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sábado, 12 de setembro de 2015

SÃO BERNARDO DE CLARAVAL, Abade e Doutor da Igreja.




Varão de fogo, conselheiro de Papas e monarcas, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", São Bernardo foi também admirável arauto da Virgem Maria e um dos primeiros apóstolos da mediação universal da Mãe de Deus.

O ambiente era de expectativa e seriedade. A multidão comprimia-se, silenciosa, em torno de um homem ainda jovem, de fisionomia austera, que pregava à beira de um rio. Sua voz, grave e compassada, transmitia uma profunda paz de alma.

"Arrependei-vos, porque está próximo o reino de Deus. (...) Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas" (Mt3, 2-3), afirmava com severidade. Depois continuava suavemente, quase enternecido: "Vem depois de mim quem é mais forte do que eu, ao qual não sou digno de desatar, prostrado em terra, a correia das sandálias" (Mc1, 7).

João Batista, o último e maior dos profetas do Antigo Testamento, anunciava à nação eleita o próximo aparecimento do Salvador do gênero humano. E mais tarde, quando revelou a divindade do Messias ao proclamar: "Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira o pecado do mundo" (Jo1, 29), a longa e grandiosa fileira dos profetas, que haviam predito o advento do Redentor e guiado o povo através dos séculos de espera, estava finalmente encerrada. Todas as profecias tinham-se cumprido.

A Revelação está completa, mas Deus deseja servir-se das causas segundas para comunicar seus divinos desígnios à humanidade. Assim, sempre suscitará Ele, alguns varões e mulheres que indiquem o Caminho, ensinem a Verdade e transmitam a Vida à maioria dos homens. Esta realidade no-la explica São Tomás, na Suma Teológica: "Em todas as épocas houve alguns que possuíam o espírito profético, não para dar a conhecer doutrinas novas, mas para dirigir a vida humana".


O profeta do século XII

No século XII a Civilização Cristã havia atingido um auge que nenhum santo poderia ter imaginado nos albores duros e sangrentos da primeira época da Igreja: "A filosofia do Evangelho governava os Estados; a influência da sabedoria cristã e sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil" — afirmou Leão XIII na Immortale Dei.

O sustentáculo dessa sociedade sacral havia sido, durante mais de um século, a santidade emanada da abadia beneditina de Cluny. Tendo-se espalhado rapidamente por todo o Ocidente cristão, esses filhos de São Bento influenciavam e orientavam a espiritualidade e a cultura dos povos da Europa a partir do interior de seus imensos mosteiros, do alto dos púlpitos, desenvolvendo uma belíssima e aristocrática liturgia e encantando as multidões com o angélico canto gregoriano.

Entretanto, após alcançar o píncaro, a grandeza de Cluny desvanecia-se lentamente, quiçá por não ter havido almas generosas que, no ápice do esplendor, quisessem partir para novos extremos de santidade.

Surgiu então, não uma instituição, mas um homem que foi o reformador da disciplina eclesiástica, o modelo de todas as virtudes, a voz de Deus a indicar novos rumos àquela sociedade que começava a vacilar: Bernardo de Claraval.

Um misterioso desígnio

No ano de 1091 nascia num castelo da Borgonha o terceiro filho do senhor de Fontaines e da virtuosa dama Alet. Pouco antes de dar à luz o menino, teve ela um sonho tão nítido e expressivo que sua maternal intuição não deixou de ver nele um providencial aviso sobre o futuro do filho: tinha-lhe aparecido um cachorrinho de alvíssima pele que latia fortemente e sem cessar. Aflita, porém, por não alcançar uma clara interpretação que traduzisse seus pressentimentos, consultou um servo de Deus, o qual lhe respondeu: "O menino será um grande pregador e latirá continuamente para guardar a Casa de Deus, e curará as chagas de muitas almas".

Descendente de duas nobres famílias e pairando sobre ele esse misterioso vaticínio, criou-o sua mãe com especial esmero, e logo que foi possível o enviou a uma famosa escola na cidade de Châtillon-sur-Seine. Seu grande talento intelectual causava admiração aos mestres e prometia-lhe uma brilhante carreira. A índole afável e um tanto tímida de Bernardo possuía uma nota de nobreza e amenidade que atraía muitos a ele.

Em pouco tempo, sentiu arder na alma o desejo da glória da ciência e de uma existência mundana vivida na opulência. O demônio, o mundo e a carne tentaram incontáveis vezes arrastá-lo para a perdição, mas, apesar desses assaltos, conservou sempre íntegra sua inocência batismal.

Certa vez, sentindo especial atração por uma formosa e pouco virtuosa jovem, e querendo a qualquer preço evitar a menor falta, lançou-se num pequeno lago de água gelada (era inverno) e lá permaneceu, submergido até o pescoço, e dali o retiraram quase sem sentidos.


São Roberto de Molesmes acolhendo 
São Bernardo na Ordem de Cister. 

