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sábado, 14 de março de 2015

SÃO LOURENÇO, Diácono e Mártir. Um dos mais ilustres mártires de Roma, patrono das Almas do Purgatório.


São Lourenço nasceu no início do século terceiro, em Huesca, cidade da Espanha, no reino de Aragão. Seu pai Orence e sua mãe Paciência, ambos cristãos, lhe deram uma excelente educação.

Os virtuosos pais de São Lourenço, transmitira-lhe uma extraordinária pureza de costumes e um grande amor à castidade. Desde o alvorecer de sua vida, o jovem Lourenço foi acumulando em seu coração virtudes cristãs que o tornaram nobre, generoso, intrépido.

Distinguiu-se, sobretudo, por um exímio amor a Jesus Cristo que, após a sua morte na cruz, vinha conquistando os corações bem formados e triunfando sobre o paganismo. Na época, Roma, a capital do erro e da idolatria, tornava-se cada vez mais em uma capital do cristianismo. Movido então por um santo zelo, Lourenço mudou-se para Roma em busca do centro da religião católica.

Lá, não tardou em ser reconhecido por suas qualidades morais e sua inocência, logo descobriram seus méritos e, sobretudo o Papa São Sisto II que o chamou para junto de si, elevando-o às primeiras ordens sacras, transformou-o em diácono (um grau abaixo do padre). Pouco depois foi nomeado arquidiácono, o primeiro dos sete diáconos da Igreja Romana. Como arquidiácono, São Lourenço tornou-se ainda mais humilde, mais fervoroso e mais ardente no zelo. A esta ordem sacra, estava ele afeto, não só o cuidado de distribuir a sagrada comunhão aos fiéis, como também a administração dos bens eclesiásticos, dos vasos sagrados, dos paramentos sacerdotais, do dinheiro destinado à sustentação dos ministros e também o dinheiro para socorrer aos pobres e necessitados. Este cargo exigia de São Lourenço, uma rara prudência, uma vigilância superior e um desinteresse a toda prova. Logo que começou a atuar em suas novas funções de seu ministério, começou uma horrível perseguição visando exterminar da face da Terra os cristãos.
As crudelíssimas perseguições do imperador Valeriano, começaram sobre os bispos, os sacerdotes e os diáconos. Uma das primeiras vítimas foi o Santo Papa Sisto II, a quem São Lourenço acompanhou até o lugar do suplício. Muito triste e com os olhos cheios de lágrimas, desejoso de morrer no lugar de seu pai espiritual, disse ele ao Papa Sisto II: "Pai, para onde ides sem vosso filho? Para onde vais sem o vosso diácono? Jamais oferecestes o sacrifício, sem que eu vos acolitasse. Em que vos desagradei, Santo Padre? Achaste em mim alguma infidelidade?" Comovido por estas palavras de verdadeira dedicação filial, respondeu a ele o venerável ancião: "Não te abandono filho. Deus reservou para ti provação maior e vitória mais brilhante. Velhice e fraqueza faz com que eles tenham certa compaixão de mim. Tu, porém, és moço e forte. Daqui a três dias, seguir-me-ás através de tormentos muito mais atrozes. Vai, distribui pelos pobres, sem demora, todos os tesouros que te foram confiados e prepara-te para o martírio". Assim, São Lourenço entregou aos fiéis todos os vasos sagrados e paramentos, a fim de evitar que os pagãos os sequestrassem e profanassem. Juntou então o dinheiro dos pobres e saiu a todos os lugares em Roma, onde os cristãos estavam ocultos, devido às perseguições, e distribuiu o dinheiro da Santa Igreja entre eles. Em um destes esconderijos, restituiu a visão de Crescêncio, que havia muitos anos que estava cego. Logo que acabou de distribuir o dinheiro aos pobres, foi preso. Intimado a apresentar os “tesouros da Igreja” que o vil tirano tanto desejava, pediu um prazo para trazê-lo diante do mesmo. 
Chegado o dia marcado, reuniu consigo um grupo de mendigos, coxos, idosos abandonados, pobres órfãos e viúvas e os apresentou ao prefeito de Roma.  Questionado mais uma vez por seu cruel perseguidor, que insistia cheio de ira pelos tesouros da Igreja, Lourenço, cheio de coragem e alegria respondeu: “Eis o tesouro da Igreja: os nossos pobres”. Eles são o nosso verdadeiro tesouro. Podeis encontra-lo por toda parte”.
Sentindo-se insultado, o tirano decidiu castigá-lo com os maiores suplícios. Ordenou que o despedaçassem a açoites. Mandou depois, que trouxessem os instrumentos que serviam para atormentar os mártires e mostrando-os a São Lourenço, disse: "Ou tu resolves sacrificar aos deuses ou dispõe-te a padecer tu sozinho, muito mais do que tem padecido, até aqui, todos juntos quantos professaram a tua infame seita!”.
O bem-aventurado São Lourenço chamou
os pobres e enfermos de "os tesouros
da Igreja". 
Respondeu-lhe então em tom tranquilo São Lourenço: "Os vossos deuses nem sequer merecem aquelas honras que se tributam, aos homens. E vós quereis porventura, que eu lhes tribute adoração, só devida ao único e verdadeiro Deus. Além disso, pouca violência exercerão estes instrumentos de crueldade sobre mim, por que não temo os suplícios, confortado pelo meu Senhor Jesus Cristo”.

Foi então mandado ao cárcere, no guardo de certo oficial de nome Hipólito. Logo que entrou na prisão, os cristãos ali detidos se lançaram aos pés de São Lourenço. Um deles, chamado Lucilo, que há muitos anos tinha perdido a vista, a recuperou milagrosamente, tomando a mão do santo, e tocando-lhe os olhos. O oficial Hipólito, testemunha ocular desta maravilhosa cura, converteu-se ao cristianismo. As torturas começaram no dia seguinte. Estenderam-no em um cavalete, deslocando-lhe as articulações. Açoitaram-no com escorpiões, (cordéis terminados com bolas de chumbo), dilacerando-lhe a carne.

