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sábado, 13 de agosto de 2016

SÃO JOÃO EUDES, Presbítero e Fundador, Apóstolo da Devoção aos Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Dois textos biográficos.

Apoiado em bases teológicas e estreitos vínculos místicos com Cristo e Maria, esteve na vanguarda da devoção a seus dois amáveis Corações como um só, em unidade de espírito, de sentimento e afeição.

Paris viveu dias de apogeu durante o reinado de Luís XIV. Convergia naquele então para a França, num ininterrupto desfile cujo palco principal era o Palácio de Versailles, toda espécie de manifestações do poderio francês no campo das artes, das ciências, das letras e das conquistas militares, compondo uma página notável nos anais desta nação.

Entretanto, ao lado de tantos triunfos avançava silenciosamente uma grave crise religiosa, própria a desviar os espíritos do cumprimento dos preceitos cristãos e atraí-los para ideais cada vez mais distantes dos pregados pelo Divino Redentor. Era a diminuição de fervor que, no século seguinte, acabaria determinando os trágicos episódios da Revolução Francesa.

No seio da deslumbrante Cidade Luz, onde tudo era charme, brilho e requinte, nem todos se mostravam indiferentes a esta realidade mais profunda. Movidos pela graça, muitos homens de valor e influência, aos quais coube um papel decisivo no desenrolar dos fatos da época, aperceberam-se da gravidade do momento e se dedicaram com ardor à luta por um elevado objetivo: colocar Deus no centro daquela sociedade, como o verdadeiro Senhor das almas.

Irmanados por estes anseios eles formaram, sob o impulso de certo sacerdote chamado Pedro de Bérulle, um numeroso grupo de eclesiásticos provenientes de várias regiões do país, empenhados todos em progredir nas vias da santidade. A lista dos integrantes deste círculo é extensa, mas podemos enumerar aqui alguns de seus expoentes: São Francisco de Sales, São Vicente de Paulo, Carlos de Condren, João Tiago Olier e aquele que é celebrado pela Igreja a 19 de agosto: São João Eudes.


Membro eminente da escola francesa de espiritualidade

Era na residência de madame Bárbara Acarie que se realizavam os encontros do grupo. Digna representante das melhores tradições e qualidades da nobreza parisiense, ela abria as portas de sua mansão a cada semana para receber os clérigos, vários membros da aristocracia e leigos desejosos de um maior aprofundamento em temas católicos, sobretudo teológicos, bem como de uma entrega mais profunda à oração e à meditação.

Neste ambiente marcado pelo ardor religioso formou-se um corpo de elite, hoje conhecido como a escola francesa de espiritualidade. Curiosamente, muitos dos que ali marcavam presença pertenciam a diversas congregações religiosas e possuíam formação heterogênea. Essas diferenças, porém, eram superadas pela caridade de todos e constituíam, inclusive, um fator de enriquecimento.

O padre João Eudes era um sacerdote vindo da Normandia ainda nos anos da juventude para integrar a Congregação do Oratório, recém-fundada por Bérulle. Dedicado pregador de missões populares, ele também se distinguia naquele círculo por uma palavra fácil e penetrante, por seu conhecimento doutrinário profundo e por traços místicos que o uniam com vínculos estreitos a Cristo e à sua Mãe Santíssima.

As multidões por ele convertidas testemunhavam o calor de sua pregação. E quando falava ao seleto conjunto do Palacete Acarie, repetia com a mesma força persuasiva admoestações como esta: "Tudo quanto se relaciona com a ­divindade de Jesus, com sua santa humanidade, com os estados e mistérios de sua vida maravilhosa, no tempo e na eternidade, se reveste de um caráter de grandeza e de uma dignidade infinita, que sobrepujam nossa compreensão humanamente limitada [...]. O Juízo Universal que o Filho de Deus pronunciará no fim dos tempos não terá outro fim senão o de tributar, mediante a tremenda justiça de Nosso Senhor, uma suprema homenagem a todos os seus mistérios, proclamando, perante toda a humanidade, quanto esta fez ou omitiu na meditação e amor aos mistérios de Cristo, ao longo de todos os séculos e em todos os lugares do universo".1


Escolhido para o serviço da Igreja

Nascido em 14 de novembro de 1601 no vilarejo de Ri, próximo a Argentan, João Eudes foi uma resposta da Providência às súplicas de seus pais. Acabrunhados pela perspectiva de não terem filhos, peregrinaram a um santuário mariano para implorar esta graça e ali consagraram de antemão a Nossa Senhora o fruto de sua união. Em pouco tempo nascia-lhes o menino, que apressaram em conduzir à fonte batismal.


A família pôde comprovar, logo nos anos da infância, como o oferecimento fora de fato aceito: percebia-se a olhos vistos a vocação religiosa da criança. Ainda pequeno não poupava esforços para comungar com assiduidade, contrariando a tendência jansenista então reinante, como ele mesmo o atesta: "Estando numa paróquia onde muito poucas pessoas comungavam fora da Páscoa, comecei por volta dos 12 anos a conhecer a Deus, por uma graça especial de sua divina bondade, e a comungar todos os meses, após ter feito uma Confissão geral. Foi na festa de Pentecostes que Ele me concedeu a graça de fazer a Primeira Comunhão. [...] Pouco tempo depois, Ele me deu também a graça de Lhe consagrar meu corpo pelo voto de castidade".2

Inscrito por seu pai no colégio jesuíta de Caen, revelou-se ali um aluno de raras qualidades - "o devoto Eudes",3 como gostavam de ­chamá-lo. Estudou depois teologia com máximo proveito na universidade desta mesma cidade normanda. Aos 19 anos ouviu em seu interior o chamado à vida eclesiástica, e recebeu do Bispo diocesano a tonsura e as ordens menores.
Sua vocação, todavia, estava por florescer. Foi no contato com os membros do recém-fundado Oratório de Bérulle que João Eudes sentiu-se interpelado pela graça a dar um passo decisivo: tomar parte naquela nova família espiritual, dedicada a honrar o mistério do sacerdócio de Jesus Cristo. Impressionado pelo exemplo de vida dos clérigos que a integravam, ele se apresentou às portas do convento para pedir admissão e "seu pedido foi favoravelmente acolhido pelo superior da comunidade de Caen, o padre Aquiles de Harlay-Sancy, que escreveu de imediato ao padre Bérulle".4



Vocação missionária

Com passo resoluto este jovem de 22 anos ingressa na Congregação do Oratório, de onde é enviado pouco depois para o noviciado de ­Paris. Sua ordenação sacerdotal teria lugar apenas dois anos mais tarde; contudo, já no mês seguinte ele realizaria a primeira missão.