O chamado do Senhor

Contava Bernardo 21 anos de idade, e a graça divina havia muito batia às portas de seu coração ardente: "Para que vieste ao mundo?" Esta pergunta vinha lhe à mente com frequência cada vez maior.

A radicalidade da vida monástica atraía aquela alma feita para grandes atos de heroísmo: abandonar honras, riqueza e família, consagrar-se para sempre ao serviço do Rei Eterno, viver daquele amor sobrenatural cujas labaredas cresciam sem cessar em seu interior... Entretanto, não faltavam parentes e amigos que o exortavam a seguir uma estrada mais larga: grandes glórias mundanas prometiam as incomuns qualidades do jovem Bernardo; sua precária saúde e débil compleição não suportariam as austeridades da vida religiosa; pode-se também servir a Deus sem enterrar num claustro os talentos de tão gentil caráter...

Afligido por esses pensamentos e combates, entrou certo dia numa igreja e implorou uma luz celeste que lhe desse a conhecer, sem sombra de dúvida, o desígnio de Deus a seu respeito. E o Senhor não tardou em socorrer seu escolhido que a Ele clamava.

Levantou-se Bernardo fortalecido e cheio de sobrenatural certeza, e dirigiu-se para um mosteiro quase desconhecido, fundado não havia muito tempo pelo santo abade Roberto de Molesmes e situado num bosque não distante do castelo de sua família: Cister.

Entretanto, não quis partir só para aquele austero claustro onde nascia, em meio a dificuldades sem conta, uma nova Ordem religiosa: com inspirada eloquência, arrastou consigo seu tio materno, quatro irmãos e mais trinta cavaleiros companheiros seus! O último irmão de Bernardo, por ser ainda muito novo, escutou as seguintes palavras: “Fica com Deus. Nós partimos para o mosteiro e te deixamos todos os nossos haveres”. Desolado, o menino respondeu: "Vós conquistais o Céu e me deixais a terra? Má partilha esta!" E poucos dias depois, bateu àquelas benditas portas que já tinham acolhido seus cinco irmãos mais velhos...


O Santo gozava de íntima amizade com Jesus
que se dignou aparecer-lhe algumas vezes
em seus êxtases. 
O vale da luz

Se exíguo tinha sido durante muitos anos o número de monges de Cister, logo ficaram estreitas, graças a Bernardo, suas rudes paredes de pedra.

Por ordem de seu superior, agora Santo Estevão Harding, partiu ele, acompanhado de doze companheiros, a fundar uma nova abadia. Tinha apenas 25 anos.

A paragem escolhida foi um isolado e sombrio vale, temido por causa dos ladrões que ali se refugiavam. Mas em pouco tempo a floresta cedeu lugar aos campos cultivados, os muros começaram a elevar-se, vozes puras e varonis fizeram ecoar a laus perenni naquelas vastidões, e a luz divina refletida por São Bernardo dissipou as obscuridades do lugar, que passou a chamar-se Clara VallisClaraval.

Atraídos pela fama de santidade que logo aureolou esse mosteiro, acorreram numerosos jovens, nobres e plebeus, cultos e ignorantes, desejosos de seguir a Cristo na pobreza, obediência e castidade, sob a direção do jovem abade. Passou assim de 700 o número de monges que enchiam a abadia do vale da luz.


Voz e braço de Deus

Mas a luz não foi feita para ser escondida e sim para iluminar e brilhar aos olhos de todos (cfr. Mt 5, 15-16). Em vão procurava Bernardo a solidão e o silêncio de seu amado vale. Contra sua vontade, tornou-se o conselheiro de Papas, bispos e monarcas, o diretor espiritual da Europa medieval, o Moisés da Cristandade.

Não havia pregador mais ardente nem personagem com maior prestígio do que ele. Venerado como santo pelas multidões e reconhecido como profeta e taumaturgo, sua mera presença, suas palavras e escritos despertavam um entusiasmo novo e combatiam vitoriosamente as heresias e os adversários da Igreja. Tendo-se levantado naquele tempo um perigoso cisma na Igreja de Deus, quase todos os fiéis vacilavam, desorientados, entre o legítimo Pontífice e um antipapa chamado Anacleto.

Teólogos e doutores discutiam com denodo argumentos em favor de um ou de outro, sem chegar a resultados convincentes ou definitivos. Os olhos de muitos voltaram-se então para o santo abade de Claraval, à procura de uma palavra que resolvesse a espinhosa questão. Acudiu Bernardo ao Concílio de todos os bispos do reino da França, e com sua inspirada e ardente eloquência decidiu o voto da assembleia em favor do legítimo Papa, Inocêncio II.

Entretanto, o incêndio da divisão não se extinguiu imediatamente. Na província da Gasconha, o orgulho de um bispo sustentado pela ambição de um conde da região, ainda se levantava contra o verdadeiro pastor da Santa Igreja. O Papa enviou São Bernardo para pôr fim a esta triste situação, na expectativa de que a sabedoria do santo triunfaria onde os raciocínios dos teólogos haviam fracassado. Mas em vão tentou ele reduzir à justa obediência o agitado espírito do bispo revoltado. Procurou, então, convencer o despótico conde, demonstrando-lhe a loucura de sua posição. Ambos, porém, ébrios de orgulho, obstinavam-se no erro.