Vendo estes bárbaros tormentos serem suportados com tamanho heroísmo por São Lourenço, um soldado da guarda imperial, chamado de Romano, pediu-lhe o batismo, vindo ele mesmo a padecer o martírio, um pouco depois. Transformado pela cólera, o tirano lhe disse: “Sofrerás esta noite, um gênero de suplicio que certamente te fará mudar de opinião e de linguagem”. Retrucou-lhe então o Santo Lourenço: “Teus tormentos serão minhas delícias. A terrível noite com que me ameaças, será para mim a mais clara e a mais alegre de toda a minha vida, pois me unirá ao meu Salvador, a quem exclusivamente adoro e amo”! O tirano então mandou trazer uma grelha que foi posta sobre brasas.
São Lourenço foi colocado sobre aquele leito de ferro, debaixo do qual ardia um fogo abrasador de carvões acesos. Tão sereno e tranquilo fico São Lourenço sobre aquela cama de fogo, que muitos dos presentes se converteram à fé verdadeira. Aturando com muita paciência a tortura do fogo, o arquidiácono suportava até com alegria, satisfeito em poder sofrer por amor a Jesus Cristo. 
Os cristãos que testemunhavam o martírio do santo, ao invés de sentirem o odor característico de "carne queimada", sentiam, na verdade, um delicioso odor de incenso... 

Tendo então suportado por algum tempo aquele horrendo suplício, o nobre e puro Santo disse ao cruel e arrogante perseguidor, com um sorriso nos lábios: "Se quiserdes, podereis mandar virar-me, visto que deste lado já estou bastante assado".

Ouvindo estas palavras, enfureceu-se ainda mais o desumano torturador, ordenando aumentar o fogo por debaixo da grelha. Dai a pouco São Lourenço sorria angelicamente, dizendo com ironia: "Não te pareces ó tirano, que eu esteja bastante assado ? Agora se quiseres, poderás comer minha carne, que já está bem assada de todos os lados". A preciosa vida de São Lourenço ia então se esvaindo lentamente sob a ação abrasadora do fogo.

Aproveitou então os últimos instantes de vida para rezar pela conversão dos gentios e dos perseguidores do cristianismo. Recomendou sua alma ao criador. Finalizou seu martírio em 10 de agosto de 259, dia em que é venerado com grandes pompas em todo o universo católico.

Complemento (apêndice) biográfico:
São Lourenço sofreu o martírio durante a perseguição de Valeriano, em 258. Era o primeiro dos sete diáconos da Igreja romana. A sua função era muito importante o que fazia com que, depois do Papa, fosse o primeiro responsável pelas coisas da Igreja. Como diácono, São Lourenço tinha o encargo de assistir o papa nas celebrações; administrava os bens da Igreja, dirigia a construção dos cemitérios, olhava pelos necessitados, pelos órfãos e viúvas. Foi executado quatro dias depois da morte de Sisto II e de seus companheiros. Preso, foi intimado a comparecer diante do prefeito de Roma Cornelius Saecularis, a fim de prestar contas dos bens e das riquezas que a Igreja possuía.
Pediu, então, um prazo para fazê-lo, dizendo que tudo entregaria. Confessou que a Igreja era muito rica e que a sua riqueza ultrapassava a do imperador. Foram-lhe concedidos três dias. São Lourenço reuniu os cegos, os coxos, os aleijados, toda sorte de enfermos, crianças e velhos. Anotou-lhes os nomes... Indignado, o governador concedeu-o a um suplício especialmente cruel: amarrado sobre uma grelha, foi assado vivo e lentamente. Em meio dos tormentos mais atrozes, ele conservou o seu "bom humor cristão". Dizia ao carrasco: Vira-me, que deste lado já está bem assado... Agora está bom, está bem assado. Podes comer!
Roma cristã venera o espanhol Lourenço com a mesma veneração e respeito com que honra os primeiros apóstolos. Que São Lourenço nos ajude a seguir Jesus que é Caminho, Verdade e Vida.

Seu martírio, diz o poeta Prudêncio, assinalou o declínio dos deuses de Roma. Sinal, portanto, de que a morte do jovem diácono Lourenço provocara na cidade uma grande impressão, a ponto dos pagãos - vendo tão serena coragem diante da tortura - começaram a se interrogar sobre a religião professada pelo heroico mártir.
O papa Dâmaso, por outro lado, parece convalidar a tradição dos carvões ardentes e recorda o heroico testemunho de fé com eficaz síntese: “Verbera, carnífices, flammas, tormenta, catenas, isto é, açoites, carrascos, chamas, tormentos, cadeias, nada prevaleceu contra sua fidelidade a Cristo”.





Devido ao fato de ter morrido no tormento da grelha
e do fogo, São Lourenço é considerado um dos
santos patronos das Almas do Purgatório. 

sexta-feira, 13 de março de 2015

Beato Diego Oddi, irmão franciscano.


 DIEGO ODDI nasceu em Vallinfreda (Roma) a 6 de Junho de 1839, no seio de uma família pobre e muito religiosa. Durante uma peregrinação ao Retiro de São Francisco, em Bellegra, ficou impressionado com o lugar e a vida santa que levavam os frades que ali viviam. Alguns anos mais tarde, lembrando-se sempre da experiência vivida naquela visita ao convento franciscano, o jovem Diego retornou àquele lugar para pedir conselho a Frei Mariano, famoso religioso naquela época e hoje também beatificado. As palavras simples desse humilde porteiro do convento impressionaram- no a tal ponto, que Diego resolveu pensar a sério na sua vocação e aumentou o tempo de oração, entregando-se aos desígnios de Deus.

Entrou no Retiro de Bellegra em 1871, superando a resistência dos seus pais. Foi acolhido como simples «terceiro oblato» e, em 1889, pronunciou os votos solenes. Durante quarenta anos percorreu os caminhos de Subiaco, pedindo esmola. Analfabeto, mas arguto e com facilidade de dialogar, surpreendia a todos com as suas palavras, brotadas de um coração habituado a pronunciá-las nos colóquios com Deus. Quando o sino indicava o silêncio da noite, Diego permanecia na capela a falar com o Senhor, e esse colóquio prolongava-se durante toda a noite, sabendo haurir desse momento de graça a sabedoria da fé e a força para a fidelidade ao espírito franciscano.


Convento onde viveram os Beatos Diego Oddi e Mariano de Roccacasale.

