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sábado, 21 de fevereiro de 2015

Serva de Deus Maria Simma, Virgem e Mística (vidente das Almas do Purgatório)



Serva de Deus Maria Simma.
Deus é admirável em seus santos! Sim! No século passado e início do séc. XXI, nosso Senhor suscitou uma bela alma para relembrar à Igreja e ao mundo a devoção às almas do Purgatório, já bastante esquecida por muitos padres e leigos. 
O purgatório é uma realidade terrível, não uma lenda ou "conto da carochinha". É um dogma de fé católico que trás em si uma dura realidade que jamais pode ser esquecida por nós. 
Nesta publicação trago ao conhecimento dos leitores do blog a Sra. Maria Simma, uma camponesa e depois empregada doméstica à qual as benditas almas do purgatório, por vontade divina, apareciam para revelar-lhe como era o purgatório e que era possível fazer para aliviar-lhes os sofrimentos. 



Maria Simma: notas biográficas.

Alguns breves tratos dados ao seu bispo, Dom Franz Tschann, auxiliar de Feidkirch (+1935) pelo P. Alfonso Matt sacerdote da Vidente.

Maria Ágata Simma, nasceu no dia 5 de fevereiro de 1915 em Sonntag (Vorarlberg). Sonntag está situado no extremo de Grosswalsertal, a cerca de 30 km a este de Feldkirch, na Áustria. O pai de Maria Simma, José Antônio, era filho do proprietário da pensão do Leão (Lówe), que se chamava também José Antônio e de sua esposa Anna Pfisterer di Sonntag.
Por muitos anos trabalhou como porteiro, depois como camponês do seu irmão Johann Simma, agricultor de Bregenz, onde conheceu Aloisa Rinderer, filha de um funcionário da ferrovia que Johann criou como se fosse sua filha. José Antônio se casou com Aloisa mesmo que entre eles houvesse uma diferença de 18 anos de idade. 
Foram morar nos arredores de Sonntag. Durante a primeira guerra mundial trabalhou como carteiro, depois como lixeiro e camponês, depois se aposentou. Com a sua esposa e os seus oito filhos foi morar em uma velha casa que lhe foi dada em testamento da um bom velho, Franz Bickel, mestre marceneiro.
Devido à grande pobreza da família, os filhos, ainda muito jovens, tiveram que ir trabalhar para ajudar no sustento da família: os rapazes como operários e as moças como baby sitters (cuidadoras de crianças). Maria Simma foi, desde a juventude, muito pia e frequentou assiduamente os cursos de instrução religiosa dados pelo seu sacerdote, Padre Karl Fritz. Depois da escola primária partiu para a Svevia, mais tarde para Hard, Nenzing e Lauterach. Queria ser freira, mas em três vezes se viu mandada a casa por causa da sua constituição frágil.
O seu enxoval para o convento o tinha uma parte já mendigado e parte o tinha ganhado sozinha. Por três anos ficou ao serviço em Feldkirch, na casa de S. José. Depois que foi embora de Gaissau ficou em casa com seu pai e tomou conta da igreja. Com a morte do pai em 1947, viveu sozinha. Para poder se sustentar se ocupava de jardinagem. Vive de pobreza e vem ajudada por pessoas caridosas.
A sua permanência por três vezes no convento, a formarão e a fizeram progredir espiritualmente, preparando-a assim ao seu apostolado em favor das almas do purgatório. A sua vida espiritual é caracterizada pelo amor filial para com a Santíssima Virgem e do desejo de socorrer as almas do purgatório, mas, também de ajudar com todos os meios as Missões católicas.
Ela fez um voto a Nossa Senhora doando a sua virgindade e fez a consagração à Virgem Maria conforme o método de São Luís Maria Grignon de Montfort, em favor, sobretudo, dos defuntos, e se ofereceu a Deus, fazendo-lhe o voto como "vítima" de amor e de expiação.
Maria Simma encontrou a vocação que Deus designou a ela: ajudar as almas do purgatório com a oração, o sofrimento expiatório e o apostolado. Na época do nazismo ajudou a preparar as crianças à confissão e ao catecismo da primeira comunhão, dando a eles uma instrução religiosa complementar e demonstrando, nesta missão, um verdadeiro talento e uma grande destreza.





Passou toda a sua vida a serviço das pobres almas sofredoras que , a partir da década de 50, frequentemente apareciam-lhe suplicando por sufrágios. Tudo oferecia ao Senhor e a Nossa Senhora por elas: as Santa Missa cotidiana, a oração do Rosário mariano, a cruz do dia a dia, as contrariedades, tribulações, penitências, jejuns, a conformidade com a vontade de Deus, levando uma vida muito simples e escondida da “fama” do mundo.
Faleceu em odor de santidade em 2004, aos 89 anos de idade. Seu processo de beatificação já teve início.
Abaixo trago suas principais orientações em relação ao sufrágio das Almas do Purgatório:


A VISÃO DO PURGATÓRIO
“‘O purgatório está em muitos lugares’, respondeu uma vez Maria Simma. ‘As almas não vêm do purgatório, mas vêm com o purgatório’. Maria Simma viu o purgatório de diferentes maneiras. Há enormes multidões de almas no purgatório. É um contínuo vaivém. Uma vez viu um grande número de almas, completamente desconhecidas. As que haviam pecado contra a fé traziam uma chama escura sobre o coração, outras, que haviam pecado por impureza, traziam uma chama vermelha.
Depois viu também as almas em grupos: padres, religiosos, religiosas, viu católicos, protestantes e pagãos. As almas dos católicos devem sofrer mais que as dos protestantes. Os pagãos, em compensação, têm um purgatório ainda mais leve, mas recebem menos ajuda e a sua pena dura mais tempo. Os católicos recebem mais ajuda e salvam-se muito mais depressa.
Viu ainda muitos religiosos e religiosas, condenados ao purgatório por sua tibieza e falta de amor. Até crianças de apenas seis anos podem precisar sofrer muito tempo no purgatório.
A maravilhosa harmonia existente entre o amor e a justiça de Deus no purgatório foi revelada a Maria Simma. Cada alma é castigada segundo a natureza de suas faltas e o grau de apego com que cometeu o pecado.
A intensidade do sofrimento não é a mesma para cada alma. Algumas devem sofrer como se sofre numa vida difícil sobre a terra e devem esperar para chegar à contemplação de Deus. Um dia de purgatório pesado é mais terrível que 10 anos de purgatório leve. A duração das penas é bem variável. Há ainda almas que devem sofrer duramente até o Juízo Final. Outras têm apenas meia hora para sofrer ou ainda bem menos; a bem dizer, atravessam voando o purgatório.
O demônio pode torturar almas do purgatório, principalmente as que foram causa da condenação de outras. As almas do purgatório sofrem com admirável paciência e louvam a misericórdia de Deus, graças à qual escaparam do inferno. Sabem que mereceram sofrer e se arrependem de seus pecados. Imploram Maria, a Mãe de Misericórdia. Maria Simma viu também muitas almas que esperavam o socorro da Mãe de Deus. Quem acha durante a vida que o purgatório não é tão mau assim e disso se prevalece para pecar, deve pagar duramente por isso.





