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sábado, 16 de janeiro de 2016

SÃO JERÔNIMO e sua resposta a um inimigo da veneração às relíquias dos Santos.


É “idolatria” honrar as relíquias dos mártires? Por que os católicos veneram os restos mortais dos santos? Confira a resposta contundente de São Jerônimo a um herege de sua época e descubra qual a verdadeira doutrina católica sobre as santas relíquias. Na resposta de São Jerônimo vemos que, às vezes, é necessário que usemos de sabedoria, mas, também de veemência, quando defendemos a doutrina da fé. 

Estamos no século V. Ainda não há eletricidade, ainda não se sabe da existência da América, ainda não se conhecem as universidades. Entretanto, o ser humano já possui um conhecimento muito maior e mais extraordinário que qualquer outro: "Verbum caro factum est – O Verbo se fez carne" (Jo 1, 14). Já há Igreja Católica, já existem Papa e bispos, sem falar de uma multidão de fiéis que, atraída pela verdade do Evangelho, segue a doutrina de Cristo e obedece aos legítimos pastores da Igreja [1].


Neste tempo, vale lembrar, ainda não há protestantismo. Ainda não há Lutero, não há Calvino, e nem sequer os iconoclastas começaram a quebrar imagens no Império Bizantino. Mesmo assim, uma questão perturba a mente de algumas pessoas: refere-se às "relíquias" dos santos. O termo relíquia vem do latim e significa "restos". O que acontece é que os restos mortais dos mártires – homens e mulheres que confessaram publicamente a sua fé em Jesus, até o ponto de morrerem por isso – são recolhidos pelo povo cristão e venerados publicamente na Igreja. Ossos e outros objetos ligados a eles são depositados em lugares sagrados, reverenciados e honrados como se as almas santas que animaram aqueles instrumentos ainda estivessem ali, vivas entre eles.

A pergunta que alguns fazem – e que os reformadores protestantes repetirão um milênio depois – é se a veneração daquelas relíquias não estaria desviando o foco de Cristo ou, para ser mais direto, não acabava constituindo uma espécie de "idolatria" ou "superstição" pagã. Afinal, tamanho apego a coisas materiais não seria uma ofensa à doutrina essencialmente espiritual ensinada por Jesus?

Cabe esclarecer que não são muitas as pessoas a fazer esse tipo de questionamento. De fato, a grande massa de cristãos não tem dúvidas a respeito da importância de custodiar e honrar os restos mortais dos santos. Uma epístola circular do martírio de São Policarpo de Esmirna, por exemplo, atesta que os ossos dos mártires são tidos pelos cristãos como "mais preciosos que as pedras de valor e mais estimados que o ouro puro" [2]. Isso ainda no século II, muito antes de Constantino conceder a liberdade de culto aos cristãos! Desde aqueles anos, a prática de venerar as relíquias dos mártires não pára de crescer, com a mesma rapidez que o Evangelho se vai impregnando nas mentes e nos corações dos homens.

São poucos os que contestam o culto das relíquias, mas o posto dos que coçam a cabeça não permite que sejam ignorados. – Há um presbítero falando mal das santas relíquias, e isso pode causar dano às almas! – Foi o que pensou São Jerônimo, ao levantar-se contra o herege Vigilâncio de Aquitânia, um clérigo que, entre muitos erros, defendia o fim do culto às relíquias e das vigílias nas basílicas dos mártires.
A resposta de Jerônimo a Vigilâncio – condensada em uma de suas epístolas [3] – é dura e incisiva, e pode até mesmo chocar os ouvidos mais frágeis. Poucos textos, porém, são tão claros e contundentes na exposição da doutrina católica a respeito da veneração aos santos.


Carta 109 (53) "Acceptis primum", a Ripário, presbítero de Aquitânia, c. ano 404
Informado de que Vigilâncio condenava tanto a veneração às relíquias dos mártires quanto as vigílias feitas diante de seus sepulcros, São Jerônimo como que trava combate nesta carta e se declara disposto a refutar estes erros, caso Ripário, seu destinatário, lhe envie os escritos de Vigilâncio.

1. Tendo recebido tuas cartas, ó Ripário, julgo que não as responder seria arrogância; e respondê-las, ao contrário, seria temeridade. Com efeito, as coisas que me perguntas não podem nem ouvir-se nem contar-se sem sacrilégio. Dizes, pois, que este tal Vigilâncio, a quem eu, com mais propriedade, chamaria “Dormitâncio” [4], voltou a abrir a boca suja para exalar contra as relíquias dos santos mártires o seu terrível mau cheiro: julgando-nos adoradores de ossos, ele nos chama cinerários [5] e idólatras. Oh! homem infeliz e digno de pena, que, ao dizer tais coisas, não percebe ser mais um samaritano e judeu, os quais, preferindo a letra que mata ao Espírito, que dá vida (cf. 2Cor 3, 6), consideram impuros não só os cadáveres, mas inclusive a mobília de suas casas.


Nós, ao contrário, recusamo-nos a adorar, não digo nem as relíquias dos mártires, mas nem sequer o sol, a lua ou os anjos, sejam arcanjos, querubins ou serafins, nem nenhum nome que possa haver quer neste mundo, quer no futuro (cf. Ef 1, 21), pois não podemos servir mais às criaturas do que ao Criador, que é bendito pelos séculos (cf. Rm 1, 25). Veneramos, todavia, as relíquias dos mártires, a fim de adorarmos Aquele de quem eles são mártires; honramos, sim, os servos, para que a honra prestada a eles recaia sobre o seu Senhor, que diz: "Quem vos recebe, a Mim recebe" (Mt 10, 40). São, portanto, impuras as relíquias de Pedro e Paulo? Quer dizer então que o corpo de Moisés, sepultado, como lemos, pelo próprio Senhor (cf. Dt 34, 6), não passa de imundície? Sendo assim, todas as vezes que entramos nas basílicas dos apóstolos e profetas, como também nas de todos os mártires, são ídolos o que ali veneramos? As velas acesas diante de seus túmulos são, enfim, sinais de idolatria? Farei uma só pergunta mais, que há de ou curar ou ensandecer de vez a cabeça insana deste autor, a fim de que as almas simples não se percam por causa de tamanhos sacrilégios. Acaso era imundo também o corpo do Senhor enquanto esteve no sepulcro? Os anjos, portanto, com vestes resplandecentes, vigiavam aquele cadáver "sórdido" para que, séculos mais tardes, o delirante Dormitâncio vomitasse esta porquice e, assim como o perseguidor Juliano, destruísse nossas igrejas, ou mesmo as convertesse em templos pagãos?