A sua vida foi feita com nada de extraordinário, e por isso esta simplicidade, unida à austeridade e penitência, produzia grandes frutos de aperfeiçoamento cristão em quantos se encontravam com ele.
Morreu a 3 de Junho de 1919, tendo consagrado totalmente a vida a Deus, pondo em prática a vontade dos superiores e sabendo interpretar os eventos quotidianos como sinais daquilo que Deus lhe pedia.

O Papa São João Paulo II, na homilia de sua beatificação (foi beatificado também com o Beato Mariano de Roccacasale, seu irmão de Ordem e de convento), disse sobre este franciscano: 
A mesma espiritualidade franciscana, centrada numa vida evangelicamente pobre e simples, distingue Frei Diego Oddi, que hoje contemplamos no coro dos Beatos. Na escola de São Francisco, ele aprendeu que nada pertence ao homem a não ser os vícios e os pecados e que tudo o que a pessoa humana possui, na realidade é dom de Deus” (cf. Regra não selada XVII, em Fontes Franciscanas, 48). Desta forma aprendeu a não se angustiar inutilmente, mas a expor a Deus 'orações, súplicas e agradecimentos' por todas as necessidades, como escutamos do apóstolo Paulo na segunda Leitura (cf. Fl 4, 6). Durante o seu longo serviço de esmoleiro, foi autêntico anjo de paz e bem para todas as pessoas que o encontravam, sobretudo porque sabia ir ao encontro das necessidades dos mais pobres e provados. Com o seu testemunho jubiloso e sereno, com a sua fé genuína e convicta, com a sua oração e o seu incansável trabalho o Beato Diego indica as virtudes evangélicas, que são a via-mestra para alcançar a paz”.
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quarta-feira, 11 de março de 2015

Beato Aloísio Stepinac, Cardeal e Mártir (1898 - 1960). Morto pelo ódio dos comunistas à fé católica.


Alojzije Viktor Stepinac (Brezarić kraj Krašića, 08 de Maio de 1898 — Krašić, 10 de fevereiro de 1960) foi um arcebispo e cardeal croata, venerado como beato pela Igreja Católica.


Biografia
Stepinac era o quinto de nove filhos do segundo casamento de seu pai, Josip, com Bárbara Penic, com quem se casara tão logo lhe falecera a primeira esposa, Marija Matko, com quem já havia tido três filhos. Fez os primeiros estudos na escola local e o secundário em Zagreb, ao término do sexto ano ingressou no liceu da arquidiocese com o intento de ordenar-se sacerdote.
Durante a Primeira Guerra Mundial foi convocado e serviu como tenente na frente italiana comandando uma unidade de bósnios. Nesta ocasião caiu prisioneiro sendo recolhido ao campo de prisioneiros de Mestre, em Veneza, até 06 de dezembro de 1918. Algum tempo após o final da I Guerra Mundial ingressou na Pontifícia Universidade Gregoriana, onde terminou os seus estudos de filosofia e teologia com dois doutorados. Foi ordenado sacerdote em Roma em 26 de outubro de 1930 e designado sacerdote em Zagreb.
Trabalhou auxiliando o arcebispado na Catedral de Zagreb, foi administrador temporário das paróquias de Samobor e de São João de Zelina. Foi nomeado arcebispo-coadjutor de Zagreb e titular de Nicopsis em 24 de junho de 1934, na época o jornal L'Osservatore Romano o dava como o bispo mais novo do mundo.
Em 07 de dezembro de 1937 assumiu a direção da diocese de Zagreb da qual permaneceu titular até a sua morte em 1960.0 Foi nomeado Cardeal em 12 de janeiro de 1953 pelo Papa Pio XII. A sua nomeação como cardeal fez com que o governo de Tito rompesse relações com o Vaticano. Foi impedido pelo governo comunista local de participar do conclave de 1958.
Anteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, Stepinac multiplicou suas iniciativas em favor dos perseguidos. Em 1941, durante a ocupação alemã, foi proclamado o Estado independente da Croácia. No princípio, o arcebispo acolheu favoravelmente o novo governo, confiava em que se asseguraria os direitos dos cidadãos e a soberania nacional. Mas logo se desenganou, quando começaram as perseguições contra as minorias.
Ainda em abril de 1941, apresentou ao Ministério do Interior um protesto formal contra as primeiras leis racistas que proibiam os casamentos mistos. Em maio apresentou um protesto diretamente ao presidente da Croácia, Ante Pavelic, contra a perseguição dos sérvios ortodoxos. Em julho voltou a escrever-lhe de protesto. Em 16 de outubro pronunciou-se abertamente contra as leis racistas do alto do púlpito da Catedral de Zagreb exigindo o fim das perseguições raciais e religiosas.
Anos mais tarde, em 1959, Stepinac enviou uma carta ao governo iugoslavo na qual fazia constar os maus tratos que estava submetido, onde concluía: "Eu, com a graça de Deus, seguirei adiante até o final, sem odiar a ninguém e sem temer a ninguém".  Falecido em 10 de fevereiro de 1960, teve as vísceras do seu cadáver destruídas para que se evitasse encontrar provas de envenenamento. Em 1996, seus restos mortais foram exumados e analisados, sendo encontrados vestígios de veneno nos seus ossos. Por este motivo, foi declarado mártir em 11 de outubro de 1997. [1]
Por ocasião de seu falecimento o Papa João XXIII celebrou pessoalmente, em 17 de fevereiro de 1960, a missa em seu sufrágio na Basílica de São Pedro em Roma. Na homilia disse: “Era muito querida à nossa alma esta figura simples e insigne de pai e pastor da igreja de Deus; sua grande tribulação de quinze anos de desterro na sua mesma pátria e a dignidade serena e confiada de seu contínuo sofrimento lhe há granjeado a admiração e a veneração universal.” [2].
O Parlamento Croata, em 1992, após o fim do comunismo iugoslavo, decidiu reabilitar a sua memória declarando que: "Foi condenado, apesar de inocente, porque havia se recusado a realizar o cisma eclesial que lhe haviam ordenado os governantes comunistas" e "porque atuou contra a violência e os crimes dos governantes comunistas, como havia feito durante a II Guerra Mundial para proteger aos perseguidos, com independência da origem étnica e das convicções religiosas.” [1]
O cardeal Ângelo Sodano, ao fazer a homilia da celebração eucarística dos 40 anos da sua morte na Igreja de São Jerônimo dos Croatas, afirmou: "Com a sua profunda formação cristã, não se deixou abater nem mesmo quando em outubro de 1946 chegou à dura condenação a dezesseis anos de trabalhos forçados. Por ser fiel à sua missão de pai e pastor do seu povo, o Arcebispo de Zagreb havia condenado com a sua célebre carta pastoral de 20 de novembro de 1945, o assassinato de 243 padres católicos, a expropriação dos bens eclesiásticos, as graves restrições infligidas à atividade da Igreja. Paralelamente, com o seu profundo sentido eclesial, tinha afastado todas as solicitações para dar vida a uma igreja nacional separada de Roma. Ao contrário, em muitas ocasiões o venerado cardeal Kuharic afirmou que foi isto o principal motivo da sua condenação, o ter-se recusado a dar vida a uma pseudo-igreja nacional croata. Por isto, ainda, o Arcebispo emérito de Zagreb, cardeal Stepinac pode ser justamente considerado como um mártir da unidade da Igreja." (...) "Com intrépida fortaleza, ele sentia-se assim animado a continuar a sua missão, assim como havia feito nos primeiros anos do episcopado, de 1934 seguidamente, assim como fez durante a ocupação nazista, condenando abertamente a violação dos direitos humanos perpetrada contra os hebreus, os romenos, os sérvios e os eslovenos.” [3]

