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Encontre o (a) Santo (a), Beato (a), Venerável ou Servo (a) de Deus

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Beata Rosalíe (Rosália) Rendu, Virgem e Filha da Caridade de São Vicente de Paulo (dois textos biográficos)



Jeanne Marie Rendu nasceu em 9 de setembro de 1786 em Confort (região de Gex no departamento de Léman), no seio de uma família que se destacou por sua ajuda aos sacerdotes perseguidos pela Revolução Francesa. Ainda em Gex descobriu o hospital onde as Filhas da Caridade atendiam os enfermos.
Observando-as amadureceu o desejo de ajudá-las. Em 25 de maio de1802, Jeanne Marie ingressou na Casa mãe das Filhas da Caridade em Paris. Estava a ponto de completar 16 anos de idade.
Foi envidada à casa das Filhas da Caridade do bairro Mouffetard, para dedicar-se ao serviço aos pobres. Ali permaneceu 54 anos.
Foi um terreno propício para a sede de ação, de entrega e de serviço que Jeanne Marie experimentava, pois naquela época tratava-se do bairro mais miserável da capital em plena expansão e evidenciava a pobreza em todas as formas.
Jeanne Marie, que recebeu o nome de irmã Rosalie, fez ali «seu aprendizado» acompanhando as Irmãs nas visitas aos enfermos e aos pobres. Ao mesmo tempo ensinava o catecismo e a leitura às meninas acolhidas na escola gratuita. Em 1807, comprometeu-se por meio dos votos ao serviço a Deus e aos pobres.
Quando foi nomeada superiora de uma das comunidades em 1815, foram reveladas suas qualidades de abnegação, de autoridade natural, de compaixão, assim como sua capacidade de organização.



Irmã Rosalie enviava suas Irmãs a todos os rincões da paróquia de «Saint Médard» para levar alimentos, roupa, atender enfermos, dizer uma palavra de consolo. Abriu uma despensa, uma farmácia, uma escola, um orfanato, uma creche, uma instituição para as jovens trabalhadoras e uma casa para anciãos sem recursos.
Em pouco tempo havia estabelecido uma rede de obras caritativas para combater a pobreza.
Seu exemplo era um grande estímulo para suas Irmãs, a quem dizia: «Deveis ser como um apoio no qual todos os que estão cansados tem direito de depositar sua carga».
Sua fé lhe fazia ver Jesus em todas as circunstâncias. Experimentava no cotidiano a convicção de São Vicente: «Se vais dez vezes por dia ver um pobre, dez vezes encontrareis nele Deus». Sua vida de oração também era intensa.
Sua fama logo espalhou por todos os bairros da capital e nas cidades de outras províncias. Irmã Rosalie sabia rodear-se de colaboradores generosos, eficazes e cada vez mais numerosos.
Com freqüência podia-se ver na recepção da comunidade bispos, sacerdotes, o embaixador da Espanha, Donoso Cortés, Carlos X, homens do Estado e da Cultura, até o imperador Napoleão III com sua esposa.


Também estudantes de Direito ou Medicina iam para a comunidade para buscar informação ou pedir conselho antes de fazer uma boa obra. Entre eles o beato Federico Ozanam, co-fundador das «Conferências de São Vidente de Paula», e o venerável João León Le Prévost, futuro fundador dos Religiosos de São Vicente de Paula.
Irmã Rosalie esteve assim no centro de um movimento de caridade que caracterizou Paris e toda a França na primeira metade do século XIX.
Não faltaram provas no bairro Mouffetard. As epidemias de cólera se sucediam. A falta de higiene e a miséria favoreceram a propagação da doença.
Foi vista recolhendo pessoalmente os corpos abandonados nas ruas durante os motins de julho de 1830 e de fevereiro de 1848, quando houve lutas sangrentas travadas entre o poder e a classe operária.





O próprio arcebispo de Paris, Dom Denis Auguste Affre, foi assassinado ao querer interpor-se entre os combatentes. Irmã Rosalie também acudiu às barricadas para socorrer os feridos com uma valentia assombrosa.
De saúde frágil, Irmã Rosalie nunca teve um instante de descanso. A idade, sua grande sensibilidade e o acumulo de tarefas acabaram por esgotar sua resistência. Nos seus últimos anos várias doenças a fizeram cruelmente sofrer; mesmo cega não deixou de atender aos pobres até o fim de sua vida. Morreu em 7 de fevereiro de 1856. A comoção foi grande no bairro e em todos os meios sociais de Paris e das províncias. Toda a cidade de Paris se abalou e, pela última vez, ela recebeu a visita daquela multidão que ela durante a sua vida servira com tanto amor: pessoas de todas as categorias e profissões, grandes e pequenos, ricos e pobres, sábios e operários, todos misturados, confundidos, exprimindo, sob formas e maneiras diversas os mesmos sentimentos e a mesma dor.
Vários artigos da imprensa deram testemunho da admiração e inclusive da veneração que Irmã Rosalie havia suscitado. Jornais de todas as tendências reproduziram os sentimentos do povo.





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Jeanne Marie Rendu (Irmã Rosalie), filha de Antonio Rendu e de Marie-Anne Laracine, nasceu em 09 de setembro de 1786, em Confort, lugarejo de Lancrans, município de Ain, França.
A Beata Rosalie Rendu (pronuncia-se “randí”) foi o centro de um movimento de caridade que caracterizou Paris e a França, na primeira metade do século XIX, quando a assistência pública ainda não existia.
Em 25 de maio de 1802, Irmã Rosalie entrou no Seminário (noviciado), na Casa Mãe das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, em Paris. Ao sair do Seminário, Irmã Rosalie foi enviada ao bairro Mouffetard, um dos mais miseráveis de Paris, onde serviu os Pobres durante 53 anos. Aí, dedicou-se como enfermeira, juiz de paz, catequista das crianças de rua; aí, enfrentou até mesmo, arriscando sua própria vida, os revolucionários, dizendo: “Aqui não se mata ninguém!”
Irmã Rosalie era “a boa mãe de todos”, sem distinção de religião, idéias políticas, condições sociais. Com uma das mãos, recebia dos ricos e, com a outra, dava aos pobres.
Aos ricos, Irmã Rosalie proporcionava a alegria de fazer o bem. Com freqüência, via-se na sala de recepção de sua casa, Bispos, Padres, homens de Estado e da cultura. Entre eles: Donoso Cortes, Embaixador da Espanha, o Imperador Napoleão III com sua esposa, estudantes de direito, de medicina, alunos da Politécnica, que vinham pedir informações, recomendar alguém ou perguntar em que porta bater antes de fazer uma boa obra. Assim vieram o Beato Frederico Ozanam, co-fundador das “Conferências de São Vicente de Paulo”, e o Venerável Jean Léon Le Prévost, futuro fundador dos Religiosos de São Vicente de Paulo, que pediam-lhe conselhos para pôr em prática seus projetos.
Todos os dias, fizesse o tempo que fizesse, Irmã Rosalie percorria as ruas e ruelas que iam além do Panthéon, atravessando o sul da Montanha Santa Genoveva – rua Mouffetard, passagem dos Patriarcas, rua de l´Epée de Bois, rua do Pot de Fer. Com o seu terço na mão, seu pesado cesto no braço, apressava o passo, pois, sabia que a esperavam!



