Páginas

sábado, 4 de julho de 2015

SÃO JOSEMARÍA ESCRIVÁ DE BALAGUER Y ALBÁS, Presbítero e Fundador do Opus Dei.



Do Breve Apostólico da Beatificação do Venerável Servo de Deus Josemaría Escrivá de Balaguer, Sacerdote, Fundador do Opus Dei.

“O Fundador do Opus Dei recordou que a universalidade do chamamento à plenitude da união com Cristo implica também que qualquer atividade humana se pode converter em lugar de encontro com Deus. (...) Foi um autêntico mestre de vida cristã e soube alcançar o cume da contemplação com a oração contínua, a mortificação constante, o esforço quotidiano de um trabalho realizado com exemplar docilidade às moções do Espírito Santo, a fim de servir a Igreja como a Igreja quer ser servida”.


*****

Um lar luminoso e alegre

Josemaría Escrivá de Balaguer nasceu em Barbastro (Espanha), no dia 09 de Janeiro de 1902. Foi o segundo dos seis filhos de José Escrivá e María Dolores Albás. Os seus pais, católicos fervorosos, batizaram-no no dia 13 desse mesmo mês de Janeiro e transmitiram-lhe, em primeiro lugar com a sua vida, os fundamentos da fé e as virtudes cristãs: o amor à Confissão e à Comunhão frequentes, o recurso confiado à oração, a devoção a Nossa Senhora, a ajuda aos mais necessitados.

São Josemaría cresceu como um rapaz alegre, vivo e simples, travesso, bom aluno, inteligente e bom observador. Amava muito a sua mãe e tinha uma grande confiança e amizade com o seu pai, que o animava, com liberdade, a que lhe abrisse o seu coração e lhe contasse as suas preocupações, estando sempre disponível para responder às suas perguntas, com afeto e prudência. Nosso Senhor começou, desde muito cedo, a temperar a sua alma na forja da dor: entre 1910 e 1913 morreram as suas três irmãs mais novas e em 1914 a sua família sofre a ruína econômica. Em 1915, a família Escrivá muda-se para Logronho, onde o pai obteve um emprego que lhe permitirá sustentar modestamente a família.

No inverno de 1917-1918 ocorre um fato que terá uma influência decisiva no futuro de Josemaría Escrivá: durante a época de Natal, caiu uma forte nevasca sobre a cidade e, um dia, repara numas pegadas na neve; são as pegadas de um frade carmelita que caminhava descalço. Interrogou-se, então, a si mesmo: se há pessoas que fazem tantos sacrifícios por Deus e pelo próximo, não serei eu capaz de Lhe oferecer alguma coisa? Surge, assim, na sua alma uma inquietação divina: comecei a pressentir o Amor, a dar-me conta de que o coração me pedia alguma coisa grande, que fosse amor. Sem saber ainda, de modo preciso, o que lhe pede Nosso Senhor, decide ser sacerdote, porque pensa que dessa maneira estará mais disponível para cumprir a vontade divina.



A ordenação sacerdotal

Terminado o ensino secundário, inicia os estudos eclesiásticos no Seminário de Logronho e, em 1920, entra no de Saragoça, em cuja Universidade Pontifícia completará a sua formação prévia ao sacerdócio. Na capital aragonesa faz também o curso de Direito, por sugestão do seu pai e com a autorização dos seus superiores eclesiásticos. O seu carácter generoso e alegre, a sua simplicidade e serenidade, fazem-lhe ganhar o afeto dos seus colegas. O seu esmero na vida de piedade, na disciplina e no estudo é um exemplo para todos os seminaristas e, em 1922, quando contava apenas vinte anos, o Arcebispo de Saragoça nomeia-o Inspetor do Seminário.

Durante este período, passa muitas horas a rezar diante do Senhor Sacramentado, enraizando profundamente na Eucaristia a sua vida interior, e vai todos os dias à Basílica de Nossa Senhora do Pilar para pedir à Virgem Santíssima que Deus lhe revele o que pretende dele: a partir do momento em que senti aqueles pressentimentos do amor de Deus – afirmava em 02 de Outubro de 1968 –, esforcei-me, na minha pequenez, por levar a cabo o que Ele esperava deste pobre instrumento. (...) E, no meio daquelas ânsias, rezava, rezava, rezava, numa contínua oração. Não parava de repetir: Domine, ut sit!, Domine, ut videam!, como o pobrezinho do Evangelho, que clama porque Deus tudo pode. Senhor, que eu veja! Senhor, que seja! E repetia também, (...) cheio de confiança na minha Mãe do Céu: Domina, ut sit!, Domina, ut videam! A Virgem Santíssima sempre me ajudou a descobrir os desejos do Seu Filho.

O Sr. José Escrivá, seu amado pai, falece a 27 de Novembro de 1924, vítima de uma síncope repentina. No dia 28 de Março de 1925, Josemaría é ordenado sacerdote por D. Miguel de los Santos Díaz Gómara, na igreja do Seminário de São Carlos, em Saragoça. Dois dias mais tarde celebra a sua primeira Missa solene, na Santa Capela da Basílica de Nossa Senhora do Pilar, e no dia 31 desse mês vai para Perdiguera, pequena aldeia de camponeses, como regente auxiliar na paróquia.

