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sábado, 4 de abril de 2015

Beato Antônio Rosmini, Presbítero e Fundador. Grande teólogo, filósofo e pensador profundo.


Beato Antônio Rosmini
Antônio Rosmini Serbati (1797 – 1855) foi beatificado em 18 de novembro de 2007. Ele foi um sacerdote italiano, pensador profundo, autor de livros marcantes, que sofreu a condenação do Santo Ofício de alguns de seus escritos por interpretações equivocadas promovidas por alguns seguidores.

Ordenado sacerdote em 1821, Antonio Rosmini fundou, em 1830, em Domodossola, o Instituto da Caridade, congregação religiosa reconhecida em 1839 pelo Papa Gregório XVI, à qual, alguns anos depois, se uniria a congregação das Irmãs da Providência.
Apesar de sua absoluta fidelidade ao Papa IX, a quem acompanhou em seu exílio em Gaeta (1848), as autoridades eclesiásticas, em 1849, puseram-no «Índice» dos livros proibidos duas de suas obras. Mais tarde, foram condenadas com o decreto doutrinal «Post Obitum» quarenta proposições suas, extraídas de obras sobretudo póstumas e de outras editadas em vida.
Em 1º de julho de 2001, uma «Nota da Congregação para a Doutrina da Fé», firmada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, afastou toda sombra de dúvida sobre a suposta culpabilidade de Rosmini.
Dom Renat Corti, bispo de Novara (diocese do futuro beato) apresentou o grande filósofo como um apóstolo da caridade no dia 08 de novembro, na sede da «Rádio Vaticano».
Dom Corti sublinhou que esta mensagem está presente inclusive no nome da congregação fundada por Rosmini: «Societas a Charitate» (Instituto da Caridade ou do amor).
A mensagem central de Rosmini, segundo o bispo, é a seguinte: Jesus Crucificado é o símbolo desse amor, que representa o fulcro de todo o cristianismo.
Participaram de sua beatificação, em Novara, entre sete e oito mil pessoas, entre esses, cerca de quatrocentos sacerdotes e aproximadamente trinta bispos.
A Missa foi presidida em nome do Papa pelo cardeal português José Saraiva Martins, prefeito da Congregação para as Causas dos Santos.




HOMILIA DO CARDEAL JOSÉ SARAIVA MARTINS
NO RITO DE BEATIFICAÇÃO DE ANTÓNIO ROSMINI

Novara, 18 de Novembro de 2007

 "Como tu, ó Pai, estás em mim e eu em ti, que também eles estejam em nós para que todos sejam um só... a fim de que o mundo creia que tu me enviaste".

1. Sentimos o ânimo cheio de júbilo espiritual, enquanto contemplamos a Igreja, em todo o esplendor da sua beleza, que nesta celebração eucarística se manifesta na hodierna Festa litúrgica da Igreja local, que se celebra no Piemonte, e durante a qual tenho a grande alegria de presidir, como Representante do Santo Padre, ao rito de beatificação de António Rosmini. A alegria da Igreja de Trento, que o viu nascer e da Igreja de Novara, na qual trabalhou e onde entregou a alma a Deus, estende-se muito além dos vastos confins diocesanos.

Que grande verdade se revela, mas também se esconde, nas fortes expressões que o Filho de Deus usa na sua última oração ao Pai, segundo o Evangelho de João, há pouco proclamado: "Não rogo somente por estes, mas também por aqueles que pela sua palavra hão de crer em mim..." por nós! "Que todos sejam um só; como Tu ó Pai estás em mim e Eu em ti...". Como Tu em mim e Eu em ti, assim eles em nós. A Igreja vive não "diante" mas "na" Trindade, amada pelo mesmo amor pelo qual se amam o Pai, o Filho e o Espírito. É olhando para uma realidade tão inefável que o apóstolo Pedro, na segunda leitura de hoje, pôde definir o novo povo dos batizados "como pedras vivas, entrai na construção de um edifício espiritual ...sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido, a fim de anunciardes as virtudes d'Aquele que vos chamou das trevas para a Sua luz admirável".

2. A hodierna solene celebração transmite o sentido do inseparável vínculo que existe entre a Igreja e a santidade. De fato, a nossa Igreja é a Igreja dos Santos como disse J. Bernanos não "uma espécie de gendarmaria espiritual". A santidade é "uma aventura, aliás a única aventura possível" (J. Bernanos, I predestinati, Gribaudi, Turim, 1995, pp. 42-43).

E exatamente por ter tido a força de empreender esta maravilhosa aventura da santidade, de modo sublime, é que hoje a Igreja inscreve o abade Rosmini no álbum dos beatos. Uma santidade não meramente declarada, mas vivida em todo o seu alcance.

Rosmini, no início da segunda das suas célebres "Máximas de perfeição cristã", justamente considerado o coração da sua espiritualidade evangélica, escreve: "O primeiro desejo que é gerado no coração do cristão pelo desejo supremo da justiça [santidade] é o do incremento e da glória da Igreja de Jesus Cristo" (Rosmini A., Massime di perfezione cristiana, aos cuidados de M. M. Riva, Trento 2003, p. 17).

Se a finalidade da vida para todos os cristãos é o desejo único e infinito de agradar a Deus, dentro deste desejo reside a escolha de orientar todos os próprios pensamentos e as próprias ações para o crescimento e a glória da Igreja de Jesus Cristo. Este olhar único e inseparável dirigido para Cristo e a sua Igreja requer uma visão extremamente forte desta última, que Rosmini teve ao seguir muitos outros pensadores cristãos, primeiro entre todos Santo Agostinho, que escreveu: "Alegremo-nos, demos graças a Deus, não só porque nos fez cristãos, mas porque nos fez tornar o próprio Cristo. Dai-vos conta, irmãos, de qual graça nos fez Deus, doando-nos Cristo como Cabeça? Exultai, alegrai-vos, tornámo-nos Cristo. Se ele é a Cabeça, nós somos os membros: somos um homem completo, ele e nós... Plenitude de Cristo: a Cabeça e os membros. Qual é a Cabeça e quais são os membros? Cristo e a Igreja" (Santo Agostinho, In Evangelium Johannis tractatus, 21, 8).

Ao exclusivo serviço desta Igreja, que com Cristo forma o "Cristo total" (Christus totus), Rosmini fundou o Instituto da Caridade (Rosminianos) e as Irmãs da Providência (Rosminianas), institutos aos quais estabeleceu como único fim a própria finalidade primária da vida religiosa: a busca incessante da salvação e da santidade. Totalmente pela Igreja. Trata-se de um aspecto que Rosmini pagou um preço elevado e que brilha de maneira muito significativa e exemplar na vida do Beato: o seu inoxidável e tenaz amor à Igreja.