Relíquias dos Santos Mártires de Arjona

Relíquias do mártir São Valentim



2. Surpreende-me que o santo bispo em cuja paróquia, pelo que dizem, Vigilâncio é presbítero, concorde com esta loucura e nem com disciplina apostólica nem com disciplina férrea corrija esse vaso inútil "para a mortificação do seu corpo, a fim de que a sua alma seja salva" (1Cor 5, 5). Ele deveria lembrar-se do que dizem os Salmos: "Se vês um ladrão, te ajuntas a ele, e com adúlteros te associas" (Sl 49, 18); e noutra passagem: "Todos os dias extirparei da terra os ímpios, banindo da cidade do Senhor os que praticam o mal" (Sl 100, 8). E ainda: "Pois não hei de odiar, Senhor, os que vos odeiam? Os que se levantam contra vós, não hei de abominá-los? Eu os odeio com ódio mortal" (Sl 138, 21-22). Ora, se não se devem honrar as relíquias dos mártires, como então lemos: "Preciosa é à vista do Senhor a morte dos seus santos" (Sl 115, 6 [15])? Se, pois, os ossos dos defuntos tornam impuros os que os tocam, como o cadáver de Eliseu, que, segundo Vigilâncio, jazia imundo na sepultura, pôde trazer à vida outro corpo morto (cf. 2Rs 13, 21)? Logo, foram impuros todos os arraiais do exército de Israel e o próprio povo de Deus, já que, levando consigo pelo deserto os corpos de José e dos patriarcas, trouxeram à Terra Santa as cinzas dos mortos? Também José, deste modo, foi profanado, ele que, com grande pompa e cortejo, partira com a ossada de Jacó em direção a Hebron, unicamente para reunir os restos imundos de seus parentes, juntando um morto aos outros? Oh! deveriam os médicos cortar esta língua e pôr sob tratamento esta insanidade. Se ele [sc. Vigilâncio] não sabe falar, que aprenda ao menos a calar-se. Eu mesmo já tive ocasião de ver outrora este monstro e, servindo-me dos textos da Escritura como das amarras de Hipócrates, tentei conter o seu furor; mas ele, tomando o seu partido, preferiu fugir e refugiar-se entre as vagas do Adriático e os Alpes do rei Cócio [i. e. Alpes Cócios], donde pôde desfazer-se em injúrias contra nós. De fato, tudo quanto um tolo diz não é senão vociferação e barulho.

3. Tu talvez me repreendas em teu íntimo por haver-me dirigido nestes termos a quem não está presente para defender-se. Devo, contudo, confessar-te a minha dor. Não posso ouvir pacientemente tal sacrilégio. Eu li, pois, sobre a lança de Finéias (cf. Nm 25, 7); sobre a austeridade de Elias (cf. 1Rs 18, 40); sobre o zelo de Simão Cananeu; sobre a severidade de Pedro, cujas palavras prostraram a Ananias e Safira (cf. At 5, 5); sobre, enfim, a constância de Paulo, punindo com cegueira perpétua a Elimás, o Mago, que se opunha às vias do Senhor (cf. At 13, 8-11). Não há crueldade no ser temente a Deus. De fato, na própria Lei se diz: "Se o teu irmão, ou um teu amigo, ou a tua esposa te quiserem desviar da verdade, esteja a tua mão sobre eles, e tu lhes derramará o sangue, e tirarás o mal de Israel" (cf. Dt 13, 6-9). Pois bem, ó Vigilâncio, são imundas as relíquias dos mártires? Por que então trataram os Apóstolos de enterrar com grande dignidade o corpo "imundo" de Estevão? Por que fizeram a seu respeito um grande pranto (cf. At 8, 2), a fim de que a sua lamentação se tornasse a nossa alegria? Ora, não fosse isso o bastante, tu [sc. Ripário] também me dizes que ele despreza as vigílias. E vai nisto contra o próprio nome, como se Vigilâncio quisesse antes dormir do que ouvir o Senhor, que diz: "Então não pudestes vigiar uma hora comigo... Vigiai e orai para que não entreis em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca" (Mt 26, 40-41). E noutra passagem canta o profeta: "Em meio à noite levanto-me para vos louvar pelos vossos decretos cheios de justiça" (Sl 118, 62). Lemos também no Evangelho que o Senhor passava as noites orando a Deus (cf. Lc 6, 12) e que os Apóstolos, quando eram mantidos sob custódia, costumavam vigiar e entoar salmos a noite inteira, para que a terra estremecesse, o carcereiro se convertesse, o magistrado e a cidade se enchessem de horror (cf. At 16, 25-38). Paulo diz: "Sede perseverantes, sede vigilantes na oração" (Col 4, 2) e, noutro lugar, em "vigílias repetidas" (2Cor 11, 27). Que Vigilâncio durma, então, se assim lhe aprouver, e seja sufocado com os egípcios pelo exterminador do Egito (cf. Ex 11, 4-6). Nós, porém, digamos com Davi: "Não, não há de dormir, não há de adormecer o guarda de Israel" (Sl 120, 4), para que venha a nós o Santo Velador (cf. Dn 4, 10) [6]. Mas se porventura, devido aos nossos pecados, Ele adormecer, enquanto nossa barca se enche d'água, despertêmo-lO: "Levanta-Te, Senhor, como dormes?" e clamemos: "Senhor, salva-nos, nós perecemos" (Mt 8, 25).

4. Quisera eu poder escrever-te mais coisas, ó Ripário! Os limites de uma simples carta, porém, impõe-nos a modéstia do silêncio. De resto, tivesses tu nos enviado os livros de suas cantilenas, saberíamos em detalhe a que objeções poderíamos responder. Por ora, apenas golpeamos o ar (cf. 1Cor 9, 26) e demos a conhecer não tanto a infidelidade dele, que é manifesta a todos, quanto a nossa própria fé. Mas se desejares que discorramos com mais vagar a este respeito, envia-nos as suas lamúrias e tolices, para que afinal dê ouvidos à pregação de João Batista: "O machado já está posto à raiz das árvores: toda árvore que não produzir bons frutos será cortada e lançada ao fogo" (Mt 3, 10).



Referências
Cf. Catecismo de S. Pio X, n. 3: "Verdadeiro cristão é aquele que é batizado, crê e professa a doutrina cristã e obedece aos legítimos Pastores da Igreja."
De Martyrio Sancti Polycarpi, 18 (PG 5, 1043).
O original dessa epístola de São Jerônimo a Ripário está no volume 22 da Patrologia Latina, 906-909.
Um sarcástico jogo de palavras: Vigilâncio (Vigilantius), isto é, "aquele que está desperto"; Dormitâncio (Dormitantius), ou "o que dorme".
Assim eram pejorativamente chamados os cristãos dos primeiros séculos, por venerarem as cinzas e as relíquias de santos e mártires.

No original, lê-se: "[...] ut ad nos veniat et air, qui interpretatur vigil." Pode tratar-se de uma referência ao Espírito Santo. Os trechos precedente e seguinte, no entanto, dão a entender que é realmente de Nosso Senhor Jesus Cristo que São Jerônimo fala.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

SÃO DAMIÃO DE VEUSTER (ou de Molokai), Presbítero e Missionário entre os leprosos.


Com a presença do Rei Alberto II da Bélgica e de sua esposa, a rainha Paola Ruffo de Calábria, o Santo Padre Bento XVI canonizou o Pe. Damião de Veuster (ou de Molokai), Apóstolo dos Leprosos.
Nascido em Flandres, na Bélgica, o Pe. Damião abraçou a vida religiosa, tendo se radicado no Havaí onde, cumprindo a missão que lhe foi designada por seus superiores, exerceu frutífero ministério em uma colônia de leprosos, tornando-se também um deles.

"Adeus, mamãe; até o céu": tais foram as palavras de despedida do jovem religioso Damião de Veuster, ao aproveitar um transporte que inesperadamente surgiu no caminho que trilhava a pé após fazer uma peregrinação ao santuário mariano de Montaigu acompanhado de sua mãe e de uma cunhada. Era o início de sua viagem sem retorno para o longínquo Reino do Havaí.

Na verdade, quem deveria ir para o Havaí em missão religiosa era seu irmão mais velho Panfílio, que o precedeu ingressando na Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração ao Santíssimo Sacramento do Altar. A viagem de Panfílio fora cancelada por motivo de doença e assim Damião, que almejava ser missionário, aproveitou-se disso e pediu ao superior que o permitisse partir como substituto.