COMO PODEMOS AJUDAR AS ALMAS DO PURGATÓRIO?

1. Principalmente pelo Santo Sacrifício da Missa, que é insubstituível.
2. Pelos sofrimentos expiatórios: todo sofrimento físico ou moral oferecido para as almas, traz grande alívio.
3. O Rosário (parcial ou completo) é, depois da missa, o meio mais eficaz de ajudar as almas. Através do rosário são libertadas diariamente numerosas almas que, sem essa ajuda, deveriam sofrer muitos anos ainda.
4. A Via Sacra também pode lhes trazer grande reconforto.
5. De inestimável valia são as Indulgências, dizem as almas.
São elas uma apropriação da expiação oferecida por Jesus a Deus, seu Pai. Todo aquele que, durante a vida, ganha muitas indulgências para os mortos, receberá também mais do que os outros na sua última hora; pois receberá a graça de ganhar inteiramente a indulgência plenária. Não tirar proveito desses tesouros da Igreja para as almas do purgatório é uma crueldade. Vejamos! Se você se encontrasse diante de uma montanha de moedas de ouro, com a possibilidade de pegar quantas quisesse para ajudar um pobre infeliz, incapaz, por si mesmo, de pegá-las, não seria cruel você recusar o trabalho de estender a mão para fazê-lo? Em muitos lugares, diminuem ano a ano o uso das orações indulgenciadas. Os fieis deviam ser exortados a fazê-las com frequência.
6. As esmolas e as boas obras, principalmente as doações para as Missões, ajudam as almas do purgatório.
7. Acender velas ajudam-nas também, primeiro por ser um ato de atenção e amor para com elas; depois, porque se são bentas, as velas iluminam a escuridão em que se encontram as almas.
Uma criança de 11 anos, da família Kaiser, pediu orações a Maria Simma. Estava no purgatório por ter, no Dia de Finados, apagado as velas sobre os túmulos e roubado a cera para brincar. Velas bentas têm muito valor para as almas. No dia de Nossa Senhora das Cadeias, Maria Simma teve que acender duas velas por uma alma enquanto suportava por ela sofrimentos expiatórios.
8. A aspersão de água benta também alivia os sofrimentos dos mortos. Certa vez, aspergindo água benta para as almas ao sair de casa, Maria Simma ouviu uma voz dizer-lhe: ‘Mais!’.
Todos esses meios de consolação não ajudam as almas na mesma proporção. Se alguém em vida deu pouco valor à santa missa, também quando estiver no purgatório a missa lhe será de pouco proveito. Quem durante a vida teve o coração insensível, recebe pouca ajuda. Duramente devem expiar também aqueles que pecaram por difamação. No entanto, quem teve um bom coração durante a vida, recebe muita ajuda. Uma alma que havia negligenciado sua frequência às missas pôde pedir oito missas para alívio de seu sofrimento porque, durante sua vida, havia mandado celebrar oito missas por uma alma do purgatório.



MARIA E AS ALMAS DO PURGATÓRIO

Maria é, para as almas do purgatório, a Mãe de Misericórdia.
Quando Seu nome ressoa no purgatório, as almas experimentam grande alegria. Uma alma disse que, ao morrer, Maria pediu a Jesus a libertação de todas as almas que se encontravam então no purgatório. Jesus atendeu esse pedido de sua Mãe e, no dia da Assunção, essas almas acompanharam Maria ao céu, por ter sido Ela, nessa ocasião, coroada Mãe de Misericórdia e Mãe da Divina Graça. No purgatório, Maria distribui as graças de acordo com a vontade de Deus; passa frequentemente pelo purgatório. Isso foi o que viu Maria Simma.



AS ALMAS DO PURGATÓRIO E OS AGONIZANTES

Na noite de Todos os Santos uma alma lhe disse: ‘Hoje, dia de Todos os Santos, vão morrer, no Vorarlberg, duas pessoas que estão em grande perigo de se perderem para a eternidade. Só poderão ser salvas se rezarmos por elas com insistência’. Maria Simma rezou, sendo ajudada ainda por outras pessoas. Na noite seguinte, uma alma veio dizer-lhe que as duas tinham escapado do inferno e chegado ao purgatório. Um dos dois doentes deixou-se ainda administrar no último momento; o outro recusou a unção dos enfermos. As almas do purgatório dizem que muita gente vai para o inferno porque pouco rezamos por elas. Deveríamos rezar de manhã e à noite a seguinte oração indulgenciada:
Jesus, Tu que amas de um amor tão ardente as almas, peço-te e conjuro-te, pela agonia de teu Sacratíssimo Coração e pelas dores de tua Santíssima Mãe, lava, em teu sangue, os pecadores do mundo inteiro que se encontram agora em agonia e que vão morrer nesta noite ainda.
Divino Coração de Jesus, que sofreste a agonia, tem misericórdia dos agonizantes. Amém.
Maria Simma viu uma vez muitas almas sobre a balança entre o inferno e o purgatório.”.
Fonte: “Maria Simma, Segredos revelados pelas almas do Purgatório”, Associação Maria Porta do Céu.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

São Basílio Magno, Bispo e Doutor da Igreja.