Beatificação
O cardeal Stepinac foi beatificado em 03 de outubro de 1998 pelo Papa São João Paulo II, no Santuário mariano de Marija Bistrica, durante uma visita a Banja Luka, na Bósnia. É considerado pela Igreja Católica um mártir perseguido pelo então regime comunista iugoslavo de Tito.
Na cerimônia de beatificação dele disse São João Paulo II: O Beato Alojzije Stepinac não derramou o sangue no sentido estrito da palavra. A sua morte foi causada pelos longos sofrimentos a que o submeteram: os últimos 15 anos da sua vida foram um contínuo suceder-se de vexações, no meio das quais expôs com coragem a própria vida, para testemunhar o Evangelho e a unidade da Igreja. Para usar as próprias palavras do Salmo, ele pôs nas mãos de Deus a sua própria vida (cf. Sl 16[15], 5). ... O Cardeal Arcebispo de Zagrábia, uma das figuras mais salientes da Igreja católica, depois de ter sofrido no próprio corpo e na própria alma as atrocidades do sistema comunista, é agora entregue à memória dos seus compatriotas com as fúlgidas insígnias do martírio. [4]
Em 04 de outubro em Salona, num encontro com catequistas e representantes dos movimentos eclesiais disse sobre o novo Beato: "Um exemplo extraordinário de testemunho cristão foi oferecido pelo Beato Alojzije Stepinac. Ele cumpriu a missão de evangelizador sobretudo sofrendo pela Igreja, e selou a sua mensagem de fé com a morte. Preferiu o cárcere à liberdade, para defender a liberdade da Igreja e a sua unidade. Não teve medo das cadeias, para que não fosse acorrentada a palavra do Evangelho."[5]



O Beato Aloíso Stepinac com a saúde muito abalada devido
ao envenenamento e morto em suas exéquias.

Em audiência de 7 de outubro de 1998 João Paulo II voltou a se referir a ele: "In Te, Domine, speravi": era este o lema do Cardeal Alojzije Stepinac, junto de cujo túmulo me detive em oração logo que cheguei a Zagreb. Na sua figura sintetiza-se a inteira tragédia que atingiu a Europa no decurso deste século, marcado pelos grandes males do fascismo, do nazismo e do comunismo. Nele refulge em plenitude a resposta católica: fé em Deus, respeito pelo homem, amor para com todos confirmado no perdão, unidade com a Igreja guiada pelo Sucessor de Pedro.
A causa da perseguição e do ridículo processo contra ele foi a firme rejeição, por ele oposta, às insistências do regime para que se separasse do Papa e da Sé Apostólica e se constituísse chefe de uma «igreja nacional croata». Ele preferiu permanecer fiel ao Sucessor de Pedro. Por isto foi caluniado e depois condenado. Na sua beatificação reconhecemos a vitória do Evangelho de Cristo sobre as ideologias totalitárias; a vitória dos direitos de Deus e da consciência sobre a violência e a prepotência; a vitória do perdão e da reconciliação sobre o ódio e a vingança. O Beato Stepinac constitui assim o símbolo da Croácia que quer perdoar e reconciliar-se, purificando a memória do rancor e vencendo o mal com o bem.[6]

Citações
Stepinac foi citado por João Paulo II quando de sua viagem à Croácia em outubro de 1998:
§   " (...) recomendava aos jovens do seu tempo: ‘Estai atentos a vós próprios e continuai a maturar, porque sem pessoas maduras e sólidas do ponto de vista moral nada se faz. Os maiores patriotas não são aqueles que mais gritam, mas os que cumprem a lei de Deus de maneira mais conscienciosa’." (Homilias, Discursos, Mensagens, Zagreb 1996, pág. 97)[7]
§   "Nunca percais o vosso entusiasmo juvenil, alimentado por uma profunda relação com Deus. A este propósito, o próprio Cardeal Stepinac recomendava aos sacerdotes: ‘Afastai da nossa juventude, como a peste, qualquer forma de pusilanimidade, porque é indigna dos católicos, os quais se podem orgulhar dum nome tão grande, que é o nome do nosso Deus’. " (Cartas da Prisão, Zagreb 1998, pág. 310) [8]



Representações nas Artes
Coci Michieli realizou um filme sobre a sua vida em 1954.