Nascimento, infância e adolescência

Seu nome de nascença era Jozef (carinhosamente reduzido para Jef, na intimidade), tendo vindo ao mundo em 03 de janeiro de 1840, em Tremelo, na região flamenga da Bélgica. Batizado no mesmo dia em que nasceu, era o penúltimo de uma série de oito filhos do casal Jan Frans e Catherine, que trabalhavam na área rural. A feliz família - da qual alguns membros demonstraram vocação religiosa - guardava respeitosamente os domingos e dias santos, nos quais nem mesmo a costura era permitida: missa pela manhã, vésperas à tarde, e também descanso e recolhimento. Às refeições a oração era conduzida pela zelosa mãe, em latim.

A vocação religiosa pouco a pouco desabrochava no pequeno Jef. Certa vez ele e seus irmãos Paulina e Augusto resolveram passar um dia inteiro em oração e penitência na solidão de um bosque, como anacoretas (nem mesmo lançaram mão do lanche que haviam levado). Mas foi na adolescência que o chamado tornou-se cada vez mais forte, apesar da vontade contrária de seus pais, a quem chegou a dizer: "deixem-me entrar no convento, ou Deus os castigará".


Recebe o hábito da Congregação dos Sagrados Corações

Aos dezoito anos a vocação religiosa já estava profundamente enraizada na sua alma. Em janeiro de 1859, acompanhando o pai em uma visita a seu irmão Augusto (que já ingressara na Congregação dos Sagrados Corações), em Louvain, foi deixado por algumas horas no convento enquanto o Sr. Franz tratava de outros assuntos na cidade, mas quando este passou pela casa religiosa para buscá-lo, Jozef pediu para ficar, pois isso evitaria a dor das despedidas no lar: a permissão foi então dada pelo pai, que já pressentia que isso iria acontecer. Em menos de dois meses recebeu o hábito religioso, passando a chamar-se Damião, iniciando assim o noviciado (que na ocasião se estendia por 18 meses). Logo demonstrou grande habilidade no aprendizado do latim (a se ressaltar: ele já houvera sido recusado em um seminário ao qual se dirigiu por sua própria iniciativa, sob alegação de ser rude e de desconhecer outros idiomas além do flamengo, sua língua natal).

Vivendo em ambiente religioso, surgiu em Damião a vocação para missionário, e passou ele a rezar diariamente nessa intenção junto à figura de São Francisco Xavier, apóstolo da Índia, pintada em uma janela. Posteriormente, quando ordenado presbítero, passou a usar as palavras "sacerdote missionário" após sua assinatura, hábito que manteve por toda a vida, assim definindo-se.


Os Sagrados Corações Protagonista de um simbólico funeral

Findo o noviciado, era o momento dos solenes votos perpétuos de pobreza, castidade e obediência. A cerimônia deu-se em 7 de outubro de 1860, na Casa principal da Congregação na Rua de Picpus, em Paris (endereço do qual os religiosos herdaram uma de suas designações populares: "padres de Picpus"). Após ouvir as palavras dirigidas pelo superior, Damião renunciou a qualquer propriedade pessoal, à constituição de família carnal, e aos seus destinos, com as seguintes palavras: "eu, Damião, seguindo as constituições, estatutos e regras aprovados e confirmados pela Santa Sé Apostólica, faço para sempre, entre vossas mãos, meu reverendíssimo Pai, voto de pobreza, de castidade e de obediência como irmão da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria, ao serviço dos quais quero viver e morrer. Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém". Teve então estendido sobre si um tecido mortuário sustentado por quatro religiosos professos, enquanto outros quatro portavam velas acesas caracterizando aquele momento como um enterro: era cantado o hino fúnebre Miserere, feita a aspersão do "defunto" com água benta, enquanto em voz baixa era recitado o Pai Nosso e algumas outras preces, ao fim das quais aquela "morte" era selada com a oração: "Deus eterno e todo poderoso, que ordenais que, mortos para o mundo, vivamos em Cristo, conduzi vossos servidores pelo caminho da salvação eterna; que suas vidas sejam escondidas em Cristo para que, recebendo-O de Vós, desejem o que Vos agrade e o cumpram com todas as suas forças", o que se seguia do alegre cântico do Te Deum, solene hino de ação de graças.


Mudança de rumo: sacerdote missionário no longínquo oriente

Ao contrário do irmão mais velho Panfílio, Damião não tinha inicialmente esperança de se tornar sacerdote: seus estudos secundários se reduziam a poucos meses, e só lhe sobravam duas opções: irmão converso e irmão de coro. Os irmãos conversos podiam partir em missões, sendo geralmente destinados a construções de capelas ou residências para os missionários, e os irmãos de coro atuavam como encarregados da capela e da sacristia do convento, e por vezes ajudavam em algumas atividades nas escolas da congregação. Mas os superiores perceberam ser Damião intelectualmente dotado, e assim o permitiram preparar-se para o sacerdócio, tendo cursado um ano de filosofia em Paris, quando também estudou latim e grego além de aprimorar o idioma francês; depois foi enviado de volta a Louvain, na Bélgica, para estudar teologia, o que fez por dois anos.

A dor pela doença que acometeu seu irmão Panfílio, destinado inicialmente a ser missionário no Havaí, logo se transformou para Damião em alegria, pois teve resposta afirmativa ao pedido de permissão para substituí-lo na feliz viagem que não conheceria retorno: após cinco meses singrando os mares, desembarcou o jovem religioso em Honolulu, capital do que então era um reino. O grupo era formado por um sacerdote, três clérigos, dois irmãos conversos, e dez irmãs. As irmãs ocupavam um compartimento ao lado do que foi destinado aos religiosos do sexo masculino, mas nenhuma comunicação era feita entre eles a não ser por intermédio do superior que os acompanhava, o Pe. Chrétien, detalhe que Damião fez questão de inserir em carta remetida aos pais durante a viagem.

Dormindo em beliches, os religiosos viajavam em um verdadeiro convento flutuante: havia momentos destinados às orações, aos estudos e às distrações, sob as ordens de um zeloso padre superior, e, quando o vento e o mar se acalmavam, era celebrada a Santa Missa a bordo. Em nenhum momento as perturbações orgânicas próprias às viagens marítimas foram motivo de queixas nas missivas que Damião remetia aos familiares, mas - ao contrário - suas palavras eram como essas: "em parte se deve a vossas fervorosas orações, queridíssimos pais, que tenhamos feito uma feliz travessia, pois vos asseguro que a Divina Providência nos protegeu visivelmente durante toda a nossa viagem; várias vezes, sobretudo nos lugares perigosos, sentimos o socorro de nosso divino Salvador, que prometeu permanecer sempre com seus apóstolos e seus missionários até o fim dos tempos". E a viagem marítima encerrou-se no dia da festividade de São José (19 de março de 1864), no porto de Honolulu: recebidos pelo superior da missão, Pe. Modesto Favens, os viajantes foram levados à catedral para a celebração de uma Missa, seguida de um Te Deum.

No Havaí, após breve passagem pelo subdiaconato e diaconato, Damião foi ordenado presbítero em 21 de maio do mesmo ano, na Catedral de Nossa Senhora da Paz. "Como eu tremia ao subir pela primeira vez ao altar - escreveu ao superior geral da Congregação - como estava emocionado meu coração ao dizer pela primeira vez ao Verbo que descesse às minhas mãos; que afetos então sobrenaturais e diferentes para mim ali se formavam ao distribuir, em minha primeira missa, o Pão da Vida a 150 ou 200 pessoas, das quais muitas provavelmente se haviam inclinado frequentemente ante seus antigos ídolos e que agora, totalmente vestidas de branco, se aproximavam com tanta modéstia e respeito à Santa Mesa".