Nas "Constituições" ele usa palavras claríssimas: "Não pensemos neste Instituto, mas sempre na Igreja de Cristo, evocando na alegria do nosso coração as promessas que nos foram transmitidas como herança a respeito do reino de Cristo e da imobilidade do divino conselho" (Rosmini A., Costituzioni dell'Istituto della Carità, Trento 1974, p. 377, n. 468); "... a fim de que [a nossa família religiosa] seja útil à Igreja, [Deus] conservá-la-á e protegê-la-á; quando, ao contrário, começar a ser inútil e prejudicial, com autêntico juízo cortará a árvore nociva e dá-la-á às chamas" (Ibid., p. 375, n. 465). Os religiosos e as religiosas, ao caminhar para a única meta da santidade, deveriam estar abertos a qualquer obra de caridade, principalmente através dos Pastores da Igreja e das circunstâncias dos tempos e dos lugares que o Senhor indicar:

- às obras da caridade espiritual, que se referem imediatamente à salvação eterna do homem (o anúncio da fé, os sacramentos);

- às da caridade intelectual, com as quais se quer libertar a mente do homem das trevas da ignorância e iluminá-la com a luz da verdade;

- e às da caridade temporal que se referem às necessidades do corpo, como a fome e a saúde.

3. O Beato Antônio Rosmini, além da guia da família religiosa que fundou, dedicou as suas múltiplas energias ao empenho cultural, sobretudo nos campos da filosofia, da pedagogia e da teologia, em resposta ao chamado dos Papas do seu tempo, que nos dotes intelectuais do Roveretano viram a indicação clara de que deveria servir a Igreja e o homem ao elaborar um sistema de pensamento que servisse de fundamento à fé. Tratava-se, como ele mesmo escreveu, de reconduzir a Deus o homem, que se tinha afastado d'Ele com um mau uso da razão, tomando a estrada da própria razão. Esta tarefa ingente, que custou a António Rosmini fadigas e dolorosas incompreensões, recentemente recebeu o sigilo competente da Igreja, sobretudo na Encíclica Fides et Ratio de João Paulo II. Nela, que se abre com a belíssima comparação das duas asas ("A fé e a razão constituem como que duas asas com as quais o espírito humano se eleva para a contemplação da verdade") (Fides et Ratio, introdução), o saudoso Pontífice, após ter repetido que a separação entre razão e fé é um drama, afirmou, citando Santo Agostinho: “A profundidade e a autenticidade da fé saem favorecidas quando esta se une ao pensamento e não renuncia a ele”. Mais uma vez, encontramos nos Padres a lição que nos guia nesta convicção: "Crer nada mais é senão pensar consentindo [...]. Todo o que crê, pensa; crendo pensa, e pensando crê [...]. A fé se não for pensada, nada é". Mais: "Se se tira o assentimento, tira-se a fé, pois sem o assentimento, realmente não se crê" (Ibid., n. 79). E na mesma Encíclica está inserido o nome de Rosmini entre os modernos expoentes desta linha do diálogo: "A relação entre a filosofia e a palavra de Deus manifesta-se fecunda também na investigação corajosa realizada por pensadores mais recentes, de entre os quais me apraz mencionar, no âmbito ocidental, personagens como John Henry Newman, Antônio Rosmini, Jacques Maritain, Étienne Gilson, Edith Stein..." (Ibid., n. 74).

A voz de Rosmini é um eco moderno daquela dos grandes Padres da Igreja ao lado dos quais pode estar tranquilamente, pela acuidade e pela vastidão dos interesses teóricos, bem unidos com o ardor evangélico dos pastores de almas. De facto, sobre ele é possível dar, e foram propostas, muitas e diversas definições que descrevem somente parte das múltiplas facetas do prisma da sua extraordinária identidade. Em Antônio Rosmini encontra-se o filósofo, o pedagogo, o teórico da política, o apóstolo da fé, o profeta, o gigante da cultura. Contudo, por quanto tudo isto enriqueça o seu valor e confirme a sua atualidade, a nossa hodierna chave de leitura é a da santidade de Rosmini que, certamente, ajudará a recuperar a amizade entre razão e fé, entre religião, comportamento ético e serviço público dos cristãos.

4. A Igreja hoje proclama Beato este sacerdote porque reconheceu na sua operosa existência os sinais da virtude, que ele praticou de modo heroico. Jovem sacerdote, redigiu para si uma "Regra de comportamento" baseada no Evangelho e que consistia em dois princípios:
1º Pensar seriamente em corrigir a mim mesmo os vícios e em purificar a alma da iniquidade pela qual está marcada desde o nascimento, sem procurar outras ocupações ou obras em prol do próximo, se me achar na absoluta impotência de fazer algo a seu favor”;
“2º Não rejeitar os serviços de caridade para o próximo quando a divina Providência assim os oferecer e apresentar, porque Deus é poderoso para se servir de qualquer um, e também de mim, para as suas obras, e em tal caso conservar uma perfeita indiferença entre todas as obras de caridade, fazendo a que me for proposta com igual fervor como por qualquer outra por minha livre vontade”.
Aqueles que o conheceram tanto os grandes personagens da sua época, com os quais ele tinha contatos frequentes, como os fiéis mais humildes testemunharam que Rosmini viveu em conformidade com esta regra, que ecoa nas palavras de Jesus: "...sem mim nada podeis fazer" (Jo 15, 5) e naquelas de São Paulo aos Filipenses: "Tudo posso naquele que me dá força" (4,13).

No novo Beato verifica-se um constante fio unificador entre o seu pensar, o seu crer e o seu viver quotidiano. Disso resulta um testemunho de vida indicador desta unidade que é ascese, mística, santidade. O abade Rosmini viveu uma vida teologal, na qual a fé implicava a esperança e a caridade, com aquele diálogo de amor confiante na Providência, a tal ponto que o levava a não empreender algo, grande nem pequeno, "se não nos sentirmos como que atraídos pela própria Providência".

Elevando-o às honras dos altares, a Igreja indica este sacerdote como intercessor e modelo também para o homem de hoje, para nós. A vida e os ensinamentos do Fundador do Instituto da Caridade exortam-nos a colocar resolutamente Deus no centro da nossa existência e a servi-lo no homem que é seu sacramento, em qualquer campo que o Senhor nos chame, unicamente felizes por sermos inseridos em Cristo, como sarmentos na Videira, e em atitude de diálogo, e não de contraposição, com as várias e muitas vezes enganadoras correntes do pensamento atual.


Eleve-se desta nossa Santa Assembleia um hino de ação de graças ao Senhor, que tudo conduz com a sua admirável Providência. E as palavras mais uma vez nos são apresentadas pelo nosso Beato, que em 1849, num momento de grave provação para ele, escreveu a um irmão de hábito: "Meditando sobre a Providência, admiro-a: admirando-a, amo-a; amando-a, celebro-a; celebrando-a, agradeço-lhe; agradecendo-lhe, encho-me de alegria. E como poderia fazer diferentemente, se sei pela razão e pela fé, e sinto com o íntimo espírito, que tudo o que se faz, querido ou permitido por Deus, é feito por um amor eterno, infinito, essencial? E quem poderia entristecer por amor?" (Rosmini A., Epistolario ascetico, III, p. 508, carta 1124). Amém.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Serva de Deus Luisa Piccarreta, Virgem e Mística. Apóstola da Divina Vontade.