Em Abril de 1927, com o beneplácito do seu Arcebispo, começa a viver em Madrid para fazer o doutoramento em Direito Civil, o qual, nessa altura, só se podia obter na Universidade Central da capital de Espanha. Em Madrid, o seu zelo apostólico rapidamente o faz entrar em contato com pessoas de todos os ambientes da sociedade: estudantes, artistas, operários, intelectuais, sacerdotes. Entrega-se sem descanso, de modo especial, às crianças, doentes e pobres dos bairros periféricos.

Ao mesmo tempo, sustenta a sua família dando aulas de direito. São tempos de grandes dificuldades económicas, vividas por toda a família com dignidade e ânimo. Nosso Senhor abençoou-o com abundantes graças de carácter extraordinário que, encontrando na sua alma generosa um terreno fértil, produziram muitos frutos de serviço à Igreja e às almas.


Fundação do Opus Dei

O Opus Dei nasce no dia 02 de Outubro de 1928. São Josemaría está fazendo um retiro espiritual e, enquanto medita nos apontamentos das moções interiores recebidas de Deus nos últimos anos, de repente vê (é a palavra que sempre utilizará para descrever a experiência fundacional) a missão que Nosso Senhor lhe quer confiar: abrir na Igreja um novo caminho vocacional, orientado a difundir a procura da santidade e a realização do apostolado mediante a santificação do trabalho quotidiano no meio do mundo, sem mudar de estado. Poucos meses mais tarde, no dia 14 de Fevereiro de 1930, Nosso Senhor dá-lhe a entender que o Opus Dei deve estender-se também às mulheres.

A partir dessa altura, o São Josemaría entrega-se de corpo e alma ao cumprimento da sua missão fundacional: promover entre homens e mulheres de todos os âmbitos da sociedade um compromisso pessoal de seguimento de Cristo, de amor ao próximo, de procura da santidade na vida quotidiana. Não se considera um inovador nem um reformador, pois está convencido de que Jesus Cristo é a eterna novidade e de que o Espírito Santo rejuvenesce continuamente a Igreja, e que foi para a servir que Deus suscitou o Opus Dei.
Sabedor de que a tarefa que lhe foi confiada é de natureza sobrenatural, fundamenta o seu labor na oração, na penitência, na alegre consciência da filiação divina, num trabalho infatigável. Pessoas de todas as condições começam a segui-lo, especialmente grupos de universitários, nos quais desperta um desejo sincero de servirem os seus irmãos, os homens, inflamando-os na ânsia de pôr Cristo no âmago de todas as atividades humanas, através do trabalho santificado, santificante e santificador. É este o fim que indicará para as iniciativas dos fiéis do Opus Dei: levar a Deus, com a ajuda da graça, cada uma das realidades criadas, para que Cristo reine em todos e em tudo; conhecer Jesus Cristo, dá-Lo a conhecer, levá-Lo a todos os sítios. Compreende-se, portanto, que pudesse exclamar: abriram-se os caminhos divinos da terra.


Expansão apostólica

Em 1933, promove a abertura de uma Academia universitária, porque percebe que o mundo da ciência e da cultura é um ponto nevrálgico para a evangelização de toda a sociedade. Em 1934, publica, com o título Consideraciones Espirituales, a primeira edição de Caminho, livro de espiritualidade de que, até agora, se difundiram mais de quatro milhões e meio de exemplares, com 372 edições, em 44 línguas.

O Opus Dei está a dar os seus primeiros passos quando, em 1936, começa a guerra civil espanhola. Em Madrid cresce a violência antirreligiosa, mas o Pe. Josemaría, apesar dos riscos, prodigaliza-se heroicamente na oração, na penitência e no apostolado. É uma época de sofrimento para a Igreja, mas são também anos de crescimento espiritual e apostólico e de fortalecimento da esperança. Em 1939, terminada a guerra, o Fundador do Opus Dei pode dar um novo impulso ao seu trabalho apostólico em toda a Península Ibérica, e mobiliza especialmente muitos jovens universitários para que levem Cristo a todos os ambientes e descubram a grandeza da sua vocação cristã. Difunde-se ao mesmo tempo a sua fama de santidade: é convidado por muitos Bispos a pregar retiros espirituais aos sacerdotes e leigos das organizações católicas. Chegam-lhe pedidos semelhantes dos superiores de várias ordens religiosas, a que sempre acede.

Em 1941, enquanto prega um retiro espiritual a sacerdotes de Lérida, falece a sua mãe, que tanto o tinha ajudado no apostolado do Opus Dei. Nosso Senhor permite que se desencadeiem também duras incompreensões sobre a sua pessoa. O Bispo de Madrid, D. Leopoldo Eijo y Garay, transmite-lhe o seu mais sincero apoio e concede ao Opus Dei a primeira aprovação canônica. São Josemaría suporta as dificuldades com oração e bom humor, consciente de que “todos os que querem viver piedosamente em Jesus Cristo serão perseguidos” (II Tim 3, 21), e recomenda ao seus filhos espirituais que, perante as ofensas, se esforcem por perdoar e esquecer: calar, rezar, trabalhar, sorrir.
Durante a celebração de uma Santa Missa, que
o santo sempre celebrava com muita piedade,
Deus o inspirou a fundar a Sociedade Sacerdotal
da Santa Cruz, dentro do movimento do Opus Dei. 
Em 1943, mediante uma nova graça fundacional que recebe durante a celebração da Missa, nasce, dentro do Opus Dei, a Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, na qual se poderão incardinar os sacerdotes que procedam dos fiéis leigos do Opus Dei. O fato de pertencerem plenamente ao Opus Dei tanto sacerdotes como leigos, bem como a cooperação orgânica de uns com os outros nos seus apostolados, são características próprias do carisma fundacional, que a Igreja confirmou em 1982, ao determinar a sua definitiva configuração jurídica como Prelatura pessoal. No dia 25 de Junho de 1944 recebem a ordenação sacerdotal três engenheiros, entre eles o Beato Álvaro del Portillo, futuro sucessor do Fundador na direção do Opus Dei. Com o decorrer do tempo, serão quase mil os leigos do Opus Dei que São Josemaría conduzirá ao sacerdócio.