Pai do monaquismo oriental, cognominado "o Grande" pelo exímio governo de sua diocese, São Basílio foi sobretudo chamado de "Magno" por sua defesa da Santíssima Trindade, perante a heresia ariana.


O século IV da Era Cristã poderia ser descrito como um período de controvérsias teológicas. Não obstante, foi uma época áurea da Igreja, pois, justamente por isso, surgiram eminentes figuras na defesa da Fé, entre as quais se encontram três capadócios de truz, cujas vidas se entrelaçam nesta cadeia de ouro de fidelidade: São Gregório de Nazianzo, São Gregório de Nissa e seu irmão São Basílio Magno, a quem dedicamos este artigo.



Os irmãos: Gregório de Nissa
e Basílio Magno. 
Uma família de Santos

Nascido em Cesareia da Capadócia, por volta do ano 330, Basílio pertencia a uma rica e nobre família cristã. Poucos anos antes de seu nascimento, a Igreja recebera de Constantino a liberdade de culto, findando o período das grandes perseguições. Conta-se que seus avós paternos faziam parte dos cristãos que, sob o império de Diocleciano, tiveram de se refugiar durante muitos anos em alguns bosques da região, para sobreviver sem renegar a Fé.
Seus pais eram exemplares na prática das virtudes e da caridade para com o próximo, chegando a consagrar parte de seus bens aos pobres, doentes e aos mais necessitados. Tiveram dez filhos, dentre eles, além de São Basílio, destacam-se Macrina, Gregório, Bispo de Nissa, e Pedro, Bispo de Sebaste, todos estes elevados à honra dos altares.
Na infância recebeu de sua avó - também santa e de nome Macrina - as primeiras instruções religiosas. Eis como ele mesmo descreve sua benéfica influência: "Que argumento seria mais convincente para provar a autenticidade de nossa fé, senão o fato de que fomos educados e guiados por aquela bem-aventurada senhora nascida entre vós? Refiro-me a Macrina, ilustre dama, de quem aprendemos as palavras do beatíssimo Gregório, o Taumaturgo, e tudo o que foi recebido de uma ininterrupta tradição oral, que ela fielmente guardava em seu coração. Forjava o nosso ânimo ainda tenro e o iniciava nas vias da piedade".
Desde criança, Basílio revelava possuir uma alma de fogo e um temperamento vigoroso, mas unido à suavidade de trato, o que marcará sua trajetória terrena, em especial quando assumir a vida pastoral da Diocese de Cesareia. Contudo, sua forte têmpera não influenciava a saúde, sempre frágil, à qual teve de dedicar frequentes cuidados ao longo da vida. "Conosco as doenças sucedem às doenças"; "nossa má saúde, que data de mais longo tempo e que não nos deixou ainda...", escrevia ele em cartas.



Comunidade de jovens em Atenas

Recebeu as primeiras letras em Cesareia, dirigindo-se depois para Constantinopla e Atenas, importantes centros acadêmicos de então. Estudou retórica e filosofia, sobressaindo-se entre os demais alunos, devido à sua rara capacidade intelectual e retidão moral.
Em Atenas, Basílio encontrou um dos maiores tesouros de sua vida: Gregório de Nazianzo, de quem se fez amigo íntimo e fiel. Providencial foi este relacionamento, que os encorajou a viver íntegros em meio aos dissolutos costumes estudantis gregos, além de se manterem firmes na fé, porque não eram poucas as ocasiões em que hostilizavam a Religião, tanto os colegas quanto os professores. "Atenas é pestífera a quem deseja a salvação da alma", comentaria São Gregório de Nazianzo ao relembrar aqueles anos.
Ironias, sarcasmos, perguntas insidiosas eram os métodos usados para ridicularizar a verdadeira doutrina (alguma semelhança com os tempos atuais?) e, infelizmente, nem sempre os estudantes cristãos estavam à altura para refutar as inverdades e calúnias. Foi numa dessas disputas estudantis que Gregório conheceu Basílio. Incomodados com a presença deste último, alguns colegas, invejosos de seu talento e eloquência, aproximaram-se dele e o "atacaram com questões muito capciosas e sutis, com o intuito de derrubá-lo no primeiro assalto", recorda-se São Gregório de Nazianzo. No entanto, admirável foi sua resposta. "Quando me dei conta da prodigiosa eficácia da dialética de Basílio, me uni a ele... E, assim, entre nós se acendeu a chama da amizade, que não foi simplesmente uma faísca, mas farol alto e luminoso".
Unidos no mesmo ideal, traçaram ambos um plano de vida: abster-se dos banquetes, das festas e tantas outras coisas, ainda muito impregnadas de paganismo. Este exemplo não tardou a levar um significativo número de rapazes, que também aspiravam à perfeição, a juntar-se aos dois. "Em torno de nós se havia formado uma significativa comunidade de jovens, os quais tinham Basílio como orientador, o seguiam e eram partícipes de sua alegria".
Terminados os estudos em Atenas, resolveu voltar para a Capadócia. Levava consigo não só um importante cabedal de ciência, bem como um progresso na virtude. Seus horizontes haviam-se alargado, as disputas e os argumentos falaciosos que precisara refutar lhe fizeram conhecer melhor a mentalidade do mundo no qual vivia e que haveria de enfrentar em defesa da Fé.