A Serva de Deus Luísa Piccarreta nasceu em Corato, na província de Bari (Itália), no dia 23 de abril de 1865, e ali faleceu em fama de santidade a 4 de março de 1947.

Luísa teve a sorte de nascer em uma daquelas famílias patriarcais, que ainda resistem nos nossos ambientes da Apúlia e gostam de viver no campo aberto, povoando as nossas aldeias. Os seus pais, Vito Nicola e Rosa Tarantino, tiveram cinco filhos: Maria, Rachele, Filomena, Luísa e Ângela. Maria, Rachele e Filomena casaram-se. Ângela, comumente chamada Angelina, ficou solteira e viveu ao lado da irmã Luísa até à sua morte.

Luísa nasceu no domingo in Albis e foi batizada nesse mesmo dia. Seu pai – poucas horas depois do nascimento – envolveu-a com uma coberta e levou-a à paróquia onde lhe foi administrado o Santo Batismo.

Nicola Piccarreta era empregado em uma feitoria de propriedade da família Mastrorilli, situada no centro das Murgas, na localidade de Torre Desesperada, a 27 quilômetros de Corato. Quem conhece estes lugares pode apreciar a solenidade do silêncio que impera ali, submerso entre as colinas ensolaradas, despojadas e pedregosas. Nessa feitoria Luísa transcorreu longos anos da sua infância e adolescência. Diante do povoado ainda existe a amoreira frondosa e secular, com uma grande cavidade no tronco em que Luísa, quando era criança, se escondia para rezar, longe dos olhos indiscretos. Foi nesse lugar solitário e ensolarado que para Luísa teve início aquela aventura divina que a conduzirá ao longos das sendas do sofrimento e da santidade. Com efeito, foi precisamente nesse lugar que teve de sofrer penas indizíveis devido aos assaltos do maligno, que às vezes a atormentavam também fisicamente. Para libertar-se de tal sofrimento, Luísa recorria de maneira incessante à oração, dirigindo-se de modo especial à Santíssima Virgem, que a consolava com a sua presença.

A Divina Providência conduzia esta criança ao longo de veredas tão misteriosas, a ponto de ela não conhecer qualquer alegria senão Deus e a sua Graça. Efetivamente, um dia o Senhor disse-lhe: «Dei voltas e mais voltas à terra, olhei uma por uma as criaturas, para encontrar a menor de todas. A tua pequenez agradou-me e escolhi-te; confiei-te aos meus anjos a fim de que te acudam, não para fazer-te grande, mas para que conservem a tua pequenez, e agora quero começar a grande obra do complemento da minha vontade. Nem com isso te sentirás maior, mas, pelo contrário, a minha vontade far-te-á menor e continuarás a ser a pequena filha da Vontade Divina» (cf. Volume XII, 23 de março de 1921).

Com nove anos de idade, Luísa recebeu pela primeira vez Jesus Eucarístico e a Santa Crisma, e a partir desse momento aprendeu a permanecer em oração por horas inteiras diante do Santíssimo Sacramento. Com 11 anos, quis inscrever-se na associação das Filhas de Maria – florescente nesse período – na igreja de São José. Com a idade de 18 anos, Luísa fez-se terciária dominicana com o nome de Irmã Madalena. Ela foi uma das primeiras a inscrever-se na Terceira Ordem, cujo promotor era o seu pároco. A devoção de Luísa à Mãe de Deus desenvolverá nela uma profunda espiritualidade mariana, prelúdio daquilo que um dia escreveria sobre Nossa Senhora.

A voz de Jesus conduzia Luísa ao desapego de si mesma, de tudo e de todos. Com cerca de 18 anos de idade, da varanda da sua casa na rua Nazario Sauro, teve a visão de Jesus sofredor sob o peso da cruz que, erguendo o olhar em sua direção, pronunciou estas palavras: «Alma, ajuda-me!». Foi a partir desse momento que se acendeu em Luísa um insaciável anseio de sofrer por Jesus e pela salvação das almas. Assim, iniciaram aqueles sofrimentos físicos que, acrescentados aos espirituais e morais, alcançaram o heroísmo.

A família interpretou estes fenômenos como uma enfermidade e recorreu ao auxílio da ciência médica. Todavia, todos os médicos que foram interpelados ficaram admirados diante de um caso clínico tão único e singular. Luísa era sujeita a uma espécie de "rigidez cadavérica" - não obstante desse sinal de vida – e não existiam curas que pudessem aliviá-la dessas penas indizíveis. Quando terminaram todos os recursos da ciência, recorreu-se à última esperança: os sacerdotes. Foi chamado à sua cabeceira um sacerdote agostiniano, Padre Cosma Loiodice, que, na época, visitava familiares; com a admiração de todos os presentes, bastou um sinal da cruz, que o Padre fez sobre o seu pobre corpo, para que a enferma adquirisse imediatamente as suas faculdades normais. Depois que o Padre Loiodice partiu para o convento, foram chamados alguns sacerdotes seculares que, com um sinal da cruz, faziam com que Luísa voltasse para a normalidade. Ela estava convencida de que todos os sacerdotes eram santos, mas um dia o Senhor disse-lhe: «Não porque são todos santos, oxalá o fossem, mas somente porque são a continuação do meu sacerdócio no mundo, tu deves submeter-te sempre à sua autoridade sacerdotal; nunca vás contra eles, quer eles sejam bons os maus» (cf. Volume I). Luísa submeter-se-á sempre à autoridade sacerdotal, durante toda a sua vida. Este será um dos pontos que mais a farão sofrer. Para Luísa, a maior mortificação era a necessidade quotidiana da autoridade sacerdotal para regressar às ocupações habituais.
Nos primeiros tempos, ela padeceu as incompreensões e os sofrimentos mais humilhantes precisamente da parte dos sacerdotes que a consideravam uma jovem exaltada, louca, uma pessoa que queria chamar sobre si mesma a atenção dos outros. Certa vez, deixaram-na naquele estado por mais de 20 dias. Aceitando o papel de vítima, Luísa começou a viver um estado muito particular: cada manhã ficava rígida, imóvel, contraída na sua cama, e ninguém era capaz de estendê-la, erguer os seus braços, movimentar a sua cabeça ou as suas pernas. Como sabemos, era necessária a presença do sacerdote que, abençoando-a com um sinal da cruz, anulava aquela rigidez, fazendo-a voltar às suas ocupações normais (bordado de almofadas). Um caso único: os seus confessores jamais foram os seus diretores espirituais, tarefa esta que nosso Senhor queria reservar a si mesmo. Jesus fez-lhe ouvir a sua voz diretamente, ensinando-a, corrigindo-a, se fosse necessário repreendendo-a, e de modo gradual levou-a aos elevadíssimos píncaros da perfeição. Por longos anos, Luísa foi sabiamente educada e preparada para receber o dom da Vontade Divina.