Como a monja no claustro, Irmã Rosalie caminhava na direção de Deus: ela Lhe falava desta família em dificuldade, porque o pai estava desempregado, daquele ancião que corria o risco de morrer sozinho num casebre: “Jamais faço tão bem a oração, quanto na rua”, dizia ela.
Sobre o túmulo de Irmã Rosalie, no cemitério Montparnasse, há sempre flores colocadas por pessoas desconhecidas, e um epitáfio menciona: “à boa Mãe Rosalie, seus amigos reconhecidos, os pobres e os ricos”.



“Jamais faço tão bem a oração, quanto na rua”, dizia ela.

Sua fé, firme como uma rocha e límpida como uma fonte, revela-lhe Jesus Cristo em toda circunstância; ela experimenta na dia-a-dia esta convicção de São Vicente: "Dez vezes, ireis ver o pobre, dez vezes por dia aí encontrareis Deus.... vós ides em casas pobres, mas, aí, encontrareis a Deus”. Sua vida de oração é intensa; como o afirma uma Irmã: ela vivia continuamente na presença de Deus: se tinha uma missão difícil para cumprir, tínhamos a certeza de vê-la subir à Capela ou de encontrá-la de joelhos no seu gabinete.




“Se o amor é um fogo...”

Responsável por sua Comunidade, Irmã Rosalie recebeu a missão de acompanhar cada uma de suas Irmãs, apoiá-las, formar as mais jovens, animar a vida fraterna. Ela o desempenhou com grande cuidado, comunicando-lhes seu ardor e sua alegria de servir. Para convencer-se disso, basta ler algumas de suas testemunhas:

Irmã Rosalie tinha a arte de discernir e de conduzir. Irmã Angélica conta: “Como eu era a mais jovem e a mais robusta, Irmã Rosalie, encarregou-me do bairro mais afastado e populoso: tereis o melhor lote, disse-me: é na Cité Doré, onde se refugia tudo o que há de mais medíocre em Paris. Encontrareis muitos bêbados. Caminhai modestamente, com diligência, sem precipitação. Perguntai a todas as crianças que encontrardes se vão à Escola. Há muito bem a fazer! Verdadeiramente, é o lugar de uma Filha da Caridade”.

“Humilde na sua autoridade, Irmã Rosalie nos repreendia com grande delicadeza; sua fórmula ordinária era esta: “Nosso Senhor vos pediu isso... Não o compreendestes?”

“Era severa sobre a maneira como recebíamos os pobres: 'eles são nossos Senhores e nossos mestres. Pensastes nisso, minha Irmã, quando mandastes embora este pobre, tão duramente'”?

“Se, na continuação de um empreendimento, nós lhe anunciávamos uma boa solução, ela nos enviava a comunicá-la às famílias interessadas, para que nós nos regozijássemos com sua felicidade e nos encorajava a nos cansarmos pelo bem dos pobres: 'jamais, minhas Irmãs, faremos bastante por eles'”!

“Irmã Rosalie via Deus em suas companheiras, que Ele escolheu por esposas. Ela as amava ternamente, como uma verdadeira mãe”... “Quando o tempo estava ruim ou ameaçava uma tempestade, enquanto estávamos fazendo compras, ela encontrava sempre um momento para colocar nossos sapatos em cima da chaminé, assegurando-se, ela mesma, se não estávamos com os pés úmidos e, se nossas roupas tinham secado!”

“Se o amor é um fogo, o zelo é sua chama!”, dizia São Vicente. A pequena Comunidade da rua de l´Epée de Bois, sustentada pela oração e o amor fraterno, estava pronta para enfrentar a grande miséria deste século atormentado.



“Para restituir ao homem sua dignidade...”

“O pobre povo morre de fome e se condena”, dizia São Vicente de Paulo.

Tal era, na França, a situação dos campos, no século XVII. É uma situação semelhante – talvez pior, a que constatou a jovem Irmã Rosalie ao chegar ao bairro de Saint Médard, em Paris. Mal alojados, famintos, explorados, os pobres são entregues à degradação e à revolta.

“O bairro mais pobre de Paris, aquele aos quais 2/3 da população falta madeira no inverno, aquele que joga o maior número de crianças enjeitadas nas casas “Crianças abandonadas”, maior número de doentes no Hôtel Dieu, mais mendigos nas ruas... mais operários, nas praças, sem trabalho, maior número de presos na polícia correcional” Escreveu Honoré de Balzac.


“Lutar contra a miséria para devolver ao homem sua dignidade”, este será o objetivo de Irmã Rosalie durante 54 anos!

Com sua Comunidade, ela cuida, alimenta, visita, consola, apazigua, incansavelmente! Dotada de uma viva sensibilidade, Irmã Rosalie se compadece com todo sofrimento: “Há algo que me sufoca, diz ela, e que me tira o apetite... é pensar que em muitas famílias falta o pão!”... E sua intuição feminina lhe sugere o gesto que deve fazer e a solução que deverá inventar. Para o serviço dos pobres – sejam quais forem - ela ousa empreender tudo com inteligência e audácia: nada a fará parar, quando se trata de colocar de pé aquele que sofre.


Irmã Rosalie vivia ao pé letra as recomendações dos Fundadores:

“Não devo considerar um pobre camponês pelo seu aspecto exterior, nem segundo o que transparece de sua capacidade... Mas, virai a medalha, e vereis através das luzes da fé, que o Filho Deus... nos é representado por estes pobres; na sua paixão, ele quase não tinha a aparência humana” – São Vicente.

“Devemos amá-los ternamente e respeitá-los fortemente” - Santa Luísa.


Irmã Rosalie não contesta a ordem estabelecida, não é a favor da revolta: não é este o seu método. Para lutar contra a injustiça e a miséria, desperta a consciência daqueles que têm o poder ou dinheiro; trabalha para instruir as crianças e os jovens pobres e, para responder às urgências, ela impulsiona à partilha: “organiza a caridade”.

Há tantas maneiras de fazer a caridade, o pequeno socorro em dinheiro ou alimento que damos aos pobres, não pode durar muito tempo; é preciso visar um bem maior e duradouro. Devemos estudar suas aptidões, seu grau de instrução e procurar trabalho, ajudá-los a sair da necessidade.” Irmã Rosalie dá provas de uma grande lucidez. Com alegria, apóia e aconselha seus amigos engajados nas reformas sociais, porém, por predileção, a serva se une aos pobres, “seus mestres”, no lugar da miséria.