Ouçamo-lo narrar as razões que o levaram a abraçar desde cedo esta causa, que seria a de toda a sua vida: "Algo deplorável até às lágrimas de sangue é ver que, dentre o tão grande número de homens que povoam a Terra, que foram batizados e, em consequência, admitidos na condição de filhos de Deus, membros de Jesus Cristo e templos vivos do Espírito Santo, portanto obrigados a levar uma vida conforme a estas divinas qualidades, muito mais numerosos são os que vivem como animais, como pagãos e até mesmo como demônios; quase não há quem se comporte como verdadeiro cristão".

Os períodos transcorridos na glamorosa capital contrastavam com o árduo exercício do ministério nas regiões onde a população católica vivia abandonada. Por isso, São João Eudes exclamava com justa indignação: "Que fazem em Paris tantos doutores e tantos bacharéis, enquanto as almas perecem aos milhares por falta de quem lhes estenda a mão para tirá-las da perdição e preservá-las do fogo eterno? Decerto, creia-me, eu iria a Paris gritar na Sorbonne e nas outras faculdades: ‘Fogo! Fogo! O fogo do inferno incendeia todo o universo! Vinde, senhores doutores, vinde, senhores bacharéis, vinde, senhores padres, vinde todos, senhores eclesiásticos, vinde ajudar a apagá-lo!'".

Os resultados de sua pregação podiam ser medidos pela afluência do público, que não raras vezes acorria aos milhares às praças das catedrais. Os números correspondiam não somente à assistência, ­como também ao de Sacramentos administrados: "É de partir o coração de piedade ver um grande número desta pobre gente vinda de três ou quatro lugares, apesar dos maus caminhos, pedir, entre lágrimas, para ser atendida em Confissão, e que permanece de seis a oito dias sem poder ser atendida, dormindo à noite nos pórticos e nos mercados, qualquer que seja o tempo".

Calcula-se que nas longas décadas dedicadas a esta forma específica de apostolado, São João Eudes organizou cerca de 110 missões, que duravam normalmente vários meses e abrangiam vastos territórios. Nem sequer o rei Luís XIV e a rainha Ana d'Áustria deixaram de ser beneficiados por seus ensinamentos, pois o Santo realizou uma concorrida pregação em Versailles, na qual recriminou com termos severos a má conduta dos soberanos. Reconhecendo-se merecedores daquelas palavras, ambos passaram a dedicar-lhe uma alta estima e a favorecê-lo sempre que se apresentava alguma ocasião.


Aurora da devoção ao Sagrado Coração de Jesus

Nesse contexto de fecunda atividade pastoral, verificou São João Eudes os estragos feitos pela heresia jansenista, então em plena expansão. Os adeptos desta corrente nefasta, que fingiam possuir uma elevada espiritualidade, levavam as pessoas a duvidar da misericórdia de Deus, na errada crença de estarem excluídos do número dos eleitos. Assim, incontáveis católicos abandonavam a prática da Fé, por desespero da salvação.

Firmemente convencido do contrário, logo se pôs ele a campo para reverter este quadro. Sua atuação missionária tinha o claro propósito de aproximar do amor divino as almas arrependidas e infundir-lhes a certeza de nunca serem abandonadas por Deus, mesmo carregadas de graves culpas. Fiel a um chamado interior que o movia a pregar esta bondade, o santo sacerdote não tardou em relacionar a caridade infinita de Cristo com o seu Coração humano-divino, órgão no qual habita toda a plenitude da divindade.

Com efeito, "São João Eudes é o primeiro teólogo que tratou do objeto próprio da devoção ao Coração de Jesus", afirma Lebrun.8 Transbordante de entusiasmo, proclama o Santo: "O Coração augusto de Jesus é uma Fornalha de Amor que espalha seu fogo e suas chamas por todos os lados, no Céu, na Terra e em todo o universo. [...] Todas as criaturas existentes na Terra, mesmo as insensíveis, inanimadas e irracionais, experimentam os incríveis efeitos da bondade deste magnífico Coração".

E para fixar na mente dos fiéis esta doutrina, ele compôs uma Missa e Ofício em honra ao Sagrado Coração de Jesus, cujos textos atestam até hoje a unção, a piedade e a ­pureza de doutrina de seu autor. Graças a São João Eudes, o Divino Coração foi honrado oficialmente pela primeira vez na História da Igreja, o que lhe valeu o título de "autor do culto litúrgico aos Sagrados Corações de Jesus e Maria",10 outorgado por Leão XIII, e o de "pai, doutor e apóstolo"11 deste mesmo culto, conferido por São Pio X ao beatificá-lo. Quando as revelações a Santa Margarida Maria Alacoque ocorreram em Paray-le-Monial, no ano de 1675, havia já um povo preparado para corresponder ao seu apelo de amor.


O Coração de Jesus e Maria

A um passo tão ousado, logo se seguiram duras reprovações por parte daqueles que não queriam reconhecer neste culto o sopro do Espírito Santo. Sem titubear, o Santo lhes deu uma réplica sagaz: "Se esta devoção é objetada pela novidade, eu responderei que a novidade é muito perniciosa nas coisas da Fé, mas muito boa nas coisas da piedade".

Convicto de que esta nova devoção tinha sua origem num desígnio providencial, São João Eudes mostrou, por argumentos teológicos, que o Coração de Jesus e o de Maria não têm diferenças entre si, mas constituem, pela união existente entre ambos, um só e mesmo Coração. "Jamais tivemos, no entanto, a intenção de separar duas coisas que Deus uniu tão estreitamente, como são o Coração augustíssimo do Filho de Deus e o de sua Bem-Aventurada Mãe: pelo contrário, nosso propósito foi sempre, desde os primórdios de nossa congregação, de contemplar e honrar estes dois amáveis Corações como um mesmo Coração, em unidade de espírito, de sentimento e de afeição, como está manifestamente expresso na saudação que fazemos todos os dias ao Divino Coração de Jesus e Maria, bem como na oração e em várias partes do Ofício e da Missa que celebramos na festa do Sagrado Coração de Maria Virgem".