São Josemaría e o Beato Álvaro, que o sucederá. 


A Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, intrinsecamente unida à Prelatura do Opus Dei, promove também, em plena sintonia com os Pastores das Igrejas locais, atividades de formação espiritual para sacerdotes diocesanos e candidatos ao sacerdócio. Os sacerdotes diocesanos também podem fazer parte da Sociedade Sacerdotal da Santa Cruz, mantendo inalterada a sua pertença ao clero das respectivas dioceses.



Espírito romano e universal

Mal vislumbrou o fim da II Guerra Mundial, São Josemaría começou a preparar o trabalho apostólico noutros países, porque, dizia, Jesus quer que, desde o princípio, a sua Obra tenha índole universal, católica. Em 1946 passa a viver em Roma, a fim de preparar o reconhecimento pontifício do Opus Dei. A 24 de Fevereiro de 1947, o Papa Pio XII concede o decretum laudis, e a aprovação definitiva a 16 de Junho de 1950. A partir desta data, também os não católicos e mesmo os não cristãos podem ser admitidos como Cooperadores do Opus Dei, ajudando os trabalhos apostólicos com o seu trabalho, esmola e oração.

Instala-se em Roma a sede central do Opus Dei, para sublinhar de modo ainda mais tangível a aspiração que dá forma a todo o seu trabalho: servir a Igreja como a Igreja quer ser servida, em íntima adesão à cátedra de Pedro e à hierarquia eclesiástica. Pio XII e São João XXIII transmitem-lhe, em várias ocasiões, manifestações de afeto e estima. O Beato Paulo VI escrever-lhe-á, em 1964, definindo o Opus Dei como “expressão viva da perene juventude da Igreja”.


São Josemaría Escrivá foi muito estimado e admirado pelos papas
Pio XII, São João XXIII e Beato Paulo VI (o da foto). 

Também esta etapa da vida do Fundador do Opus Dei está marcada por todo o tipo de provações: à saúde afetada por muitos sofrimentos (padeceu de uma grave forma de diabetes durante mais de dez anos, de que se curou, em 1954, de modo milagroso) acrescentam-se as dificuldades econômicas e as relacionadas com a expansão do apostolado por todo o mundo. Todavia, a alegria transcende sempre da expressão do seu rosto, porque a verdadeira virtude não é triste nem antipática, mas amavelmente alegre. O seu permanente bom humor é um testemunho contínuo de amor incondicionado à vontade de Deus.

O mundo é muito pequeno, quando o Amor é grande: o desejo de inundar a terra com a luz de Cristo leva-o a aceitar as solicitações de numerosos Bispos que, de todos os lugares do mundo, lhe pedem a ajuda do apostolado do Opus Dei para a evangelização. Surgem projetos muito variados: escolas de formação profissional, centros de formação para trabalhadores agrícolas, universidades, colégios, hospitais e centros de saúde, etc. Estas atividades – um mar ser limites, como gostava de dizer –, fruto da iniciativa dos cristãos que desejam dar resposta, com mentalidade laical e profissionalismo, às necessidades concretas de um determinado lugar, estão abertas a pessoas de todas as raças, religiões e condições sociais, porque a sua patente identidade cristã harmoniza-se sempre com o profundo respeito pela liberdade das consciências.

Quando São João XXIII anuncia a convocação de um Concílio Ecumênico, começa a rezar e a pedir que se reze pelo feliz êxito dessa grande iniciativa, que é o Concílio Ecumênico Vaticano II, como escreveu numa carta de 1962. Nas sessões do Concílio, o Magistério solene confirmará aspectos fundamentais do espírito do Opus Dei: o chamamento universal à santidade, o trabalho profissional como meio de santidade e de apostolado, o valor e os legítimos limites da liberdade do cristão em matérias temporais, a Santa Missa como centro e raiz da vida interior, etc. São Josemaría contata com muitos padres conciliares e peritos, que nele reconhecem um autêntico precursor de muitas linhas mestras do Vaticano II. Profundamente identificado com a doutrina conciliar, promove diligentemente a sua execução, através das atividades formativas do Opus Dei em todo o mundo.



Santidade no meio do mundo

Ao longe, no horizonte, o céu une-se à terra. Mas não esqueças que onde de verdade o céu e a terra se tocam é no teu coração de filho de Deus. A pregação de São Josemaría vinca constantemente a primazia da vida interior sobre as atividades organizativas: estas crises mundiais são crises de santos, escreveu em Caminho. E a santidade exige sempre essa compenetração de oração, trabalho e apostolado a que chama unidade de vida, que recebe o seu melhor testemunho da sua própria vida.

