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quinta-feira, 13 de abril de 2017

INSTITUIÇÃO DA EUCARISTIA, conforme as visões da Venerável Madre Maria de Ágreda, virgem concepcionista.




Creio que muitos devem conhecer a Venerável Serva de Deus Madre Maria de Ágreda, virgem da Ordem da Imaculada Conceição. Esta grande mística e, com certeza, grande "santa no Céu", colocou suas visões e revelações sobre as vidas de Maria e de Jesus em seu maravilhoso livro: "Mística Cidade de Deus", de leitura obrigatória a todos os filhos e devotos de Maria, se desejam conhecer detalhes sobre sua santíssima vida e pessoa. Hoje, quinta-feira da Semana Santa, trago aos leitores do blog o impressionante relato da Instituição da Eucaristia, que ocorreu na Santa Ceia, no Cenáculo, na véspera da Paixão do Senhor. São palavras de "fogo". Leiam com muita calma, saboreando cada palavra. 



Instituição da Eucaristia.

Havendo decorrido o que tenho dito Cristo, nosso Senhor, tomou em suas veneráveis mãos o pão que estava no prato. Intencionalmente, pediu ao Altíssimo que, naquele momento e depois na santa Igreja, estivesse real e verdadeiramente presente na hóstia, em virtude das palavras que ia pronunciar. Em seguida, elevou os olhos ao céu, com semblante de tanta majestade, que produziu aos anjos, aos apóstolos e à mesma Virgem Mãe, novo temor reverencial.

Pronunciou as palavras da consagração do pão, transformando-o, por transubstanciação, em seu verdadeiro corpo Depois tomou o cálice e consagrou o vinho em seu verdadeiro sangue.

No momento em que Cristo terminou de pronunciar as palavras, disse o eterno Pai: Este é meu Filho muito amado em quem tenho minha complacência e a terei até ao fim do mundo; e Ele ficará com os homens, todo o tempo que durar seu desterro. O mesmo foi confirmado pela pessoa do Espírito Santo.



A humanidade santíssima de Cristo, na pessoa do Verbo, fez profunda reverência à Divindade no Sacramento de seu corpo e sangue.

Em seu retiro, a Virgem Mãe prostrou-se em terra e adorou seu Filho sacramentado, com incomparável reverência. O mesmo fizeram seus anjos custódios, e todos os anjos do céu. Depois deles, o adoraram Enoque e Elias respectivamente, por si e em nome dos antigos Patriarcas e Profetas das leis naturais e escrita.


Primeiras adorações da Eucaristia.

Os apóstolos e discípulos, exceto o traidor Judas, crendo o grande mistério, cheios de fé o adoraram com profunda humildade e veneração, cada qual segundo a própria disposição.

Nosso grande Sacerdote Jesus Cristo, ergueu nas mãos seu próprio corpo e sangue consagrados, para ser adorado por todos os que assistiam esta primeira missa.

A esta elevação, receberam grande ilustração, sua Mãe puríssima, São João, Enoque e Elias (* a Venerável cita também a presença de dois santos patriarcas do Antigo Testamento: Enoque e Elias, que vieram do limbo, no qual estavam em corpo e alma, para assistirem à Santa Ceia e receberem, também eles, a Eucaristia). Conheceram, por especial modo, como nas espécies de pão estava Cristo inteiro, vivo e verdadeiro, pela inseparável união de sua alma santíssima com seu corpo e sangue; que estava presente a Divindade, e na pessoa do Verbo a do Pai e a do Espírito Santo; que, por estas uniões e inseparáveis concomitâncias encontravam-se na Eucaristia as três Pessoas, com a perfeita humanidade de Cristo, senhor nosso.

A divina Senhora conheceu tudo com mais profundeza, e os outros videntes, no grau de que eram capazes.

Conheceram também a eficácia das palavras da consagração e seu divino poder. Pronunciadas, com a intenção de Cristo, por qualquer sacerdote presente ou futuro, converteriam a substância do pão em seu corpo e a do vinho em seu sangue, permanecendo os acidentes sem sujeito e com novo modo de subsistir, sem desaparecer. Tudo isto, com certeza tão infalível, que antes faltará o céu e a terra do que a eficácia desta forma de consagrar, devidamente pronunciada pelo ministro e sacerdote de Cristo.


A presença de Cristo na Eucaristia.

Nossa divina Rainha conheceu, por especial visão, como se encontrava o sagrado corpo de Cristo nosso Senhor oculto sob os acidentes do pão e do vinho, sem alterar esses acidentes, nem estes ao corpo, porque nem o corpo pode ser sujeito deles, nem eles podem ser forma do corpo.