Polêmicas
Stepinac é apontado por alguns críticos como “sendo do regime Ustaše”,[9] liderado por Ante Pavelić, que promoveu o assassinato de centenas de milhares de não-croatas (sérvios, ciganos, judeus etc.). Todavia esta informação é desmentida pelo filósofo judeu Alain Finkielkraut, professor na École polytechnique. Ele afirma, no jornal Le Monde  de 7 de outubro de 1998, que as acusações contra o cardeal Stepinac de haver colaborado com o regime ustaše são falsas. Para ter ciência disto, basta ter em conta o que dizem historiadores anglo-saxões e os próprios judeus da Croácia: "Tais informações permitem saber que, desde abril de 1941, o arcebispo de Zagreb protestou contra a legislação antissérvia e antijudaica promulgada pelo regime; que organizou a fuga de crianças judias para a Hungria e para a Palestina; que escondeu muitos outros e que suas homilias eram bastante audaciosas para ser recolhidas e difundidas pela rádio de Londres."[10]
Já o escritor Avro Manhattan, em seu controverso livro "O Holocausto do Vaticano", acusa Stepinac de [11] de “colaborar com a Ustaše, supostamente aprovando conversões forçadas ao catolicismo e assassinatos” e que “Stepinac teria sido morto posteriormente na ditadura comunista de Tito, pela posição anticomunista do Vaticano”. Manhattan, porém, é considerado um autor anticatólico,[12] ignorado largamente pela comunidade acadêmica[12], acusado de ter utilizado fontes falsas em seu livro.[12]

Referências
1.     ↑ a b Aceprensa (em castelhano). Visitado em 12.11.2008
2.     ↑ Homilia do Papa João XXIII nas exéquias do cardeal Stepinac
3.     ↑ Homilia do Cardeal Angelo Sodano (em italiano)., na igreja de São Jerônimo dos Croatas em honra do beato Cardeal Alojzije Stepinac (10 de Fevereiro de 2000) ns. 2 e 3
4.     ↑ [1] Homilia de João Paulo II na Missa de Beatificação do Cardeal Stepinac - visitado em 16.10.2007
5.     ↑ Discurso em Salona
6.     ↑ Referências feitas por João Paulo II visitado em 16 de outubro de 2007
7.     ↑ Encontro de João Paulo II com a população e com os jovens." Zagrábria, 2 de Outubro de 1998
8.     ↑ Ibdem
9.     ↑ cúmplice
10. ↑ Alain Finkielkraut no Le Monde (7-X-98) transcrito no sítio da Embaixada da Croácia na França
11. ↑ colaborar
12. ↑ a b c Autores e seus Escândalos (em inglês: Authors and Scandals). Cápitulo 19. 1987. Pág.: 178. Editora Ática.

Bibliografia
§ Livros publicados sobre Stepinac - seleção

Ligações externas
O Commons possui multimídias sobre Aloysius Stepinac
§ Homilia de João Paulo II na Missa de Beatificação do Cardeal Stepinac (em português)
§ Cardeal Aloysius Stepinac por Michael Savor (Hamilton, Ontario, Canadá) 1997, revised in 2001 (em inglês)
§ Stepinac por Josip Stilinovic
§ Cardeal Alojzije Stepinac e o salvamento dos Judeus na Croácia durante a II Guerra, por Darko Zubrinic, Zagreb (1997) (em inglês)
§ Declarações diversas de e sobre Stepinac (em castelhano)
§ Stepinac em Catholic Hierarchy

Ver também :
http://hagiosdatrindade.blogspot.com/2009/02/santa-escolastica-10-de-fevereiro.html
http://hagiosdatrindade.blogspot.com/2010/02/sao-guilherme-de-malaval-eremita-da.html

Fontes:
http://pt.wikipedia.org/wiki/Aloysius_Stepinac
http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/3/30/Kardinal_Alojzije_Stepinac.jpg

http://alexandrinabalasar.free.fr/luis_stepinac.htm

terça-feira, 10 de março de 2015

São Jacinto Odrowaz ou da Polônia, Presbítero Dominicano, Missionário e Taumaturgo. Dois textos biográficos.


São Jacinto Odrowacz ou da Polônia
Primeiro texto biográfico 

São Jacinto, Jacek Odrowąż, em polonês (c. 1185, em Kamień Śląski - † 16 de agosto de 1257, em Cracóvia) é um santo polonês, da Ordem dos Pregadores (dominicano). As notícias sobre as suas origens são todas provenientes de textos hagiográficos tardios (século XVI) e pouco confiáveis, escritas por ocasião da sua canonização (1594).
Sabe-se que Jacinto Odrowacz pertencia a uma família aristocrática e nasceu no castelo de Lanka, Cracóvia (antiga Kamien), na Silésia;

Em 1183 nasceu ao Conde Konski e a sua mulher Beatriz um filho, o primogênito da família, Jacinto Odrowaz. Como era natural deveria ser ele o herdeiro do título e das terras da família, mas as voltas do mundo e os desígnios de Deus fizeram com que não fosse assim.
Depois de estudar direito canônico e teologia em Cracóvia, Praga e Bolonha, foi ordenado sacerdote e tornado cônego da catedral de Cracóvia; e foi à Itália a acompanhar seu bispo.
Certamente ele estava em Bolonha em 1221 e conheceu São Domingos, que em maio desse ano, celebrava na cidade de Emília-Romagna o segundo capítulo geral da sua Ordem.
Ele decidiu se tornar um noviço dominicano e, após receber o hábito, regressou com mais cinco companheiros à sua terra natal da Polônia para exercer o ministério de pregador da Palavra de Deus.
Mas era necessário ir mais longe, levar a Verdade de Jesus Cristo a outros povos e é assim que Jacinto partiu para a Europa Oriental, e depois de percorrer toda a zona norte da Prússia se encontra em Kiev, na grande cidade das cúpulas douradas, capital do império russo e da Igreja Ortodoxa.
 Tinha sido instruído para espalhar a Ordem: fundou mosteiros em Friesach, Cracóvia, Gdańsk e Kiev, assim como, o de Breslau, Sandomir e Dantzig1; e em nome do Papa Gregório IX, ele trabalhou para união das Igrejas do Oriente e do Ocidente.
Não foi fácil o convívio entre os dois ramos da árvore Igreja e por essa razão pouco tempo depois Jacinto tem que fugir da cidade, regressando clandestinamente alguns anos mais tarde.
É nesta segunda estadia, quando os Tártaros invadem a cidade de Kiev, e no atropelo da fuga, que acontecem os milagres que fornecem os elementos que permitem a identificação iconográfica de São Jacinto da Polónia.
Jacinto, prior do convento de Kiev, preparava-se para celebrar a Eucaristia. É nesse momento que alguém grita que os invasores estão às portas da cidade e destroem tudo. Agarrando no que mais sagrado tinha, Jacinto foge da igreja com a píxide onde se guardava o Santíssimo Sacramento.