Estava profundamente convencido de que, para alcançar a santidade no trabalho quotidiano, é necessário o esforço por ser alma de oração, alma de profunda vida interior. Quando se vive desta forma, tudo é oração, tudo pode e deve conduzir-nos para Deus, alimentando, da manhã à noite, esta relação contínua com Ele. Todo o trabalho pode ser oração e todo o trabalho, que é oração, é apostolado.

A raiz da prodigiosa fecundidade do seu ministério reside precisamente na ardente vida interior que torna São Josemaría num contemplativo no meio do mundo: uma vida interior alimentada da oração e dos sacramentos, que se manifesta no amor apaixonado pela Eucaristia, na profundidade com que vive a Santa Missa como centro e raiz da sua própria vida, na terna devoção a Nossa Senhora, a São José e aos Anjos da Guarda, na fidelidade à Igreja e ao Papa.



O encontro definitivo com a Santíssima Trindade

Nos últimos anos da sua vida, o Fundador do Opus Dei passa por numerosos países da Europa e da América Latina, em viagens de catequese: em todos esses lugares, tem reuniões de formação, simples e familiares (mesmo quando se juntam milhares de pessoas para o escutar), em que fala de Deus, dos sacramentos, das devoções cristãs, da santificação do trabalho, do amor à Igreja e ao Papa. Celebra, a 28 de Março de 1975, as bodas de ouro sacerdotais. Nesse dia, a sua oração é como que uma síntese de toda a sua vida: “passados cinquenta anos, sou como uma criança que balbucia: estou a começar, a recomeçar, na minha luta interior de cada dia. E assim até ao fim dos dias que me restem: sempre a recomeçar”.

Uma das muitas palestras que São Josemaria Escrivá proferiu para jovens e universitários. 

São Josemaría Escrivá morre, como consequência de uma paragem cardíaca, ao meio dia de 26 de Junho de 1975, no seu quarto de trabalho e aos pés de um quadro de Nossa Senhora, a quem lança o seu último olhar. Nessa altura, o Opus Dei está presente nos cinco continentes com mais de 60.000 membros de 80 nacionalidades. Os livros de espiritualidade de Mons. Escrivá de Balaguer (Caminho, Santo Rosário, Temas Atuais do Cristianismo, Cristo que passa, Amigos de Deus, Amar a Igreja, Via Sacra, Sulco, Forja) difundiram-se com milhões de exemplares.
Estátua de São Josemaría Escrivá
colocada na Basílica de São Pedro, por
ser um santo fundador. 
Depois do seu falecimento, um grande número de fiéis pede ao Papa que se abra a sua causa de canonização. A 17 de Maio de 1992, em Roma, São João Paulo II eleva Josemaría Escrivá aos altares, numa multitudinária cerimônia de beatificação.

A 21 de Setembro de 2001, a Congregação Ordinária de Cardeais e Bispos membros da Congregação para as Causas dos Santos confirma unanimemente o carácter milagroso de uma cura, bem como a sua atribuição ao então Beato Josemaría. A leitura do decreto relativo ao milagre tem lugar, na presença do Romano Pontífice, no dia 20 de Dezembro. A 26 de Fevereiro de 2002, São João Paulo II preside o Consistório Ordinário Público de Cardeais e, ouvidos os Cardeais, Arcebispos e Bispos presentes, determina que a cerimônia de Canonização do Beato Josemaría se celebre no dia 06 de Outubro de 2002.



SÃO JOSÉ DE ANCHIETA, Presbítero e Missionário Jesuíta, Apóstolo do Brasil.



Sua caravela chegou ao porto da Bahia em 1553. Local tido como um "paraíso terrestre". O jovem seminarista José encantou-se com a Terra de Santa Cruz. Fez da conversão da gente da terra a sua meta. Viveu como missionário, agiu como herói, morreu como santo.



      Com 19 anos, Missionário na Terra de Santa Cruz
O moço de 19 anos que chegava à Terra de Santa Cruz vinha com as melhores disposições espirituais possíveis para exercer sua missão. Embora tão jovem e não tendo ainda sido ordenado sacerdote, Irmão José era dos primeiros missionários jesuítas que se estabeleciam na nova terra. Sua meta era conquistar almas para Cristo.
Ele fazia parte da comitiva do segundo Governador Geral do Brasil Dom Duarte da Costa e chegou a Salvador, na Bahia de Todos os Santos, no dia 13 de julho do ano de 1553.
Da Terra de dimensões continentais em que aportou nunca mais saiu. Amou a Terra, amou seu povo. Evangelizou as "gentes brasílicas", deu rumo a sua formação. Identificou-se com suas aspirações, sem perder sua própria identidade.


Origens de Anchieta
Aquele jovem noviço tinha nascido em São Cristóvão, Tenerife, uma das ilhas do Arquipélago das Canárias, a 19 de março de 1534, dia da festa litúrgica de São José, fato determinante para que ele também recebesse esse nome no batismo: José de Anchieta.
José de Anchieta pertencia a uma próspera família. Seu pai, Juan Lopes de Anchieta, era da província de Guipuscoa, no País Basco. Por precaução, Juan havia mudado para as Canárias. E ele tinha lá suas razões para isso: ele tomou parte na Revolta dos Comuneiros, feita contra o imperador espanhol Carlos V e havia sido condenado à morte.
Juan Lopes acabou sendo salvo da pena capital por intercessão de um ilustre parente militar, o capitão Inácio de Loyola, que, mais tarde, veio a ser o fundador dos jesuítas, os religiosos da Companhia de Jesus. Sua mãe foi Dona Mência Dias de Clavijo y Llarena. Ela era natural das próprias Ilhas Canárias. Seu avô havia sido um dos conquistadores espanhóis.