Quando o arcebispo dessa época, D. Giuseppe Bianchi D. Giuseppe Dottula (22 de dezembro de 1848 – 22 de setembro de 1892), tomou conhecimento daquilo que estava acontecendo em Corato, ouviu o parecer de alguns sacerdotes e em seguida quis assumir este caso sob a sua autoridade e responsabilidade e, depois de uma reflexão amadurecida, julgou oportuno delegar um confessor particular na pessoa do Pe. Michele De Benedictis, esplêndida figura de presbítero, a quem Luísa abriu pormenorizadamente a sua alma. O Pe. Michele, sacerdote prudente de vida santa, impôs limites aos seus sofrimentos e ela nada devia fazer sem o seu consentimento. Foi precisamente o Pe. Michele que lhe mandou comer pelo menos uma vez por dia, embora imediatamente depois vomitasse tudo. Luísa devia viver somente da Vontade Divina. Foi sob a guia deste sacerdote que obteve a autorização de permanecer continuamente na cama, como vítima de expiação. Corria o ano de 1888. Luísa permaneceu imobilizada no seu leito de sofrimento, sempre sentada por mais 59 anos, até à morte. Observe-se que até então ela, embora aceitasse a condição de vítima, tinha ficado na cama sempre ocasionalmente, porque a obediência jamais lhe consentira permanecer na cama de maneira contínua. Contudo, a partir do primeiro dia de 1889, ficará na cama de modo permanente.

A Serva de Deus foi favorecida com extraordinárias
visões e revelações, em meio a grandes sofrimentos
físicos, morais e espirituais. 
Em 1898, o novo arcebispo D. Tommaso De Stefano (24 de março de 1898 – 13 de maio de 1906) delegou como novo confessor o Pe. Gennaro di Gennaro, que cumpriu tal tarefa por 24 anos. Intuindo as maravilhas que o Senhor realizava nessa alma, o novo confessor mandou categoricamente que Luísa escrevesse tudo aquilo que a Graça de Deus atuava nela. De nada valeram todos os motivos apresentados pela Serva de Deus para subtrair-se à obediência do seu confessor: nem sequer a sua escassíssima preparação literária a pôde eximir da obediência. O Pe. Gennaro di Gennaro foi insensível e irremovível, embora soubesse que a pobrezinha só tinha frequentado a primeira série do primeiro grau. Assim, no dia 28 de fevereiro de 1899, teve início a redação do seu diário, que se concluiu com 36 volumes espessos! O último capítulo foi completado em 28 de dezembro de 1939, dia em que ela recebeu a ordem de não escrever mais.

Quando o seu confessor faleceu, no dia 10 de setembro de 1922, sucedeu-lhe o cônego Pe. Francesco De Benedictis, que a assistiu somente por quatro anos, pois morreu a 30 de janeiro de 1926. O arcebispo, D. Giuseppe Leo (17 de janeiro de 1920 – 20 de janeiro de 1939) delegou como confessor ordinário um jovem sacerdote, Pe. Benedetto Calvi, que permaneceu ao lado de Luísa até à morte dela, compartilhando todos aqueles sofrimentos e incompreensões que se abateram sobre a Serva de Deus nos últimos anos da sua vida.

Santo Aníbal Maria de Francia
No início do século, o nosso povo teve a ventura de ver percorrer a Apúlia Santo Aníbal Maria de Francia, que em Trani desejava abrir uma casa, masculina e feminina, da sua congregação nascente. Tendo tomado conhecimento de Luísa Piccarreta, foi visitá-la e a partir desse momento estas duas almas foram unidas indivisivelmente por propósitos comuns. Também outros sacerdotes ilustres frequentaram Luísa, como por exemplo o jesuíta Gennaro Braccali, Eustachio Montemurro, falecido com fama de santidade, e Ferdinando Cento, Núncio Apostólico e Cardeal da Santa Mãe Igreja. Santo Aníbal tornou-se o seu confessor extraordinário e revisor dos seus escritos, que pouco a pouco eram regularmente examinados e aprovados pela autoridade eclesiástica. 
Sobre Luisa um dia escreveu o Santo: 
“Nosso Senhor, que de século em século aumenta sempre mais as maravilhas do seu Amor, parece que desta virgem, que Ele disse que é a mais pequena que encontrou na terra, sem nenhuma instrução, quis fazer dela um instrumento apto para uma missão tão sublime, que nenhuma outra se pode comparar a ela, ou seja, O TRIUNFO DA DIVINA VONTADE no universo, conforme aquilo que dizemos no Pai Nosso: FIAT VOLUNTAS TUA, SICUT IN COELO IN TERRA”.


Luísa Piccarreta em êxtase
Por volta de 1926, Santo Aníbal mandou que Luísa escrevesse um caderno de memórias sobre a sua infância e adolescência. Ele publicou vários escritos de Luísa, dentre os quais ficou muito famoso o livro L’orologio della Passione («O relógio da Paixão»), que teve quatro edições. A 7 de outubro de 1928, depois que se construiu a casa das irmãs da congregação do Zelo Divino em Corato, para satisfazer o desejo do próprio Santo Aníbal, Luísa foi transportada para o convento. Santo Aníbal já tinha falecido com fama de santidade em Messina.

Em 1938 abateu-se uma terrível tempestade sobre Luísa Piccarreta: de Roma ela foi publicamente reprovada e os seus livros foram proibidos. Assim que foi publicada a condenação do Santo Ofício, ela submeteu-se imediatamente à autoridade da Igreja (1).

De Roma, enviado pelas autoridades eclesiásticas, apresentou-se um sacerdote que lhe pediu todos os seus manuscritos, os quais foram pacífica e prontamente entregues por Luísa. Assim todos os seus escritos foram fechados no arquivo secreto do Santo Ofício.

Por disposições superiores, no dia 07 de outubro de 1938 Luísa teve que abandonar o convento e encontrar uma nova habitação. Assim, transcorreu os seus últimos nove anos de vida em uma casa na rua Madalena, lugar que os idosos de Corato conhecem bem e de onde, em 8 de março de 1947, viram sair o seu ataúde.

A vida de Luísa fora muito modesta; ela possuía pouco ou nada. Vivia em uma casa alugada, assistida amorosamente pela sua irmã Angelina e por algumas mulheres piedosas. Aquele pouco que ela possuía não lhe bastava sequer para pagar o aluguel da casa. Para sustentar-se, dedicava-se assiduamente aos bordados de almofadas, tirando daí aquilo que lhe bastava para manter a própria irmã, uma vez que ela não tinha necessidade de roupas nem de calçados. O seu alimento consistia de poucos gramas de vianda, que lhe eram oferecidos pela sua assistente Rosária Bucci. Luísa nada pedia, nada desejava e vomitava imediatamente o alimento que ingeria. O seu aspecto não era o de um moribundo, mas nem sequer o de uma pessoa perfeitamente sadia. Contudo, nunca estava inerte: as suas forças eram consumadas no sofrimento quotidiano ou no trabalho e, para quem a conhecia profundamente, a sua vida era considerada um milagre contínuo.