“Quando o fogo se propaga...”

A correspondência de Irmã Rosalie e os testemunhos de suas Irmãs revelam sua preocupação com a juventude e seu talento como educadora. Não há muita distância entre o bairro Mouffetard e o bairro latino! Algumas vezes, são vistos, no seu gabinete, jovens pertencentes a todas as Escolas, aspirando todas as carreiras: estudantes de direito e de medicina, alunos da Escola Normal e da Escola Politécnica, cada qual vem buscar uma “boa obra” a fazer ou prestar contas de um serviço.

Com ternura e respeito, Irmã Rosalie os acompanha pessoalmente, tem o cuidado com suas condições de vida, apóia-os, assegura o vínculo com sua família, e, como boa educadora, pergunta a cada um, o que pode colocar a serviço dos pobres; a um, seu “bic”; a outro, sua atividade; àquele, sua palavra; a todos, alguns instantes, para socorrer alguém. Ela recomenda-lhes a paciência, a indulgência e a delicadeza.

“Amai os pobres, não os acuseis demais...; lembrai-vos que o pobre é bem mais sensível às boas maneiras do que aos socorros”.

Os relacionamentos continuam, quando estes jovens partem para seus estados: as notícias chegam então à rua de l´Epée de Bois e são comunicadas aos interessados, graças à diligência e à discrição de Irmã Rosalie, que continuava a estimular as vocações que ela tinha suscitado.

“Para que aumente a rede de caridade...”

No dia seguinte da Revolução de 1830, a efervescência do espírito era grande: inquietações, sede de um mundo mais justo, desejo de mudança na sociedade, engajamento dos católicos. Neste momento, havia na Sorbonne, um jovem estudioso, querendo insuflar uma vida nova a esta sociedade doente.

“Um pequeno grupo se reunia numa espécie de círculo de estudos, chamada Conferência de História”. As reuniões se realizavam na casa do senhor Emmanuel Bailly, professor de Filosofia e Diretor do jornal “A Tribuna Católica”. Entre os habituados deste círculo, encontravam-se Ozanam, Lamache, Letaillandier, Leon Le Prévost, Lallier... e outros. Um colega lhes lançou, um dia, este desafio: “... Vós que vos orgulhais de ser católicos, o que fazeis?

Esta interpelação fez o grupo refletir. Um deles propôs: “Fundemos uma Conferência de Caridade”.  Esta ideia agradou a todos; porém, tinham necessidade de um guia. O Senhor e a Senhora Bailly, conhecendo Irmã Rosalie, enviou-os à rua de l´Epée de Bois. Irmã Rosalie lhes ensinou a visitar a pobreza, à domicílio. Aprenderam com ela a ver o Senhor nos pobres. Ao indicar as famílias para visitar, ela lhes dava conselhos sobre a maneira cristã de abordá-los, respeitá-los, considerá-los como irmãos, ricos em humanidade.

Fundada em Saint Etienne du Mont, em 23 de abril de 1833, a Conferência da Caridade se torna, em fevereiro de 1834, a Conferência de São Vicente de Paulo, que foi escolhido como mestre e modelo. O número de membros da Conferência aumenta rapidamente. Em 1835, o Senhor Le Prévost propôs duplicá-la, a fim de criar uma outra em Saint Sulpice. Houve uma pequena discussão: as opiniões estavam divididas! A unanimidade só foi conseguida, quando aquele que a propôs, disse que a ideia vinha de Irmã Rosalie. As Conferências se multiplicaram rapidamente em Paris e nos Estados... Frederico Ozanam sonhava “unir o mundo numa rede de caridade”.


“Um caminho de reconciliação...”

A pequena sala de recepção, da rua de l´Epée de Bois não se esvaziava nunca! A Comunidade está no centro de uma imensa rede de entreajuda, cada um pode vir pedir ou oferecer. Ricos, pobres, fracos ou poderosos, Irmã Rosalie conhece a todos; responsável pela Comunidade, é chamada por “Mãe”, e o é verdadeiramente, pronta a levar socorro, a cada instante, àqueles que sofrem.




Alguns fatos relatados pelos biógrafos permitem apreciar a retidão, a coragem e a extraordinária liberdade desta mulher fora do comum.

Nos dia 27, 28 e 29 de julho de 1830 – “Os três Gloriosos”: o povo está encolerizado! Paris está coberta de barricadas. Enquanto que à rua de l’Epée de Bois” cuida dos feridos – arruaceiros ou soldados, Irmã Rosalie sai à procura do General de Montmahaut, um benfeitor dos pobres, tido como desaparecido. Colocando em risco sua própria vida, passa no meio das barricadas. Ela o descobre gravemente ferido na praça da Prefeitura (Hotel de Dieu)... Irmã Rosalie o reanima: ele é salvo!

A justiça, nos dias seguintes, após uma revolução é, com freqüência muito severa! As pessoas que se tinham comprometido, durante o confronto, vieram buscar refúgio na casa de Irmã Rosalie, que as protegeu e facilitou sua fuga. O comandante de Polícia – M. Gicquel – deu ordem de prender Irmã Rosalie. “Impossível!”, diz o soldado encarregado da execução. Todo o povo usará as armas! Como nada conseguiu, o Comandante, pessoalmente, irá prendê-la. Atravessando a multidão, pede para falar com Irmã Rosalie. Mui amavelmente lhe é solicitado aguardar no pátio: em seguida se estabelece o diálogo:
- “O que posso fazer para lhe prestar um serviço? diz ela:

- Senhora, não vim aqui para vos pedir um serviço, mas, para vos prestar um serviço; sou o Comandante de Polícia e quero saber como ousastes ir contra a lei?

- Senhor Comandante, eu sou Filha da Caridade, vou por toda parte, socorrer os infelizes... Se vós estivésseis sendo perseguido, eu vos socorreria, eu vos prometo!

- Não recomeçai! Respondeu surpreso o Comandante

- Isto eu não vos prometo! “Uma Filha da Caridade de São Vicente de Paulo não tem direito de faltar à caridade”.

Fevereiro de 1831: Irmã Rosalie dá um pedaço de pão a um homem idoso; ele o recusa. “Obrigado, minha Irmã, não tenho mais necessidade: amanhã, iremos saquear o Arcebispado”.  No dia seguinte, o Arcebispado está em chamas, porém, Dom de Quélen e um grupo de sacerdotes encontraram refúgio à rua de l´Epée de Bois.

Por várias vezes, a cólera aparece! Por toda parte reina o medo, e do medo nasce a desconfiança: começam a acusar os médicos e os farmacêuticos pelo contágio, atribuído ao ódio que têm pelo pobre povo e querem massacrá-los. O Doutor Royer-Collar transportava um doente ao hospital. Fazem-no parar! Ele protesta..., mas, o ódio é cego! Então, ele grita a esta gente corajosa do bairro Mouffetard: “Sou um dos amigos de Irmã Rosalie!” O ódio termina imediatamente: deixam-no passar!