Ministério sacerdotal no Havaí

Iniciou-se então a vida de sacerdote missionário para Damião, sob as ordens de seu superior religioso e do vigário apostólico (Pe. Modesto Favens e Mons. Louis-Desiré Maigret, respectivamente, ambos pertencentes à mesma família religiosa: Sagrados Corações). Poucos dias após ser ordenado, Pe. Damião foi enviado à Ilha Grande do arquipélago, onde passou a exercer o ministério. As distâncias que tinha de percorrer eram muito grandes, o que o levou a enfrentar dificuldades para a confissão frequente (chegou a apelar a um artigo da regra que proibia formalmente que um missionário estivesse só, em carta ao superior geral). Incansavelmente, ano após ano, construía capelas, além de distribuir os sacramentos, ensinar nas escolas, cuidar de doentes, pregar ao povo, e assim anunciar o Evangelho.

Em 04 de maio de 1873, em meio a outros irmãos, o vigário apostólico (Mons. Maigret, bispo) pediu voluntários para se revezarem dando assistência aos leprosos na ilha de Molokai: alguns se apresentaram, sendo o Pe. Damião escolhido para ser o primeiro de uma alternância que não ocorreu, pois o encargo tornou-se definitivo. Alguns meses depois dirá, em carta a um irmão: "tendo já passado sob o pano mortuário no dia de meus votos, acreditei ser meu dever oferecer-me a Sua Grandeza [o bispo], que não teve a crueldade, como ele dizia, de ordenar tal sacrifício". O próprio bispo (vigário apostólico), Mons. Maigret, acompanhou o novo pastor a Molokai, para apresentá-lo às ovelhas que a ele eram confiadas.

Leprosário insular

A lepra (hanseníase) surgira no Reino do Havaí em 1840, como consequência da imigração, sendo naquela época incurável, e considerada muito contagiosa. O isolamento era a única solução encontrada pelas autoridades para a terrível enfermidade que continuava a desafiar a medicina. Os leprosos - várias centenas - eram confinados na ilha de Molokai, a quinta em extensão territorial do arquipélago, mais precisamente em uma península envolvida pelo oceano e isolada do restante do território por uma barreira montanhosa íngreme. Os enfermos que ali moravam podiam ser acompanhados por parentes, mas isso era uma exceção, pois em sua maior parte eram abandonados e rejeitados. Havia medidas governamentais para apoio aos que ali estavam confinados, como a construção de um pequeno hospital, alimentos e algumas roupas, e a visita eventual de um médico, mas tudo era rudimentar e muito aquém das necessidades. Os óbitos eram frequentes - um a dois por dia - e o próprio Pe. Damião deu o exemplo, sepultando os cadáveres que por vezes não tinham o privilégio de gozar dessa atitude de respeito aos mortos.

Os habitantes dividam-se em dois povoados: Kalawao e Kalaupapa. As moradias eram em geral muito precárias, por vezes feitas com pedras ou vegetais (até mesmo de cana-de-açúcar), com cobertura de folhas. A promiscuidade entre os pobres leprosos imperava, sem distinção de idade ou sexo. Não se podia falar propriamente em higiene, pois a água era obtida de fontes longínquas, conduzida em toscos recipientes transportados nas mãos. Os maus odores exalados das feridas e dos dejetos eram especialmente nauseantes, sendo mesmo insuportáveis para um recém-chegado: o Pe. Damião chegou a deslocar-se rapidamente para fora de certos ambientes e assim evitar ocorrências mais desagradáveis que não poderia controlar, como se pode perceber nesse registro: "mais de uma vez, cumprindo junto a eles meus deveres sacerdotais, me vi forçado não somente a tampar as narinas mas inclusive correr para fora a fim de respirar ar puro". Escreveria ele, posteriormente, que o cachimbo que passou a usar atenuava em seu organismo os efeitos de tais emanações, pois o odor do tabaco, ao impregnar suas roupas, atuava como uma fragrância dissimulando as impregnações infectas.

Ao superior geral da congregação, o Pe. Damião escreveu em agosto de 1873: "eis-me aqui, reverendíssimo padre, em meio a meus queridos leprosos. São muito hediondos de ver, porém têm uma alma resgatada pelo preço do sangue adorável de nosso divino Salvador. Ele também, em Seu divino amor, consolou os leprosos. Se eu não os posso curar como Ele, ao menos os posso consolar, e pelo santo ministério que Sua bondade me confiou espero que muitos entre eles, purificados da lepra da alma, apresentem-se ao Seu tribunal em estado de entrar na sociedade dos bem-aventurados". Diz também que "acabo de fazer um pedido a Sua Grandeza [o bispo] para ampliar a capela. O odor infecto que emana de seus corpos e de suas feridas exigiria uma igreja grande para tornar o culto menos penoso. Algumas vezes me era difícil resistir durante a Santa Missa e no sermão. É como o ‘já cheira mal' de São Lázaro. Enfim: Nosso Senhor suportou isso, e eu também o posso. Oxalá pudesse conseguir, por esse sacrifício, a ressurreição espiritual dos que, entre eles, ainda não saíram da tumba do pecado para viver a vida de graça que o bom Deus a eles oferece todos os dias".

Mãos à obra

Várias capelas foram construídas por iniciativa do Pe. Damião, tendo ele constituído um coro e uma banda de música, que passaram a atuar convenientemente nas missas, nas procissões e nos funerais, e até mesmo nas recepções aos visitantes mais ilustres. Procurava demonstrar benquerença para com todos, participando de suas refeições, compartilhando seu cachimbo com outros homens, e até brincando com as crianças. Além disso, todos eram bem-vindos em sua casa. Mesmo antes de contrair a doença ali imperante, o Pe. Damião se inseriu entre eles, pois ao dirigir a palavra aos que ouviam suas homilias dizia: "nós, leprosos", mesmo sem saber que um dia tal expressão se tornaria real.

Em poucos anos o Pe. Damião fez florescer uma autêntica comunidade, bem oposta ao que encontrou quando chegou àquele "cemitério vivo": os moradores constituíam, quando ele ali aportou, uma verdadeira selva humana. Eis suas palavras extraídas de um relatório escrito em 1886: "à chegada dos novos leprosos, os antigos se apressavam a incutir neles a falsa máxima de que ‘neste lugar já não há lei'. Durante muito tempo me vi obrigado a combatê-la, vendo que se aplicava o mesmo às leis humanas e às divinas. Em consequência dessa teoria ímpia, a maioria dos solteiros, e dos casados que estavam separados de seus cônjuges pela lepra, viviam amontoados sem distinção de sexo. Muitas mulheres eram obrigadas a prostituir-se para conseguir amigos que as ajudassem durante sua doença. As crianças, quando fortes, eram empregadas como serventes. E quando a lepra havia progredido, tais mulheres e crianças eram expulsas da casa para buscar um abrigo em qualquer lugar. Não era raro encontrá-las atrás de uma cerca esperando que a chegada da morte viesse pôr fim a seus sofrimentos, ou que uma mão compassiva ou contratada os transportasse ao hospital". Acrescenta o Pe. Damião, no mesmo documento: "como muitos leprosos morriam, meu dever sacerdotal me oferecia amiúde a ocasião de visitá-los em suas cabanas e, ainda que minhas exortações se dirigissem principalmente aos moribundos, balançavam frequentemente as orelhas dos pecadores públicos, os quais pouco a pouco tomaram conhecimento das consequências de suas más condutas e começavam a se arrepender. A esperança do perdão de um Salvador misericordioso começava a reforma de sua má vida (...). Um meio dos mais eficazes para destruir a imoralidade tem sido a permissão para casar-se, dada aos leprosos não impedidos por um matrimonio anterior (...). Uma grande bondade para com todos, um terno amor para com os necessitados, uma doce compaixão para com os doentes e moribundos, juntamente com uma sólida pregação a meus ouvintes, esse tem sido o procedimento constante do qual me tenho servido para introduzir os bons costumes entre os leprosos".