Era admirável o seu desapego de qualquer lucro que não proviesse do seu trabalho diário, Com firmeza, ela rejeitava o dinheiro e os vários presentes que lhe eram enviados com qualquer pretexto. Além disso, nunca aceitou dinheiro pela publicação dos seus livros. Santo Aníbal, que certo dia lhe queria entregar o dinheiro derivado dos direitos de autor, ela respondeu assim: «Não tenho qualquer direito, porque o que ali está escrito não é meu» (cf. «Prefácio» ao livro L’orologio della Passione, Messina 1926). Rejeitava indignada e restituía o dinheiro que às vezes as pessoas piedosas lhe enviavam.

A habitação de Luísa parecia um mosteiro, pois nenhum curioso tinha acesso à mesma. Ela estava sempre circundada por poucas mulheres, que viviam da sua própria espiritualidade, e por algumas jovens que frequentavam a sua casa para aprender a bordar almofadas. Era precisamente desse cenáculo que saíam numerosas vocações religiosas. Porém, a sua obra não se limitava às jovens, uma vez que muitos jovens também foram convidados por ela a entrar nos vários institutos religiosos e no sacerdócio.
A Serva de Deus teve várias visões e revelações
sobre os sofrimentos de Jesus e de Maria
O seu dia iniciava por volta das cinco horas da manhã, quando à sua casa chegava o sacerdote para abençoá-la e celebrar a Santa Missa, oficiada pelo seu confessor ou por algum seu delegado: privilégio que ela obteve de Leão XIII, confirmado por São Pio X em 1907. Depois da Santa Missa, Luísa permanecia em oração de ação de graças por cerca de duas horas. Por volta das oito horas iniciava o seu trabalho, que durava até ao meio-dia; após o almoço frugal, permanecia sozinha no seu quarto, em recolhimento. À tarde – depois de algumas horas de trabalho – recitava o Santo Rosário. À noite, por volta das vinte horas, Luísa começava a escrever o seu diário e adormecia por volta da meia-noite. De manhã, encontrava-se imobilizada, rígida, contraída na cama, com a cabeça dobrada à direita, e era necessária a intervenção da autoridade sacerdotal a fim de acordá-la para as suas ocupações diárias e colocá-la sentada na cama.

Luísa faleceu com a idade de 81 anos, 10 meses e nove dias, a 4 de março de 1947, depois de 15 dias uma forte pneumonia, a única enfermidade da sua vida. Ela morreu no fim da noite, na mesma hora em que todos os dias a bênção do sacerdote a libertava do seu estado de rigidez. Nessa época o arcebispo era D. Francesco Petronelli (25 de maio de 1939 – 16 de junho de 1947). Luísa permaneceu sentada na cama. Não foi possível estendê-la e – o que constitui um fenômeno extraordinário – o seu corpo não passou pela rigidez cadavérica e permaneceu na posição em que sempre estivera.






Sem apresentar sinais de corrupção, durante quatro dias, 

seu corpo foi velado e visitado por centenas de pessoas.








Assim que se difundiu a notícia a morte de Luísa, como um regato em cheia, toda a população acorreu à sua casa e foi necessária a intervenção da polícia para conter a multidão que, dia e noite, ia ver Luísa, mulher muito querida ao coração da população. Uma voz ressoava: «Morreu Luísa a Santa!». Para conter toda a multidão que ia vê-la, com o consentimento da autoridade civil e do oficial sanitário, o seu corpo permaneceu exposto por quatro dias, sem dar qualquer sinal de corrupção. Sentada na sua cama, vestida de branco, Luísa não parecia morta; parecia que dormia, uma vez que, como já se disse, o seu corpo não passou pela rigidez cadavérica. Com efeito, sem qualquer esforço era possível movimentar a sua cabeça em todas as direções, erguer os seus braços, dobrar as mãos e todos os dedos; podia-se também levantar as suas pálpebras e observar os seus olhos brilhantes não velados. Todos a consideravam ainda viva, imersa em um sono profundo. Uma equipe de médicos convocados de forma especial declarou, depois de atentos exames do cadáver, que Luísa estava realmente morta e que portanto se devia pensar em uma morte verdadeira e não a uma morte aparente, como todos imaginavam.

Luísa tinha afirmado que nasceu «ao contrário»; por isso, era justo que a sua morte fosse «ao contrário» em relação às outras criaturas. Ela permaneceu sentada, como tinha sempre vivido, e sentada teve que ir para o cemitério, em um ataúde especialmente construído, com as partes laterais e a frente feitas de vidro, de maneira que todos a pudessem ver, como uma rainha no seu trono, vestida de branco, com o Fiat no seu peito. Mais de 40 sacerdotes, o Cabido e o Clero local participaram no cortejo fúnebre; revezando-se as irmãs carregavam-na nos ombros, e uma imensa multidão de cidadãos a circundava: as ruas estavam apinhadas de maneira inverossímil; também as varandas e os tetos das casas estavam repletos de gente, e o cortejo prosseguia com grande dificuldade. As exéquias da pequena filha da Vontade Divina foram celebradas na Igreja Matriz por todo o Cabido. Cada um procurou levar para casa uma recordação, flores, depois de ter tocado o ataúde que, poucos anos mais tarde, foi trasladado para a paróquia de Santa Maria Greca.


Funerais de Luísa Piccarreta: ataúde especialmente feito para ela. 




Em 1994, no dia da solenidade de Cristo Rei na Igreja Matriz, Sua Excelência D. Carmelo Cassati, na presença de um público numerosíssimo e de representantes estrangeiros, abriu oficialmente o processo de beatificação da Serva de Deus Luísa Piccarreta.




Datas significativas (cronologia)

1865 Luísa Piccarreta nasceu no dia 23 de abril, domingo in Albis, em Corato, Bari (Itália), e os seus pais Vito Nicola e Tarantino Filomena, tiveram cinco filhos: Maria, Rachele, Filomena, Luísa e Angela.

Depois de poucas horas do nascimento de Luísa, o seu pai envolveu-a em uma coberta e levou-a à Igreja Matriz para ser batizada. A sua mãe não sofres as dores do parto; o seu nascimento foi indolor.

1872 Recebeu Jesus eucarístico no domingo in Albis e, no mesmo dia, foi-lhe administrado o sacramento da Crisma, pela mãos de D. Giuseppe Bianchi Dottula, então arcebispo de Trani.

1883 Com a idade de 18 anos, da varanda da sua casa vê Jesus curvado sob o peso da cruz, que lhe diz: «Alma, ajuda-me!». A partir desse momento, alma solitária, viveu em contínua união com os sofrimentos inefáveis do seu Esposo divino.

1888 Torna-se Filha de Maria e Terciária dominicana com o nome de Irmã Madalena.

1885-1947 Alma eleita, seráfica esposa de Cristo, humilde e piedosa, dotada por Deus de dons extraordinários, vítima inocente, para-raios da Justiça divina, nos 62 anos ininterruptos de cama, foi Arauto do Reino da Vontade Divina.