Duas novas congregações para a Igreja

Seus 78 anos de vida foram uma constante lição de perseverança, sem esmorecer na luta contra os inimigos da Igreja ávidos de arrebatar as ovelhas do redil de Cristo; uma doação de si até o último alento, pelo bem das almas. Sinal de ser esta entrega uma oferenda grata a Deus foi a missão realizada na idade de 70 anos, na qual gozou de energias sobre-humanas: "Deus me deu tanta força nesta missão, que eu preguei quase todos os dias, durante doze semanas, a uma enorme assembleia reunida na catedral, com o mesmo vigor que possuía na idade de 30 anos. É por isto que tomei a resolução de empregar neste trabalho o resto de minha vida".

O maior de todos os embates foi sua saída do Oratório - ao qual estava ligado por laços de profunda afeição -, a fim de fundar duas novas famílias religiosas para a Santa Igreja: a Congregação de Jesus e Maria, em 1643, voltada à formação do clero e a perpetuar as missões paroquiais; e o Refúgio de Nossa Senhora da Caridade (conhecidas como religiosas do Bom Pastor), em 1651, destinado a socorrer mulheres em situação de risco.

Deus lhe havia reservado também esta coroa: estabelecer uma descendência espiritual empenhada em glorificá-Lo segundo o carisma que norteou sua existência. Hoje, decorridos mais de três séculos da morte de São João Eudes, seus filhos e filhas fazem ecoar, através de meritórias obras de evangelização ao redor do mundo, um brado que ele repetia a todo instante e que resume o ideal que animou este gigante da Fé: "Viva Jesus e Maria!". 

(Fonte: Revista Arautos do Evangelho, Agosto/2015. n. 164, pp. 18 a 21)







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Segundo texto biográfico 

Fundador de duas congregações religiosas e de seis seminários, foi grande pregador popular, realizando mais de cem missões. Deixou escritas inúmeras obras ascéticas e místicas.

São João Eudes nasceu na pequena cidade de Ry (diocese de Séez, na Baixa-Normandia, França), no dia 13 de novembro de 1601. Seu pai, Isaac, havia tentado a carreira sacerdotal, mas fora obrigado a abandoná-la devido à morte de quase toda a família, vítima da peste. Dedicou-se então à agricultura, exercendo também as funções de médico rural. Rezava diariamente o breviário e rivalizava em virtude com a esposa, Marta. O primogênito dos sete filhos que tiveram, João Eudes, foi mais “fruto da oração que da natureza”. Por isso o ofereceram a Nossa Senhora do Socorro, em ação de graças por seu nascimento, e nada negligenciaram em sua educação religiosa e temporal.

O menino correspondeu ao desvelo dos pais, e aos 14 anos fez o voto de perpétua virgindade. Nessa época, foi enviado ao colégio dos padres jesuítas de Caen, onde estudou com brilho humanidades, retórica e filosofia. Desde muito pequeno, por inspiração do Divino Espírito Santo, João Eudes tinha profunda devoção aos Corações de Jesus e Maria. Em 1618 entrou para a Congregação Mariana do colégio, para incrementar ainda mais sua devoção a Nossa Senhora. Recebeu então da Mãe de Deus inúmeras graças.

Em 1623, desejando tornar-se sacerdote, entrou para a Sociedade do Oratório de Jesus, fundada pouco antes pelo famoso Cardeal de Bérulle. O fundador concebeu por João Eudes uma estima tal, que o fazia pregar em público antes mesmo de sua ordenação sacerdotal.

Esta se deu em 1625. Apenas ordenado, foi cuidar de empestados. Passou depois para o Oratório de Caen, tendo em vista preparar-se para sua carreira missionária.


Recolhimento forçado por dois anos

Desde os 22 anos de idade, trabalhou incansavelmente no campo das missões populares. Pregador nato, tornou-se famoso como missionário. Dizia-se que, desde São Vicente Ferrer, a França não tivera um maior do que ele. Maravilhosamente bem dotado para a eloqüência popular, entusiasmava as multidões e lograva copiosíssimos frutos de penitência. Impugnava com vigor todos os vícios, cortava na raiz os escândalos, e a todos pregava a verdade salvadora. A ardente caridade que manifestava no confessionário atraía os penitentes, porque ele, ao fulminar os vícios, sabia apiedar-se do pecador.

No ano de 1641, São João Eudes cumpria 40 anos de idade. Foi então atacado subitamente por grave enfermidade, que o levou a um repouso forçado, absoluto, durante dois anos. A Providência Divina queria que ele se preparasse no recolhimento para nova fase de sua vida, talvez a mais proveitosa: “Deus me deu estes dois anos para empregá-los no retiro, para vagar na oração, na leitura de livros de piedade e em outros exercícios espirituais, a fim de preparar-me melhor para as missões”.

Ao recuperar a saúde, lançou-se novamente à vida missionária com novo fruto. Entretanto, afligia-se ao ver os resultados pouco duradouros das missões. Atribuía isso à falta de pastores cultos e piedosos que continuassem a ação dos missionários, mantendo aceso o fervor adquirido durante as missões. Para isso faltavam seminários nos quais os seminaristas recebessem, a par das virtudes próprias de seu sagrado estado, preparação para exercer os ofícios de seu ministério com relação às missões.

Se não havia seminários, por que não fundá-los? Muitos o aconselhavam nesse sentido. Mas, devido às oposições, ele titubeava diante de tamanha responsabilidade.

Por outro lado, nas missões ele havia convertido bom número de mulheres perdidas. Tocadas pela graça, elas queriam expiar, numa existência consagrada, sua má vida. O missionário reuniu-as numa casa que alugara. Mas era difícil dirigi-las sem estarem ligadas por votos religiosos. O que fazer?



O encontro com Maria des Vallées

Foi então que, em meados de 1643, quando pregava na cidade de Coutances, recebeu um dos maiores favores de sua vida, como ele mesmo declara, ao encontrar-se com Maria des Vallées, uma virgem favorecida por fama de santidade. Filha de pobres agricultores, atraía os olhares de todos quando tratavam com ela das coisas da religião. Inteligente, bela, recusou diversas propostas de casamento, pois escolhera a Jesus Cristo por seu único Esposo. Ela havia se oferecido como vítima expiatória pelos pecados do mundo.

Um de seus pretendentes recorreu à bruxaria para fazê-la mudar de ideia, e lançou sobre a jovem um malefício obtido de uma bruxa, que pouco depois morreria na fogueira. Imediatamente Maria des Vallées foi possuída pelo demônio. O príncipe das trevas teve assim poder sobre seu corpo, mas não podia penetrar em sua vontade. Frades e bispos a exorcizaram sem sucesso.