Na Escola, uma criança chora, porque seu pai foi preso; Irmã Rosalie conhece a família: este homem, operário honesto, se deixou levar pelos instigadores. O General Cavaignac, que estimava Irmã Rosalie, vinha algumas vezes à rua de l´Epée de Bois... Neste dia, ela lhe propõe visitar a Escola. Enquanto que os olhares espantados das crianças se voltam para esta visita muito bem vestida, com galões dourados, Irmã Rosalie dirige-se à menina: “Minha filha, eis aqui um senhor que pode, se quiser, soltar teu papai”.

- Ah, senhor, devolva meu papai! Temos muita necessidade dele em casa!”

- “Mas, ele deve ter feito alguma coisa grave!”  “O´ não! Mamãe me disse que não.. e, se ele o fez, não o fará mais, eu vo-lo prometo; oh devolvei meu pai! Eu vos amarei sempre!”

Quem ficou mais comovido? Alguns dias mais tarde – sem dúvida, graças à intervenção de Irmã Rosalie – o prisioneiro regressou à família.


1848!  Novamente o horizonte se carrega de nuvens!  A burguesia quer reinar e o povo quer viver de outra maneira: não como miserável! E aconteceu a mesma coisa que em 1830: batalhas nas ruas de toda Paris! Uma terrível barricada foi preparada no ângulo das ruas: Mouffetard e de l´Epée de Bois. Mas estava tudo muito bem preparado! Um oficial da Guarda Móvel atravessa a barricada com sua tropa, porém, todos os seus homens caíram sob a rajada dos manifestantes, ele ficou sozinho no meio dos revoltados furiosos. Então, ele se precipitou no pequeno pátio da casa das Irmãs: os fuzis dos manifestantes apontaram para ele: Irmã Rosalie se interpõe gritando: “Aqui não se mata!” – “Não! Mas, do lado de fora! Nós o levamos!” – Irmã Rosalie recusa... Os homens, sedentos por sangue, vão começar a atirar por cima dos ombros das Irmãs que cercam o condenado. Irmã Rosalie, porém, cai de joelhos: “Em nome de tudo o que eu fiz por vós, vossas mulheres e filhos, eu vos imploro pela vida deste homem!” As armas, imediatamente se abaixam... Alguns homens choram. O oficial está salvo! “Quem sois vós, minha Irmã?”, pergunta ele.

“Nada, Senhor, sou uma simples Filha da Caridade. Apenas isto!”

Apenas isto! Mas, verdadeiramente isto!


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

SANTO INÁCIO DE SANTHIÁ, Presbítero Capuchinho.



SANTO INÁCIO nasceu em Santhià, diocese de Vercelli, no Piemonte (Itália), aos 05 de junho de 1686. Os seus pais chamavam-se Pedro Paulo Belvisotti e Maria Elizabetta Balocco. Era o quarto de seis filhos, da rica família dos Belvisotti, cristã, bem posicionada e muito conceituada socialmente. No Batismo recebeu o nome de Lourenço Maurício. Após a profissão religiosa adotou o nome de Inácio.
Aos sete anos de idade ficou órfão de pai. Sua mãe cuidou para que os filhos recebessem uma excelente instrução por meio de um sacerdote piedoso. Assim, além de uma formação literária invejável, ele cresceu na oração e amadureceu a sua vocação sacerdotal.
Começou a distinguir-se pela integridade dos costumes, pelo aproveitamento nos estudos e pelo gosto em ser acólito na Colegiada. Entrou no Seminário diocesano e aos 24 anos de idade foi ordenado sacerdote. Dedicou-se à pregação colaborando com os Jesuítas. Depois, foi nomeado cônego da Colegiada de Santhià. Foi-lhe oferecido, a seguir, o ofício de pároco. Porém, e, contra o parecer dos seus parentes, que previam para ele brilhante carreira eclesiástica, renunciou ao cargo.
Pouco depois, com o desejo de conseguir maior perfeição, vencendo enormes dificuldades, entrou na Ordem dos Capuchinhos, quando tinha 30 anos de idade. Ali, fez sua profissão religiosa em 1717. Como São Francisco, padre Inácio queria que o ideal supremo de vida fosse Cristo, optando pela pobreza absoluta de Belém, a abnegação total do Calvário, a caridade do Tabernáculo. Durante 25 anos, foi confessor assíduo e muito solicitado por pessoas de todas as classes. Nesse ministério, demonstrou a caridade paterna, sabedoria e ciência, adquiridas nos livros e por meio das orações contemplativas. Durante o dia, passava horas ininterruptas, na direção espiritual e abria aos pecadores os caminhos misteriosos da bondade de Deus.
Sua fama de bom conselheiro espiritual difundiu-se rapidamente, trazendo para a paróquia uma grande quantidade de religiosos, sacerdotes e fiéis desejosos de uma verdadeira orientação no caminho da santidade. A todos recebia com a maior caridade, porque os pecadores eram os filhos mais doentes e necessitados de acolhida e compreensão. Passou a ser chamado de "padre dos pecadores e dos desesperados". A sua fama difundiu-se muito depressa também na pequena cidade, a tal ponto que os jovens que frequentavam as escolas superiores da cidade escolhiam como meta do passeio o convento, dizendo: "Vamos ver aquele santo!".
Foi Mestre de noviços no convento do Monte, em Turim. Sendo modelo das virtudes, soube orientar os jovens noviços pelos caminhos da perfeição franciscana. Sua única intenção era formar os jovens para a vida religiosa, para a mortificação e a penitência. Para isso, instruía, corrigia e encorajava com atenção e palavras amorosas, fazendo o caminho difícil tornar-se ameno. A sua cela estava aberta em qualquer momento do dia e da noite para os noviços que precisassem de conselhos, de um encontro para superar uma prova ou esclarecer uma dúvida.
Em 1724, estourou a guerra e logo se notabilizou na assistência aos soldados feridos no hospital militar. Durante aqueles tempos turbulentos, soube ser o conforto e a ajuda para quem a ele se dirigia. Passou o resto da sua vida a ensinar o catecismo aos pequeninos e aos adultos, com competência, diligência e proveito verdadeiramente singulares.
Orientou exercícios espirituais, especialmente para os religiosos, aos quais, com a palavra e com o exemplo, soube conduzir à espiritualidade cristã e franciscana.
Ingressou na vida religiosa à procura da humildade e da obediência e, durante 54 anos, converteu-se em grande modelo dessas virtudes. A sua alegria era estar no último lugar, sempre pronto para qualquer desejo dos seus Superiores. Tendo 84 anos, cansado pelo intenso trabalho apostólico que havia desenvolvido no meio da maior simplicidade e humildade, desejava voltar para Deus. Morreu com fama de santidade no dia 21 de setembro de 1770, em admirável tranquilidade.
A notícia espalhou-se rapidamente, e uma multidão de fiéis de todas as classes sociais acorreu para saudar pela última vez o "santinho do Monte", como era chamado. Os milagres atribuídos à sua intercessão logo surgiram e o seu culto ganhou vigor entre os devotos. Seis anos após sua morte, por vontade do clero, dos irmãos de hábito, do povo e da casa de Sabóia, foi dado início na cúria arquiepiscopal de Turim, ao processo sobre a fama de santidade, de vida, virtudes, e milagres do servo de Deus.
No ano de 1827, Leão XII declarou a heroicidade das suas virtudes, dando-lhe o título de Venerável. A 17 de abril de 1966, o Papa Paulo VI beatificou-o em São Pedro, no Vaticano. Foi canonizado a 19 de maio de 2002 pelo Papa São João Paulo II. Suas relíquias encontram-se na igreja dos Capuchinhos no Monte, em Turim.
Como produção literária, deixou-nos as Meditações para exercícios espirituais, cuja primeira impressão foi feita em 1912.