Os acidentes permanecem com a mesma extensão e qualidades, antes e depois da consagração, ocupando o mesmo lugar que a hóstia. O corpo sagrado está de modo indivisível, inteiro, sem confusão entre suas partes. Está todo em toda a hóstia, e todo em qualquer parte dela, sem que a hóstia o amplie ou o reduza, nem o corpo faça o mesmo à hóstia. A extensão, porém, do corpo não tem relação com a extensão das espécies acidentais, nem a extensão destas com as do corpo santíssimo. Corpo e espécies têm diferentes modos de existência, e o corpo penetra a quantidade dos acidentes sem alterá-los.

Naturalmente falando, pediria diferente lugar e espaço, a cabeça, as mãos, o peito e o mais. Todavia, pelo poder divino, o corpo consagrado se põe, com sua extensão, num mesmo lugar. Não se sujeita ao espaço que naturalmente ocupa, é independente dessas leis naturais, pois sem elas poder ser corpo quantitativo. Também não fica num só lugar e numa só hóstia, mas em muitas ao mesmo tempo, ainda que sejam inumeráveis as hóstias consagradas.


O milagre da transubstanciação.

Maria santíssima entendeu ainda que, embora o sagrado corpo não tivesse dependência natural dos acidentes, no modo como expliquei, contudo não se conservaria neles sacramentado, senão enquanto os acidentes de pão e vinho durassem sem se corromper. Assim o ordenou a vontade santíssima de Cristo, autor dessas maravilhas.

Esta determinação foi como que uma dependência, voluntária e moral, da existência milagrosa de seu corpo e sangue à existência incorrupta dos acidentes.

Quando eles se corrompem e destroem pelas causas naturais que os podem alterar - como acontece com o calor do estômago de quem recebe o Sacramento, ou por outras causas - então Deus cria de novo outra substância, no último instante em que as espécies estejam dispostas para receber essa transformação. Com esta nova substância, faltando já a existência do corpo sagrado, opera-se a nutrição do corpo que alimenta e se introduz a forma humana que é a alma.

Este prodígio de criar nova substância que assuma os acidentes alterados e corrompidos é consequente à determinação da vontade divina, de não permanecer o corpo sagrado com a corrupção dos acidentes. É consequente também à natureza: só pode aumentar com outra substância que se lhe acrescente, e os acidentes não podem continuar-se nesta substância.



Maria supre a ingratidão humana.

Todos estes, e outros milagres, a destra do Omnipotente reuniu neste augustíssimo sacramento da Eucaristia. A todos a Senhora do céu e da terra entendeu e penetrou profundamente.

São João, os outros apóstolos e os Pais da antiga lei que ali se encontravam, também compreenderam, segundo a própria capacidade.

Vendo que este benefício tão grande era para todos, a Mãe puríssima conheceu também a ingratidão que os mortais mostrariam por mistério tão inefável, instituído para seu bem. Desde esse momento, encarregou-se de compensar e suprir, com todas as suas forças, nossa dureza e ingratidão, dando Ela ao eterno Pai e a seu Filho santíssimo, as graças por maravilha tão rara a favor do gênero humano.

Esta atenção lhe durou toda a vida, e muitas vezes o fazia derramando lágrimas de sangue de seu ardentíssimo coração, para reparar nosso repreensível e grosseiro esquecimento.



Cristo comungando a Si mesmo.

Maior admiração me causa o que sucedeu ao mesmo Jesus, quando depois de elevar o santíssima Sacramento para ser adorado pelos discípulos, partiu-o com suas sagradas mãos e comungou-se a Si mesmo, antes de todos, como primeiro e sumo sacerdote.

Reconhecendo-se, enquanto homem, inferior à Divindade que recebia em seu mesmo corpo e sangue consagrados, humilhou-se, retraiu-se e comoveu-se na parte sensitiva, manifestando duas coisas; a primeira, a reverência com que se devia receber o seu sagrado corpo; segunda, a dor que sentia na previsão da temeridade e audácia com que muitos chegariam a receber e tratar este altíssimo e eminente Sacramento.

Os efeitos que a Comunhão produziu no corpo de Cristo, nosso bem, foram divinos e admiráveis. Por alguns momentos, n'Ele redundaram os dotes da glória da sua alma santíssima, como no Tabor. Esta maravilha, porém, foi vista só por sua Mãe puríssima, e um pouco por São João.

Este favor foi o último, de repouso e gozo, que a humanidade santíssima recebeu em sua parte inferior, até sua morte.

A Virgem Mãe teve também especial visão de como Cristo recebeu-se sacramentado, e como esteve em seu divino peito, o mesmo que se recebia. Esta visão produziu grandioso efeitos em nossa Rainha e Senhora.



Permanência eucarística da Virgem.

Ao comungar-se, Cristo fez um cântico de louvor ao eterno Pai, oferecendo-se sacramentado pela salvação humana. Separou uma partícula do pão consagrado e a entregou ao arcanjo São Gabriel, para que a levasse a Maria santíssima.