Maria des Vallées aceitou com docilidade o fato, submetendo-se resignadamente à vontade de Deus. Assim, mesmo em meio às piores crises provocadas pelo pai da mentira, ela não perdia sua admirável calma e fé invencível. Nos momentos em que o demônio a deixava, ela rezava, trabalhava e fazia penitência pela conversão dos pecadores.

Apesar das crises e das tentações, ela passou por quase todos os fenômenos da vida mística, inclusive o da troca de vontades com o supremo Senhor do Céu e da Terra. Durante dois anos sofreu em espírito os suplícios do inferno, e durante doze participou dos tormentos de Cristo.


Culto aos Sagrados Corações de Jesus e Maria

São João Eudes ficou sumamente cativado pela virtude dessa mulher heroica. Escutava-a com admiração e respeito, recebia seus conselhos com avidez, e os seguia escrupulosamente. Durante 15 anos, Maria des Vallées oferecerá a ele preciosa ajuda e poderoso apoio, tornando-se por vezes para o santo uma divina conselheira e inspiradora.

Foi ela quem incentivou São João Eudes a fundar uma ordem religiosa destinada à formação do clero nos seminários, e uma congregação de religiosas cuja missão seria a regeneração das mulheres arrependidas: “O projeto é sumamente agradável a Deus, e foi o próprio Deus Quem o inspirou”, disse ela depois de muito rezar.

Assim incentivado, São João Eudes desligou-se da Congregação do Oratório e dedicou-se às novas fundações. Compôs um ofício em honra do Sagrado Coração de Maria, e começou a propagar o culto aos Sagrados Corações. Note-se que sua pregação da devoção ao Sagrado Coração de Jesus deu-se antes mesmo das revelações deste Coração divino a Santa Margarida Maria Alacoque.

São João Eudes consagra aos Sagrados Corações de Jesus e Maria as duas ordens religiosas fundadas por ele

Assim nasceram as Congregações de Jesus e Maria, ou dos Padres Eudistas, e a de Nossa Senhora da Caridade do Refúgio, ou Irmãs do Bom Pastor. O Instituto dos Padres Eudistas era secular, como o do Oratório, e tinha como fim principal a formação de sacerdotes zelosos, por meio de seminários e exercícios espirituais. Só após concluírem essa obra primordial, podiam seus membros pregar missões nas paróquias.

São João Eudes fundou também, para leigos que desejavam viver uma vida de perfeição, a Sociedade do Coração da Mãe Mais Admirável, que se assemelha às Ordens Terceiras de São Francisco e São Domingos, e dedicou as capelas de seus seminários de Caen e Coutances aos Sagrados Corações. Neles estabeleceu confrarias em honra desses Sagrados Corações.

Persuadido de que não havia melhor modo de inspirar sólida piedade e de manter fervor durável do que a devoção aos Sagrados Corações, pregava por toda parte essa dupla devoção, que conhecia melhor do que ninguém. No fim das missões, ele estabelecia uma confraria, a do Santíssimo Coração de Maria.



São João Eudes fez celebrar a festa do Santíssimo Coração de Maria, pela primeira vez, em 1648. E mais tarde, em 1672, podia afirmar que essa comemoração se celebrava em toda a França. Nesse mesmo ano ele ordenou que, em todas as casas do seu Instituto, se celebrasse no dia 20 de outubro a festa do Sagrado Coração de Jesus. O Ofício próprio e a Missa para essas solenidades foram compostos por ele, antecipando-se a Santa Margarida Maria no culto ao Sagrado Coração de Jesus. Com efeito, esta santa teve suas revelações sobre o Sagrado Coração de Jesus em 1674, época na qual tal festa já se celebrava publicamente na família religiosa do Pe. Eudes, com os ofícios aprovados pelos bispos locais. Por isso, o Papa Leão XIII, ao proclamar em 1903 a heroicidade de suas virtudes, denominou-o “Autor do Culto Litúrgico do Sagrado Coração de Jesus e do Santo Coração de Maria”. São João Eudes pode ser considerado o doutor desses cultos, por ter exposto seu fundamento teológico, apresentado as fórmulas precisas de sua inovação, determinado seu sentido prático e litúrgico, obtendo assim a aprovação da Hierarquia e os breves apostólicos destinados a propagar e perpetuar essa devoção.


Perseguido por inimigos internos

São João Eudes foi um inimigo declarado da heresia jansenista, essa espécie de protestantismo, que levava as pessoas a se afastarem dos Sacramentos sob pretexto de indignidade. Os adeptos dessa heresia foram os que mais combateram as devoções pregadas pelo Santo. Se bem que não fosse partidário de disputas públicas e violentas, refutava esses inimigos disfarçados da Igreja, apoiando-se na doutrina tradicional católica e nas constituições pontifícias.

No ocaso de sua vida, São João Eudes teve que suportar muitas e pesadas cruzes, como enfermidades e lutos por amigos e benfeitores; murmurações e calúnias, não só da parte dos jansenistas, mas também de pessoas consagradas a Deus, que o acusavam de zelo indiscreto; manobras que visavam desacreditá-lo ante o Papa e o rei da França; e também a publicação de um libelo difamatório. Tudo isso o perseguiu até o túmulo. Já no ano de 1680, tinha ele renunciado ao cargo de superior geral de sua congregação. Preparando-se com todos os tesouros espirituais que a Igreja possui para a última hora, rendeu ele seu espírito no dia 19 de agosto de 1680, aos 79 anos de idade.



(Fonte: site Catolicismo, de Plínio Maria Solimeo)

Obras utilizadas:

– Les Petits Bollandistes, Vies des Saints, Bloud et Barral, Paris, 1882, tomo XV, pp. 542 e ss.

– Fr. Justo Perez de Urbel, O.S.B., Año Cristiano, Ediciones Fax, Madri, 1945, tomo III, pp. 381 e ss.

– Edelvives, El Santo de Cada Dia, Editorial Luis Vives, S.A., Saragoça, 1948, tomo IV, pp. 503 e ss.