Formado num tempo de turbulência
Quando ainda criança, Anchieta teve oportunidade de estudar com religiosos. Ao completar 14 anos, juntamente com um irmão de maior idade, ele já estava iniciando seus estudos na célebre Universidade de Coimbra. Cursou ali o renomado Colégio de Artes. Recebeu nessa ocasião uma educação própria de seu tempo, com uma formação principalmente filológica e literária para que aperfeiçoasse a língua latina e já visando um aperfeiçoamento futuro. Maiores ciências ele as adquiriu nas escolas dos padres da Companhia de Jesus. Cresceu nelas de tal maneira que em breve tempo estava bem formado em todo gênero de humanidades.
Foi com 17 anos de idade que José de Anchieta ingressou na Companhia de Jesus, a Ordem Religiosa fundada por Santo Inácio em 1539 e que foi aprovada pelo Papa Paulo III com a publicação da bula "Regimini Militantis Eclesiae", de 1540. Também foi por essa ocasião que José de Anchieta - ainda estudante de 17 anos - fez seu voto particular de castidade diante do Altar de Nossa Senhora, na Catedral de Coimbra.
Na época do estudante José de Anchieta o mundo ocidental estava vivendo uma crise: passava por uma autêntica e profunda revolução cultural e religiosa. O Renascimento, aproveitando-se de tendências latentes no homem decadente do fim da Idade Média, manejava as idéias, influenciando e marcando profundamente os acontecimentos nas artes e mentalidades. No campo religioso, a reforma protestante, codificada por um frade apóstata e seguindo a esteira da renascença, produzia devastações no seio da unidade do cristianismo.
Foi num mundo assim conturbado que no ano de 1553, no final de seu noviciado, José de Anchieta fez seus primeiros votos como jesuíta. Com esses votos, seus receios de não poder permanecer na Ordem de Santo Inácio foram dissipados.


Carismático, São José de Anchieta tinha
diversos dons extraordinários. Um deles
era o de tornar mansas feras perigosas.
Doença e Santa Obediência o trazem ao Brasil
Logo após seu ingresso na Companhia de Jesus, ele foi acometido por uma doença ósteo-articular. Se essa enfermidade continuasse a agredi-lo, suas esperanças de ser jesuíta cairiam por terra: ele não poderia continuar na Ordem. Os votos lhe garantiam que estava são e que poderia continuar entre os filhos de Santo Inácio.
Os médicos da época acreditavam que os ares do Novo Mundo seriam benéficos para sua total recuperação e aconselharam sua transferência para o outro lado do Oceano Atlântico. Então, seus superiores o enviaram para exercer uma missão em terras do domínio português, na América.
Ele era um bom religioso. Entusiasmado, obedeceu prontamente seus superiores: atravessou o oceano, chegou ao Brasil para evangelizar seu povo e daqui nunca mais saiu.
Na travessia do oceano o mais jovem dos jesuítas na esquadra do Governador Duarte da Costa dava mostras de que sua saúde estava sendo recuperada a cada instante. Quando aportou em Salvador, ele estava praticamente curado. O tempo na nova terra completaria a cura total.

Ação preternatural ou fato providencial?
As caravelas do novo Governador Geral Duarte da Costa traziam cerca de 250 pessoas. Além do noviço José de Anchieta, fazia parte da esquadra o também jesuíta Padre Manuel da Nóbrega que era seu superior e seria acompanhado por Anchieta no início de sua missão.
Os dois jesuítas já tinham destino certo. Eles apenas passariam por Salvador e logo deveriam dirigir-se para a Capitania de São Vicente. Ali exerceriam a missão de catequizar colonos e nativos.
A viagem até a "terra de missão" era difícil. Não havia outro meio de realizá-la a não ser por mar. Duas naus saíram de Salvador com destino a São Vicente levando Anchieta, Nóbrega e outros padres jesuítas. Ainda no Sul da Bahia uma tempestade gigantesca surpreendeu as duas embarcações. Uma delas foi arremessada contra os rochedos e espatifou-se. Por milagre, ninguém morreu. A nave em que estava Anchieta, acabou ficando encalhada nos recifes, ainda inteira.
Foi uma noite de terror para os viajantes. Gigantescas ondas ameaçavam destruir a nau que ainda havia restado. No dia seguinte, o mar amanheceu calmo e os viajantes conseguiram chegar à terra. Parece até que uma fúria de origem preternatural, diabólica, antevendo os sucessos que teriam os missionários, tentava impedir que eles chegassem a seu destino.
Pior para o demônio: Ali mesmo Anchieta começou sua missão... com sucesso. Ao procurar comida em terra firme, encontrou-se com índios do lugar. Ao chegar na aldeia deles, viu uma indiazinha muito doente, já à beira da morte. Anchieta a instruiu e batizou dando-lhe o nome de Cecília. Logo depois, a primeira indiazinha brasileira batizada por Anchieta morreu.
Enquanto o barco era consertado, Anchieta ainda esteve outras vezes na aldeia para ensinar o evangelho aos índios. Chegando a hora da partida, com a consciência tranquila, Anchieta pensava: "O acidente com o barco foi uma obra permitida pela Providência Divina para salvar a inocente Cecília, que estava predestinada." E ele tinha razão.
Sua vida está cheia de fatos semelhantes que indicam os desígnios de Deus Nosso Senhor de tê-lo como instrumento de salvação para muitas almas. Aquele jovem franzino, doente, tinha a alma maior que o corpo. Sua fé exuberante, acalentava uma esperança que, por amor a Deus, seria capaz de evangelizar um país, formar um povo, salvar um país inteiro.