4.III.1947 Repleta de méritos, na luz eterna da Vontade Divina terminou – como viveu – os seus dias para triunfar com os anjos e os santos nos esplendores eternos da Vontade Divina.

7.III.1947 Por quatro dias, os seus restos mortais foram expostos à veneração de uma imensa multidão de fiéis, que iam à sua casa para ver pela última vez Luísa a Santa, muito querida ao seu coração. O funeral foi um verdadeiro triunfo; Luísa passou como uma rainha, carregada sobre os ombros, no meio de alas de gente. Todo o clero, secular e religioso, acompanhou o ataúde de Luísa. A liturgia fúnebre realizou-se na Igreja Matriz, com a participação do inteiro Cabido. Na parte da tarde, Luísa foi enterrada na capela gentílica da família Calvi.

3.VII.1963 Os seus restos mortais foram sepultados definitivamente em Santa Maria Greca.

20.XI.1994 Festividade de Cristo Rei. Na Igreja Matriz de Corato, na presença de um numerosíssimo público local e forasteiro, D. Cassati abriu de forma oficial o processo de beatificação da Serva de Deus Luísa Piccarreta.


A primeira imagenzinha da Serva de Deus Luísa Piccarreta, publicada em 1948, com o imprimatur de D. Reginaldo Addazzi, O.P.



Oração pedindo a glorificação da Serva de Deus: 

« Ó Santíssima Trindade,
Pai, Filho, Espírito Santo,
louvamos-Te, e damos-Te graças pelo dom da santidade
da tua Serva fiel Luísa Piccarreta.
Pai, ela viveu na Tua Divina Vontade,
movendo-se sob a ação do Espírito Santo,
conforme ao Teu Filho obediente até à morte de cruz,
Vítima e Hóstia a Ti agradável,
cooperando na obra da Redenção do género humano.
As suas virtudes de obediência, de humildade,
de amor total a Cristo e à Igreja
levam-nos a pedir-Te o dom da sua glorificação na Terra,
para que resplandeça diante de todos a Tua glória,
e que o Teu Reino de verdade, de justiça e de amor
se difunda, até aos confins da terra,
através do carisma particular
do Fiat Voluntas Tua sicut in Caelo et in terra.
Recorremos aos seus méritos para obter de Ti,
Santíssima Trindade,
a graça particular que Te pedimos
com a intenção de cumprir a Tua Divina Vontade. Amém

Três Glórias...
Pai Nosso...
Rainha dos Santos, rogai por nós.


+ Giovanni Battista Pichierri
Arcebispo de Trani-Bisceglie-Barlettta
Trani, 29 de Outubro de 2005

terça-feira, 31 de março de 2015

SANTO INÁCIO DE LÁCONI, Irmão Capuchinho. Dois textos biográficos.


Primeiro texto biográfico:

Como é atrativa a vida simples dos santos irmãos leigos capuchinos! Como é simpática a sua figura! Sempre sorridentes, mesmo sob o peso do trabalho; grandes recitadores de orações; ignorantes das coisas do mundo, mas clarividentes das realidades divinas; dão sempre razão aos Superiores, venerando-os como representantes de São Francisco; sempre alegres no desempenho dos humildes serviços da Fraternidade; pedintes de pão e doadores de paz; imploram a ajuda material e estão sempre prontos a dar o amparo espiritual. Enfim, por onde passam são um Evangelho vivo; e trazem para o convento, para os servos de Deus e os pobrezinhos de Cristo, a esmola vinda da mão da Divina Providência, mesmo em tempo de penúria. Pela sua simplicidade, o Senhor deixa-se cativar por todos e em toda a parte. Abençoados e invejados, louvados e invocados, eis os nossos humildes, simples, obedientes Irmãos leigos!

     A Sardenha experimentou, no decorrer do século XVIII, os salutares benefícios da passagem de um deles: Santo Inácio de Láconi.

     Veio à luz na festa de Nossa Senhora de Loreto, de 1701, em Láconi (Nuoro). No batismo recebeu três nomes: Vicente, pelo qual será conhecido até ao ingresso no convento; Inácio, nome que recebeu e conservou como religioso; e Francisco, para contentar sua mãe, pois esta prometera, por divina inspiração, antes de o filho nascer, se o parto corresse bem, consagrá-lo a São Francisco para toda a vida.

     Era o primogênito de quatro irmãos, e teve a grande alegria de uma irmã clarissa. Desde a infância, os seus conterrâneos apelidavam-no de «II Santarello». Irresistivelmente atraído pela presença de Cristo vivo no Sacrário, logo de manhãzinha corria para a igreja e, enquanto espe­rava que o sacristão a viesse abrir, ele ajoelhava à porta e rezava. «Meu filho, levantas-te muito cedo». — «Não, porque a igreja é a minha casa».

     Deus cumulava-o de graças invulgares, reveladoras da sua alma de eleição. Mais de uma vez, acontecendo-lhe passar junto de crianças, entusiasmadas com o jogo, tocava numa com o seu fiel bastão e dizia: «Tu és para o Céu». Pouco depois, esse pequenito devia meter-se na cama para ir ao encontro dos anjos.

     Um dia, um seu tio convida-o a acompanhá-lo ao campo para levar de comer aos trabalhadores. Infelizmente, no último momento, lembra-se de que lá em casa só havia dois pães. «Que são dois pães para tantas bocas»? «Tio, não importa! Verá que hão de chegar!» Chegaram e até sobraram. Estupefato, o tio ficou sem saber o que dizer.

     Como será o futuro do jovenzinho? Costumava deitar um pouco de vinagre na sopa. «Mamã deixa-me fazer, pois deram a beber a Jesus vinagre com fel». Deste modo, a guardar os rebanhos e a trabalhar no campo, viveu a sua adolescência imaculada. Era, por isso, rodeado de estima e admiração por toda a gente. Na família constituía o centro de muitas esperanças. Faltava, porém, cumprir a promessa da mãe. Poderia ser cumprida? Completara 18 anos, quando foi acometido de doença grave. Então, ele mesmo tomou o seguinte propósito: se ficasse curado, abandonaria os seus queridos familiares para se consagrar ao Senhor nos irmãos Capuchinhos. Contudo, uma vez restabelecido, não mostrou pressa em cumprir o prometido.

     Passados dois anos, ele continua ainda a trabalhar no campo. Tinha agora 20 anos. O pai chama-o e diz-lhe: «É preciso ir à quinta de um tal camponês. Serve-te do cavalo». O animal era bom, mas ainda melhor o cavaleiro. Mas eis que, ao chegar a uma curva perigosa, o animal empina-se e desata numa correria louca em direção a um precipício. De repente, Vicente recorda-se do voto. Renova-o e promete: «Se me salvo deste precipício, far–me-ei Capuchinho». E aconteceu o milagre: o animal deteve-se da sua corrida desenfreada.