– Charles Lebrun, Saint John Eudes, The Catholic Encyclopedia, tomo V, online edition, www.NewAdvent.org

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

SANTA MARIA JOSEFA DO CORAÇÃO DE JESUS, Virgem e Fundadora


Santa Maria Josefa nasceu em Vitória (Espanha), no dia 7 de setembro de 1842; no dia seguinte recebeu o nome de Maria José no batismo. Ficou órfã de pai muito cedo e foi sua mãe quem a preparou para a Primeira Comunhão, recebida aos dez anos.
       Aos 16 anos foi completar a sua formação e educação em Madrid, hospedando-se na casa de alguns parentes, e desde muito cedo começou a demonstrar uma grande devoção à Eucaristia e a Nossa Senhora, uma forte sensibilidade em relação aos pobres e aos doentes e uma inclinação para a vida interior.
       Regressou a Vitória aos 18 anos e logo manifestou à sua mãe o desejo de entrar num mosteiro, pois se sentia atraída pela vida de clausura. Mais tarde, costumava dizer: "Nasci com a vocação religiosa".
       A 3 de dezembro de 1865 ingressou na Congregação das Servas de Maria, recentemente fundada por Santa Maria Torres Acosta. Assistiu com exímia caridade as vítimas da peste que flagelou a cidade de Madrid, Medina del Campo e Osuna.

       Depois de algumas dúvidas e incertezas, tendo consultado o Arcebispo de Zaragoza, futuro Santo Antônio Maria Claret, e depois de vários contatos com Madre Torres Acosta, decidiu criar uma nova família religiosa que se dedicasse aos doentes, em casa ou nos hospitais. Assim nasceu o Instituto das Servas de Jesus, fundado em Bilbao em 1871, que foi aprovado em 1874 pelo Bispo de Vitória e confirmado definitivamente por Leão XIII em 1886.
       Maria José, que tomou o nome de Irmã Maria Josefa do Coração de Jesus, foi eleita Superiora Geral e governou a Congregação até a sua morte, que ocorreu em Bilbao, em 20 de março de 1912.

       A Santa teve a alegria de ver em vida a Congregação estender-se às cidades de Vitória, Santander, Valladolid, Burgos e Chile, contando cerca de 300 religiosas, que tratavam de doentes em residências, hospitais, sanatórios. Atendiam também idosos e crianças abandonadas.
       A sua morte foi muito sentida em toda a região e o seu funeral foi uma grande manifestação de pesar. Os seus restos mortais foram trasladados para a Casa Mãe, onde ainda se encontram.
       Os pontos centrais da espiritualidade de Santa Maria Josefa podem definir-se como: um grande amor à Eucaristia e ao Sagrado Coração de Jesus; uma profunda adoração do Mistério da Redenção e uma íntima participação nas dores de Cristo e na Sua Cruz; e a completa dedicação ao serviço dos doentes, num contexto de espírito contemplativo.
       Para ela, "a caridade e o amor de uns pelos outros formam, ainda nesta vida, o céu das comunidades...; a vida religiosa é uma vida de sacrifício e de abnegação; o fundamento de uma maior perfeição é a caridade fraterna" (Pe. Pablo B. Aristegui, Beata Maria Josefa do Coração de Jesus, Mensajero, 1992, pág. 97).

       Sua vocação de serviço aos enfermos ficou bem expressa nas palavras por ela escritas: "Desta maneira, as funções materiais do nosso Instituto, destinadas a salvaguardar a saúde corporal do nosso próximo, elevam-se a uma grande altura e fazem a nossa vida ativa mais perfeita que a contemplativa, como ensinou o Doutor Angélico, São Tomás de Aquino, que falou dos trabalhos dirigidos à saúde da alma que vêm da contemplação" (Directorio de Asistencias de la Congregación Religiosa Siervas de Jesús de la Caridad, Vitória 1930, pág. 9).

       A causa da Canonização de Santa Maria Josefa começou em 1951; foi solenemente beatificada por João Paulo II em 27 de setembro de 1992 e canonizada em 1 de outubro de 2000.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Beata Maria Francisca Schevrier, Virgem e Fundadora




Maria Francisca Schevrier nasceu em Aachen, na Alemanha, no dia 3 de janeiro de 1819, filha de Juan Enrique e Luisa Migeon. Depois da morte de sua mãe, em 1832, tomou o costume de socorrer aos pobres em suas necessidades e de ensinar-lhes o catecismo.

Em um ambiente novo indiferente, às vezes hostil, porque a burguesia ostentava uma atitude volteriana, Maria Francisca não poupava esforços e nem se deixava vencer por nenhum temor e encontrou ajuda para o seu projeto em um sacerdote de sua paróquia.

A Congregação das Irmãs Franciscanas dos Pobres existe ainda hoje graças à singular figura de Francisca Schervier. Desde a juventude sentia profunda atração pela vida e obra de São Francisco de Assis. Filha de um fabricante de agulhas de costura na época da revolução industrial, Francisca costumava distribuir roupa e comida aos operários de seu pai, ciente das condições de pobreza e opressão em que eles viviam e trabalhavam. Ainda adolescente, essa experiência acabou decidindo o seu futuro. Era já muito afeita à oração e ansiava por ajudar os pobres e doentes da vizinhança, uma ousadia para a época em que as jovens de família não podiam sair de casa desacompanhadas. Certo dia, ajoelhada em oração diante do Crucifixo, como ela escreveu, anos depois: “Senti arder em mim a chama de um santo amor ao próximo.” E foi aí que começou a história das Irmãs Franciscanas.

Em junho de 1844, Francisca entrou para a Ordem Terceira de São Francisco, fundada pelo próprio santo para reunir seus seguidores leigos. Ela já voluntariava em sua paróquia, servindo sopa aos pobres, mas foi no Domingo de Pentecostes, 11 de maio de 1845 que, em resposta ao chamado divino de salvar almas e curar as feridas de Jesus no próximo, ela fundou, com quatro amigas, a Congregação das Irmãs Franciscanas dos Pobres, dando início à nossa missão.

À medida que desempenhavam seus ministérios, Francisca e suas Irmãs foram se conscientizando cada vez mais radicalmente da mão de Deus que as levava a serem instrumentos de cura e de paz para toda gente. Ou como Francisca escreveu em sua autobiografia: 
“Nos pobres e sofredores reconheci meu Divino Salvador tão claramente como se O houvesse visto com meus próprios olhos!” Assim, o carisma da Bem-Aventurada Francisca de reconhecer Cristo nos pobres e sofredores para neles curar as Suas feridas continua sendo o lema e a missão das Irmãs Franciscanas dos Pobres.
Maria Franciscana morreu no dia 14 de dezembro de 1876 em  Aachen. Tinha 58 anos. A cidade em peso foi ao seu funeral e a chorou porque ela era muito querida e amada por todos, especialmente os pobres e pequeninos.

domingo, 7 de agosto de 2016

Serva de Deus Pierina Gilli, Virgem e Vidente de Maria, Rosa Mística.