Nulidade do mundo que passa

De volta a Cesareia, passou pela terrível tentação de levar uma vida mundana e tranquila. Sua fama se havia espalhado e seus concidadãos ofereceram-lhe uma cátedra de retórica, o que de bom grado aceitou. O pecado e a vida dissoluta longe estavam de atraí-lo, porém não era a uma vida fácil que a Providência o chamava. E o instrumento divino que lhe reavivou na alma os desejos de perfeição surgidos quando estava em Atenas foi sua irmã Macrina. Imbuída da firmeza das virgens, cujo véu recebera, não cessava de exortá-lo à vida consagrada, a almejar apenas o Reino dos Céus, a desapegar-se das efêmeras honras deste mundo e a ouvir a voz interior que o chamava a dedicar-se a Deus.
"Macrina - escreve seu irmão, São Gregório de Nissa - o guiou com tal rapidez ao objeto da verdadeira filosofia, que ele, desviando-se daquela que o mundo adora, renunciou à glória da eloquência para consagrar-se inteiramente a uma vida de pobreza e trabalho".
Mais tarde, o próprio São Basílio escreverá que havia perdido quase toda a sua juventude no estudo da ciência mundana e parecia que as admoestações da irmã o haviam despertado de um sono profundo: "com os olhos bem abertos contemplava a luz admirável da verdade, que diante de mim emanava do Evangelho, como de um sol nascente. Reconheci a nulidade da sabedoria do mundo que passa e desaparece".
Após esta conversão, percorreu o Egito, a Palestina e a Síria, a fim de visitar e conhecer de perto os ascetas que ali viviam, desejando também ele levar uma vida retirada, para o que se dedicou mais à teologia e iniciou o estudo das Sagradas Escrituras.



Nasce o monaquismo oriental

De volta a Cesareia, pediu o Batismo - segundo o costume de então, de serem batizados adultos -, vendeu parte dos bens que possuía e iniciou uma vida de eremita nas proximidades do rio Íris, em Annesi, numa das propriedades da família. Logo o acompanhou Gregório de Nazianzo, seguido de muitos outros. Levavam não uma vida como a dos ascetas que visitara, pois o desejo de Basílio era de viver em comunidade, dividindo o dia em períodos de estudos, trabalho, oração e sacrifícios.
Esta nova forma de vida comunitária religiosa deu origem à instituição dos monges basilianos, para os quais ele redigiu algumas prescrições ascéticas, hoje conhecidas como a Grande Regra e a Pequena Regra, base do monaquismo oriental, que, posteriormente, acabou tendo influência sobre os monges do Ocidente. Inspirado nos ensinamentos evangélicos, São Basílio fundamentou sua obra no amor a Deus e ao próximo. Em suas regras, depois de enumerar as obrigações da vida comum de todo cristão, exortava os que são chamados a um maior grau de perfeição: "Todo aquele que se apaixone pelo celeste ideal de uma vida angélica e deseje converter-se em companheiro de armas dos santos discípulos de Cristo, revista-se de forças para suportar as provas e entre com valentia na sociedade dos monges. Desde o início seja um homem que não se deixe levar pelos afetos dos parentes e tenha a coragem de trocar os bens terrenos pelos que não morrem".
Cinco anos passou São Basílio na vida contemplativa. Talvez pensasse que nela transcorreria toda a sua existência, porque o ideal monástico era o que mais almejava. Mas, a Providência lhe tinha destinado outras vias, numa época conturbada pelas heresias.


 
Bispo de Cesareia

Chamado por Eusébio, Bispo de sua diocese natal, para auxiliá-lo, foi ordenado presbítero por ele, e com sua morte Basílio foi eleito Bispo de Cesareia para sucedê-lo. Era desde há muito conhecido por todos não só por sua probidade e obras caritativas, como por sua fidelidade à ortodoxia, algo especialmente valioso naquele contexto histórico, segundo período da crise ariana, a mais nefasta heresia do tempo.
Amigos das fórmulas ambíguas, as quais poderiam ser interpretadas a seu bel-prazer, os discípulos de Ário seguiam arrastando com suas ideias grande parte dos fiéis. Divididos em três facções - hereges declarados, arianos moderados e semiarianos -, sua influência era tal que São Basílio escrevia a Santo Atanásio: "Toda a Igreja se dissolve, como numerosos navios em alto-mar vagando a esmo, batem-se uns contra os outros sob a violência das ondas. É um grande naufrágio cujo responsável é o mar em fúria e também a desordem dos navios, indo uns contra os outros, despedaçando-se mutuamente. Onde encontrar um piloto à altura da situação, que seja assaz digno de fé para despertar o Senhor, a fim de que Ele ordene aos ventos e ao mar"?

Vendo-os apoiados pelo imperador, que se julgava com o direito de intervir na esfera espiritual, muitos dos que eram fiéis à verdadeira doutrina da Igreja contemporizavam, por medo da perseguição e do exílio. O próprio São Basílio foi censurado pelas autoridades civis, mas não cedeu às suas solicitações, mantendo-se impávido na defesa da Fé. O imperador chegou a dividir a região de sua diocese, com o intuito de coarctar a ação do Santo. Este, entretanto, sagaz como era, aproveitou-se da situação para criar dois novos Bispados - Nissa e Sásima -, colocando à cabeça dos mesmos seu irmão Gregório e o amigo de mesmo nome.


Uma só essência, em três Pessoas Divinas

As controvérsias teológicas com os arianos giravam, sobretudo, em torno da divindade do Filho e do Espírito Santo. O Concílio de Niceia afirmava a divindade e a consubstancialidade da Segunda Pessoa da Trindade com o Pai, sustentava a verdadeira humanidade e divindade do Verbo Encarnado e proclamava a fé no Espírito Santo. Todavia, nada dizia a respeito da natureza e da substância da Terceira Pessoa, e não definia os termos substância, pessoa e natureza, usados para defender a divindade do Filho, termos estes que eram susceptíveis a diversas interpretações.
Homem de um profundo espírito de piedade, contemplativo e varão de grande união com Deus, Basílio conseguiu definir a diferença entre os termos gregos usados, fazendo compreender que em Deus há uma só essência e três Pessoas. E que, portanto, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um só Deus. Em seu Tratado sobre o Espírito Santo, proclamou a divindade da Terceira Pessoa e sua igualdade consubstancial com o Pai e o Filho; e mostrou que as fórmulas com, em quem, para quem, por quem, usadas ao se mencionar o Espírito Santo, não supõem que Ele tenha uma origem ou uma essência diferente do Pai e do Filho.
Seu maior mérito constituiu, portanto, em esclarecer a terminologia teológica trinitária, completando o terreno da ortodoxia católica de Niceia, não deixando margem a posteriores interpretações heréticas e contribuindo para a futura definição do Símbolo Niceno-Constantinopolitano, promulgado no Concílio de Constantinopla, alguns anos após sua morte.