Contristado ante tanta maldade, mas decidido a fazer prevalecer a autoridade do Sumo Pontífice, convocou Bernardo todo o povo à catedral da cidade e celebrou solenemente o Santo Sacrifício do altar. Após a Consagração, levando em suas mãos o Santíssimo Sacramento sobre uma patena, dirigiu-se à praça onde se encontrava o conde que, por estar excomungado, não podia entrar no templo. Olhando-o severamente, disse-lhe com voz ameaçadora: "Nós te rogamos e tu nos desprezaste; muitos servos de Deus suplicaram e tu de ninguém fizeste caso. Eis que o Filho da Virgem, Cabeça e Senhor da Igreja que tu persegues vem à tua presença! É o Juiz em cujas mãos um dia tua alma cairá. Vejamos se também a Ele viras as costas como a nós as tornaste!" Como outrora os vendilhões do Templo de Jerusalém haviam fugido diante do Mestre irado, o infeliz conde, ao escutar essas palavras, rolou por terra, aterrorizado. Levantou-se depois, tocado finalmente pela graça de Deus, prostrou-se cheio de arrependimento aos pés do santo abade e fez tudo quanto este lhe ordenou.


O milagre do conde que cai ao solo rolando aterrorizado,
ante as palavras de São Bernardo. 

Travou mais tarde tão estreita amizade com Bernardo que, seguindo seus santos conselhos, abandonou o mundo e acabou seus dias num convento. O Bispo recalcitrante, porém, obstinado em sua malícia, foi um dia achado morto em sua cama, sem confissão nem viático.


Foi agraciado com aparições da Virgem
Maria a quem tanto amava. Em um dessas
aparições, Nossa Senhora se dignou derramar
nos lábios do Santo Abade algumas gotas
de seu santo leite, o que fez São Bernardo
experimentar um profundo êxtase
que elevou sua alma a uma altíssima
contemplação dos mistérios divinos. 
Arauto de Nossa Senhora

Mas este varão de fogo, denominado pelo Papa Inocêncio II de "muralha inexpugnável que sustenta a Igreja", passou para a História com o título de "Doutor Melífluo", porque a unção de suas exortações levava todos a afirmar que seus lábios destilavam puríssimo mel.

Quem, no mundo cristão, não conhece a incomparável e doce prece "Lembrai- vos", a ele atribuída? Foi um dos primeiros a chamar de "Nossa Senhora" a Mãe de Deus. Conta a tradição que, escutando certa feita seus irmãos cantarem a Salve Regina, irrompeu de seu coração pervadido de enlevo a tríplice exclamação que hoje coroa esta oração: "Ó clemente, ó piedosa, ó doce sempre Virgem Maria!" Foi também um dos primeiros apóstolos da mediação universal de Maria Santíssima, deixando esta doutrina claramente consignada em numerosos sermões: "Porque éramos indignos de receber qualquer coisa, foi-nos dada Maria para, por meio d'Ela, obtermos tudo quanto necessitamos. Quis Deus que nós nada recebamos sem haver passado antes pelas mãos de Maria. (...) Como mais íntimo de nossa alma, com todos os afetos de nosso coração e todos os sentimentos e desejos de nossa vontade, veneremos a Maria, porque esta é a vontade d'Aquele Senhor que quis que tudo recebamos por Maria."




"Vinde, bendito de meu Pai"

Retornando de uma missão apostólica, quando já estava com 63 anos de idade, curou uma mulher cega, na presença de uma enorme multidão que acorria para venerá-lo. Foi o último milagre realizado na sua existência terrena.

Ao chegar a seu amado mosteiro de Claraval, sentia-se desfalecer.

Mas transbordava de sua alma a serena confiança do navegante que finalmente avista o porto anelado. Ele mesmo, numa carta, dá conta de sua derradeira moléstia, pouco antes de partir para a eternidade: "O sono foge de mim, para que a dor não se mitigue estando os sentidos adormecidos. Quase tudo o que padeço são dores no estômago. Para nada ocultar a um amigo que deseja conhecer o estado de seu amigo, e falando não como sábio, segundo o homem interior, digo-vos que o espírito está pronto, na carne fraca. Rogai ao Salvador, o qual não quer a morte do pecador, que não atrase mais o meu fim, mas o guarde e ampare".
Bispos, abades e monges circundavam o leito onde agonizava aquele profeta do Senhor. Choravam eles o superior que aconselhava, o doutor que ensinava, o pai que os amava, o varão de Deus que os santificava. Mas este até o último alento os animou e consolou, e com grande despretensão dizia que já era tempo de um servo inútil passar a outro aquele cargo, e uma árvore estéril ser arrancada... No dia 20 de agosto de 1153, às nove horas da manhã, entregou sua puríssima alma a seu Criador e Redentor.    


(Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2006, n. 56, p. 22 à 25)

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Beata Brígida de Jesus Morello, Viúva, Fundadora e Religiosa.



      Brígida Morello foi uma mulher de seu tempo, o século XVII: uma mulher de grande fé que soube ver nos acontecimentos históricos, e sobretudo nos que se relacionavam a ela, como viver a santa vontade de Deus.
     “Deus é nosso Pai e nunca nos abandonará”. Esta segurança de ser amada como filha, gratuita e incondicionalmente, motivou-a a entregar seu carinho ao próximo.







     Brígida nasceu em 17 de junho de 1610 em São Miguel de Pagana (Gênova), na Costa de Levante, sexta de onze filhos; cresceu em um lar intensamente cristão. Aos 23 anos, em 14 de outubro de 1633, se casou com Mateus Zancano, de Cremona, e se estabeleceu com seu marido em Salsomaggiore (Parma), onde foi reconhecida por suas virtudes.
     Aos 27 anos, em 11 de novembro de 1637, ficou viúva, quando fez o voto de castidade, desejando tornar-se religiosa, porém não obteve sucesso ao desejar entrar entre as capuchinhas da localidade devido ao fato de ser viúva.
     Em 1640 se transferiu para Piacenza, onde os jesuítas se tornaram seus diretores espirituais, guiando-a sempre e a mantendo na via da perfeição, especialmente por parte do Padre Antônio Morando, seu confessor e primeiro biógrafo.
     Margarida de Médici, duquesa de Parma e Piacenza, queria dotar Piacenza de um Instituto de Ursulinas para a educação da juventude feminina, similar ao que existia em Parma. Para isto, em setembro de 1646, Brígida Morello acolheu algumas jovens mulheres em sua casa, sob a denominação de Santa Úrsula, dando assim início, em 17 de fevereiro de 1649, Quarta-feira de Cinzas, com cinco companheiras, a uma nova família de Ursulinas, sob a direção dos jesuítas.
     Entretanto, Brígida não foi a primeira superiora, pois em 1665 ela foi eleita como tal, sendo confirmada em 1670 e em 1675. Suas precárias condições de saúde não a impediram governar por extensos períodos, inclusive da cama, sua Congregação de Ursulinas de Maria Imaculada.
     Durante os longos anos de doença e de sofrimentos físicos e interiores, a Beata dirigia com frequência o olhar orante para o Crucifixo que levava sempre consigo. A oração da Beata Brígida dirigia-se com frequência para a terra dos Balcãs, invocando ao Senhor a conversão de todos e a paz para “o universo mundo”.
     Brígida faleceu no dia 3 de setembro de 1679, em Piacenza, e foi enterrada na igreja local de São Pedro; hoje não existem rastros de seu túmulo, mas há um certo número de cartas, alguns escritos autobiográficos e edificantes, documentos dos quais se pode tirar uma visão exata das experiências espirituais da fundadora.

     Somente nos anos 1927-28 se celebrou em Piacenza o processo ordinário para sua beatificação. O decreto sobre a heroicidade de suas virtudes se obteve em 29 de abril de 1980. Em 15 de março de 1998 o papa João Paulo II a beatificou.

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

SANTA NATÁLIA E COMPANHEIROS, Mártires de Córdoba.


Em 711, um exército muçulmano vindo do Norte da África conquistou a Ibéria visigótica cristã. Sob o seu líder, Tárique (Tariq ibn Ziyad), eles desembarcaram em Gibraltar e colocaram a maior parte da Península Ibérica sob o jugo do Islã numa campanha que durou oito anos. A região foi rebatizada de Al-Andalus pelos novos líderes. Quando os califas omiadas foram depostos pelos abássidas em Damasco em 750 d.C., os sobreviventes da dinastia se mudaram para Córdoba e ali passaram a governar um emirado, tornando a cidade um centro da cultura islâmica ibérica.
Uma vez conquistada a Ibéria, a sharia (lei islâmica) foi imposta em todo o território. Os cristãos e os judeus eram chamados de dhimmis ("povos do livro") e estavam sujeitos à jizyah, um imposto pago por pessoa, que os permitia viver sob o regime islâmico. Sob a sharia, a blasfêmia contra o Islã, seja por muçulmanos ou dhimmis, e a apostasia eram motivos suficientes para a pena de morte.
Apesar de quatro basílicas cristãs e diversos mosteiros - mencionados no Martirológio de Eulógio - terem permanecido abertos, os moçárabes (cristãos em território muçulmano) foram gradualmente aderindo ao Islamismo, num processo estimulado pela taxação e pela discriminação legal imposta aos cristãos (como as leis regulando os filhos de casamentos entre cristãos e muçulmanos).
De forma incomum, Recafredo, bispo de Córdobra, ensinava as virtudes da tolerância e da acomodação com as autoridades muçulmanas, que não ajudou a estancar as conversões. Para espanto de Eulógio, cujos textos são a única fonte para os martírios e que passou a ser venerado como santo ainda no século IX, o bispo ficou do lado das autoridades muçulmanas contra os martírios, que ele entendia serem obra de fanáticos. O fechamento dos mosteiros começou a aparecer nos registros a partir da metade deste mesmo século.
Santo Eulógio encorajava os mártires como forma de reforçar a fé da comunidade cristã, como nos tempos das perseguições aos cristãos sob o Império Romano. Ele compôs tratados e um martirológio para justificar a autoimolação dos mártires, dos quais um único manuscrito contendo sua Documentum martyriale, os três livros de sua Memoriale sanctorum e sua Liber apologeticus martyrum, foi preservado em Oviedo, no reino cristão das Astúrias, no extremo noroeste da Ibéria.
Santo Eulógio foi enterrado na Catedral de San Salvador, em Oviedo, para onde as suas relíquias foram transladadas em 884 d.C.