Pintura feita por um amigo retratando o padre
com lesões de hanseníase. 
Sofrimentos

Um sofrimento que particularmente atormentou o Pe. Damião foi a dificuldade para fazer a confissão frequente. Nos cinco primeiros anos o isolamento da colônia de leprosos era total, por ordem do governo. Por ocasião de uma visita do superior provincial - o Pe. Modesto Favens - este foi impedido de desembarcar, limitando-se a se inclinar sobre a amurada do navio para ouvir as acusações do rigoroso penitente que se aproximara em uma canoa, feitas em voz alta por estar proibido de subir a bordo a fim de evitar contágio.

Os anos se passaram em meio a frutífero apostolado, mas o sacrifício foi aceito: a hanseníase tomou pouco a pouco o robusto organismo do Pe. Damião. Manchas foram surgindo na pele, tumorações foram se desenvolvendo em várias partes do corpo, a sensibilidade começou a desaparecer, mas naquela época o diagnóstico médico não era tão fácil e rápido como nos dias atuais. A certeza surgiu em janeiro de 1885 quando, após uma fatigante caminhada para o exercício do ministério, pôs o pé em uma vasilha contendo água escaldante pensando ser morna, e não sentiu incômodo algum: perdera a sensibilidade térmica, o que indicava estar leproso. Aos familiares, diz que "trato de levar minha cruz com alegria, como Nosso Senhor Jesus Cristo". Ao Pe. Léonor Fuesnel, então seu superior provincial, o Pe. Damião faz um pedido: "pois bem, meu reverendo padre, já não tenho dúvidas, sou leproso; que o bom Deus seja bendito! Não tenha muita pena de mim, pois estou perfeitamente resignado com minha sorte. Não peço mais que uma graça: suplicai a nosso Muito Reverendo Padre que envie algum [sacerdote] que possa uma vez ao mês descer até nossa tumba para confessar-me e, no restante do tempo, ocupar-se das capelas do outro lado da ilha, onde não há doentes".

Em uma carta dirigida a um escritor que visitara aquela colônia de leprosos, o Pe. Damião escreveu em outubro de 1885: "Desde o mês de março passado meu correligionário, o Pe. Alberto, deixou Molokai e o arquipélago para regressar a Tahiti. Desde então sou o único sacerdote em Molokai e tenho a fama de estar atacado eu próprio pela terrível doença. Os micróbios da lepra se instalaram finalmente na minha perna esquerda e na orelha. Minhas pálpebras começam a cair. Me é impossível viajar a Honolulu, pois a lepra se faz visível. Logo minha figura ficará deteriorada, suponho. Estando certo de que a doença é real, permaneço tranquilo e resignado, e até sou mais feliz entre as pessoas aqui. O bom Deus sabe o que é melhor para minha santificação, e nesta convicção digo todos os dias um bom 'fiat voluntuas tua' [seja feita a tua vontade]. Tenha a bondade de rezar por este seu amigo provado e recomendar-me, assim como aos meus desventurados leprosos, a todos os servidores de Deus".

Tendo a notícia de sua doença se espalhado por todo o arquipélago, o Pe. Damião teve de enfrentar uma prova que lhe foi um sofrimento atroz: seus superiores se opuseram categoricamente a que viajasse à capital, Honolulu, por qualquer motivo que fosse, inclusive para a confissão sacramental. Sua chegada seria suficiente para espantar os fiéis das capelas da missão, pensavam. O aflito sacerdote missionário deixou extravasar um pouco de sua tristeza em uma carta ao Pe. Léonor Fouesnel (superior provincial que tratava o Pe. Damião com incompreensão e hostilidade): "a negativa absoluta expressa em um tom de autoridade policial, mais que em tom de superior religioso, e feita em nome do bispo e do ministro como se a missão estivesse posta em quarentena, me causou - asseguro-o sinceramente - mais dor do que tudo o que tive de sofrer desde a infância. Respondi com um ato de submissão absoluta em virtude de meu voto de obediência. Continuo estando em paz (...). Sempre resignado à santa vontade do bom Deus em nossos sofrimentos cada vez mais lancinantes, sejamos, Monsenhor, mortui in Christo... vitae nostrae sint absconditae in Deo - mortos em Cristo e que nossas vidas estejam escondidas em Deus".


São Damião já gravemente afetado pela
hanseníase. 
A Eucaristia, seu alimento

O Pe. Damião era um entusiasta da sagrada Eucaristia. Afinal, a Adoração Eucarística fazia parte do espírito da congregação em que ingressara, e nas viagens pelas regiões entregues a seus cuidados ele lamentava não ter, por vezes, o Santíssimo Sacramento para junto a Ele apresentar suas preces, suas confidências, seus anseios. Em carta ao Pe. Alberto Montiton, seu grande amigo que se transferira de Molokai para Thaiti, se lê: "Vossa carta de 14 de março veio cicatrizar um pouco a profunda ferida no coração que vossa partida me havia causado. As lágrimas que eu então vertia eram perfeita expressão de minha dor pela perda e meu pressentimento da penosa e excepcional situação na qual ia passar o resto de meus dias. De fato, meu querido padre, desde que perdi em vós um bom companheiro neste triste leprosário, não tenho tido mais que a visita momentânea de um irmão cada dois ou três meses. Ademais, a terrível doença, cujo começo conheceis, faz progressos espantosos e ameaça impedir-me, talvez logo, de celebrar a Santa Missa e, não tendo outro sacerdote, eu me veria privado da santa comunhão e do santo sacramento. Tal privação é a que mais me custará e que tornará insuportável minha situação. Não é a doença e os sofrimentos o que me desencoraja; longe disso. Até aqui me sinto feliz e contente e, se me fosse dada a oportunidade de sair daqui em boa saúde, diria sem titubear: fico com meus leprosos" (maio de 1886).


Distinguido pelas autoridades

Apesar dos vários meses em que permanecera em uma verdadeira prisão - pois esteve preso pela sagrada obediência, cárcere sem grades ou cadeias, porém mais encarcerante do que os que as têm - pôde o Pe. Damião experimentar algum consolo: foi-lhe permitida a viagem a Honolulu sem cometer desobediência ou incorrer em censuras. Pelo contrário: recebeu a visita do próprio Rei do Havaí, Kalakaua I, de seu primeiro ministro Walter M. Gibson, e do bispo Mons. Bernard Hermann Koeckemann.