Cognominado "o Grande", ainda em vida

São Basílio passou nove anos à testa da Igreja de Cesareia e, além de suas pugnas doutrinárias, seu labor de pastor foi infatigável, exercendo inúmeras obras de caridade: acolheu os pobres, exortou os ricos na caridade fraterna, continuou a promover a vida monástica, fundou um hospital conhecido por Basilíades, em tempo de carestia juntou todos os esforços para mitigar a situação penosa pelas quais passava sua diocese, além de muitas outras que, junto com toda a sua atividade apologética, lhe valeram o cognome "o Grande", ainda em vida.
"Para o resto dos homens se faz o elogio à força de exageros; mas, no que toca aos justos, a simples verdade de seus atos basta para mostrar a abundância de seus méritos". Esta frase, pronunciada por São Basílio a respeito de São Górdio, mártir, perfeitamente lhe pode ser aplicada. Ele entregou sua alma justa a Deus no primeiro dia de janeiro de 379 e, sem embargo, de certo modo podemos dizer que não morreu e permanece vivo no firmamento da Igreja, iluminando-a como um sol de fidelidade, num perpétuo e fiel exemplo de amor à verdade e a Deus.
(Revista Arautos do Evangelho, Janeiro/2015, n. 157, p. 32 a 35)

Beata Cristina de Spoleto, Leiga e Penitente.

O início da vida desta figura singular de mulher pode muito bem se colocar quando, por volta de 1430, ela decide mudar de vida, abandonar a família e os locais nos quais havia vivido, e vestir o hábito secular das Agostinianas.
Daquele momento em diante sua existência foi uma permanente peregrinação em busca de um local para viver no esquecimento. Permaneceu próximo de alguns mosteiros agostinianos não ingressando jamais em nenhum deles. A vida de oração, de mortificação, mas sobretudo as obras de misericórdia junto aos necessitados, a obrigavam a se afastar todas as vezes que percebia ser objeto de atenção.
Em 1457, visitou os locais santos de Assis e de Roma, para depois se dirigir à Terra Santa em companhia de outra terciária. No retorno, chegou a Spoleto onde permaneceu por um breve período, dedicando-se ao cuidado dos doentes no hospital da cidade. Nesta cidade, embora ainda muito jovem, faleceu no dia 13 de fevereiro de 1458, com fama de santidade.
O seu corpo foi sepultado sob as expensas da comuna de Spoleto na igreja agostiniana de São Nicolau. Numerosas graças e milagres atribuídos à sua intercessão contribuíram para difundir e a aumentar o seu culto, iniciado imediatamente após sua morte, o que levou Gregório XVI a ratificá-lo proclamando-a Beata em 1834.
Os hagiógrafos são concordes quanto aos dados relativos à sua vida após a decisão de vestir o hábito de terceira agostiniana. Não, entretanto, quanto ao tempo anterior à sua heroica decisão de fugir do mundo permanecendo no mundo, motivo pelo qual é conhecida sob várias denominações.
Alguns consideram que ela pertencia à família dos Visconti de Milão, ou àquela dos Calvisanos, na Brescia. Sua fuga teria sido motivada pelo desejo de livrar-se de quantos desejavam casar-se com ela contra os seus próprios desejos e ideais.
Segundos outros, seu nome era Agostinha, nascida em Osteno, nas proximidades do lago de Lugano, por volta de 1432, filha do médico João Camozzi e casada bem jovem com um artesão do local. Tendo enviuvado muito jovem, num relacionamento com um cavalheiro milanês teve um filho que morreu pequenino. Casando-se de novo, perdeu o marido morto por um soldado.
A Beata Cristina é um exemplo de penitência e de humildade para o laicato católico.

Martirológio Romano: Em Spoleto na Úmbria, Beata Cristina (Agostinha) Camozzi, que, depois da morte do marido, tendo vivido durante algum tempo sob a concupiscência da carne, deixou-a para abraçar uma vida de penitência na Ordem Secular de Santo Agostinho, dedicando-se à oração e ao serviço dos doentes e dos pobres.

(Fontes: Heroínas da Cristandade e www.santiebeati.itFonte: www.santiebeati.it

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

SÃO JOSÉ VAZ, Presbítero e Missionário no Sri Lanka.


O Papa Francisco a canonização do Beato José Vaz, sacerdote nascido na Índia e que dedicou parte de sua vida a evangelizar Sri Lanka.
“O Pe. José Vaz foi um grande sacerdote missionário, pertencente à linha interminável de anunciadores ardentes do Evangelho, missionários que, em todas as épocas, deixaram sua própria terra para levar a luz da fé aos povos que não são deles”, disse São João Paulo II quando o beatificou em sua visita ao Sri Lanka em 1995.


José Vaz nasceu em 21 de abril de 1651 na Goa, na costa oeste da Índia. Quando menino visitava com frequência o Santíssimo Sacramento. A tradição local diz que as portas da igreja se abriam para que entrasse e passasse horas diante de Jesus sacramentado. Em sua cidade natal já o chamavam de santo e era conhecido por rezar o Santo Rosário enquanto caminhava para a escola ou à Igreja.

Nas escolas onde esteve aprendeu português e latim, sendo um estudante brilhante. Seu pai o enviou a Goa para que estudasse na Universidade dos Jesuítas e posteriormente à Academia de Santo Tomás de Aquino, onde estudou filosofia e teologia.

O beato foi ordenado diácono em 1675 e sacerdote em 1676. Em Sancoale onde iniciou seu ministério abriu uma escola de latim para os futuros seminaristas e para a educação de outros jovens. Sendo devoto de Nossa Senhora, consagrou-se como “Escravo de Maria”, tal como se constata em sua “Carta de Escravidão”.


José Vaz estava muito preocupado pela situação difícil da Igreja no Sri Lanka, onde os governantes holandeses tinham proibido que os sacerdotes trabalhassem na ilha. O beato se ofereceu para ir ao Sri Lanka, mas foi enviado a Kanara, atual Karnataka e Mangalore, Índia.