Oração

Senhor, nosso Deus, que chamastes o vosso servo, Santo Inácio de Santhià, ao caminho da perfeição evangélica e o fizestes mestre e modelo das virtudes cristãs, concedei-nos a graça de vivermos na nossa vida a santidade do Vosso Filho Jesus Cristo, que vive convosco na unidade do Espírito Santo.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

SÃO BENILDO ROMANÇON, Irmão Lassalista e Educador de Jovens.




Pierre nasceu!
No povoado de Thuret, França, cultivavam-se zelosamente os costumes cristãos. Entre tantas famílias piedosas vivia a família Romançon. Naquele dia 13 de junho de 1805, encontrava-se de modo especial agitada e feliz com o nascimento de mais um filho.
Neste mesmo dia o senhor Jean Romançon e sua esposa Ana Chanty providenciaram para que seu filho fosse batizado, recebendo o nome de Pierre, Pierre Romançon. Foi um nascimento duplo!


Posso ajudar...

Em Thuret havia uma escola dirigida pelo Sr. Délais. Aos seis anos Pierre iniciou os estudos, sua vontade e capacidade intelectual surpreenderam a todos, sobretudo o diretor. Tem pela frente uma brilhante carreira escolar...
Entretanto as necessidades surgem e Pierre percebe que, apesar da pouca idade e altura, também pode ajudar. Aos nove anos deixa a escola e torna-se o pequeno pastor do rebanho de seus pais.
Pelos montes vai o pastorzinho e seu rebanho, repetindo sempre a o pequeno refrão que havia aprendido com seus pais: "Meus Deus, vos amo!".
Devido a sua inteligência, simplicidade e alegria, atrai outras crianças que também cuidam dos seus animais. Sob uma árvore, o círculo esta feito. A assunto, para surpresa maior: o catecismo. Seu pequeno livro do Catecismo era fonte de inspiração... Nosso pastor transforma-se em brilhante catequista, eis um dos primeiros sinais de sua vocação.
Com tanto fervor, aos 12 anos, pela primeira vez recebeu o Corpo de Cristo, comunhão com Deus e com a Igreja. Algum tempo depois, com maior alegria, recebeu o sacramento da Confirmação.


Quero conhecê-los!

Num certo dia, ao visitar a cidade de Clermont, depara-se com alguns religiosos que trajam uma batina preta, com um "rabat" e sobre eles um manto de mangas flutuantes... O modo como se vestiam, em especial como se comportavam, atraiu sua atenção e despertou em Pierre um desejo de conhecê-los. Descobre, então, que são os Irmãos das Escolas Cristãs, religiosos que se dedicam integralmente à educação humana e cristã das crianças e jovens.
A imagem dos Irmãos Lassalistas não mais se apagou de sua memória, às vezes chegava a imaginar-se um deles, rodeado de crianças e jovens.
Partilhou com seus pais o desejo de conhecer melhor os Irmãos. Sendo assim, foi enviado para estudar numa escola Lassalista, em Riom.


Serei um deles!?

Aos 14 anos Pierre pede para ingressar no noviciado. Apesar de ser um brilhante aluno, pela inteligência e comportamento, seu pedido é recusado. Motivo: aos 14 anos possui estatura desproporcional à idade, é pequenino!
Esforçou-se como pôde para crescer, nada o impediria, queria ser um religioso educador! Aos 16 anos, novamente expressou seu desejo de ingressar no noviciado e desta vez foi aceito. Sua alegria o fazia maior!
Seu noviciado se deu em Clermont, 1820. Pierre recebeu novo nome, agora se chama Benildo, Irmão Benildo. Mais tarde, recordando esta etapa de formação dirá: "Ao entrar no Instituto, compreendi que devia entregar-me todo inteiro a Deus e cumprir em tudo a vontade de meus superiores...".
De fato, este noviço assume sua formação, busca cada vez mais a transparência, a caridade. Isto impressiona a todos, em especial o Irmão Diretor, que dirá: "Este Irmãozinho nos superará e será uma das glórias do Instituto"... E isto o tempo e a caridade divina provaram.
A vida comunitária para o Irmão Benildo tornou-se cada vez melhor, pois procurava ser melhor, corrigir-se. Seus coirmãos queriam sempre estar junto dele para aprender um pouco mais.
Mas as pedras estão sempre bem espalhadas pelo caminho. Agora seu pai, movido por uma profunda saudade, resolve buscar seu filho e usa todos os meios para persuadi-lo até mesmo ameaça-o de deserdá-lo. O desejo de ser lassalista, neste jovem, é maior do que qualquer herança, qualquer rebanho... De forma que convence seu pai a abençoar sua caminhada vocacional.


Minha missão

Após os votos, Ir. Benildo foi enviado para Riom, à escola onde havia sido genial aluno. Agora volta como professor dos iniciantes, mostrava-se um tanto tímido, reservado, o que o faz merecedor do respeito e do carinho dos pequenos.

Recebeu transferências sucessivas: para Moulins; Limoges, em 1829, onde foi professor dos mais adiantados e cozinheiro; Aurillac e depois Clermont, onde foi jardineiro e fez os Votos Perpétuos. Foi nomeado diretor para a comunidade de Billom, e, apesar de se mostrar contrário por sentir-se incapaz de assumir tal ministério, assumiu o cargo. Respondeu à altura ao desafio imposto, deu o máximo de si, de forma que, durante sua administração, o número de alunos aumentou, a escola foi ampliada, e o mais importante, conquistou a amizade de muitos alunos e pais.
Com a descoberta deste novo talento, logo se pensou em ir mais longe. O próprio Superior Geral, Irmão Felipe, enviou-o para abrir comunidade e escola em Saugues.