As execuções
Os quarenta e oito cristãos (a maioria monges) foram martirizados em Córdoba na década de 860 por decapitação por ofensas religiosas contra o Islã.
A Acta detalhada destes martírios foi atribuída ao habilmente chamado "Eulogius" ("benção"), que foi um dos últimos a morrer. Embora a maior parte dos mártires de Córdoba terem sido hispânicos, beto-romanos ou visigodos, houve um árabe, um sírio, um monge grego e dois outros cujos nomes eram gregos.

Santa Natália e seus companheiros
Santa Natália de Córdoba nasceu nesta cidade por volta do ano 825 d.C., em plena dominação muçulmana. Reinava então o emir Abderramán II, que acreditando que com isto amansaria o caráter indomável dos cristãos, desencadeou contra eles uma perseguição que enfrentou ainda maiores problemas.
Natália nascera de pais maometanos. Mas após a norte do pai, sendo ainda bem pequenina, sua mãe se casou em segundas núpcias com um cristão, que a converteu. Natália, portanto, foi educada nos preceitos cristãos e casou-se com Aurélio, também cristão, mas na clandestinidade, para evitar as perseguições.
Certo dia, Aurélio presenciou um espetáculo humilhante em que João, um cristão, amarrado a um jumento com o rosto voltado para a cauda do animal, era conduzido ao lugar da execução sob a gritaria dos infiéis. A partir daquele momento, os esposos resolveram ser mais corajosos e praticar sua religião em público para animar aos demais cristãos, evitando que eles aderissem à religião oficial naquele momento e lugar.
Juntaram-se a eles o casal Felix e Liliana. Pressentindo que chegava a sua hora, o casal distribuiu os seus bens aos pobres e necessitados. Félix e Liliana fizeram o mesmo,
Natalia, Aurélio, Felix e Liliana eram ibéricos cuja ascendência, ainda que religiosamente mesclada, legalmente requeria que eles professassem o islamismo. Após terem recebido quatro dias de prazo para se retratarem, eles foram condenados como apóstatas por revelarem que eram cristãos em segredo,
O diácono Jorge era um monge da Palestina que foi preso juntamente com os dois casais. Mesmo tendo recebido o perdão por ser estrangeiro, ele escolheu denunciar o Islã para poder morrer com eles.
Após juiz e verdugo tentarem de todos os meios que eles renegassem sua Fé, nem as promessas nem as torturas os demoveram; finalmente foram degolados em 27 de julho de 852,
Seus corpos foram sepultados e venerados pelos cristãos; mas, por estarem pouco seguros em Córdoba, Carlos o Calvo seis anos mais tarde providenciou o traslado do corpo de Santo Aurélio e a cabeça de Santa Natália para Saint-Germain (Paris).


(Fonte: blog Heroínas da Cristandade)  

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Servo de Deus Luís Bronchain, Presbítero Redentorista