Este favor deixou os santos anjos como que satisfeitos e consolados, de que a dignidade sacerdotal, tão excelente, tocasse aos homens e não a eles. Só por levar nas mãos, em forma humana, o corpo sacramentado do seu verdadeiro Deus e Senhor, causou grande e novo gozo a todos eles.

A grande Senhora e Rainha esperava, entre muitas lágrimas, o favor da sagrada Comunhão, quando chegou São Gabriel acompanhado de inúmeros anjos. Recebeu-a da mão do príncipe celeste, sendo a primeira a comungar, depois de seu Filho santíssimo, imitando-o na humildade, reverência e santo temor.

O santíssimo Sacramento ficou depositado no peito de Maria santíssima sobre o coração, legítimo sacrário e tabernáculo do Altíssimo. Ali permaneceu todo o tempo desde aquela noite até depois da ressurreição, quando São Pedro consagrou na primeira missa, como direi adiante.

O Senhor todo-poderoso operou este prodígio, tanto para consolo da grande Rainha, como para cumprir, antecipadamente, a promessa que depois faria à sua Igreja, de estar com os homens até ao fim dos tempos (Mt 28, 20).

No prazo que mediou entre sua morte e a consagração de seu corpo e sangue, sua humanidade santíssima não poderia estar na Igreja, por outro modo. Permaneceu este verdadeiro maná depositado em Maria santíssima, arca viva, juntamente com toda a lei evangélica, conforme estava figurado na arca de Moisés (Heb 9, 4).

Durante esse tempo, não se consumiram nem alteraram as espécies sacramentais no peito desta Senhora e Rainha do céu, que agradeceu ao eterno Pai e a seu Filho santíssimo com novos cânticos, imitando as ações de graças que o Verbo divino fizera.



Judas e a comunhão.

Durante a comunhão dos apóstolos, aconteceu outro oculto milagre. O pérfido e traidor Judas, vendo que seu divino Mestre ia dar a comunhão aos apóstolos, não tendo fé, determinou não a receber. Se pudesse, esconderia o sagrado corpo para mostrá-lo aos pontífices e fariseus, vituperando o Mestre que dizia ser aquele pão o seu corpo. Isto poderia lhes servir de acusação contra Jesus. Caso não pudesse fazer isso, tencionava algum outro ultraje ao divino Sacramento.

A Senhora e Rainha do céu, por visão claríssima, via tudo o que se passava: a disposição interior e exterior dos apóstolos ao receberem a sagrada Comunhão, seus efeitos e afetos, e também os execráveis planos do obstinado Judas. Inflamou-se toda no zelo da glória de seu Senhor, como Filha, Esposa e Mãe. Conhecendo que era sua vontade que, naquela ocasião, usasse seu poder de Mãe e Rainha, mandou seus anjos que, sucessivamente, tirassem da boca de Judas o pão e o vinho consagrados, e o tornassem a colocar no prato e no cálice. Naquela ocasião, incumbia-lhe defender a honra de seu Filho santíssimo, impedindo que Judas o profanasse com a ignomínia que maquinava.

O anjos obedeceram, e quando o péssimo Judas ia comungar, tiraram-lhe da boca, uma após a outra, as espécies sacramentais. Purificando-as do contato daquele imundíssimo lugar, colocaram-nas ocultamente entre as demais, e assim o Senhor encobriu ainda a honra de seu inimigo e obstinado apóstolo. Estas espécies foram depois recebidas pelos outros que comungaram depois de Judas, pela ordem de antiguidade, pois ele não foi nem o primeiro nem o último que comungou, e o cato dos santos anjos foi instantâneo.

Deu nosso Salvador graças ao eterno Pai, e com isto terminou os mistérios das ceias legal e sacramental, principiando os de sua paixão que descreverei nos capítulos seguintes.

A Rainha dos céus continuava atenta a todos, admirando-se, louvando e glorificando ao altíssimo Senhor.



DOUTRINA

O tesouro da Eucaristia.

Ó, minha filha! Se os que professam a santa fé católica abrissem os corações, pesados e endurecidos, para receberem a verdadeira compreensão do sagrado mistério e dom da Eucaristia! Ó, se desenvencilhados e abstraídos dos afetos terrenos e controlando suas paixões, aplicassem a fé viva para entender, na divina luz, a felicidade de ter consigo o Deus eterno sacramentado, podendo-o receber e participar dos frutos deste divino maná celeste! Se, dignamente, conhecessem esta grande dádiva! Se estimassem este tesouro! Se saboreassem sua doçura! Se com ela participassem da virtude oculta de seu Deus omnipotente! Depois disso, nada lhes restaria para desejar, nem temer em seu desterro!