Aparição da Virgem Maria a São Jacinto

Ao sair da igreja, despedindo-se da imagem da Virgem Maria diante da qual tantas vezes tinha rezado, esta lhe pergunta se a deixa para trás, se a abandona aos bárbaros. Jacinto desculpa-se com o peso da imagem em pedra e é então que a Virgem lhe responde que ele tinha forças para carregá-la.
 A imagem torna-se leve como o papel, e por isso Jacinto não só a retira da igreja como a transporta até Cracóvia, onde readquire o peso natural da pedra que era depois de entronizada na igreja da Santíssima Trindade.
Por este milagre, São Jacinto da Polônia é iconograficamente representado com o hábito branco e negro dominicano, ou paramentado com estola para celebrar a missa, segurando numa mão a píxide com o Santíssimo Sacramento e carregando no outro braço a imagem da Virgem Maria.
Mas os acontecimentos extraordinários não ficaram por aqui, porque vendo-se nas margens do rio Dnieper sem meios para o atravessar e fugir aos Tártaros, Jacinto ousadamente caminha sobre as águas e consegue chegar à outra margem são e salvo, juntamente com os companheiros e os tesouros santíssimos que tinha salvo da igreja conventual.
Por este fato, em muitas pinturas e representações, São Jacinto aparece caminhando sobre as águas, símbolo da sua fé forte e sem vacilações, como podemos ver neste bonito painel de azulejos do século XVIII da igreja do antigo convento dominicano de São Paulo de Almada.
 Na igreja de São Domingos, ao Rossio, em Lisboa, é possível ver também duas pinturas alusivas a estes acontecimentos da vida de São Jacinto da Polónia.

Morte de São Jacinto, em Cracóvia. 



Jacinto Odrowaz morreu a 15 de Agosto de 1257, na Cracóvia, pouco depois das três horas da tarde e após uma vida longa de pregação e sacrifícios. Em 17 de Abril de 1594 foi proclamado oficialmente Santo pelo Papa Clemente VIII.
A festa de são Jacinto, o "apóstolo da Polônia", era tradicionalmente celebrada um dia depois da sua morte, mas, em razão da veneração da Assunção de Maria, foi transferida para o dia 17 de agosto.



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 Segundo texto biográfico 

Batizado com o nome de Jacko, ele nasceu em 1183, na antiga Kramien, hoje Cracóvia, na Polônia. Alguns biógrafos dizem que pertencia à piedosa família Odrovaz, da pequena nobreza local. Desde cedo, aprendeu a bondade e a caridade, despertando, assim, sua vocação religiosa. Antes de ingressar na Ordem dos Predicadores de São Domingos, ele era cônego na sua cidade natal.

Foi em Roma que conheceu Domingos de Gusmão, fundador de uma nova Ordem, a dos padres predicadores. Pediu seu ingresso e foi aceito na nova congregação. Depois de um breve noviciado, concluído em Bolonha, provavelmente em 1221, vestiu o hábito dominicano e tomou o nome de frei Jacinto. Na ocasião, foi o próprio são Domingos que o enviou de volta à sua pátria com um companheiro, frei Henrique da Morávia.

Assim iniciou sua missão de grande pregador. O trabalho que ele teria de desenvolver na Polônia fora claramente fixado pelo fundador. Jacinto fundou, em Cracóvia, um mosteiro da Ordem de São Domingos. Depois de pregar por toda a diocese, mandou alguns dominicanos missionários para a Prússia, Suécia e Dinamarca, pois esses países pagãos careciam de evangelização.

O grande afluxo de religiosos à nova Ordem permitiu, em 1225, por ocasião do capítulo provincial, que se decidisse a fundação de cinco novos mosteiros na Polônia e na Boêmia.

Passados três anos, após ter participado do capítulo geral da Ordem em Paris, foi para Kiev, na Rússia, onde desenvolveu mais uma eficiente missão evangelizadora, levando a Ordem dos dominicanos para aquela região.

Jacinto foi um incansável pregador da Palavra de Cristo e um dos mais pródigos colaboradores do estabelecimento da nova Ordem naquelas regiões tão distantes de Roma. Foram quarenta anos de intensa vida missionária.

No ano dia 15 de agosto 1257, morreu no Mosteiro de Cracóvia, Polônia, consumido pelas fadigas, aos setenta e dois anos de idade. Considerado pelos biógrafos uma das glórias da Ordem Dominicana, foi canonizado em 1524 pelo papa Clemente VII.


A festa de são Jacinto, o "apóstolo da Polônia", era tradicionalmente celebrada um dia depois da sua morte, mas, em razão da veneração da Assunção de Maria, foi transferida para o dia 17 de agosto.


Deus agraciou a São Jacinto com o dom de realizar grandes milagres
que confirmavam sua pregação. 





São Domingos Sávio, jovem estudante Salesiano.


"Se Domingos, com tão pouca idade, pôde santificar-se, por que não poderei também eu?" - interroga São João Bosco ao escrever a vida do jovem santo.


Os raios do sol matutino penetram, tímidos e amenos ainda, pelas janelas das salas de aula. O sino toca, anunciando a hora do recreio, os alunos saem ordenadamente para o pátio onde logo se forma uma sadia algazarra: centenas de meninos saltam, jogam e correm.

Alguns sacerdotes e clérigos animam os divertimentos, vigiando ao mesmo tempo para evitar que atitudes inconvenientes se misturem com a sã alegria. Um deles, cercado de jovens, após esquivar-se de uma bola perdida no ar, exclama: "Gritem e brinquem quanto queiram, contanto que não pequem!" Trata-se de Dom Bosco, considerado santo por esses adolescentes que disputam entre si o privilégio de estar a seu lado, trocar com ele algumas palavras, oscular-lhe a mão sacerdotal.


Se ele pôde ser santo, por que não poderei também eu?

A cena acima descrita passa-se no primeiro colégio aberto por Dom Bosco, em Turim.

Ali se encontram rapazes de humilde condição, aos quais é dada formação cristã e humana, além de uma preparação para a vida profissional. Alguns deles alcançarão altos postos na vida social ou eclesiástica. Muitos serão honestos artesãos, mestres de obra ou profissionais liberais. Alguns poucos, elevando-se acima dos demais, alcançarão a glória dos altares. É o caso do jovem Domingos Sávio.