Padre Bronchain nasceu em 04 de setembro de 1929, em Frameries, Diocese de Namur, na Bélgica. Estudou no colégio da Boa Esperança e em 1851 entrou para o noviciado redentorista de Saint-Trond.
Os noviços eram em número de 30 e provinham de cinco nações diferentes. Havia entre eles 11 sacerdotes, incluindo o Pe. Coffin – que mais tarde tornou-se bispo na Inglaterra – e os padres Kockerols, Dycker e Aquiles Desurmont. Professou em 16 de outubro de 1851 e ordenou-se sacerdote em 06 de junho de 1857.
Padre Bronchain, depois de ter sido por algum tempo missionário em Dunkirk, foi mestre de noviços na Bélgica e, mais tarde, tornou-se proeminente diretor de almas. Passou a vida na escuridão do claustro, e dele não saía a não ser para ir visitar e consolar seus penitentes que estavam enfermos. A cela, o oratório e o confessionário eram os locais onde poderia ser encontrado.
Sua vida poderia ser resumida em três palavras: rezar, trabalhar e sofrer. Foi eminentemente um homem de oração. Na oração desenvolveu ardente zelo pelas almas e a resignação com a qual ele suportou seus sofrimentos com alegria. Aos votos comuns de um religioso redentorista (castidade, pobreza e obediência) acrescentou outros dois: não mais desperdiçar um só instante de seu tempo e fazer tudo o que parecia mais perfeito.
Desenvolveu uma intensa vida interior, escondida em Deus, ocultando-se do olhar dos homens. A principal característica de sua vida foi a energia indomável de caráter e uma força de vontade incrível. Severo consigo mesmo, sua penitência era contínua. Usava habitualmente o cilício ao redor dos braços e, pelo menos três vezes por semana, uma cadeia maior em torno de sua cintura.
Foi também um maravilhoso escritor sacro. Suas obras de espiritualidade são famosas e ainda hoje usadas por muitas pessoas sedentas de vida espiritual mais profunda. Publicou: Meditações Para Cada Dia Do Ano; A Alma Santificada pela Meditação Diária; Maravilhas da Graça Santificante; Os Ensinamentos da Cruz; A Escola da Via Dolorosa; Aos Pés do Crucifixo; Purgatório e Céu; Maravilhas do Santo Rosário; As Riquezas do Santo Rosário; O Purgatório – resumo; Baú do Tesouro Místico e a Alma.

Padre Bronchain morreu depois de terminar seu último retiro de dez dias, na idade de setenta e três anos e teve como biógrafo o Padre Nimal (“Vita vestra abscondita est cum Christo in Deo”).

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

São Luís IX, Rei de França: testamento para seu filho (uma belíssima mensagem).



Confira a carta que São Luís IX da França deixou a seu filho e descubra a maior glória que um Rei pode possuir neste mundo: ser servo de Nosso Senhor Jesus Cristo.


São Luís IX, Rei da França, que entre 1214 e 1270 governou generosamente um povo com extrema piedade e coração inflamado de amor a Deus, não poderia deixar que cada um de seus súditos ficassem sem sentir e entender quem era o verdadeiro Rei do Universo.

Sua dedicação no zelo para com os pobres e sua humildade pública comoviam os corações mais endurecidos.

Fazia questão de que todos tivessem acesso aos sacramentos e vivessem uma vida íntima de adoração ao Senhor. Para isso pagou uma quantia de 135 mil libras para que a Santa Coroa de espinhos de Nosso Senhor e um pedaço do Preciosíssimo Lenho fossem trazidos de Jerusalém.

Para abrigá-los dignamente, construiu a grandiosa Catedral gótica de Sainte Chapelle.

Ao final de sua vida, padecendo mortalmente de tifo, que contraíra na última cruzada em Túnis na África, deixou um legado a seu filho, o futuro Rei Felipe III da França, de cujas palavras talvez somente o grande Patriarca São José seria capaz:

"Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com todas as tuas forças; pois sem isto não há salvação.
Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal.
Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo valendo-te dos seus dons.
Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vagueares os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.
Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas. 
Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.
Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a benção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém."


São Luís IX faleceu em 25 de agosto de 1270, após os últimos ímpetos em favor da Oitava Cruzada. Seu corpo foi colocado sobre um leito de cinzas, em sinal de humildade, e os braços em cruz, à imagem de Jesus Cristo.

Servo de Deus Bento Dias Pacheco, Presbítero e Missionário entre os hansenianos.


Padre Bento Dias Pacheco: uma vida dedicada
aos hansenianos. 
Bento Dias Pacheco nasceu na Fazenda da Ponte, situada na comarca de Itu, em 1819. Filho de Inácio Dias Ferraz e de dona Ana Antônia Camargo, provinha de família abastada daquela região.

Por conta da abundância de recursos financeiros, a família incentivava-o aos estudos, objetivando se tornasse doutor. Bento Dias Pacheco, entretanto, optou pelo sacerdócio, ordenando-se padre em 1840. Iniciou seu ministério na própria comarca ituana, mas pouco permaneceu em atividades paroquianas, na medida em que, em razão do falecimento de seu pai, passou a auxiliar na condução da fazenda familiar, agora sob os cuidados de sua mãe. Ainda assim, padre Bento começou a se notabilizar na região em face dos cuidados que dispensava aos seus escravos, situação que lhe robusteceu o sentimento de amor cristão ao próximo.

A sua maneira de tratar os escravos da região despertou a atenção das autoridades da comarca, que lhe convidaram para assumir o cargo de capelão do Hospital dos Lázaros. O convite foi formulado duas vezes, e por duas vezes padre Bento recusou a distinção, por conta do medo e do preconceito que vigiam à época em relação aos portadores da hanseníase.

Contudo, em 1869, padre Bento decidiu se dedicar integralmente aos portadores do mal de Hansen, operando uma transformação profunda em sua vida. Vendeu todos os seus bens e distribuiu o dinheiro obtido aos pobres da região. Despediu-se de parentes e amigos, e passou a morar na Chácara da Piedade, local em que eram segregados os portadores da hanseníase, vítimas tanto da gravidade da moléstia quanto do radical preconceito e repulsa da sociedade.