Nasceu em 03 de agosto de 1911, Pierina Gilli, na Itália, em Montichiari, região de Brescia, no vilarejo de São Jorge e ela morreu com cerca de 80 anos, em 12 janeiro de 1991 na localidade de Broschetti. Seu pai, Pancrácio Gilli, era um camponês. Sua mãe, Rosa Bartoli (morreu em 1962) criou os nove filhos na pobreza e no temor a Deus. Destes, três eram de um primeiro casamento e seis filhos de um segundo casamento após a morte do primeiro marido em 1918 como resultado da Primeira Guerra Mundial. Pierina foi à primeira filha de nove irmãos.


Pierina é a primeira à esquerda na foto com seus irmãos do primeiro casamento de sua mãe.



 Nada de extraordinário foi à infância de Pierina. No entanto, pertencia à categoria de almas privilegiadas pelo carisma das revelações privadas; almas caracterizadas pela simplicidade, a pobreza e o sofrimento. Sofrimentos que para Pierina estavam ligados num primeiro momento com a pobreza, a doença, a morte de seu pai, a internação em um orfanato e depois começou a sofrer, ela mesma a mensagem de Maria "Rosa Mística": oração, sacrifício e penitência.
  O primeiro grande sofrimento foi quando aos sete anos ela viu seu pai voltar, debilitado por sua detenção, no final da Primeira Guerra Mundial. Ele voltou não para ser a alegria da família, mas para morrer pouco depois no hospital.
  De 1918 a 1922 Pierina viveu no orfanato das Irmãs da Caridade, onde aos oito anos, ela recebeu a Primeira Eucaristia. Aos onze anos, teve de regressar à sua família: a mãe voltou a se casar e precisou da ajuda de Pierina, sendo a irmã mais velha, para cuidar dos menores e novos irmãozinhos.
  Aos doze anos sua família dividiu um casebre com outra família e Pierina teve sua pureza ameaçada, sendo socorrida pela graça divina.
  Com 17 anos passou por uma crise, quando trabalhava em um estabelecimento, desviando-se do caminho da santidade, superando-a com a ajuda de seu Confessor, relembrando compromisso de ser inteiramente de Deus.
  Aos 18 anos, cuidava das crianças na creche municipal e, um bom jovem propôs-lhe casamento, sendo provada por seu confessor. Foram dois meses para Pierina de grande crise interior, sendo depois confirmada sua vocação religiosa.



Pierina (primeira à esquerda) com seus irmãos do segundo casamento de sua mãe. 




  Aos vinte anos ela estava prestes a realizar seu próprio desejo e ser aceita entre as postulantes das Servas da Caridade, quando ela foi atingida por uma pneumonia (pleurite), seguida de longos meses de convalescença. Depois disso ela não estava em condições de disputar com as candidatas, pois o trabalho era forçado. Em vez disso, encontrou um emprego adequado às suas forças no Carpenedolo, como empregada doméstica do Padre José Brochini, que tinha uma mãe cega de oitenta anos de idade. Ali esteve até a idade de 26 anos, de 1931 a 1937. Foram para ela anos serenos, junto ao sacerdote e sua mãe anciã na oração, na meditação e na leitura espiritual.
  Com a morte da mãe do sacerdote, quis se despedir para seguir sua vocação. Entretanto não foi possível, devido a sua frágil saúde.
Em seguida, esteve por dois anos como empregada doméstica em Brescia, na Clínica "Villa Blanca", com as Irmãs da Caridade de Santa Joana Antida Thouret.
  Aos 29 anos, não se sentindo apta ao serviço no departamento dos homens, se despediu e conseguiu ser aceita no Hospital Civil de Desenzano do Garda, onde prestou serviço as Servas da Caridade. Ali passou quatro anos, durante a Guerra, em relativa serenidade.


O PRIMEIRO PERÍODO DAS APARIÇÕES (1944-1949)
  Em 14 de abril de 1944, com a idade de 33 anos, Pierina Gilli entra no convento como postulante das Servas da Caridade e é enviada como enfermeira do hospital de crianças em Brescia. É o início de sua doença grave: meningite, relacionada com a primeira fase das aparições ocorrida no final de 1944 até o final de 1947.
  Ela permaneceu isolada na enfermaria de Ronco, inconsciente, recebeu os últimos sacramentos. Na noite de 17/12/1944, apareceu-lhe Santa Maria Crucifixa Di Rosa, que passou uma pomada em sua testa e suas costas e a curou. Recuperada, em julho de 1945 volta ao serviço em Desenzano do Garda.
  Em 17/12/1945 a doença volta, suspeitando-se de meningite, otite e cálculo renal, sendo levada para o hospital de Montichiari.
  Sua saúde melhorou e em abril de 1946 voltou a exercer a enfermagem neste hospital. Na metade de novembro de 1946, surgiram fortíssimas dores e vômitos, sintomas de uma oclusão intestinal que exigia intervenção cirúrgica urgente.
  Na noite de 23 para 24 de novembro apareceu-lhe novamente Santa Maria Crucifixa acompanhada de Nossa Senhora com 3 espadas transpassadas no peito.
Santa Maria Crucifixa
di Rosa
  No ano seguinte, Pierina sofreu cólicas renais fortíssimas e cistite muito dolorosa e um colapso cardíaco. No dia 12/03/1947 entrou em estado de coma: mais foi curada como por milagre de Santa Maria Crucifixa.
  No início de maio, iniciam-se as perseguições diabólicas, então Pierina, obedecendo a seu confessor e a Superiora e, confortada pelas aparições da Santa Crucifixa, dorme no chão, sobre um cobertor, e jejua 3 dias por semana, a pão e água. Elas duram um mês, culminando no dia 1º de junho de 1947, com a visão do inferno. As 0315h desta noite, ocorre a segunda aparição de Nossa Senhora com 3 espadas no peito.
  De 11 de junho a 12 de julho recebia quase diariamente a visita de Santa Maria Crucifixa que a aconselhava e confortava.
  No dia 13/07/1947 acontece a aparição de Nossa Senhora com Três Rosas no peito: uma Branca, uma Vermelha e outra Amarelo-Ouro, que simboliza, respectivamente, a Oração, o Sacrifício e a Penitência.
  No dia 06 de setembro, Nossa Senhora de branco com as 3 rosas apareceu a Pierina na capela da Casa Provincial das Servas da Caridade, em Monpiano.
  No dia 22 de outubro aconteceu o sinal miraculoso, na capela do hospital em Montichiari, quando Jesus deixou vestígios de seu Preciosíssimo Sangue, num crucifixo que Pierina recolheu num pano, que Nossa Senhora mandou deixar exposto por 3 dias. Depois disso Pierina foi examinada por médicos.