De sua curta existência sabemos que viveu quase três anos no Oratório, onde demonstrou entranhado afeto ao pai de sua alma, São João Bosco, e serviu de contínuo exemplo e estímulo para os demais adolescentes. Domingos granjeou a amizade de todos os seus colegas e constituiu, com um núcleo dos mais fervorosos entre eles, a Companhia de Maria Imaculada, que logo se tornou um primeiro viveiro de vocações sacerdotais para a Congregação Salesiana.

Ao narrar-lhe a vida, "cujo teor foi notoriamente maravilhoso", seu primeiro biógrafo, o próprio Dom Bosco, teve de tal forma a intenção de levar seus jovens leitores a imitá-lo, que lhes apresenta a seguinte questão: "Se Domingos, com tão pouca idade, pôde santificar-se, por que não poderei também eu?"




Desejo ardente de receber Jesus Eucarístico

Deliciemo-nos com alguns dados e fatos mais sobressalentes deste prodigioso jovem, que soube aliar virtudes harmonicamente contrárias.

O pequeno povoado de Riva de Chieri (Itália) viu-o nascer em 02 de abril de 1842. Seus pais, Carlos Sávio e Brígida, eram pobres, honrados e bons católicos. Desde pequenino Domingos levou muito a sério a piedade que lhe fora inculcada por eles. Quando tinha apenas cinco anos, um viajante que fora convidado a compartilhar a pobre refeição da família Sávio pôs-se à mesa sem ao menos se persignar. Vendo isso, Domingos retirou- se e depois explicou o motivo: "Este homem certamente não é bom cristão, pois nem faz o sinal da cruz antes de comer. Portanto, não convém que nos sentemos ao lado dele".

Por razões de trabalho, a família viu-se obrigada a mudar para Murialdo, nos arredores de Castelnuovo, onde o futuro santo assistia ao catecismo da paróquia. Sua memória privilegiada - aprendeu de cor todo o catecismo breve -, seu perfeito discernimento da substância e da grandeza do Sacramento da Eucaristia e seu ardente desejo de receber Jesus sacramentado, levaram o pároco a autorizá-lo a fazer a Primeira Comunhão aos sete anos de idade, embora fosse costume nessa época esperar os meninos chegarem aos onze anos.


Propósitos para toda a vida

Mal soube Domingos que iria participar do banquete celestial, transbordou de alegria, a ponto de ser visto nesses dias rezando demoradamente. Na véspera do tão almejado dia fez algumas anotações que, mais tarde, chegaram às mãos de Dom Bosco:

Propósitos feitos por mim, Domingos Sávio, no ano de 1849, na idade de sete anos:

1º. Confessar-me-ei com frequência e receberei a Comunhão todas as vezes que o confessor me permitir.
2º. Santificarei os dias de preceito.
3º. Meus amigos serão Jesus e Maria.
4º. Antes morrer que pecar.

Oxalá todos os jovens recebessem o Santíssimo Sacramento com as mesmas disposições deste seu celestial patrono!

Segundo Dom Bosco, "a Primeira Comunhão bem feita estabelece uma sólida base moral para toda a existência". Assim foi com São Domingos Sávio. Durante sua curta vida, muitas vezes ele renovou esses propósitos, dando demonstrações evidentes de pô-los em prática com fervor e eficácia.





O encontro com São João Bosco

Movido pelo desejo de ser sacerdote, Domingos ia estudar na escola de um povoado próximo, percorrendo diariamente vinte quilômetros a pé. Durante o percurso, para domar a curiosidade, olhava apenas para a estreita faixa da estrada rural, a tal ponto que nunca soube descrever os vilarejos e paisagens encontradas em seu caminho. Impunha-se essa mortificação porque queria resguardar seus olhos de qualquer coisa feia, para com eles poder ver Jesus e Maria no Céu.

A 02 de outubro de 1854, deu-se o encontro de sua vida. Não podendo continuar os estudos devido à precária situação financeira da família, foi recomendado por um sacerdote amigo a Dom Bosco, o qual recebia no Oratório jovens de recursos escassos. "Neste jovem encontrarás um São Luís de Gonzaga", escreveu ele na carta de recomendação.

A História conserva uma inolvidável lembrança desse primeiro encontro, graças à pena de São João Bosco que sempre o recordou com ternura e emoção.

Na primeira segunda-feira de outubro - narra ele - muito cedo ainda, vi aproximar-se um menino que vinha falar-me, acompanhado por seu pai. Seu rosto sorridente e seu ar alegre, porém respeitoso, chamaram-me imediatamente a atenção.

- Quem és? De onde vens? - perguntei- lhe.

- Sou Domingos Sávio, de quem já deve lhe ter falado o Pe. Cugliero, meu mestre. Estamos vindo de Mondonio.

Descobri naquele jovem uma alma segundo o espírito do Senhor e fiquei bastante maravilhado ao comprovar o trabalho realizado pela graça divina em tão tenra idade.

Depois de um colóquio um tanto prolongado, disse-me ele textualmente estas palavras:

- Então, o senhor me levará para Turim, para estudar?

- Veremos! Parece-me que temos um bom pano.

- E para que pode servir esse pano?

- Para fazer um bonito traje e presenteá-lo ao Senhor.

- Pois bem, eu sou o tecido e o senhor será o alfaiate. Leve-me consigo e fará um formoso traje para o Senhor.

- O que pensas fazer quando terminar teus estudos de latim?

- Se Deus me conceder tão grande graça, desejo ardorosamente abraçar o estado eclesiástico.

Bem convencido da qualidade do "tecido" que tinha diante de si, Dom Bosco decidiu levá-lo à "alfaiataria", isto é, ao Oratório de Valdocco, em Turim.


Peço-lhe que me faça santo!

Ali, Sávio logo se destacou por sua boa conduta e pelo sério cumprimento de todos os deveres. A saúde de seu corpo, porém, não acompanhava os ímpetos de sua zelosa alma. Em breve um preocupante esgotamento das forças físicas o obrigou a se afastar da escola, embora continuasse estudando no internato do Oratório.

Certo dia um sermão de Dom Bosco o encheu de entusiasmo.

"É vontade de Deus - dizia o sacerdote - que todos nos tornemos santos. É bastante fácil consegui-lo e há no Céu um prêmio preparado para quem chega a ser santo."