Por quarenta e dois anos padre Bento dedicou-se a cuidar desses doentes dia e noite, amparando-os material e espiritualmente, sem que desenvolvesse a terrível moléstia. Segundo o historiador Francisco Nardy Filho, "durante 42 anos, aqueles pobres parias tiveram nele pai, o amigo, o médico que cuidava de suas feridas, o Cireneu que os ajudava a carregar a pesada cruz de sua temida doença. Indiferente ao cansaço, ao perigo de contágio, procurava acender, em cada coração sofredor, a lâmpada da esperança num mundo melhor, sem as vicissitudes deste vale de lágrimas" [1] .

O trabalho incessante de padre Bento em prol desses necessitados perdurou, sem interrupções, até o seu falecimento, em 06 de março de 1911, na mesma chácara em que morou por quarenta e dois anos. Seu corpo foi sepultado na Igreja do Senhor do Horto e São Lázaro, no bairro que hoje leva o seu nome. [2]

A fama de seu trabalho realizado em prol da caridade espalhou-se, sendo que seu túmulo passou a ser visitado por inúmeros fiéis, que lhe reconheciam graças e favores alcançados em seu nome. Por conta disso, em março de 2003 a Cúria Diocesana de Jundiaí instalou o Tribunal Eclesiástico Diocesano para a Causa de Beatificação e Canonização de Padre Bento Dias Pacheco, cujo processo tramita atualmente na Congregação para as Causas dos Santos, no Vaticano. Dom Vicente Costa, Bispo diocesano de Jundiaí, nomeou como novo postulador, para o processo, o Dr. Waldery Hilgeman. [3]


Em Guarulhos existe um centro de controle de hanseníase que leva o nome Sanatório Padre Bento.

domingo, 6 de setembro de 2015

SANTO ANÍBAL MARIA DI FRANCIA, Presbítero e Fundador dos Padres Rogacionistas e das Filhas do Divino Zelo.




Aníbal Maria Di Francia nasceu em Messina (Itália) aos 05 de julho de 1851. Foram seus pais, a nobre senhora Anna Toscano e o cavalheiro Francisco, marquês de Santa Catarina de Jonio, vice-cônsul pontifício e capitão honorário da marinha. 
Aníbal, terceiro de quatro filhos, ficou órfão aos 15 meses pela morte prematura do pai. A amarga experiência infundiu no animo precoce do menino, uma particular ternura e um especial amor para com os órfãos e crianças abandonadas que caracterizaram não só a sua vida, mas todo o seu sistema educativo.

Desenvolveu grande amor a Jesus Sacramentado, tanto que recebeu autorização - excepcional naquele tempo - de comungar diariamente. Muito jovem ainda, diante de Jesus Sacramentado solenemente exposto, recebeu a graça especial que podemos definir como a inteligência do Rogate (Rogai): «A colheita é grande, mas os trabalhadores são poucos.  Rogai, pois, ao dono da colheita que mande trabalhadores para a sua colheita» (Mt 9, 38; Lc 10, 2). Estas palavras do Evangelho constituíram a intuição fundamental, o carisma ao qual dedicou toda a sua vida.




Dotado de grande genialidade e notáveis capacidades literárias, apenas ouviu a chamada do Senhor, respondeu pronta e generosamente, adaptando os talentos ao seu ministério. Completados os estudos, aos 16 de março de 1878, foi ordenado sacerdote. Alguns meses antes se encontrou providencialmente com um mendigo quase cego que lhe proporcionou a oportunidade de entrar em contato com a triste realidade social e moral da periferia mais pobre de Messina, as assim chamadas Casas Avignone que lhe abriu o caminho daquele imenso amor para com os pobres e órfãos que se tornou uma característica fundamental de sua vida. Com o consentimento de seu Bispo foi morar naquele gueto e empenhou todas as suas energias na redenção daqueles infelizes, que aos seus olhos se apresentavam com a imagem evangélica das ovelhas sem pastor. Foi uma experiência marcada por contradições, incompreensões e dificuldades de todo tipo, que superou com grande fé, vendo nos humildes e marginalizados o próprio Jesus Cristo realizando aquilo que definia «espírito de dupla caridade: evangelização e serviço dos pobres».

No ano de 1882 tiveram início seus orfanatos que em seguida colocou sob a proteção de Santo Antonio de Pádua, daí recebendo o nome de antonianos. Sua preocupação não consistia somente em dar aos órfãos pão e trabalho, mas, sobretudo em proporcionar-lhes educação integral especialmente no aspecto moral e religioso, oferecendo aos assistidos um verdadeiro clima de família que favorecesse o processo formativo de descobrir e realizar o plano de Deus.