Em setembro de 1881 a princesa havaiana Lydia Liliuokalani havia visitado os leprosos em Molokai, e ficou tão comovida com a miserável situação em que se encontravam imersos associada à extrema dedicação do sacerdote missionário que não conseguiu pronunciar o discurso que havia preparado, cujo texto tinha às mãos. Retornando a Honolulu solicitou que o esforçado padre fosse investido como Comandante Cavaleiro da Real Ordem de Kalakaua, honraria que a ele foi então concedida pelo soberano reinante em reconhecimento aos seus "esforços no alívio dos sofrimentos e na mitigação das dores dos infelizes", sendo humildemente aceita e considerada como uma atenção dada a seus leprosos. A insígnia era uma medalha com a Cruz da Real Ordem de Kalakaua. Anos depois, em meio aos sofrimentos finais de sua enfermidade, o Pe. Damião salientou: "o Senhor me condecorou com sua cruz particular: a lepra".


São Damião há poucos dias da morte. 



Trabalhando até ser abatido pela doença

Apesar da progressão da doença, o Pe. Damião a ela não se entregou: ao contrário, continuou a ministrar os sacramentos, a visitar os enfermos, a consolar os que estavam tristes, a pregar o Evangelho. Em 19 de março de 1889 completou 25 anos de ordenação presbiteral, porém no dia 28 do mesmo mês prostrou-se em seu leito para não mais o deixar, pois seu estado de saúde se agravou. Fez uma confissão geral ao Pe. Wendelin Moellers, que o assistiu, o qual em seguida confessou-se ao santo homem que ali jazia, e em seguida ambos renovaram os votos religiosos. Esse sacerdote foi encarregado pelo Pe. Damião de dizer ao superior geral que seu "mais doce consolo nesses momentos era morrer membro da Congregação dos Sagrados Corações".

Em 15 de abril de 1889, após quase 16 anos entre os leprosos de Molokai e tendo-se tornado um deles, o Pe. Damião partiu para a eternidade. Contava apenas 49 anos, mas a aparência lhe atribuía idade muito superior. Foi sepultado no cemitério da comunidade em que vivia, mas em 1936 seus restos mortais retornaram à Bélgica, sendo postos em um jazigo na igreja dos Sagrados Corações, em Louvain. Por ocasião da beatificação (feita por João Paulo II em 1995) os ossos de sua mão direita - que tanto batizou, ungiu, consagrou, abençoou - retornaram ao Havaí.



São Damião de Veuster e Santa Mariana Cope. 


Honrado, distinguido e venerado não só pelos católicos

A veneração e o respeito ao Pe. Damião de Molokai não se restringem à Igreja Católica: diversas confissões não católicas viram nele altíssimas qualidades, e ainda em vida ele foi distinguido com a admiração e o apoio (inclusive financeiro) advindos de agremiações não alinhadas com as convicções pelas quais o sacerdote missionário viveu e morreu. Uma detalhada carta aberta foi dirigida pelo escritor Robert Louis Stevenson a um ministro da religião por ele seguida, em firme e fundamentada defesa da memória do recém-falecido Pe. Damião, vítima de críticas destrutivas que visavam a Santa Igreja através de seu dedicado servo.

Disse Mahatma Ghandi: "Se a assistência aos leprosos é tão cara ao coração dos missionários católicos, isso se deve ao fato de que nenhuma obra exige, como ela, um espírito de sacrifício. Ela exige o mais elevado ideal, a mais perfeita abnegação. O mundo político e jornalístico não tem heróis os quais possa glorificar e que sejam comparáveis ao Pe. Damião de Molokai. A Igreja tem entre os seus milhares de pessoas que, como ele, sacrificaram sua vida em serviço dos leprosos. Valeria a pena pesquisar em qual fonte tal heroísmo se alimenta".
O sacerdote missionário em 11 de outubro de 2009 passou a ser chamado São Damião de Molokai, canonizado pelo Papa Bento XVI em presença do rei e da rainha da Bélgica em meio à imensa alegria dos irmãos e irmãs da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria e da Adoração Perpétua ao Santíssimo Sacramento do Altar espalhados pelo mundo.



PRINCIPAIS FONTES:
Le Père Damien de Molokai, apôtre des lépreux (Édouard Brion, versão chilena em espanhol intitulada El Camino de Damián traduzida pelo Pe. Fabián Pérez del Valle SS.CC., Santiago do Chile, maio de 2000)
La canonisation du Père Damien de Veuster (Bernard Couronne, André Lerenard e Christian Malrieu, Montgeron, França)


Site da Congregação dos Sagrados Corações (www.ssccpicpus.com)


terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Servo de Deus Francisco Xavier Nguyên Van Thuân, Cardeal e Testemunha Heroica de Fé.



Phanxicô Xaviê Nguyễn Văn Thuận, mais conhecido como François-Xavier Nguyên Van Thuân (Phu Cam, Huế, 17 de abril de 1928 — Roma, 16 de setembro de 2002), foi um bispo e cardeal Vietnamita da Igreja Católica.

Nasceu numa família que contava oito filhos. Vinha de uma família que contava com numerosos mártires da fé. Sua mãe, todas as noites, contava-lhe histórias bíblicas e narrava-lhe testemunhos de mártires, especialmente de seus antepassados.



Fez seus estudos no seminário menor e depois no seminário maior e foi ordenado sacerdote católico em 11 de junho de 1953. Continuou os seus estudos em Roma onde se formou em Direito Canônico. Retornando ao Vietnam foi encarregado da formação dos padres da sua diocese como reitor e professor do seminário e, em 24 de junho de 1967 foi nomeado bispo da Diocese de Nha Trang, no centro do Vietnam, diocese pela qual sempre confessou predileção.

 

Oito anos depois, o Papa Paulo VI o nomeou arcebispo coadjutor de Saigon. Ardoroso animador dos leigos e jovens, prepara-os para participarem dos conselhos pastorais.

Văn Thuận, que presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz, deu início à publicação do Compêndio da Doutrina Social da Igreja publicado em 2004.


Prisão do arcebispo
Em 1975 foi nomeado pelo Papa Beato Paulo VI arcebispo coadjutor de Saigon. Sua nomeação foi recusada pelo governo comunista, que no dia 15 de agosto de 1975 – dia de Nossa Senhora da Assunção – o convoca ao palácio do governo e, após, o coloca em prisão domiciliar. Posteriormente, foi preso por treze anos. Em 1976 esteve no cárcere da prisão de Phu Khanh, após foi conduzido ao campo de reeducação de Vinh Phu no Vietnam do Norte, após em prisão domiciliar em Giang Xa e finalmente em Hanoi. Foi libertado em 21 de novembro de 1988 e conduzido à residência do arcebispo de Hanói.

Sobre a sua prisão pelo regime comunista disse: "Disseram-me que minha nomeação era fruto de um complô entre o Vaticano e os imperialistas para organizar a luta contra o regime comunista", contava Văn Thuận.

Rumo à prisão, tomou uma decisão:
Vieram-lhe à mente muitos pensamentos confusos: tristeza, abandono, cansaço depois de três meses de tensões… Porém, em sua mente surgiu claramente uma palavra que dispersou toda a escuridão, a palavra que Monsenhor John Walsh, Bispo missionário na China, pronunciou quando foi libertado depois de doze anos de cativeiro: ‘Passei a metade da minha vida esperando’. É verdadeiríssimo: todos os prisioneiros, inclusive eu, esperam a cada minuto sua libertação. Porém, depois decidiu: ‘Eu não esperarei. Vou viver o momento presente, enchendo-o de amor.

De fato, foi o que fez: amou, amou, amou. As condições não eram favoráveis. Durante alguns meses esteve confinado numa cela minúscula, sem janela, úmida, que para respirar passava horas com o rosto enfiado num pequeno buraco no chão. A cama era coberta de fungos.