     Deus queria-o para uma vida diferente. Regressa a casa, conta tudo o que se passara, e pede aos pais que o levem a Cágliari, sede provincial dos Capuchinhos. Estamos em outubro de 1721. Após algumas reticências, motivadas pela sua magreza, é admitido ao noviciado com o nome de Frei Inácio.

A incerteza dos Superiores continua durante o noviciado. «Vida de Capuchinho é o mesmo que dizer vida austera. E Frei Inácio era demasiado débil». Contudo ele quer a todo o custo ficar. Deseja mesmo ficar. Redobra o seu fervor, tornando-se um verdadeiro modelo de vida. Um dia exclamou: «Virgem Mãe, ajudai-me, que já não posso mais». Uma voz lá no seu íntimo lhe segreda: «Coragem, Frei Inácio! Recorda quanto foi dolorosa a Paixão de meu Filho. Leva com paciência também a tua». E Frei Inácio vence a grande prova da sua vocação. Em 1722 emite a sua profissão religiosa e foi imediatamente destinado ao convento de Iglesias. Aqui leva uma vida exemplaríssima, no cumprimento dos deveres e no serviço de Deus e dos irmãos.

     Um dia, deixa cair, inadvertidamente, ao poço a chave da dispensa. Ajoelha-se, diz três «Ave-Marias» e pede a Nossa Senhora que o ajude. Faz descer o balde, tira-o cheio de água, e… dentro dele estava a chave!

     De Iglesias passa a Cagliari, onde é nomeado responsável dos Irmãos esmoleiros. Andava pelos 40 anos. Será nesta missão que ele deixará preciosos testemunhos de vida e onde se revelará como modelo de confiança na Providência de Deus.

     Frei Inácio, esmoleiro! Nenhum orador sagrado pregou, como ele, a Boa Nova com tanto fruto espiritual na capital da Sardenha; nenhum médico se lhe pode comparar na sua ação caritativa e curativa dos doentes; nenhuma mãe teve, como ele, tantos filhos para consolar. Vê-lo passar, era como ver a aparição de um anjo do céu. Quantas graças e milagres Deus fez por seu intermédio!
     Certa manhã demora-se na igreja a rezar. O Irmão encarregado do refeitório chama-o à parte, dizendo-lhe que não há nada para comer, e a culpa é sua. Frei Inácio ouve e cala. Nisto, dois esbeltos jovenzinhos chegam com dois grandes canastras de pão fresco. O Irmão do refeitório acolhe com alegria aquela dádiva, vinda de Deus. Vai despejar os canastras e volta para agradecer aos gentis benfeitores, mas já não os encontrou. Chama…, chama…, e nada! Pergunta se alguém os viu passar na rua…, e nada! Então, compreende. Vai ao encontro de Frei Inácio, ajoelha-se a seus pés e pede-lhe perdão. O Santo responde–lhe amigavelmente: «Irmão, nunca desconfies da Divina Providência. Aqueles que vivem para Deus, jamais serão abandonados».

     Fatos semelhantes aconteciam com frequência na Fraternidade! E com os seculares! A caridade para com eles não era menos cuidadosa. Contudo, não lhe faltaram provações e desgostos: «O bem que não é provado, não é meritório». Apenas um episódio. Numa aldeia vizinha vivia um casal. Bons esposos, casados há já 12 anos, mas não tinham a alegria de um filho. Esta era a sua grande infelicidade, para a Qual não encontravam consolação. Frei Inácio, na sua missão de esmoleiro, passava de vez em quando pela casa deles. E porque era venerado como san­to, aqueles bons esposos confiaram-lhe a sua tristeza. «Deixemos que o Senhor atue — disse Frei Inácio eu e os meus irmãos rezaremos, e vereis que Deus vos atenderá». Não faltaram, contudo, as más línguas, e até calúnias horríveis. Mas o coração e o olhar de Frei Inácio eram puros e simples como o olhar dos inocentes. A felicidade aconteceu naquele lar. E veio o dia do batismo. O Santo também quis ir à igreja. Num dado momento aproximou-se e disse: «Meu menino, diz-me: quem é o teu pai?» E a criança sorrindo, apontou, com a sua mão pequenina para o verdadeiro pai que, com imensa alegria, o tinha levado à igreja para batizar.

Certa ocasião quis corrigir e chamar à ordem alguns comerciantes que enganavam os seus clientes. Como fazer? Com a capa improvisou dois recipientes: num deles vazou o leite; no outro, o vinho. Por baixo saía apenas água!

Noutra ocasião viu de longe dois soldados vir ao seu encontro, trocando entre si estas palavras: «Eis o santo. As mulheres da Sardenha conhecem-no as mil maravilhas». Quando já estavam perto, disse-lhes: «É mais fácil eu fazer-me santo do que vós realizardes o que desejais, naquela casa.» E exortou-os a não entrar, se queriam escapar a uma grande desgraça.

Um comerciante rico sentiu-se humilhado por Frei Inácio não ter ido pedir esmola a sua casa. Queixou-se por isso, ao padre Guardião. «Irei, já que o superior me manda». A esmola foi abundante, mas Frei Inácio caminha com dificuldade pelas ruas de Cagliari. O alforje pesa-lhe como chumbo. Os transeuntes, estupefatos, diziam-lhe: «Frei Inácio, do alforje escorre sangue; levais carne lá dentro?» Finalmente chega ao convento; despeja tudo, e tudo estava ensanguentado. «Padre Guardião, tudo isto é sangue dos pobres, e foi adquirido através do roubo e da usura».

Como todos os servos de Deus, castigava sem piedade o seu corpo com contínuas privações e penitências. Chegava a deitar cinza na sopa. Se algum benfeitor lhe oferecia algum presente, ele recusava-o amigavelmente: «Estou acostumado ao pão negro; Deus vos pague».

Quanta fé e simplicidade na prática da obediência! Um dia o padre Provincial dá com ele a orar num canto escondido do convento e diz-lhe: «Frei Inácio, espera aqui, pois tenho um encargo para te dar». — «Benedicite, reveren­do Padre». Eram as sete horas da manhã. À noite, à hora de jantar, o padre Guardião pergunta ao Provincial se tinha mandado Frei Inácio à cidade. Então o Provincial recorda-se e manda-o chamar. Estava ainda de joelhos no mesmo lugar com as mãos nas mangas, em profunda oração. O Superior chama-o: «Que estás aqui a fazer, Frei Inácio?» — «Padre, estou a praticar a obediência». — «Bem, anda para a cozinha». Era uma sexta- feira, dia de jejum. O irmão cozinheiro diz-lhe para jantar. «Mas hoje é dia de jejum — responde Frei Inácio. Basta fazer uma pequena refeição». — «Come, come, irmão! Pratica a obediência, pois assim o ordena o padre Provincial». Frei Inácio põe-se à mesa e, no fim, exclama: «Como é bom comer por obediência! Como é bom jantar num dia de jejum por obediência»!