Ao retornar a Goa adotou a regra do Oratório fundado por São Felipe Neri junto a outros sacerdotes indianos e decidiram levar uma vida em comum. Eles se ficaram conhecidos como os “sacerdotes do Oratório”.

Seu desejo de ir ao Sri Lanka permanecia e em 1686 partiu da Goa até a Jaffna, na costa norte do Sri Lanka. Teve que disfarçar-se como pedreiro para que não fosse preso. Mais adiante faz contato com os católicos às escondidas.
Converteu-se em um mestre do disfarce fazendo-se de padeiro, servo ou porteiro para atender os católicos sem levantar suspeitas do governo do Sri Lanka. Como sacerdote, costumava trabalhar durante as noites, aproveitando a luz da Lua. A seu sobrinho escreveu: “Ser como a Lua, frente a Jesus, o Sol”. Por este motivo sua iconografia o representa com o Sol e a Lua.

O santo também foi premiado por Deus com o dom milagres, que confirmaram sua dedicação à fé e à missão católicas.

O Papa Clemente XI abençoou os missionários do Oratório que junto com o Padre Vaz conseguiram a conversão de mais de 100 mil pessoas à fé católica para a época que faleceu.

Quando sentiu que já era hora de partir para a Casa do Pai, preparou-se com uma oração intensa. Antes de morrer disse aos irmãos reunidos ao seu redor: “Dificilmente é possível fazer no momento da morte o que não foi feito em vida”.

O crucifixo que o Papa lhe deu, foi enviado pelo Pe. Vaz a Goa e se conserva na “Sala do Oratório do Beato José Vaz” em Sancoale, Goa, Índia. É a única relíquia do beato e é visitada por milhares de devotos de todo o mundo.

Ele morreu pacificamente no dia 16 de janeiro de 1711 em sua querida cidade de Kandy, centro de sua missão. Honrado pelo rei, o corpo foi exposto ao público por três dias. São José Vaz é conhecido como o “Opóstolo do Sri Lanka” pelo seu serviço que fez à Igreja em uma época de perseguição durante o reinado dos holandeses no século XVII.



Segundo texto biográfico:

Nascido na Índia em 1651, na alta casta dos brâmanes, José Vaz era chamado por Deus para ser o apóstolo do Ceilão.

Em Goa, quem atravessa uma das pontes que cruzam o rio Mandovi pode notar, no distrito de Sancoale, a fachada de uma singela igreja colonial. Essa parede frontal destaca-se em meio à densa vegetação e é o que restou da igreja de Nossa Senhora da Saúde, destruída por um incêndio em meados do século XIX. Contudo, resistindo a ventos e tempestades, como também ao silêncio com que a História às vezes cobre certos vestígios do passado, essa ruína bem conhecida evoca um gesto de profunda piedade, próprio a suscitar a admiração das almas católicas ao longo dos tempos.



“Escravo de Maria”
Ali, no remoto ano de 1677, fez sua consagração como “escravo de Maria”, um jovem sacerdote indiano, Padre José Vaz. Para documentar esse ato, redigiu ele um expressivo texto, que subscreveu, genuflexo, aos pés da imagem de Nossa Senhora da Saúde. Essa solene e voluntária entrega como escravo de amor da Santíssima Virgem, foi inspirada pela sublime humildade com que Ela própria se proclamou escrava do Altíssimo, respondendo ao Arcanjo Gabriel: “Eis aqui a escrava do Senhor...”.
Ao tomar essa atitude, o Padre Vaz deu um grande passo em sua vida espiritual, cresceu ainda mais no serviço de tão excelsa Rainha e, portanto, uniu-se ainda mais a Jesus Cristo, sendo favorecido com graças que o levaram a empreender, mais tarde, um lance de extraordinária envergadura.
De tal modo esse sacerdote marcou seus contemporâneos e as gerações posteriores, que o caminho de acesso às ruínas é hoje denominado Rua Escravo de Maria, e sua localização figura numa placa de informações, na rodovia que passa nas imediações. Não muito distantes encontram-se o santuário do Padre Vaz, ora em fase final de construção, e a residência que pertenceu à sua família. Nesta, o quarto que ele ocupou foi transformado numa pequena capela. Na vizinhança, as casas são poucas e esparsas, de modo que o ambiente é, em linhas gerais, o mesmo de três séculos atrás: um exuberante arvoredo equatorial, cortado por uma estreita e sinuosa estrada.
Seus antepassados, que receberam o santo Batismo e se tornaram fervorosos católicos, pertenciam à casta dos brâmanes, a mais alta da sociedade na Índia.



Uma visita mudou sua vida
Depois de uma temporada de pregação em Kanara, retornou o Padre Vaz a Goa, ingressando na Congregação do Oratório. Essa congregação, que contava então com vários sacerdotes filhos de famílias brâmanes, tomou como modelo o Oratório fundado em Roma por São Filipe Néri e foi distinguida com uma carta de aprovação do Papa Clemente XI. Contam as crônicas que o Padre Vaz, exímio no cumprimento de suas obrigações de vida espiritual, não descuidava das necessidades materiais da comunidade, empenhando-se com afinco na construção de novas celas do convento.
Um dia, nova página se abriu na sua biografia e também na história das missões asiáticas. Retornara de uma visita a Macau, na China, um Cônego da Catedral de Goa, que passara também pelo Ceilão (atual Sri Lanka), de onde trouxe trágicas notícias: protestantes holandeses, estabelecidos nessa ilha, haviam expulsado os portugueses e proibido, sob severas penas, a prática da religião católica. Os sacerdotes foram expulsos, as igrejas confiscadas ou destruídas, e os fiéis dispersados, ficando sem qualquer assistência espiritual.
Tal relato, ouvido pelo Padre Vaz com sentimentos de surpresa e indignação, acendeu em sua alma a chama de uma dedicação ousada e sem limites, à maneira de um São Paulo, de um São Francisco Xavier... Por que não transferir-se para o Ceilão, disfarçado de escravo ou de trabalhador manual, para localizar esses católicos perseguidos e dispensar-lhes toda a assistência necessária? Tratava-se de um plano realmente arriscado, ao qual o Padre Vaz se entregou com alegria. Após um período de espera, obteve ele a necessária autorização de seus superiores. Acompanhou-o um jovem seminarista, seu sobrinho. Nessa época, os mercadores holandeses estabelecidos no Ceilão costumavam vir em embarcações comprar escravos na cidade indiana de Tuticorin. Foi numa dessas naus que, em 1686, o escravo de Maria, levando consigo apenas seu missal, cálice e algumas roupas, fez sua heroica travessia, para alcançar a messe que o Senhor lhe oferecia.