Essa frase foi como uma centelha que provocou em sua jovem alma um incêndio de amor de Deus. Sua meta já estava inteiramente clara: alcançar a santidade.

Certo dia, Dom Bosco prometeu atender, dentro de suas possibilidades, qualquer pedido que lhe fosse feito pelos jovens do Oratório. Choveram pedidos de bombons e coisas do gênero. Diferente de todos, eis o de Domingos, escrito numa pequena folha de papel: "Peço-lhe que salve minha alma e me faça santo".

Na vida de Sávio, a luta pela conquista da santidade apresenta-se bem marcada pelo carisma salesiano, segundo os ensinamentos de Dom Bosco: em primeiro lugar, devia ser um santo alegre; além disso, aplicando a máxima "salvando outros, te salva a ti mesmo", devia fazer apostolado com seus companheiros.

Assim, após conquistar as simpatias de um rapazinho que acabava de ser admitido no Oratório, Domingos lhe explicou: "Fique sabendo que nesta casa fazemos consistir a santidade em estar sempre muito alegres. Esforçamo-nos apenas para evitar o pecado - pois ele é um grande inimigo que nos rouba a graça de Deus e a paz do coração - e para cumprir bem nossos deveres".


Funda uma associação "secreta"

É com o objetivo de "salvar os outros" que ele fundou, um pouco mais tarde, a já mencionada Companhia de Maria Imaculada. "Eu gostaria de fazer algo em honra de Maria, mas que fosse logo, porque temo que me falte tempo", costumava dizer ele.

Essa Companhia era uma associação "secreta" dirigida por Dom Bosco, e dela participavam alguns dos melhores alunos do Oratório, desejosos de fazer apostolado com seus companheiros. Um deles se chamava Miguel Rua, o santo que sucedeu a Dom Bosco na direção da Congregação Salesiana.

Os "estatutos" da Companhia se resumiam em quatro itens: seus membros se comprometiam a obedecer às regras da casa, dar bom exemplo aos companheiros, ocupar bem o tempo e serem vigilantes para detectar e inutilizar a ação dos maus elementos que pervertem os demais.

Como exemplo da atuação desses moços modelares no meio de seus colegas, podemos apreciar este fato, protagonizado pelo próprio Domingos e narrado por Dom Bosco:

Um jovem que não pertencia ao Oratório trouxe consigo certo dia, levianamente, uma revista com figuras indecentes e irreligiosas. Uma turba de meninos pôs-se em torno dele para contemplar aquelas "maravilhas". Domingos também acorreu, julgando estar sendo mostrada ali alguma imagem piedosa.

Quando, porém, percebeu do que se tratava, tomou a publicação e rasgou- a em pedaços. Seus companheiros, surpresos, olhavam-se uns aos outros, sem saber o que fazer.

Então Domingos lhes disse:

- O Senhor nos deu olhos para contemplar a beleza das coisas que Ele criou e vocês se servem deles para olhar semelhantes imundícies? Esqueceram- se do que tantas vezes nos foi dito nas pregações?

- Estávamos olhando apenas para rir... - respondeu um deles.

- Sim, sim, para rir. Estão se preparando para ir ao inferno, rindo... Mas continuarão a rir se tiverem a desgraça de cair nele?

Diante de tais palavras, todos se calaram, ninguém se atrevendo a arriscar qualquer nova observação.


Prenúncios do fim da vida

Infelizmente, a vida de Domingos, que tanto prometia para o futuro se ele chegasse a ser sacerdote, seria curta. Em seus longos tempos de oração, a graça divina ia preparando- o para a glória eterna.

Durante os recreios, vez por outra, saía de repente da roda de amigos e se punha a passear sozinho, com o espírito absorto. Quando alguém lhe pedia explicações; respondia: "Assaltam- me as distrações de costume, e parece-me que o Paraíso se abre sobre minha cabeça, por isso tenho de afastar-me de meus companheiros para não dizer coisas que eles poderiam ridicularizar".

Numa ocasião, também no recreio, caiu como que desmaiado, amparado por um amigo. Ao retornar a si, afirmou: "No Céu, os inocentes estão mais perto de nosso Divino Salvador, e Lhe cantarão de modo especial hinos de glória eternamente".

Vaticinando seu fim próximo, escreveu a um grande amigo seu, o exemplar jovem Massaglia: "Diz-me que não sabes se voltarás ao Oratório para nos visitar. Também minha carcaça parece-me bastante deteriorada e tudo me leva a pressagiar que me aproximo a passos largos do fim de meus estudos e de minha vida".


"Ah, que belas coisas vejo!"

Massaglia o precedeu na entrada no Paraíso, mas Domingos não tardou a segui-lo. No início de 1857, agravou- se notavelmente sua enfermidade. Uma tosse pertinaz dava margem a sério receio de contágio, tanto mais que grassava a cólera na região de Turim. Assim, Dom Bosco o aconselhou a voltar para a casa paterna. Com o coração partido e após fazer, juntamente com seus companheiros, o exercício de preparação para a morte, pediu a Dom Bosco: "Reze para que eu possa ter uma boa morte! Até a próxima vista, que será no Paraíso".

Partiu, pois, para a residência de seus pais, em Mondonio, onde chegou no primeiro dia de março de 1857. Ali suportou com admirável resignação, e até mesmo com alegria, os grandes padecimentos com os quais a Divina Providência aprouve enriquecer sua alma nos últimos dias de vida. A longa agonia transcorreu num ambiente de doçura e paz admiráveis que culminaram no instante supremo, quando exclamou, sorrindo e com fisionomia paradisíaca: "Ah, que belas coisas vejo!" Dito isto, expirou com as mãos cruzadas sobre o peito, sem fazer o menor movimento.

Assim cruzou os umbrais da eternidade o primeiro santo salesiano, no dia 9 de março de 1857. A notícia de sua morte entristeceu Dom Bosco que, com ela, tinha perdido uma pérola preciosa...


Perdeu mesmo?

Do Paraíso, São Domingos atrairia pelas vias da inocência incontáveis outros jovens! Ao próprio Dom Bosco, ele apareceria mais tarde em sonho, mostrando-lhe as belezas do Céu, onde se encontrava.



(Revista Arautos do Evangelho, Março/2006, n. 51, p. 16 à 19).