Apóstolo do Brasil, incansável e destemido
Um Apóstolo na Capitania de São Vicente
O missionário José de Anchieta chegou a Salvador em junho de 1553 e logo dirigiu-se a São Vicente.
Em pouco tempo ele já estava colocado no centro das atividades da missão. Com seus dotes inatos de comunicador, e com sua sede de almas, conseguiu com os índios um amplo entendimento. Tornou-se logo amigo de indígenas e colonizadores e por ambos era respeitado.
Não limitou seu trabalho às redondezas da pequena São Vicente. Subiu a Serra que costeava a Capitania e chegou ao planalto que estava depois dela. O Planalto de Piratininga era povoado por milhares de índios que viviam em aldeias distintas. Para Anchieta elas eram almas redimidas pelo sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua missão consistiria em conquistá-las para Cristo, conduzi-las para a Igreja para serem instruídas, formadas, civilizadas.
Sua ação era ligeira, meticulosa, apostólica, eficiente. Tinha metas audaciosas, plantava bases para o futuro. Assim foi que em 1554, no dia 25 de janeiro, festa da Conversão de São Paulo Apóstolo, Anchieta participou da fundação do colégio da vila de São Paulo de Piratininga, onde também foi professor. Junto ao colégio foi edificada uma capela provisória na qual foi celebrada a primeira missa em 25 de agosto.
Estava nascendo o núcleo de uma cidade que se tornaria uma das maiores metrópoles do mundo: São Paulo. Anchieta construiu ainda um seminário perto do Colégio de Piratininga e nele também dava aulas. Tanta ação, tanto fruto já colhido e não havia passado seis meses desde que ele chegara à Capitania.


Ela falava o português, o castelhano, o latim e a língua brasílica.
Decifrar o tupi foi uma das tarefas que Nóbrega deu a Anchieta. Em apenas seis meses, ele conseguiu entender e falar a língua dos índios. Em um ano ele a dominava com perfeição a ponto de criar uma gramática. Além da gramática indígena, Anchieta dedicava seus dias a ensinar o latim e o português a curumins e índios adultos. Aos irmãos jesuítas, ensinava a língua tupi.
Depois de cumprir suas obrigações religiosas e de exercer todo o trabalho que tocava a ele executar, ainda estava longe a hora do repouso para ele. Era à noite, quando todos já dormiam, que ele escrevia manuais para os alunos, cartas sobre o trabalho dos jesuítas e obras diversas, entre elas um dicionário de tupi e um tratado sobre a flora, a fauna e o clima da Capitania de São Vicente.
São José de Anchieta amava ternamente a Virgem
Maria, a quem dedicava seu pensamento, sua
oração e suas atividades apostólicas
Lutou contra invasores, unificou pela Fé
No ano de 1555, o Brasil enfrentou graves problemas com a tentativa de franceses calvinistas de estabelecer uma colônia na região do Rio de Janeiro. Os invasores contavam com o apoio de índios da região.
Anchieta participou ativamente da luta pela expulsão dos franceses. A confiança que os índios tinham nele foi decisiva. Nas batalhas finais, no Rio de Janeiro, ele estava animando os combatentes brasileiros. Era amigo de Estácio de Sá e esteve junto dele nas últimas batalhas.
Ele agia em todos os setores do tecido social e religioso da nascente nação. No campo religioso, ele exerceu o cargo de provincial da Companhia de Jesus entre os anos de 1577 a 1587. O trabalho de Anchieta foi decisivo para a implantação do catolicismo no Brasil. Com seu conhecimento, fé e vontade de evangelizar, percorreu a pé, a cavalo, em embarcações, boa parte do território brasileiro. Assim contribuiu para manter unificado o país naquela época e nos séculos seguintes.
Ele foi quem lançou os fundamentos da catequese e educação dos jesuítas no Brasil. Foi ele também quem começou a reverter o quadro iniciado desde o descobrimento, em que os nativos eram vistos apenas como propriedade da Coroa e, como tal, passíveis de serem escravizados.

O Poema da Virgem, belíssimo poema mariano,
escrito pelo Padre Anchieta nas areias da praia
de Iperoig (Ubatuba), e que o santo guardou inteiro
em sua extraordinária memória. 
Agindo como apóstolo, plantou cultura
Anchieta deixou sua marca também no campo cultural. Sua obra de conteúdo eminentemente religioso constituiu-se na primeira manifestação literária na Terra de Santa Cruz contribuindo fortemente para a formação da nascente cultura brasileira. Além de suas cartas, sermões e poesias, ele escreveu uma Gramática da língua tupi, idioma que ele dominava perfeitamente. Escreveu "De Gestis Mendi de Saa", um livro que tratava dos feitos do Governador Geral Mem de Sá.
É famoso seu "Poema da Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus", que foi escrito originariamente nas areias da praia de Iperoig, no litoral da costa da Capitania. Nele se manifesta não só a erudição e estro do poeta, mas, refulgem no texto as melhores doutrinas sobre a Virgem Maria e a expressão de uma devoção e de um amor extraordinário à Santa Mãe de Deus.São também de autoria de Anchieta peças de teatro de cunho religioso e formativo. Entre elas está o "Auto da Pregação Universal" e ainda o "Na Festa de São Lourenço", também chamada de "Mistério de Jesus".


