível: a de ter tido relações imorais com uma garota chinesa, Anna Kao, que tinha feito voto de virgindade. Le martyr se défendit. O mártir defendeu-se.  Negou peremptoriamente qualquer desrespeito a essa mulher, em virtude de suas fortes convicções cristãs e a seu voto de castidade, que respeitam a mulher. O cristianismo e sua atividade missionária jamais poderiam ser acusados nesse ponto. Essa foi a essência da resposta de Jean-Gabriel Perboyre. No entanto, o santo ficou muito triste, porque pessoas inocentes estavam sofrendo por causa dele.
 Durante o interrogatório, foi forçado a usar o ornamento da Missa. Eles queriam o acusar de se servir do ministério sacerdotal para atender a seus interesses pessoais. Mas o missionário, vestindo paramentos, impressionou tanto em sua postura, serenidade e, diria, autoridade, que alguns cristãos que ali estavam, bem como dois assistentes, aproximaram-se e, entre lágrimas, lhe pediram a benção e a absolvição. 

O juiz era o iníquo vice-rei, praticamente determinado a executá-lo.  O missionário se tinha tornado um frágil "cordeiro" cercado por "lobos famintos". A ira do homem sem escrúpulos desencadeou-se sem tréguas contra este ser frágil.  Cego pelo poder que possuía,  queria a todo custo arrancar do missionário uma confissão e o reconhecimento das falsas denúncias.  Mas, se seu corpo estava fraco, sua alma tinha se fortalecido. Ele esperava ardentemente por seu encontro com Deus, desejo esse havia aumentado dia após dia. 
Quando foi a última vez de ser interrrogado, Jean-Gabriel disse: “Eu prefiro morrer a negar a minha fé"! Cheio de ódio, o juiz pronunciou a sentença. Esta seria a morte por estrangulamento.


 Com Cristo sacerdote e vítima
 Depois veio um período de espera para a confirmação da sentença pelo Imperador. Talvez nós pudéssemos esperar clemência do soberano. Mas, a guerra contra os britânicos proíbe qualquer possibilidade de um gesto de boa vontade. E assim, em 11 de setembro de 1840, um enviado imperial chegou a galope, com o decreto de confirmação da sentença.
Com sete bandidos, o missionário foi conduzido a uma colina chamada “montanha vermelha". Os bandidos foram os primeiros… e, em seguida, graças, sem dúvida alguma, a uma intervenção divina, deram ao Padre Perboyre uma pausa para que fizesse uma oração, fato esse que causou espanto aos espectadores.
 Quando chegou sua vez, os carrascos o despojaram de sua túnica vermelha e o amarraram a um poste em forma de cruz. Passaram uma corda ao pescoço e, como um "torniquete", estrangularam-no. Era a hora sexta, isto é, 15 horas. Como Jesus, João Gabriel, morreu como um grão de trigo que cai no chão.  Ele morreu, ou melhor, ele nasceu no céu, para descer à terra com o orvalho de bênçãos de Deus.
 Embora as circunstâncias de sua detenção: foi traído, preso, condenado à morte e morto na mesma hora da Paixão de Cristo, toda sua vida foi uma imitação da vida do Mestre, pois, foi um discípulo e testemunha fiéis do Senhor. Santo Inácio de Antioquia, famoso mártir, um dia escreveu: “eu O procuro, a ele que morreu por nós e desejo imitar seu exemplo. Aproximamo-nos do momento em que eu sou dado ao nascimento para a vida. Tenha piedade de mim, irmãos, não impedir a ascensão para a vida”.
 Jean-Gabriel nasceu para viver o dia 11 de setembro de 1840, porque ele sempre procurou aquele que morreu por nós. Por seu amor às terras chinesas, podemos certamente afirmar que “seu corpo encontra-se na França, mas, seu coração manteve-se em sua terra escolhida, a China”

 Fonte:http://www.vatican.va/news_services/liturgy/saints/ns_lit_doc_19960602_perboyre_fr.html


Fragmentos de uma biografia escrita por seus contemporâneos: 

 “Ah! Como é bela esta Cruz plantada no meio das terras dos infiéis e muitas vezes regada do sangue dos apóstolos de Cristo.”(p.16).
 “A família Perboyre não pôde participar da ordenação da ordenação em Paris. No entanto, seu irmão Luís, estudante de Teologia em São Lázaro participou, representando toda família.”(p.21).
 “Cabeça raspada, mesmo no alto onde pende uma longa trança, de bigode, balbuciando sua nova língua”. Torna-se aprendiz: “Dizem que pareço um perfeito chinês”.  Durante quase cinco anos partilha e anima a vida o pobre povo chinês. Faz viagens cansativas. Visita os cristãos de casa em casa, exercendo seu ministério profético da consolação. Na busca de levantar os oprimidos, torna-se ele próprio um oprimido, perseguido, traído, preso (por oito meses), torturado, sentenciado, enfim estrangulado na cruz aos 11 de setembro de 1840. ”(p.25)
 “Fazia dó vê-lo, diz uma testemunha ocular, só com uma camisa e com calções em trapos, com uma corrente ao pescoço e as mãos amarradas”. Ei-lo de joelhos diante do Juiz. Os soldados o rodeiam, puxam-lhe as orelhas e os cabelos, obrigando-o a olhar para o seu algoz. O mandarim pergunta-lhe se era europeu e chefe da falsa seita cristã… Responde com calma: “sou europeu e missionário dessa religião”. Intimado a denunciar os cristãos que tinham fugido, nada respondeu. O algoz irritado bate-lhe no rosto com uma grossa correia de couro. De suas faces e de sua boca inchadas e feridas jorrou sangue. (p.33).
 O Vigário Geral de Montauban testemunhava dele: “O senhor Perboyre não é somente afável, ele era a própria afabilidade”.(p.40)



 Fonte: Jean-Gabriel Perboyre. Mártir da China.  Congregação da Província do Sul. Colaboradores: Euzébio Spila, Simão Valenga, Fabiano Spila, Eugênio Wisniewski, Lourenço Biernaski, Lourenço Mika, Rogério Narloch.