Em Saugues

No dia 21 de setembro de 1841, Saugues estava agitada. Todos esperavam, em festa, a chegada dos Irmãos Lassalistas, aqueles educadores que significam esperança para os meninos daquela cidade. Além de toda a comunidade, estavam ali presentes os responsáveis pela vinda dos Irmãos: o pároco e o prefeito. Nestes, o desejo de atender às aspirações populares.
De repente chegam três Irmãos. Ao centro, Ir. Benildo. Este logo chama atenção pela estatura e postura física. Podia-se mesmo ouvir: "Mandaram-nos o pior!" Mal sabiam os descontentes que diante deles estava um brilhante diretor, um gigante espiritual.
Como a residência dos Irmãos ainda não estava pronta, ficaram hospedados na casa paroquial. No dia 3 de janeiro de 1842, a escola estava pronta, recebia seus habitantes e a proteção de São José, Patrono do Instituto.


Meu ofício

Os pais bem que estavam desejosos de ver seus filhos estudar, progredir, mas a princípio eram só eles. Os meninos e rapazes não tinham experiência alguma em frequentar uma escola, a isso se acrescenta a indisciplina... O único remédio era paciência, paciência e técnica.
Os Irmãos logo perceberam que era necessário atrair seus alunos de alguma forma e tentaram: gincanas, aulas ao ar livre... Aos poucos o interesse foi crescendo e os resultados apareciam.
A escola e o próprio diretor receberam algumas homenagens pelo progresso obtido. E o grande progresso que aconteceu ali foi a conquista da confiança e amizade dos alunos.
Durante aproximadamente 21 anos, até sua morte, Irmão Benildo esteve totalmente empenhado na direção da escola. Além de diretor, também ministrava as aulas de ensino religioso. Pura emoção! E isto o atesta um dos ex-alunos: "Ficávamos encantados quando nos falava do céu. Provocava em nós profunda sensação quando comentava a máxima evangélica: «De que serve ao homem ganhar o mundo inteiro se perde sua alma?»"
Como Religioso Lassalista, também dirigia a comunidade e era impressionante a forma como se dedicava para que a Regra fosse cumprida: "O Irmão Diretor foi para nós uma Regra vivente!" Zelava para que o novos Irmãos tivessem uma boa formação, mas seu zelo era ainda maior quando se tratava de criar um ambiente de bem-estar na comunidade, sentia que a comunidade era uma das dimensões mais importantes do Religioso Lassalista.
Assim como recomendara o Santo Fundador possuía uma especial devoção a São José e à Virgem Maria. Por ocasião da proclamação do dogma da Imaculada Concepção, em 1854, estreitou contra o peito a Bula Inefabilis, exclamando: "Sempre acreditei, oh puríssima Virgem Maria, que havíeis sido concebida sem pecado original. Agora, proclamado este glorioso privilégio, estou disposto a defendê-lo, se for preciso, até com a efusão de meu sangue!"


Algumas aventuras

Apesar da rotina, havia acontecimentos que surpreendiam Irmão Benildo. Dentre eles podemos destacar:
O dia dos apitos: numa de suas aulas de Religião, tentava explicar de forma compreensível para os pequeninos que a graça de Deus é a "seiva da alma". E se pôs a relembrar sua infância: "Quando eu era pequeno, com palhas fazia apitos que funcionavam muito bem... mas quando a seiva secava, adeus apito, já não funciona. E a seiva da alma é a graça de Deus, quando se perde esta graça, nada vai bem". Os pequenos sorriem, até parece que preparam algo... É o que confirma Irmão Benildo ao chegar pela tarde na escola e perceber o barulho de tantos apitos, eram as crianças prestando homenagem ao seu querido catequista. Por fim recolheu todos, premiando os melhores!
O anjo da guarda: Irmão Benildo tinha um forte anjo da guarda que se chamava Irmão Nabor, "o braço de ferro", como dizia o próprio Irmão. Por duas vezes, arriscando a própria vida, salvou seu coirmão. Uma vez evita que role desfiladeiro abaixo juntamente com o cavalo que o carregava. Em outra ocasião, após visitar um doente, Irmão Benildo demora-se no pátio da casa, enquanto Irmão Nabor recolhe o material para partirem. De repente um touro feroz, pronto para o ataque, avança em direção ao Irmão Benildo, mas Nabor de posse de uma estaca atira-se diante do animal e o acerta, este por sua vez retira-se rapidamente.
Irmão Benildo atira-se de joelhos para agradecer a Deus e a seu coirmão, por salvarem-lhe a vida. Mas o Irmão Nabor responde com afeto: "Sua morte seria uma grande perda, uma desgraça!".


É minha hora

Irmão Benildo nunca possuíra uma saúde vigorosa. Nos últimos anos de sua vida, o reumatismo não lhe permitia mais continuar como professor, ainda assim esforçou-se como pôde para dar o melhor de si, embora já sentisse que não viveria por muito tempo.

Há testemunho de que: No dia da Santíssima Trindade, no ano de 1862, como não podia sair do seu quarto, pediu seu exemplar de nossas Regras para professar a fórmula de renovação dos votos. Quando teve o livro em suas mãos, chorou longamente, e ao Irmão que lhe perguntava o motivo, disse: "Choro porque temo não haver cumprido, nem feito cumprir suficientemente nossa Regra".
No dia 13 de agosto de 1863, chega a hora de despedir-se dos seus, pede perdão a cada coirmão pelas penas e maus exemplos. Do jeito que pode, repete: "Eu me alegrei, quando me disseram: iremos à casa do Senhor!..." Por volta das sete da manhã, aos 57 anos de idade, morre Irmão Benildo.
O alvoroço foi inevitável. Religiosas, ex-alunos desejavam despedir-se daquele a quem respeitavam como santo. Pela última vez podiam contemplar sua feições... Alguns já pediam relíquias, o que recebia apoio de um sacerdote idoso que dizia: "Fazeis bem em venerar os despojos do Irmão Benildo. Para mim é um santo que já se encontra no céu".  O corpo ficou exposto para visita até o dia 15, sendo enterrado neste dia.


Rumo ao túmulo, sinais de vitória!

Enquanto se dirigiam ao cemitério, várias pessoas iam ajuntando-se ao cortejo. Uma mulher que se encontrava doente, arrastando-se apoiada em muletas, até a porta percebe que ali vai o cortejo do Irmão Benildo e, murmurando, pede-lhe que interceda a Deus por sua saúde... Surpreendentemente deseja acompanhar o cortejo e eis que, largando as muletas, põe-se a andar normalmente.
Sua surpresa é tremenda ao perceber que está curada. Cheia de emoção, atira-se diante do caixão, gritando: "Milagre! Milagre! Estou curada!".  A inesperada notícia se espalha com rapidez. Para os que conheciam o Irmão Benildo esta é uma confirmação de suas suspeitas...