A Língua tupi, a evangelização e o descanso
Era destro em quatro línguas: portuguesa, castelhana, latina e brasílica. Decifrar o tupi foi uma das tarefas que Nóbrega confiou a Anchieta. Em seis meses, ele completou o aprendizado da língua e, em um ano, a dominava com perfeição. Dois anos depois de ter chegado ao Brasil, escreveu a sua "Arte de Gramática da Língua Mais Usada na Costa do Brasil".
Além da gramática, Anchieta ensinava o latim e o português para os curumins (meninos) e para os índios adultos. Aos irmãos jesuítas, ensinava a língua tupi.
O repouso não vinha para ele logo que a noite chegava. Era nessa hora que escrevia manuais para os alunos, cartas sobre o trabalho dos jesuítas e obras diversas, entre elas um dicionário de tupi e um tratado sobre a flora, a fauna e o clima da Capitania de São Vicente. Era tarde, quando ia dormir.


Viveu com missionário, agiu como herói, morreu como santo
A vida do Beato José de Anchieta é como um sopro encorajador: é exemplo. Entusiasma e arrasta os que têm Fé. Convida os católicos a viver na caridade e no ardor missionário que evangeliza e santifica. Para os índios, ele foi médico, professor, foi amigo e defensor. Tornou-se o elo de ligação dos índios e colonos com os padres jesuítas, com a Igreja e a nação que estava sendo forjada.

Anchieta é recebido na glória do Senhor
Mas, o Beato José de Anchieta foi sobretudo sacerdote. Cuidava das doenças e feridas das almas, da espiritualidade de todo o povo. Por isso mesmo é que lhe foram dados vários títulos que o homenagevam, sendo que o que melhor lhe cai é o de "Apóstolo do Novo Mundo", que para nós pode ser "traduzido" como "Apóstolo do Brasil".

Com 63 anos, Anchieta faleceu no povoado que ele mesmo havia ajudado a edificar em 1569: Iritiba (a atual Anchieta), na Capitania do Espírito Santo. Era o dia 9 de junho de 1597 quando José de Anchieta entregou sua alma a Deus. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II, em 1980, quando então foi nomeado "Apóstolo do Brasil". (JSG)


* * * * * * * * *
Oração a Anchieta
São José de Anchieta, missionário incansável e Apóstolo do Brasil, abençoai a nossa Pátria e a cada um de nós. Inflamado pelo zelo da glória de Deus, consumistes a vida na promoção dos indígenas, catequizando, instruindo, fazendo o bem. Que o legado de vosso exemplo frutifique novos apóstolos e missionários em nossa terra.
Professor e mestre, abençoai nossos jovens, crianças e educadores. Consolador dos doentes e aflitos, protetor dos pobres e abandonados, velai por todos aqueles que mais necessitam e sofrem em nossa sociedade, nem sempre justa, fraterna e cristã. Santificai as famílias e comunidades, orientando os que regem os destinos do Brasil e do Mundo. Através de Maria Santíssima, que tanto venerastes na terra, iluminai os nossos caminhos, hoje e sempre. Amém.



O Poema da Virgem Maria (trecho)

Minha alma, por que tu te abandonas ao profundo sono?
Por que no pesado sono, tão fundo ressonas?
Não te move à aflição dessa Mãe toda em pranto,
Que a morte tão cruel do FILHO chora tanto?

E cujas entranhas sofre e se consome de dor,
Ao ver, ali presente, as chagas que ELE padece?
Em qualquer parte que olha, vê JESUS,
Apresentando aos teus olhos cheios de sangue.

Olha como está prostrado diante da Face do PAI,
Todo o suor de sangue do seu corpo se esvai.
Olha a multidão se comporta como ELE se ladrão fosse,
Pisam-NO e amarram as mãos presas ao pescoço.

Olha, diante de Anás, como um cruel soldado
O esbofeteia forte, com punho bem cerrado.
Vê como diante Caifás, em humildes meneios,
Aguenta mil opróbrios, socos e escarros feios.

Não afasta o rosto ao que bate, e do perverso
Que arranca Tua barba com golpes violento.
Olha com que chicote o carrasco sombrio
Dilacera do SENHOR a meiga carne a frio.

Olha como lhe rasgou a sagrada cabeça os espinhos,
E o sangue corre pela Face pura e bela.
Pois não vês que seu corpo, grosseiramente ferido
Mal susterá ao ombro o desumano peso?

Vê como os carrascos pregaram no lenho
As inocentes mãos atravessadas por cravos.
Olha como na Cruz o algoz cruel prega
Os inocentes pés o cravo atravessa.

Eis o SENHOR, grosseiramente dilacerado pendurado no tronco,
Pagando com Teu Divino Sangue o antigo crime!
Vê: quão grande e funesta ferida transpassa o peito, aberto
Donde corre mistura de sangue e água.

Se o não sabes, a Mãe dolorosa reclama
Para si, as chagas que vê suportar o FILHO que ama.
Pois quanto sofreu aquele corpo inocente em reparação,
Tanto suporta o Coração compassivo da Mãe, em expiação.

Ergue-te, pois e, embora irritado com os injustos judeus
Procura o Coração da MÃE DE DEUS.
Um e outro deixaram sinais bem marcados
Do caminho claro e certo feito para todos nós.