Missão repleta de riscos e sofrimentos
A vida do missionário foi fecunda em cruzes. Chegando em 1687 ao Ceilão, ao desembarcar em Jafna, tanto ele quanto seu companheiro viram-se acometidos por grave enfermidade, chegando à beira da morte e sem ter com que se alimentar. Uma mulher pobre apiedou-se deles e caridosamente deu-lhes alimento. Passado algum tempo e recuperada a saúde, puderam entregar-se à luta. Após grandes sacrifícios — inclusive dois anos de prisão —, múltiplos esforços e muita confiança, uma porta se abriu.
Em Jafna, embora com o terço ao pescoço, o Padre José Vaz trajava-se como um pobre trabalhador braçal. Um dia, alguém indagou-lhe, de súbito, se ele era sacerdote católico. O missionário viu-se diante de um grande risco, mas respondeu com uma simples palavra — sim — e uma expressão de santidade... A pergunta partira de um influente chefe de família, um daqueles fiéis que, havia mais de duas décadas, aguardavam o momento de encontrar um sacerdote. Ante a resposta alvissareira, convidou o missionário para ir a sua casa, à noite. E a partir de então, começaram as missões domésticas e noturnas.

Reflorescimento da Igreja no Ceilão

De início, seu apostolado não visava primordialmente converter os pagãos, mas dar assistência aos católicos. Destes, muitos haviam se mantido fiéis e fervorosos sob a terrível perseguição; outros, infelizmente, haviam adormecido num estado de relaxamento e semi-fidelidade. O afervoramento — quase uma ressurreição — dessas almas, era obra especialmente necessária e difícil. Confiou-a o Padre Vaz à maternal proteção da Santíssima Virgem, sob o título de Nossa Senhora da Conversão dos Fiéis, à qual dedicou também a primeira igreja que construiu. “Conversão dos Fiéis”, uma invocação aparentemente contraditória, porém muito acertada. Pouco a pouco, reconquistada certa liberdade, a Igreja começou a reflorescer em meio aos escombros do passado.
Em 1696, o Padre Vaz escreveu ao Oratório de Goa, pedindo a vinda de outros sacerdotes para ajudá-lo nas lides apostólicas. Encontrou-se muitas vezes em situação difícil, humanamente sem solução. Nessas horas, milagrosamente, a Providência Divina intervinha a seu favor.
Em certo dia, por exemplo, soldados holandeses tentaram prendê-lo. Entretanto, não obstante terem entrado numa sala da residência na qual ele se encontrava pregando, não conseguiram vê-lo.
Em uma de suas frequentes viagens pelo interior da ilha, num caminho em meio à floresta, uma manada de elefantes ameaçou atacar a pequena comitiva. Porém, ao aproximar-se do Padre Vaz, o animal que vinha à frente se deteve e prostrou-se, sem lhe fazer nenhum mal, e os demais seguiram-lhe o exemplo.
Mais tarde, durante uma terrível epidemia que assolou o Ceilão, o Padre Vaz pôde pregar com seu próprio exemplo os ensinamentos da parábola do Bom Samaritano. Sem que sua saúde fosse atingida, dispensou toda a assistência espiritual e material aos doentes, salvando muitas vidas, e também dando sepultura aos mortos.
Por ocasião de outra calamidade, quando a ilha padeceu uma de suas mais rigorosas secas, as orações do abnegado missionário, como outrora as de Santo Elias, atraíram a tão esperada chuva.
Beatificado por João Paulo II
O Padre Basílio Barreto, que saiu de Goa para trabalhar com o Padre Vaz, deixou-nos um expressivo depoimento a seu respeito: “Vendo-o e tomando sua bênção, e dando graças a Deus, pareceu-me que toda a viagem que tinha feito e os trabalhos que nela tinha padecido foram bem empregados, por chegar a ver um padre de tão grande e santa vida. Pois só para ver a esse servo de Deus e imitá-lo, pode vir qualquer pessoa a esta missão, para aprender a santa doutrina, ainda que por isso haja de padecer muitos trabalhos: a sua vida mesma tem efeito de pregação. Não tem ele que ensinar; simplesmente por vê-lo, a pessoa fica logo compungida.” De fato, ao longo de vinte e quatro anos reconquistou o Padre Vaz para Cristo uma ponderável parcela do Ceilão. Nos seus últimos anos, o Rei Vimaladharma dispensava-lhe grande estima, tratando-o como nobre.
A 15 de janeiro de 1711, os sinos das igrejas e capelas do Ceilão repicaram finados por sua morte. Um pouco antes, ao ver a Cruz erguida naquela ilha, repetira ele as palavras do velho Simeão ao ver o Menino Jesus: “Agora, Senhor, podeis levar este vosso servo” (Lc 2, 29).

Em 21 de janeiro de 1995, os sinos de catedrais, igrejas e capelas, agora mais numerosas, repicaram de novo. Desta vez, porém, o repicar era especialmente festivo. Pisando o mesmo solo, contemplando o mesmo panorama — como outrora fizera o Padre José Vaz — e encontrando-se com a multidão dos filhos espirituais do ardoroso escravo de Maria, o Papa João Paulo II vinha a este abençoado país, a fim de proceder à cerimônia de sua beatificação, proclamando solenemente as virtudes heroicas do humilde escravo que se tornou o Apóstolo do Sri Lanka.