Outros sinais também aparecem. Em 1869, sete anos depois da morte do Irmão Benildo, em nosso Instituto havia 245 Irmãos naturais de Saugues, a maioria ex-alunos deste Irmão. A devoção ao Irmão Benildo é cada vez mais forte!



Afinal, o que de especial fez este Irmão?

Muitos diriam: nada de especial! E nisto todos estamos de acordo. Não escreveu brilhante obra, nem sofreu martírio, não fundou nenhuma congregação religiosa, tampouco foi enviado a cruzar o Oceano como missionário. Na verdade foi professor, jardineiro, cozinheiro, diretor de escola e de comunidade religiosa. E isto, tantos Irmãos fazem!... Mas não foi o que ele fez, foi o modo como fez. Todas as suas atividades estavam envolvidas de profundo zelo, dedicação, amor... Fazia tudo como se fosse a primeira e a última vez e nisto encontrou o caminho para a santidade. Se alguém duvida da validade deste caminho, experimente passar vinte anos na mesma atividade, no mesmo lugar, sem novidades, mas ainda assim doar-se generosa e alegremente, cada dia, até o fim, e no último dia ainda pedir perdão e reconhecer que poderia ter sido melhor.
Quase nada falamos sobre as características do Irmão Benildo, eis algumas: Desde pequeno possui um porte físico pequeno, um tanto desproporcional. Acrescente-se a isto uma perceptível curvatura, que também encontrava razão de ser no seu modo de caminhar, sempre cabisbaixo... Diz-se mesmo que ao andar pelas ruas continuamente se encontrava em oração, a ponto de não olhar nos olhos de alguém ou mesmo saudá-lo, as exceções eram seus alunos que normalmente o abraçavam e acompanhavam-no.
Possuía personalidade forte, mantinha-se sempre reservado, aparentava ser severo, mas aos poucos se mostrava alegre entre seus alunos e coirmãos.

Depois da Bíblia, seus livros preferidos eram: "Guia das Escolas" e "Explicação das Doze Virtudes do Bom Professor".
Era apaixonado pela música, estimulava seus coirmãos em sua aprendizagem, a ponto de comprar para cada um um instrumento musical... O seu instrumento musical preferido era o acordeão, de tal forma que foi proclamado pelos acordeonistas franceses seu Patrono.
São características de um santo, religioso dedicado, homem comum, assim como tantos. E isto para nós é motivo de alegria, também podemos chegar à santidade, mesmo sem grandes feitos! O convite está feito...


O difícil caminho rumo aos altares

Para quem conheceu Irmão Benildo não restava dúvida de que ele era um santo. Mas para a Igreja, não é bem assim não. São necessários milagres convincentes, provas, detalhes, nada pode pôr em risco este reconhecimento do Povo de Deus.
Outros tantos milagres foram realizados por intercessão do Irmão Benildo. Mas só em 1903 foi introduzida em Roma a causa de beatificação... Algo difícil e demorado. Como se não bastassem as dificuldades normais, foi levantada contra Irmão Benildo a acusação de haver dado um soco em um aluno. O Papa Pio XI já estava convencido a seu respeito, não duvidou da veracidade desta acusação, mas defendeu-o:
"Onde iríamos parar se os rapazes fizessem tudo o que desejassem?". Assim estava garantida a causa da beatificação.
No dia 6 de janeiro de 1928, Pio XI declara a heroicidade das virtudes do Irmão Benildo, podendo ser invocado como Venerável. E foi emocionante!
Eis alguns trechos do discurso de Pio XI: "Que fortaleza é necessária para defender-se deste cotidiano terrível, monótono, asfixiante!", "... a santidade não consiste nas coisas extraordinárias, mas nas comuns, feitas de modo incomum.", "Fez as coisas comuns de modo incomum".

Com a confirmação da Igreja, o número de devotos cada vez é maior... Sendo assim, no dia 4 de abril de 1948, o Papa Pio XII celebra sua Beatificação. E em 1967, mais de um século depois de sua morte, no dia 29 de outubro, o Beato Irmão Benildo foi canonizado por Paulo VI. Sua memória é celebrada no dia 13 de agosto.



(retirado do site Lassalista no Brasil)

domingo, 1 de novembro de 2015

O PURGATÓRIO E OS SANTOS




Muitos foram os santos devotados às almas do Purgatório e ao sufrágio das mesmas. Os mais "famosos" foram: Santa Margarida de Cortona e São Nicolau Tolentino. No entanto, nos tempos modernos, outros santos vieram ao mundo para voltar a lembrar à Igreja e aos fiéis a grande importância e necessidade de não esquecermos as almas do Purgatório que necessitam veementemente de nossas orações, devoções, preces, penitências e dos méritos de nossas obras para libertá-las ou ao  menos amenizar e abreviar seus os sofrimentos... 

A tradição litúrgica expôs, desde o início dos tempos, a existência de uma condição na qual as almas permanecem depois da morte e se purificam para poder alcançar em algum momento a glória plena. É o chamado “purgatório”, palavra que vem do latim “purgare” e é narrada no Catecismo da Igreja Católica como um estado intermediário no qual estão “os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas imperfeitamente purificados” (1030).

Esta purificação que aperfeiçoa a cura e libertação é uma realidade escatológica, verdade de fé, que foi proclamada desde os primeiros tempos do cristianismo, afirmada por santos, papas e pelo testemunho da própria Nossa Senhora em algumas das suas aparições.


Um “fogo de amor”

Bento XVI abordou este dogma de fé durante uma catequese de janeiro de 2011, na qual explicou que o purgatório não é tanto um “espaço”, mas um “fogo interior” que purifica a pessoa e a prepara para contemplar Deus.

Santa Catarina de Gênova
Naquela ocasião, Bento XVI recordou as palavras de Santa Catarina de Gênova, que, conta, em sua obra “Tratado do Purgatório”, uma revelação particular. É uma experiência mística na qual ela descreve que “a alma separada do corpo, quando se encontra naquela pureza em que foi criada, vendo-se com tal impedimento, que não pode ser eliminado a não ser por meio do purgatório, imediatamente se lança a ele, com toda a sua vontade”.

Com extraordinária precisão, esta mulher italiana do século XVI afirma: “Não acho que seja possível encontrar um contentamento comparável à de uma alma no purgatório, a não ser a dos santos no Paraíso. Este contentamento cresce cada dia pela influência de Deus nessas almas, e mais ainda na medida em que vão se consumindo os impedimentos que se opõem a esta influência”.