Os nove primeiros anos foram terríveis: "uma tortura mental, no vazio absoluto, sem trabalho, caminhando dentro da cela desde a manhã às nove e meia da noite para não ser destruído pela artrose, no limite da loucura".

Buscava conversar com os carcereiros, que resistiam, mas logo eram seduzidos por sua gentileza e inteligência. Contava-lhes sobre países e culturas diferentes. Isso chamava sua atenção e instigava a curiosidade. Logo começavam a fazer perguntas, o diálogo se estabelecia, a amizade se enraizava. Chegou a dar aulas de inglês e francês.

No começo, a cada semana os guardas eram substituídos, mas logo as autoridades, para evitar que o exército todo fosse "contaminado", deixou uma dupla de carcereiros fixa. Estes se espantavam de como o prisioneiro pudesse chamar de amigos os seus carcereiros, mas ele afirmava que os amava porque esse era o ensinamento de Jesus.



"O Caminho da Esperança"
Como o amor é criativo, Văn Thuận encontrou também um jeito de se comunicar com seu rebanho:

Em outubro de 1975, fiz um sinal a um menino de sete anos, Quang, que regressava da Missa às 5 horas, ainda escuro: ‘Diz à tua mãe que me compre blocos velhos de calendários’. Mais tarde, também na escuridão, Quang me traz os calendários, e em todas as noites de outubro e novembro de 1975 escrevi da prisão minha mensagem ao meu povo. Cada manhã o menino vinha recolher as folhas para levá-las à sua casa e fazer que seus irmãos e irmãs copiassem-na”.

Assim foi escrito o livro "O Caminho da Esperança", posteriormente publicado em oito idiomas: vietnamita, inglês, francês, italiano, alemão, espanhol, coreano e chinês.

Em 1980, na residência obrigatória de Giang-xá, no norte do Vietnam, sempre de noite e em segredo, escreveu seu segundo livro: "“ O caminho da esperança à luz da Palavra de Deus e do Concílio Vaticano II""; depois o terceiro livro: "“ Os peregrinos do caminho da esperança “".

Sempre inspirado pela criatividade amorosa, Văn Thuận escreveu uma carta aos amigos pedindo que enviassem um pouco de vinho, como remédio para doenças estomacais. Assim, a cada dia, três gotas de vinho e uma de água eram suficientes para trazer "Jesus eucarístico" à prisão. Os pedacinhos de pão consagrado eram conservados em papel de cigarro, guardado no bolso com reverência. De madrugada, ele e os poucos católicos detidos ali davam um jeito de adorar o Senhor escondido com eles.




Um dia, enquanto trabalhava de lenhador, Văn Thuận pediu ao amigo carcereiro: "Queria cortar um pedaço de madeira em forma de cruz… Feche os olhos, farei agora e serei muito cauteloso. Você vai andando e me deixa só". Assim, conseguiu como companheira aquela rústica cruz feita por ele mesmo.

Para completar sua obra, pediu: "Amigo, você me consegue um pedaço de fio elétrico?" Este ficou espantado, sabia que quando prisioneiros conseguem fios, suicidam. Mas, Văn Thuận explicou: "Queria fazer uma correntinha para levar minha cruz." Saindo da prisão, com uma moldura de metal, aquele pedaço de madeira tornou-se sua cruz peitoral (vide foto acima).

Cardeal Văn Thuận foi libertado no dia 21 de novembro de 1988. Em setembro de 1991 deixou o Vietnam e foi para Roma, onde presidiu o Pontifício Conselho Justiça e Paz. Tão logo chegou a Roma foi-lhe dado conhecimento que o governo do Vietnam não desejava o seu retorno ao país.

Em 1994 foi nomeado vice-presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz e em 1995 foi nomeado postulador da Causa de beatificação de Marcel Van.

Cardinalato
João Paulo II pediu-lhe que lhe pregasse o retiro espiritual da quaresma e à cúria romana no ano de 2000. Escreveu mais um livro: "Testemunhas da esperança" (Retiro ministrado ao papa São João Paulo II e a cúria romana pela passagem do Jubileu do Ano 2000) no qual relata sua experiência de prisioneiro. Fazia questão de dizer que não se trata de um livro para fazer denúncias, mas testemunhar o dom da esperança.


Em 21 de fevereiro de 2001 foi escolhido como cardeal pelo Papa São João Paulo II; o cardeal Văn Thuận foi levado em 16 de setembro de 2002 ao hospital romano Pio XI, padecendo de câncer, na idade de 74 anos, faleceu no dia 17 de setembro de 2002.[1] Seus funerais foram presididos pelo Papa São João Paulo II na basílica vaticana em 20 de setembro de 2002.[2]

 


Beatificação
Em 18 de abril de 2007, monsenhor Giampaolo Crepaldi, secretário do Pontifício Conselho Justiça e Paz anunciou a abertura da causa de beatificação do cardeal François-Xavier Nguyên Văn Thuận.

No dia 17 de setembro de 2007 o Papa recebeu os integrantes do Pontifício Conselho Justiça e Paz por ocasião do V aniversário da morte de Cardeal Văn Thuận cuja causa de beatificação se havia acabado de abrir. Cardeal Renato Raffaele Martino nomeou a advogada Silvia Mônica Correale como postuladora do processo de beatificação. No dia 26 de janeiro de 2011 o cardeal Turkson, presidente do Pontifício Conselho Justiça e Paz, nomeou como novo postulador o Dr. Waldery Hilgeman.

Citações
Bento XVI falando sobre ele destacou a sua "cordialidade e capacidade que tinha de dialogar e de fazer-se próximo de todos; (…) seu fervoroso compromisso na difusão da doutrina social da Igreja entre os pobres do mundo, o anelo pela evangelização no seu continente, Ásia, a capacidade que tinha de coordenar as atividades de caridade e de promoção humana que promovia e sustentava nos lugares mais longínquos da terra".

Disse ainda que: “era um homem de esperança, vivia de esperança e a difundia entre todos os que encontrava”. Graças a esta energia espiritual resistiu a todas as dificuldades físicas e morais. A esperança o sustentou como bispo isolado durante treze anos de sua comunidade diocesana; a esperança o ajudou a perceber o absurdo dos eventos que lhe sucederam - nunca foi processado durante sua longa detenção - um desígnio providencial de Deus.
Em 30 de novembro de 2007, comentando a sua encíclica Spe salvi, o Papa Bento XVI voltou a se referir a ele como exemplo de como a oração é modelo de esperança:

"Há outro testemunho de que, em uma situação de "desespero aparentemente total", a escuta de Deus e poder falar com ele foi uma força crescente de esperança: trata-se do servo de Deus, o cardeal vietnamita François-Xavier Nguyên Văn Thuận (1928-2002), uma figura inesquecível."