     Deus cumulou Frei Inácio com o carisma dos milagres e o dom da profecia. Narramos apenas um. Próximo do convento vivia uma linda menina. Ainda Frei Inácio vinha longe, já ela corria ao encontro dele, para lhe fazer uma festa, como se fora o próprio Jesus. Ele também ficava radiante ao ver a encantadora menina. Durante alguns dias o santo não saiu a pedir esmola. Precisamente, nesses dias, a menina cai doente e morre. No mesmo dia da morte, passando por ali, o santo esmoleiro pede notícias da sua pequena amiga. Contam-lhe o sucedido. «Vamos, Frei Inácio, chorai vós também! Aconteceu uma grande desgraça! Vinde vê-la». Sobe ao quarto onde jaz o cadáver já frio. Frei Inácio recolhe-se em profunda oração. Depois, volta-se para os pais desolados: «Não está morta; dorme. Esperai, que eu vou acordá-la». Sacode-a e chama-a. A menina abre os olhos, levanta a mãozinha e diz: «Tenho fome». Frei Inácio dá-lhe um pedaço de pão e entrega-a, viva, aos pais.

Já é tempo de finalizar estes breves episódios da sua longa, laboriosa e santa vida. Dois anos antes da sua morte ficou cego. Não fazia outra coisa senão rezar. No início do ano de 1781 despediu-se pela última vez da sua família e benfeitores, a quem distribuiu medalhas e objetos de devoção, dizendo a todos que voltaria a vê-los no céu. E, apoiado no bastão, pôs-se a caminho em direção ao convento.

     A 05 de Maio foi levado para a enfermaria. No dia seguinte confessa-se e, depois, pergunta ao confessor: «Que dia é hoje?» Era um domingo. Com os dedos contou até sexta-feira. No dia 09 pediu o Santo Viático. O sacerdote disse-lhe que não havia pressa. «Meu Padre, Deus, na Sua infinita bondade, sempre me ajudou em toda a minha vida: agora mais do que nunca preciso de ajuda para fazer a travessia para a vida eterna».

     A 11 de Maio pediu a Santa Unção. Nessa mesma manhã, chegara um hábil artista para pintar num quadro o retrato do seu amigo, mas ainda ele não tinha transposto a soleira da porta, e Frei Inácio diz: «Não deixeis entrar aquele senhor. Que necessidade tem ele de reproduzir as feições de um asno?» Quando o pintor entrou no quarto, o santo continuou: «Vejo as cores e os pincéis: em vez de reproduzir o rosto de um pecador, pintai o rosto da Virgem Mãe.»

     Avisou o Superior de que morreria depois de Vésperas. Às três horas, enquanto os sinos de Cagliari choravam a agonia do Salvador, ele levantou os olhos ao céu, e perguntou que horas eram. «Ah, sim»! E, juntando as mãos, partiu para a Glória. A notícia correu como um relâmpago. Todos choravam; toda a gente se lamentava: «Morreu o nosso santo! Morreu o nosso pai»! As tabernas e as casas de comércio fecharam. O luto foi geral. Toda a cidade parou.

     Os funerais constituíram um plebiscito de fraternidade e de saudade: abria o cortejo fúnebre a banda municipal; todo o clero secular e regular estava presente com o Capítulo e o Vigário Geral; os guardas, a custo, iam abrindo passagem por entre uma multidão compacta.

      Morrera o humilde, pobre e bom Irmão, cujo coração era tão grande como o mar. Foi beatificado por Pio XII a 16 de Junho de 1940. O mesmo Pio XII, em nome de toda a Igreja, proclamou a sua solene glorificação a 21 de Outubro de 1951, inscrevendo-o no Catálogo dos Santos.


Segundo texto biográfico

Santo Inácio de Láconi, o segundo numa família de nove irmãos, nasceu em Láconi, na Sardenha, a 17 de Novembro de 1701. Foram seus pais Matias Peis Cadello e Ana Maria Sanna Casu, pobres de bens materiais, mas ricos de fé. Desde pequeno se distinguiu pela sua bondade e piedade; sendo ainda adolescente, praticava contínuas mortificações e rigorosos jejuns.

Tinha 18 anos quando ficou gravemente doente e fez, então, a promessa de se fazer capuchinho se viesse a curar-se. Mais tarde, escapou a outro perigo mortal e nessa altura cumpriu a sua promessa. A 3 de Novembro de 1721 foi a Cagliari e apresentou-se no Convento dos Capuchinhos de Buoncammino.

Recusado inicialmente por causa da sua frágil constituição física foi, finalmente, admitido. Vestiu o hábito religioso dos Capuchinhos no Convento de São Bento a 10 de Novembro de 1721. No final do ano do noviciado, foi transferido para o Convento de Iglesias, onde recebeu o ofício de despenseiro, sendo, ao mesmo tempo, encarregado de esmolar na campanha de Sulcis.

Depois de passar durante 15 anos por diversos conventos, Inácio foi enviado para Cagliari, para o Convento de Buoncammino, recebendo aí o encargo de confeccionar os hábitos para os religiosos e depois, a partir de 1741, o ofício de pedir esmola naquela cidade – um ofício, então, considerado de grande importância e responsabilidade.

Cagliari foi, assim, durante 40 anos, o campo do seu maravilhoso apostolado, desenvolvido com um amor imenso no meio dos pobres e dos pescadores. Era venerado pelo encanto da sua virtude e pelos milagres que ia realizando até ao ponto de ser chamado por todos como “Padre Santo”. Um testemunho daquele tempo, nada suspeito e que mostra a grande veneração de que era geralmente rodeado o humilde capuchinho, é-nos oferecido pelo pastor protestante, José Fues, que vivia naquele tempo em Cagliari.

Numa carta escrita a um seu amigo da Alemanha, assim se exprimia: “Vemos todos os dias a pedir esmola, deambulando pela cidade, um santo vivo que é o irmão leigo capuchinho que, com vários milagres, conquistou a veneração de todos os seus compatriotas”.

Converteu-se numa figura típica, quase insubstituível naquela cidade da Sardenha que, precisamente naquela altura, tinha passado para o domínio da casa de Savoia. Pedia esmola nos bairros pobres, ao longo do porto, nas tavernas e nas lojas. Pedia e dava ao mesmo tempo. Por um lado, dava qualquer ajuda para socorrer os necessitados e, por outro, também um exemplo, uma boa palavra, um conselho, uma recomendação a apontar a virtude.

Conhecido por todos, por todos era respeitado e amado. Ia vendo as gerações sucederem-se em torno do seu próprio hábito, as crianças a converterem-se em homens e os homens a ficarem velhos. Somente ele não mudava. Sempre nos mesmos lugares, sempre atento à sua missão, sempre com a mesma humildade e caridade, a mesma simplicidade e bondade.

Tendo perdido a visão em 1779, passou os últimos anos de vida em intensa oração até ao dia da sua gloriosa morte, que teve lugar em Cagliari, a 11 de Maio de 1781.


Fonte: “Santos franciscanos para cada dia”, edição Porziuncola.