Doutrina de fé

A certeza do purgatório nasce na Bíblia e posteriormente os doutores da Igreja (Santo Agostinho, São Gregório Magno e São João Crisóstomo) formularam uma extensa e enriquecedor doutrina da fé. Tais abordagens sobre o purgatório foram respaldadas pelos sagrados concílios de Florença (1439) e Trento (1563). Mas também são confirmados por testemunhos de dezenas de pessoas, que expõem sua experiência sobre a existência de almas que buscam a comunhão com Deus.


Um destes valiosos tesouros vem de Santa Maria Faustina Kowalska, religiosa polonesa canonizada em 2001 pelo Papa São João Paulo II. Vivendo sua vocação na década de 30, ela foi testemunha de diversas aparições de Jesus na advocação da misericórdia. Foi o próprio Filho de Deus quem lhe revelou aquilo que a santa narra em seu diário de vida.

Faustina conta que, guiada pelo seu anjo da guarda, visitou o purgatório: “Encontrei-me num lugar enevoado, cheio de fogo, e, dentro deste, uma multidão de almas sofredoras. Essas almas rezavam com muito fervor, mas sem resultado para si mesmas; apenas nós podemos ajudá-las. (…) O maior sofrimento delas era a saudade de Deus. Vi Nossa Senhora que visitava as almas no Purgatório. As almas chamam a Maria ‘Estrela do Mar’. Ela lhes traz alívio. Meu anjo da guarda me fez um sinal para sair. Saímos dessa prisão de sofrimento. Ouvi uma voz interior que me disse: ‘Minha misericórdia não deseja isso, mas a justiça o exige’”.


O amigo do Padre Pio que esteve no purgatório

Frei Daniel Natale foi um sacerdote capuchinho italiano que se dedicou a missionar em terras hostis durante a II Guerra Mundial. Ele socorria os feridos, enterrava os mortos e salvava os objetos litúrgicos. Em meio a este cenário, em 1952, na clínica “Regina Elena”, ele recebeu o diagnóstico de câncer.

Com esta triste notícia, ele foi ver o Padre Pio, seu amigo e guia espiritual, quem lhe insistiu para que tratasse sua doença. Frei Daniele viajou a Roma e encontrou o médico que lhe haviam recomendado Dr. Riccardo Moretti. Este médico, no começo, não queria realizar a cirurgia, porque tinha certeza de que o paciente não sobreviveria. Mas, influenciado por um impulso interior, acabou aceitando o desafio.

A intervenção foi realizada no dia seguinte pela manhã. Apesar da anestesia local, Frei Daniel continuou consciente. Ele sentia dor, mas não manifestava: pelo contrário, estava contente por poder oferecer seu sofrimento a Jesus. Mas, ao mesmo tempo, ele tinha a sensação de que esta dor estava purificando sua alma dos pecados. Depois de algum tempo, ele sentiu que dormia. Para os médicos, ele havia entrado em coma, na qual permaneceu durante três dias, falecendo logo depois. Redigiram o atestado de óbito confirmado pelos médicos e seus familiares se aproximaram do seu leito para rezar pelo defunto. No entanto, após algumas horas, o “morto” voltou à vida.

Três horas de purgatório

O que será que aconteceu com Frei Daniel durante aquelas horas? Onde esteve sua alma? O frade relatou sua experiência no livro “Fra Daniele reconta”. Deste escrito, compartilhamos os seguintes trechos:

“Eu estava em pé diante do trono de Deus. Pude vê-lo, mas não como um juiz severo, e sim como um Pai carinhoso e cheio de amor. Então, percebi que o Senhor havia feito tudo por amor a mim, que havia cuidado de mim do primeiro ao último instante da minha vida, amando-me como se eu fosse a única criatura existente sobre esta terra. Percebi também, no entanto, que eu não só não havia correspondido a este imenso amor divino, senão que havia descuidado dele. Fui condenado a duas-três horas de purgatório.

‘Mas como? – perguntei-me. Somente duas-três horas? Depois vou permanecer para sempre junto a Deus, eterno amor?’. Dei um pulo de alegria e me senti como um filho predileto. (…) Eram dores terríveis, que não sei de onde vinham, mas se sentiam intensamente. Os sentidos que mais haviam ofendido Deus neste mundo: os olhos, a língua, sentiam maior dor e era algo incrível, porque no purgatório a pessoa sente como se tivesse o corpo e conhece, reconhece os outros como ocorre no mundo.

Enquanto isso, não haviam passado mais que uns poucos minutos dessas penas e já me pareciam uma eternidade. Então pensei em pedir a um irmão do meu convento que rezasse por mim, porque eu estava no purgatório. Esse irmão ficou impressionado, porque sentia a minha voz, mas não me via. Ele perguntava: ‘Onde você está? Por que não consigo vê-lo?’ (…) Só então percebi estar sem corpo. Contentei-me com insistir-lhe que rezasse muito por mim e fui embora.

‘Mas como? – dizia eu a mim mesmo. Não seriam só duas ou três horas de purgatório? Mas já se passaram 300 anos!’ – pelo menos esta era a minha impressão. De repente, a Bem-Aventurada Virgem Maria apareceu para mim e lhe supliquei, implorei, dizendo-lhe: ‘Ó Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, obtém para mim do Senhor a graça de retornar à terra para viver e agir somente por amor a Deus!’.

Percebi também a presença do Padre Pio e lhe supliquei: ‘Pelas suas dores atrozes, pelas suas benditas chagas, Padre Pio meu, reze por mim a Deus, para que me liberte destas chamas e me conceda continuar o purgatório sobre a terra’. Depois não vi mais nada, mas percebi que o Padre Pio conversava com Nossa Senhora (…). Ela inclinou a cabeça e sorriu para mim.

Naquele exato momento, recuperei a possessão do meu corpo. (…) Com um movimento brusco, me livrei do lençol que me cobria. (…) Os que estavam velando e rezando, assustadíssimos, correram para fora do quarto, para buscar os enfermeiros e médicos. Em poucos minutos, o hospital virou uma bagunça. Todos pensavam que eu era um fantasma.”.

No dia seguinte pela manhã, Frei Daniel se levantou sozinho da cama e se sentou em uma poltrona. Eram sete horas. Os médicos geralmente visitavam os pacientes às nove. Mas, neste dia, o Dr. Riccardo Moretti, o mesmo que havia redigido o atestado médico de óbito do Frei Daniel, havia chegada mais cedo ao hospital. Ele parou na frente do frade e, com lágrimas nos olhos, disse-lhe: “Sim, agora eu acredito em Deus e na Igreja, acredito no Padre Pio!”.


Frei Daniel teve a oportunidade de compartilhar sua dor com Cristo durante mais de 40 anos após estes acontecimentos. Ele faleceu em 06 de julho de 1994, aos 75 anos, na enfermaria do convento dos Irmãos Capuchinhos de San Giovanni Rotondo (Itália).

Em 2012, foi aberta sua causa de beatificação e hoje ele é considerado Servo de Deus.


(Artigo publicado originalmente por Porta Luz)