Viagem do Papa Francisco ao Sri Lanka e Filipinas
HOMILIA
Santa Missa e Canonização do beato José Vaz
Colombo – Sri Lanka
Quarta-feira, 14 de janeiro de 2015


«Todos os confins da terra verão a salvação do nosso Deus» (Is 52, 10).

Esta é a magnífica profecia que ouvimos na primeira leitura de hoje. Isaías prediz o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo até aos confins da terra. Esta profecia tem um significado especial para nós, que celebramos a canonização do grande missionário do Evangelho, São José Vaz. Ele, como tantos outros missionários na história da Igreja, respondeu à ordem dada pelo Senhor ressuscitado para fazer discípulos de todas as nações (cf. Mt 28, 19). Com as suas palavras e, o mais importante, com o exemplo da sua vida, conduziu o povo desta nação à fé que nos concede «parte na herança com todos os santificados» (Act 20, 32).

Em São José, vemos um sinal eloquente da bondade e do amor de Deus pelo povo do Sri Lanka. Mas, nele, vemos também um estímulo para perseverar no caminho do Evangelho a fim de crescermos nós próprios em santidade e testemunharmos a mensagem evangélica de reconciliação à qual dedicou a sua vida.

Padre do Oratório, José Vaz deixa Goa, sua terra natal, e chega a este país movido apenas pelo zelo missionário e por um grande amor a estes povos. Por causa da perseguição religiosa em ato, vestia-se como um mendigo, cumpria os seus deveres sacerdotais encontrando secretamente os fiéis, muitas vezes durante a noite. Os seus esforços deram energia espiritual e moral à população católica assediada. Sentia uma ânsia particular de servir os doentes e atribulados. O seu ministério em favor dos enfermos, durante uma epidemia de varíola em Kandy, foi tão apreciado pelo rei, que lhe foi concedida maior liberdade de ministério. A partir de Kandy, pôde alcançar outras partes da ilha. Deixou-se consumir pelo trabalho missionário e morreu, exausto, aos cinquenta e nove anos de idade, venerado pela sua santidade.

São José Vaz continua a ser um exemplo e um mestre por muitas razões, mas gostaria de focalizar três.

Antes de tudo, foi um sacerdote exemplar. Hoje temos aqui conosco muitos sacerdotes, religiosos e religiosas, que, como ele, estão consagrados ao serviço do Evangelho de Deus e do próximo. Encorajo cada um de vós a olhar para São José como para um guia seguro. Ensina-nos a sair para as periferias, a fim de tornar Jesus Cristo conhecido e amado por toda a parte. Ele é também um exemplo de sofrimento paciente por causa do Evangelho, de obediência aos superiores, de solícito cuidado pela Igreja de Deus (cf. Act 20, 28). Como nós, São José viveu num período de transformações rápidas e profundas; os católicos eram uma minoria e, com frequência, dividida no seu seio; havia hostilidade ocasional, e até mesmo perseguição, dos de fora. Apesar disso, ele, permanecendo constantemente unido ao Senhor crucificado na oração, foi capaz de se tornar para todos um ícone vivo do amor misericordioso e reconciliador de Deus.

Em segundo lugar, São José mostrou-nos a importância de transcender as divisões religiosas no serviço da paz. O seu amor indiviso a Deus abriu-o ao amor do próximo; gastou o seu ministério em favor dos necessitados, sem olhar quem fosse e onde estivesse. O seu exemplo continua a inspirar hoje a Igreja no Sri Lanka, a qual, de bom grado e generosamente, serve todos os membros da sociedade. Não faz distinção de raça, credo, tribo, condição social ou religião, no serviço que proporciona através das suas escolas, hospitais, clínicas e muitas outras obras de caridade. Nada mais pede do que liberdade para exercer a sua missão. A liberdade religiosa é um direito humano fundamental. Cada indivíduo deve ser livre de procurar, sozinho ou associado com outros, a verdade, livre de expressar abertamente as suas convicções religiosas, livre de intimidações e constrições externas. Como nos ensina a vida de José Vaz, a autêntica adoração de Deus leva, não à discriminação, ao ódio e à violência, mas ao respeito pela sacralidade da vida, ao respeito pela dignidade e a liberdade dos outros e a um solícito compromisso em prol do bem-estar de todos.

Finalmente, São José oferece-nos um exemplo de zelo missionário. Embora tenha partido para o Ceilão a fim de assistir e apoiar a comunidade católica, na sua caridade evangélica ele veio para todos. Deixando para trás a sua casa, a sua família, o conforto dos lugares que lhe eram familiares, respondeu à chamada para ir mais longe, para falar de Cristo onde quer que se encontrasse. São José sabia como oferecer a verdade e a beleza do Evangelho num contexto plurirreligioso, com respeito, dedicação, perseverança e humildade. Este é, também hoje, o caminho para os seguidores de Jesus. Somos chamados a ir mais longe com o mesmo zelo, com a mesma coragem de São José, mas também com a sua sensibilidade, com o seu respeito pelos outros, com a sua ânsia de partilhar com eles a palavra da graça (cf. Act 20, 32) que tem o poder de os edificar. Somos chamados a ser discípulos missionários.


Amados irmãos e irmãs, rezo para que, seguindo o exemplo de São José Vaz, os cristãos desta nação possam ser confirmados na fé e dar uma contribuição ainda maior para a paz, a justiça e a reconciliação na sociedade srilanquesa. Isto é o que Cristo espera de vós. Isto é o que São José vos ensina. Isto é o que a Igreja precisa de vós. Confio-vos todos à intercessão do nosso novo Santo, para que, em união com toda a Igreja espalhada pelo mundo inteiro, possais cantar um cântico novo ao Senhor e proclamar a sua glória até aos confins do mundo. Porque o Senhor é grande e digno de todo o louvor (cf. Sal 96/95, 4). Amém.




Alguns milagres feitos por nosso Senhor pela intercessão do santo missionário: 


A tempestade acalmada.




Um elefante agressivo é acalmado pela oração do santo. 




Um raio de luz incide exatamente sobre o altar no momento da celebração da Santa Missa.