  Após isso, ocorreram quatro aparições na igreja de Montichiari:
1) 16/11/1947 - após a Santa Missa da manhã, estritamente pessoal;
2) 22/11/1947- tarde: enviou uma mensagem para o Papa, um segredo.
3) 7/12/1947- apareceu acompanhada por Francisco e Jacinta, já beatificados.
4) 8/12/1947- visão do Imaculado Coração de Maria, a instituição da HORA DA GRAÇA, ao meio-dia de 8 de dezembro.

  A Igreja estava repleta de uma multidão e a reação das pessoas aos eventos foi positiva.  Também ocorreram algumas curas milagrosas. Mas Pierina começou um período duvidoso, como quando um navio é jogado pelas ondas, buscando um porto seguro. As autoridades da Cúria Bresciana foram muito severas com Pierina e impediram-na de ter contato com a população.  Ela foi levada para um lugar distante, em Brescia, e, posteriormente (23 ou 24 dezembro), por interesse do seu confessor Luigi Bonomini, foi hospedada pelo Instituto Feminino das Servas no Bairro Santa Cruz, onde permaneceu por três meses, sempre com o vestido de postulante.
  No início de janeiro 1948 foi chamada e interrogada pela comissão composta pelo Pe. Agostinho Gazzoli, o chanceler, que foi sempre contrário à autenticidade das aparições, D. Zani, D. Bosio, então bispo de Chieti e D. Bosetti, então bispo de Fidenza. Ela também foi visitado por especialistas. Parece que a Comissão tinha opiniões contrastantes, por isso não conseguiu chegar a qualquer conclusão.  Pierina foi exortada a viver isolada, porém vestida com o hábito de postulante.  
  No início de junho de 1948, foi acolhida por uma boa senhora, Martina Bonomi, que a levou para sua casa em Castelpocognano (Arezzo, Toscana, Itália central). Teve que não só retirar a roupa de postulante, mas também por pedido da Cúria, teve que mudar sua identidade, que aparece sob o nome Rosetta Chiarini. Ninguém devia suspeitar onde estava Pierina Gilli.      
 Ficou nesse exílio até final de novembro, muitas vezes sofrendo de cólica renal, tratada com tranquilizantes, mas sem o médico intervir para que a sua verdadeira identidade não fosse descoberta.
  Ela sofreu muito, apesar de algumas aparições de Santa Maria Crucifixa di Rosa e da bondade e amabilidade da senhorita Bonomi.
  Ela voltou a ser chamada a Brescia para novo interrogatório, no final de fevereiro de 1949, foi forçado a ficar em casa perto de sua mãe e da família, que estiveram envolvidos nas humilhações que Pierina teve de suportar de pessoas que zombaram dela como uma louca, histérica e iludida.  Com o objetivo de ser interrogada foi afastada durante quarenta dias em um local desconhecido, à disposição da Comissão examinadora.       
  Irritada com a insistência com que os membros da Comissão queriam sua retratação, disse que estava pronto para dar a vida, e aceitar qualquer castigo para sustentar a verdade das visões da Virgem. No final, na presença do Bispo, foi proposta a jurar sobre o Evangelho. Ela jurou e assinou os papéis que tinham sido preparados. Provavelmente, o bispo, Dom Jacinto Tredici, não partilhou do parecer negativo da Comissão. 
  Pierina escreveu em seu diário: 
  "Monsenhor quando estava sozinho em sua sala, tinha palavras de conforto, convidando para me manter boa e santa. Ele gostaria de saber quais as intenções que eu tinha. Eu disse, eu tenho problemas de saúde e não sei para onde vou. Ele me aconselhou a não ficar em casa de pessoas, mas seria melhor se afastar e ir para um convento. Então, se buscou a muitos conventos. Fui rejeitada em cada casa, cada porta ... Meu nome era um terror. Ninguém me queria. "       
 Um grupo de pessoas piedosas se interessaram em me acomodar perto de um colégio, somente a Madre Superiora podia visitá-la, depois então provisoriamente fui hospedada no Convento das Irmãs Franciscanas do Lírio de Brescia, era 20 de maio de 1949.
  Foram muitas doenças que a afligiram principalmente nos primeiros anos desta permanência. Ela não se tornou uma freira, mas foi viver no Convento em perfeita obediência. Neste período foi frequentemente visitada e consolada por Santa Maria Crucifixa di Rosa. 
 Pelo diário se nota que muito mais frequentes foram os momentos de sofrimento devido às doenças, nem sempre com um tratamento médico, sendo que ao sofrimento físico se somaram os morais: incompreensões, erros de diagnóstico (um médico a considerou uma histérica), medo ser deixada na rua.
  Então o Dr. Adolfo Battist, médico de consciência, deu-lhe os cuidados necessários e ficou satisfeito ao testemunhar a força e paciência com que Pierina suportou tanta dor e humilhação causadas por uma doença mórbida, sofrida no período de 1951 ao início de 1953, com  a formação de inúmeros abscessos espalhados em várias partes do corpo, sendo necessárias umas quarenta grandes incisões com drenagem e medicamentos nas cavidades residuais.