Pelo seu espírito missionário desejava abraçar todos os órfãos e pobres do mundo. Mas o que fazer? A palavra Rogate abria-lhe esta possibilidade. Por isso escreveu: «O que é este punhado de órfãos que são evangelizados diante de milhões que se perdem e são abandonados como rebanho sem pastor? Eu procurava uma saída ampla, imensa e a encontrei nas adoráveis palavras de N. S. Jesus Cristo: Rogate ergo... E então me pareceu ter encontrado o segredo de todas as boas obras e da salvação de todos os homens».

Aníbal tinha intuído que o Rogate não era uma simples recomendação do Senhor, mas um comando explicito e um «remédio infalível». Razão pela qual seu carisma deve ser considerado principio animador de uma providencial fundação na Igreja. Outro aspecto a se destacar é que ele antecede o tempo ao considerar como vocações também os leigos engajados, pais, professores e até os bons governantes.

Para realizar na Igreja e no mundo seus ideais apostólicos, fundou duas novas famílias religiosas: em 1887 a Congregação das Filhas do Divino Zelo e, dez anos mais tarde, a dos Rogacionistas. Quis que os membros dos dois Institutos, aprovados canonicamente aos 06 de agosto de 1926, se empenhassem a viver o Rogate com um quarto voto. Assim o Di Francia escreveu numa suplica de 1909 a São Pio X: «Dediquei-me desde a minha juventude à santa palavra do Evangelho: Rogate ergo. Nos meus mínimos Institutos de beneficência se eleva oração incessante e cotidiana dos órfãos, dos pobres, dos sacerdotes e virgens consagradas, com as quais se suplicam aos Corações Santíssimos de Jesus e Maria, ao Patriarca São Jose e aos Santos Apóstolos para que queiram prover abundantemente a Santa Igreja de sacerdotes eleitos e santos, de evangélicos operários da mística messe das almas».

Para difundir a oração pelas vocações, promoveu numerosas iniciativas, correspondia-se e teve encontros pessoais com os Sumos Pontífices de seu tempo, instituiu a Sagrada Aliança para o clero e a Pia União da Rogação Evangélica para todos os fiéis. Fundou o jornal com o significativo titulo «Deus e o Próximo» para envolver os fiéis na vivência dos mesmos ideais.

«É toda a Igreja - escreve - que oficialmente deve rezar para esta intenção, pois a missão da oração para obter bons operários é tal que deve interessar vivamente os bispos, os pastores do místico rebanho, aos quais são confiadas as almas e são hoje os apóstolos de Jesus Cristo». O Dia Mundial de oração pelas vocações, instituído por Paulo VI em 1964, pode considerar-se a resposta da Igreja a esta sua intuição.

Teve grandíssimo amor ao sacerdócio, convicto de que somente mediante a ação de numerosos e santos sacerdotes é possível salvar a humanidade. Empenhou-se fortemente na formação espiritual dos seminaristas que o Arcebispo de Messina confiou a seus cuidados. Com frequência repetia que sem uma sólida formação espiritual, sem oração, «toda fadiga dos bispos e reitores de seminários se reduz geralmente a um cultivo artificial de padres...». Sua caridade, definida sem cálculos e sem limites, manifestou-se com conotações particulares mesmo para com sacerdotes em dificuldade e irmãs de clausura.

Durante sua vida terrena já se manifestava clara e genuína fama de santidade observável em todos os níveis, de tal modo que, - quando a 01 de junho 1927 morria santamente em Messina, confortado pela presença de Nossa Senhora que muito amara ao longo de sua existência, o povo repetia: «vamos ver o santo que dorme». Seus funerais foram uma verdadeira e própria apoteose que os jornais da época registraram com precisão não só com artigos, mas também com fotografias. As autoridades foram solícitas em permitir que fosse sepultado no Templo da Rogação Evangélica, cuja construção ele mesmo quis e que é dedicado exatamente ao divino preceito: «Rogai ao dono da colheita para que mande trabalhadores à sua colheita».


O corpo do santo em suas exéquias. 


As Congregações religiosas dos Rogacionistas e das Filhas do Divino Zelo, fundadas por Padre Aníbal, estão presentes nos cinco continentes empenhadas conforme os ideais do Fundador, na difusão da oração pelas vocações através de centros vocacionais e editoras e na gestão de institutos-assistenciais a favor das crianças (Menores abandonados, meninos de rua, órfãos, surdos-mudos), centros nutricionais e de saúde, abrigos para anciãos e Casa para mães solteiras, escolas e centros de formação profissional...

A santidade e missão de Padre Aníbal declarado «insigne apóstolo da oração pelas vocações» são experimentadas hoje profundamente por todos que estão compenetrados das necessidades vocacionais da Igreja.

O Sumo Pontífice São João Paulo II o proclamou Bem-aventurado aos 07 de outubro de 1990 definindo-o «autêntico antecipador e zeloso mestre da moderna pastoral vocacional».O mesmo Papa o canonizou em 2004. 



Santo Aníbal sendo glorificado na eterna luz de Deus. 

Santo Aníbal, fundador das Filhas do Divino Zelo.