"Treze anos nas prisões vietnamitas; deles, nove em isolamento: sua experiência de esperança, graças à oração, "lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha da esperança, daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão"


Obras publicadas (em francês)

Une vie d'espérance Vie de François-Xavier Nguyen Van Thuan André Nguyen Van Chau (2007, édition du Jubilé) ISBN 9782866794446
365 jours d'espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (2005, édition du Jubilé) ISBN 286679351X
Prières d'espérances, Nguyen van Thuan François-Xavier (1995, édition du Jubilé) ISBN 2866791878
À la lumière de la Parole de Dieu et du Concile, Nguyen van Thuan François-Xavier (1994, édition du Jubilé) ISBN 2866791320
Les pèlerins du chemin de l'Espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (1993, édition du Jubilé) ISBN 2866791274
Sur le chemin de l'Espérance, Nguyen van Thuan François-Xavier (1991, édition du Jubilé) ISBN 2866790731




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SANTA MISSA DE EXÉQUIAS
DO CARDEAL FRANÇOIS-XAVIER NGUYÊN VAN THUÂN
HOMILIA DO PAPA JOÃO PAULO II
Sexta-feira, 20 de Setembro de 2002

1. "A sua esperança está repleta de imortalidade" (cf. Sb 3, 4).
Estas consoladoras palavras do Livro da Sabedoria convidam-nos a elevar, à luz da esperança, a nossa oração de sufrágio pela alma eleita do saudoso Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân, que levou toda a sua vida precisamente sob o sinal da esperança.
Sem dúvida, a sua morte amargura todos quantos o conheceram e amaram: os seus familiares, em particular a sua mãe, a quem renovo a expressão da minha afectuosa proximidade. Em seguida, penso na querida Igreja que está no Vietname, que o gerou para a fé; e penso inclusivamente em todo o povo vietnamita, que o venerando Purpurado recordou de maneira expressa no testamento espiritual, afirmando que sempre o amou. Chora a morte do Cardeal a Santa Sé, a cujo serviço ele dedicou os seus últimos anos, primeiro como Vice-Presidente e depois como Presidente do Pontifício Conselho "Justiça e Paz".
Também neste momento parece que ele está a dirigir a todos o seu persuasivo convite à esperança. Quando durante o ano de 2000, lhe pedi que preparasse as meditações para os Exercícios Espirituais da Cúria Romana, ele escolheu como tema: "Testemunhas da esperança".
Agora que o Senhor o provou "como o ouro no cadinho" e o julgou agradável "como um holocausto", podemos verdadeiramente dizer que "a sua esperança estava repleta de imortalidade" (cf. Sb 3, 4.6). Ou seja, estava cheia de Cristo, vida e ressurreição daqueles que nele confiam.
2. Espera em Deus! Foi com este convite a confiar no Senhor, que o estimado Purpurado deu início às meditações dos Exercícios Espirituais. As suas exortações ficaram impressas na minha memória, em virtude da profundidade das suas reflexões, enriquecidas com contínuas recordações pessoais, em grande parte relativas aos treze anos que foi obrigado a passar na prisão. Ele narrava que, precisamente no cárcere, tinha compreendido que o fundamento da vida cristã consiste em "escolher unicamente a Deus", abandonando-se de maneira integral nas suas mãos paternas.
À luz da sua experiência pessoal, ele acrescentava que nós somos chamados a anunciar a todas as pessoas o "Evangelho da Esperança"; em seguida, especificava: somente com a radicalidade do sacrifício é possível cumprir esta vocação, apesar da subsistência das provações mais duras.
Depois, dizia que "valorizar cada uma das dores, como um dos inúmeros rostos de Jesus crucificado, e uni-lo ao seu significa entrar na sua própria dinâmica de sofrimento-amor; quer dizer participar na sua luz, na sua força e na sua paz; significa voltar a encontrar em nós mesmos uma renovada e mais completa presença de Deus" (Testimoni della Speranza, Roma 2001, pág. 124).
3. Poderíamos perguntar de onde é que ele tirava a paciência e a coragem, que sempre o caracterizaram. A este propósito, ele confessava que a sua vocação sacerdotal estava vinculada de maneira misteriosa mas concreta ao sangue dos mártires que morreram durante o século passado, enquanto anunciavam o Evangelho no Vietnam. Com efeito, ele observava que "os mártires nos ensinaram a dizer "sim": um "sim" incondicional e sem limites ao amor do Senhor; todavia, também um "não" às tentações, às conivências e à injustiça, talvez com a finalidade de salvar a sua própria vida" (Ibid., pp. 139-140). E o Purpurado acrescentava que não se tratava de heroísmo, mas de fidelidade amadurecida, voltando o olhar para Jesus, modelo de cada testemunha e de todos os mártires. Uma herança a ser acolhida em cada dia, ao longo de uma vida cheia de amor e de mansidão.
4. Enquanto damos o nosso derradeiro adeus a este heróico arauto do Evangelho de Cristo, damos graças ao Senhor por nos ter concedido, nele, um luminoso exemplo de coerência cristã, até ao martírio. Assim, foi com impressionante simplicidade ele que ele fez a seguinte afirmação sobre si mesmo: "No abismo dos meus sofrimentos... jamais cessei de amar a todos, sem excluir ninguém do meu coração" (Ibid., pág. 124).
O seu segredo era uma confiança indómita em Deus, alimentada pela oração e pelo sofrimento aceite com amor. Na prisão, ele celebrava em cada dia a Eucaristia com três gotas de vinho e uma gota de água na palma da sua mão. Este era o seu altar, a sua catedral. O Corpo de Cristo era o seu "remédio". Por isso, narrava com emoção: "Todas as vezes eu tinha a oportunidade de estender as minhas mãos e de me cravar na Cruz juntamente com Jesus, de beber com Ele o cálice mais amargo. Em cada dia, recitando as palavras da consagração, eu confirmava com todo o meu coração e com toda a minha alma um novo pacto, uma aliança eterna entre mim e Jesus, mediante o seu Sangue que se misturava ao meu" (Ibid., pág. 168).
5. "Mihi vivere Christus est!" (Fl 1, 21). Fiel até à morte, o Cardeal François-Xavier Nguyên Van Thuân, fez sua a expressão do Apóstolo Paulo, que acabámos de escutar. Ele conservou a serenidade e até mesmo a alegria, durante a sua prolongada e dolorosa hospitalização. Nos últimos dias, quando já era incapaz de falar, permanecia com o olhar fixo no Crucifixo posto à sua frente.
Rezava em silêncio, enquanto consumava o seu extremo sacrifício, como coroação de uma existência assinalada pela heróica configuração com Cristo na Cruz. Bem se lhe adaptam as palavras proclamadas por Jesus, na iminência da sua Páscoa: "Se o grão de trigo não cai na terra e não morre, fica sozinho. Mas se morre, produz muito fruto" (Jo 12, 24).
Somente com o sacrifício de si mesmo é que o cristão contribui para a salvação do mundo. E foi assim para o nosso venerável Irmão Cardeal. Ele deixa-nos, mas o seu exemplo permanece. A fé garante-nos que ele não morreu, mas que entrou no dia eterno que não conhece ocaso.
6. "Santa Maria... rogai por nós... na hora da nossa morte". Na prisão, quando lhe era impossível rezar, ele recorria a Maria: "Mãe, vedes que me encontro no limite extremo e não consigo recitar qualquer prece. Então... colocando tudo das vossas mãos, simplesmente repetirei: "Ave Maria!"" (Ibid., pág. 253).
No testamento espiritual, depois de ter pedido perdão, o extinto Cardeal assegura que continua a amar a todos. Assim, afirma: "Parto com serenidade e não conservo ódio por ninguém. Ofereço todos os sofrimentos que passei, a Maria Imaculada e a São José".
O testamento termina com esta tríplice recomendação: "Amai a Virgem Santa e tende confiança em São José; sede fiéis à Igreja; permanecei unidos e sede caridosos para com todos". Esta é a síntese da sua existência.
Agora ele possa ser recebido, juntamente com José e Maria, na alegre contemplação celestial do Rosto glorioso de Cristo que, na terra, ele procurou ardentemente como a sua única esperança.
Amém!