ELE aos rastros tingiu com seu sangue tais sendas,
Ela o solo regou com lágrimas tremendas.
A boa Mãe procura, talvez chorando se consolar,
Se as vezes triste e piedosa as lágrimas se entregar.

Mas se tanta dor não admite consolação
É porque a cruel morte levou a vida de sua vida,
Ao menos chorarás lastimando a injúria,
Injúria, que causou a morte violenta.

Mas onde te levou Mãe, o tormento dessa dor?
Que região te guardou a prantear tal morte?
Acaso as montanhas ouvirão Teus lamentos?
Onde está a terra podre dos ossos humanos?

Acaso está nas trevas a árvore da Cruz,
Onde o Teu JESUS foi pregado por Amor?

Esta tristeza é a primeira punição da Mãe,
No lugar da alegria, segura uma dor cruel,
Enquanto a turba gozava de insensata ousadia,
Impedindo Aquele que foi destruído na Cruz.

Mãe, mas este precioso fruto de Teu ventre
Deu vida eterna a todos os fieis que O amam,
E prefere a magia do nascer à força da morte,
Ressurgindo, deixou a ti como penhor e herança.

Mas finda Tua vida, Teu Coração perseverou no amor,
Foi para o Teu repouso com um amor muito forte!
O inimigo Te arrastou a esta cruz amarga,
Que pesou incomodo em Teu doce seio.

Morreu JESUS traspassado com terríveis chagas
ELE, formoso espírito, glória e luz do mundo;
Quanta chaga sofreu e tantas LHE causaram dores;
Efetivamente, uma vida em vós era duas!


Todavia conserva o Amor em Teu Coração, e jamais
Evidentemente deixou de o hospedar no Coração,
Feito em pedaços pela morte cruel que suportou
Pois à lança rasgou o Teu Coração enrijecido.

O Teu Espírito piedoso e comovido quebrou na flagelação,
A coroa de espinhos ensanguentou o Teu Coração fiel.
Contra Ti conspirou os terríveis cravos sangrentos,
Tudo que é amargo e cruel o Teu FILHO suportou na Cruz.

Morto DEUS, então porque vives Tu a Tua vida?
Porque não foste arrastada em morte parecida?
E como é que, ao morrer, não levou o Teu espírito,
Se o Teu Coração sempre uniu os dois espíritos?

Admito, não pode tantas dores em Tua vida
Suportar, aguentando se não com um amor imenso;
Se não Te alentar a força do nascimento Divino
Deixará o Teu Coração sofrendo muito mais.

Vives ainda, Mãe, sofrendo muitos trabalhos,
Já te assalta no mar onda maior e cruel.
Mas cobre Tua Face Mãe, ocultando o piedoso olhar:
Eis que a lança em fúria ataca pelo espaço leve,
Rasga o sagrado peito ao teu FILHO já morto,
Tremendo a lança indiferente no Teu Coração.

Sem dúvida tão grande sofrimento foi à síntese,
Faltava acrescentá-lo a Tuas chagas!
Esta ferida cruel permaneceu com o suplício!
Tão penoso sofrimento este castigo guardava!

Com O querido FILHO pregado a Cruz Tu querias
Que também pregassem Teus pés e mãos virginais.
ELE tomou para SI a dura Cruz e os cravos,
E deu-Te a lança para guardar no Coração.

Agora podes, ó Mãe, descansar, que possui o desejado,
A dor mudou para o fundo do Teu Coração.
Este golpe deixou o Teu corpo frio e desligado,
Só Tu compassiva guarda a cruel chaga no peito.

Ó chaga sagrada feita pelo ferro da lança,
Que imensamente nos faz amar o Amor!
Ó rio, fonte que transborda do Paraíso,
Que intumesce com água fartamente a terra!

Ó caminho real com pedras preciosas, porta do Céu,
Torre de abrigo, lugar de refúgio da alma pura!
Ó rosa que exala o perfume da virtude Divina!
Jóia lapidada que no Céu o pobre um trono tem!

Doce ninho onde as puras pombas põem ovinhos,
E as castas rolas têm garantia de suster os filhotinhos!
Ó chaga, que és um adorno vermelho e esplendor,
Feres os piedosos peitos com divinal amor!

Ó doce chaga, que repara os corações feridos,
Abrindo larga estrada para o Coração de CRISTO.
Prova do novo amor que nos conduz a união!
Porto do mar que protege o barco de afundar!

Em TI todos se refugiam dos inimigos que ameaçam:
TU, SENHOR, és medicina presente a todo mal!
Quem se acabrunha em tristeza, em consolo se alegra:
A dor da tristeza coloca um fardo no coração!

Por Ti Mãe, o pecador está firme na esperança,
Caminhar para o Céu, lar da bem-aventurança!
Ó Morada de Paz! Canal de água sempre vivo,
Jorrando água para a vida eterna!

Esta ferida do peito, ó Mãe, é só Tua,
Somente Tu sofres com ela, só Tu a podes dar.
Dá-me acalentar neste peito aberto pela lança,
Para que possa viver no Coração do meu SENHOR!

Entrando no âmago amoroso da piedade Divina,
Este será meu repouso, a minha casa preferida.
No sangue jorrado redimi meus delitos,
E purifiquei com água a sujeira espiritual!

Embaixo deste teto (Céu) que é morada de todos,
Viver e morrer com prazer, este é o meu grande desejo...