P. P. GIUSTINO E A PREDIÇÃO CONDICIONADA.
  Outros sofrimentos de natureza moral  foram causados ​​pela relação com o confessor, Pe. Giustino Carpin, seu primeiro benfeitor para sua aceitação na casa. Imediatamente se criou uma situação paradoxal, que foi adiada por anos e anos. Santa Maria Crucificado aparecendo a Pierina disse, e posteriormente confirmou que o Padre Justino teria de ser seu confessor, devendo lhe dar confiança total, revelando todas suas experiências sobrenaturais, incluindo suas frequentes aparições e mensagens. E o Pe Giustino se mostrou intensamente cético, quando Pierina teve que revelar essas experiências que foram as suas  preocupações principais, deixando de lado a questão e não ajudando em nada.
  Santa Maria Crucifixa, em particular, muitas vezes tentou convencer o Pe Giustino para  pedir permissão a seus superiores para acompanhar Pierina a Roma e para expressar a mensagem  ao Papa comunicadas pela Virgem em Montichiari. A resposta do Pe Giustino foi sempre a mesma: 
  "Se Santa Maria Crucifixa não fizer um milagre, eu não assumo qualquer responsabilidade".
  Sempre se recusou a acompanhar Pierina para Roma para entregar o segredo ao Santo Padre recebido da Virgem.      
  Em 15 de maio de 1951 a Santa indica a data da aparição da Virgem em Fontanelle: dois meses precisos após o confessor acompanhar Pierina para ver o Papa para entregar a mensagem.
   Nisto, o Pe Confessor, não queria nunca executar esta tarefa e consequente aparição em Fontanelle, a previsão depende da vontade do Confessor,  que foi  adiada por 15 anos.
  (Por interesse de outros Pierina consegue encontrar o Papa em Castel Gandolfo em 08 de agosto de 1951, de acordo com uma testemunha que também foi escrito: "O Santo Padre se inclinou sobre o vidente, que estava  ajoelhada e humildemente disse: "Filha, tem correspondido à graça da Virgem? Você ficou melhor? Por favor, querida filha, ore também para nós".)
  "A Virgem não deixará de cumprir o prometeu (ou seja, aparição em Fontanelle e bênção da Fonte) só não será concedido o mérito de suas graças  às pessoas inativas e temerosas." - Palavras de Santa Maria Crucifixa di Rosa - 22 de maio de 1951. "
  De 13 de maio até 1º de junho de 1953, Pierina esteve em Castelpocognano, com sua amiga Lúcia, visitou o Santuário franciscano de Verna. Ali sofreu por causa do aparecimento de chagas e feridas da Paixão de Cristo, a partir daí não citou mais nenhuma doença.
  Em Julho de 1954 o Padre Ilário Moratti é autorizado a organizar os escritos do diário de Pierina. Em março de 1960, o segredo foi entregue a ele num envelope lacrado.
  O Pároco e Abade de Montichiari de julho de 1949 a 1979, auxiliou na causa de Rosa Mística, modelando sua imagem, levando-a em procissão pelas ruas e colocando no centro da Igreja.


O SEGUNDO PERÍODO DAS APARIÇÕES (1960-1966)

   Treze anos depois da última aparição, ocorre novamente na manhã de 5/04/60, a aparição de Nossa Senhora em seu quarto enquanto rezava.
   Aparece novamente no dia 6/12/1961 e em 27/04/1965, no início e no final dos trabalhos do Concílio Vaticano II.
  Em 27/02/1966, a Virgem aparece no quarto de Pierina informando sua vinda a Fontanelle, no domingo, 17/04/1966, para tornar milagrosa a água da fonte.
  Três aparições em Fontanelle: no dia 13 de maio, pedindo um tanque para os doentes na Fonte da Graça; no dia 9 de junho, festa de Corpus Christi, pedindo que o trigo do campo vizinho fosse enviado ao Papa em Roma e a Fátima para ser transformado em hóstias e, no dia 6 de agosto pediu a União Mundial da Comunhão Reparadora, no dia 13 de cada mês.


 O TERCEIRO PERÍODO DAS APARIÇÕES (1966-1991)

 Na primeira aparição em Fontanelle, Nossa Senhora revelou a missão definitiva de Pierina: "A tua missão é no meio dos doentes e necessitados."
  No dia 15/11/1966, no quarto em Bréscia, Nossa Senhora repetiu sua missão. Ela pediu autorização ao Bispo (17/11) para residir próximo a Fontanelle. Então Pierina teve o desejo de morar em Montichiari.
  No dia 25/04/1968, enquanto estava sendo inaugurado em Montichiari na Rocca de Maria, Mãe da Igreja, o recanto para os padres idosos da obra Os Voluntários do Sofrimento ou Silenciosos Operários da Cruz, fundada por Monsenhor Luís Novarese, Pierina tinha visão de Rocca e avistou um arco-íris e no meio dele Nosso Senhora, demonstrando carinho por esta obra.
  Naquele mesmo ano, Pierina agradecendo a hospitalidade despediu-se da Irmãs do Lírio e foi morar em Montichiari, em uma casa próxima a Igreja.
  Nós não sabemos o dia exato, mas perto de 12 de outubro de 1968 ocorre uma aparição em Montichiari, em casa. Pierina ficou aqui cerca de dois anos. Enquanto isso, os devotos benfeitores construíram uma casa em um terreno adjacente, sendo doada para a vidente.



Casa doada a Pierina por benfeitores. 



  A casa está localizada na localidade de Broschetti, dois quilômetros do centro de Montichiari e três quilômetros da vila de Fontanelle, aonde Pierina, pela proibição imposta pela autoridade eclesiástica para não ir a fonte, apesar dos desejos da Virgem. Ela gostaria de acomodar todos os que sofrem e os peregrinos.

  Na aparição de 27/07/1969, Nossa Senhora manifestou o desejo da construção da Casa da Fonte, apoiada pelo Monsenhor Rossi.
  Em 17/04/1971, Nossa Senhora pede que construa uma capela particular, um oratório para ela e os peregrinos.
  Em 25/07/1971, Nossa Senhora já aparece na capela da nova casa, apresentando um programa para o cenáculo de oração comum e convite para rezar o Rosário.
  Nesse período surge um grande divulgador da devoção a Rosa Mística. Trata-se do Pe Taddeo Laux, dos Padres Salvatorianos de Bad Wurzach. Começou a guiar romeiros alemães para Fontanelle até sua morte em 1994. Especialmente na fabricação e divulgação da imagem da Rosa Mística. As imagens chegaram a Roma, Argentina, Austrália, Brasil e a ex-União Soviética e ao mundo todo.
  Ao longo deste período, ou seja, enquanto viveu, teve o dom inestimável da frequentes aparições da Virgem. Esta foi a mensagem na maioria dos casos em situações particulares. Muitas vezes, também foram incentivos para continuar a obra, as bênçãos para aqueles que estão empenhados como o Padre Taddeo.
  Naturalmente, todas as mensagens constitutivos da devoção a Rosa Mística foram recebidos em 1947 e em 1966.

  A casa de Pierina é um ponto de referência para os peregrinos. A vidente estava sempre pronta para interceder não só para quem pediu a oração, mas, também para consolar, aconselhar e para fazer obras de conversão.


Oratório anexo à casa de Pierina.



 Particularmente assistia aos doentes, que chegavam a fonte. E fez isso por muitos anos. Os últimos anos de vida de Pierina foram entristecidos por várias doenças até que ela foi obrigada a passar seus dias em uma cadeira de rodas. No final de 1990 o estado de saúde se agravou, e morreu pacificamente em 12 de janeiro de 1991.