Nos felizes tempos da lei da graça, não se devem lamentar os mortais de que as paixões e fragilidades os afligem, pois neste pão celeste têm à mão a saúde e a fortaleza. Nem se queixem das tentações e perseguições do demónio, pois com o bom uso deste inefável Sacramento o vencerão gloriosamente, se para isto dignamente o frequentam.


Não atender a este mistério e não se valer de sua virtude infinita para todas as necessidades e trabalhos, é culpa dos fiéis, pois para seu remédio o ordenou meu Filho santíssimo. Em verdade te digo, caríssima, que Lúcifer e seus demónios temem de tal modo a Eucaristia, que aproximar-se de sua presença lhes causa maiores tormentos do que estar no inferno.


Muito embora entrem nos templos para tentar as almas, tem que se violentar e sofrer cruéis penas a troco de derrubar uma alma, e incitá-la a cometer um pecado, ainda mais nos lugares sagrados e na presença da Eucaristia. O ódio que nutrem contra Deus e as almas, os compele a se exporem ao tormento de se aproximar de Cristo, meu Filho, sacramentado.


Poder da Eucaristia.

Quando é levado em procissão pelas ruas, ordinariamente fogem a toda a pressa. Não se atreveriam a se aproximar dos acompanhantes, se não fora a esperança adquirida por longa experiência, de que vencerão alguns, fazendo-os perder a reverência pelo Senhor. Por isto, trabalham muito em tentar nos templos. Sabem quanta injúria se faz ao Senhor ali sacramentado, a espera que os homens lhe correspondam o amor que tão generosamente lhes demonstra.


Daqui entenderás o poder que adquire sobre os demônios, quem dignamente recebe este sagrado pão dos anjos. Se os homens o frequentassem com devoção e pureza, procurando conservar-se nestas disposições, de uma a outra comunhão, seriam temidos pelos demônios. Muito poucos, porém, têm este zelo, enquanto o inimigo fica alerta, espreitando e trabalhando para que não se esqueçam, se esfriem e distraiam, e não se valham contra eles de arma tão poderosa.


Grava esta doutrina em teu coração. Sem mereceres, ordenou o Altíssimo, por meio de obediência, que cada dia participes deste sagrado Sacramento, recebendo-o. Esforça-te por permanecer no estado em que te pões para uma comunhão, até a outra. É vontade do Senhor e minha, que traves com esta espada as guerras do Altíssimo, em nome da santa Igreja. Combate seus inimigos invisíveis que, atualmente, afligem e entristecem tanto à Senhora das nações, sem haver quem a console, nem atentamente o considere. Chora por esta causa e parta-se o teu coração de dor.


O onipotente e justo Juiz acha-se indignado contra os católicos que irritam sua justiça, com pecados tão frequentes e desmedidos, apesar da santa fé que professam. Não há quem considere, pese e tema tão grande dano, nem recorra ao remédio que poderiam solicitar, com o bom uso do divino sacramento da Eucaristia, chegando-se a ele de coração contrito, humilhado e protegido por minha intercessão.


Recompensa do amor à Eucaristia.

Nos filhos da Igreja esta culpa é gravíssima, mas é ainda mais repreensível nos maus e indignos sacerdotes. A irreverência com que eles tratam o santíssimo Sacramento no altar, dá ocasião a diminuir os demais católicos a estima que lhe devem. Se o povo visse os sacerdotes se aproximarem dos divinos mistérios com temor e tremor reverencial, seriam levados a tratar e receber com igual devoção a seu Deus sacramentado. Os que assim fazem, resplandecem no céu como o sol entre as estrelas. Os que trataram e receberam meu Filho santíssimo com toda reverência, gozarão especial luz e resplendor de glória, participação da mesma glória de sua Humanidade santíssima. O mesmo não terão os que não frequentaram com devoção a sagrada Eucaristia. Além disto, serão vistos nos corpos gloriosos sinais ou divisas no peito, em testemunho de haverem sido dignos tabernáculos do santíssimo Sacramento.


Isto lhes servirá de grande gozo acidental, de júbilo e louvor para os anjos, e de admiração para todos. Receberão ainda outro prêmio acidental: verão e compreenderão, com especial inteligência, o modo como meu Filho santíssimo está na Eucaristia, e todos os milagres nela encerrados. Será tão grande este gozo, que só ele bastaria para alegrá-los eternamente, se não houvesse outro no céu. Quanto à glória essencial dos que, com a devida pureza e devoção, receberam a Eucaristia, igualará, e em muitos excederá, a alguns mártires que não a receberam. 



Humildade na recepção da Eucaristia.

Quero também, minha filha que, de minha boca, ouças a apreciação que de Mim fazia quando, na vida mortal, ia receber meu Filho e Senhor sacramentado. Para melhor o entenderes, renova em tua memória tudo o que compreendeste sobre os dons, graças, obras e merecimentos de minha vida, conforme tenho te mostrado para o escreveres. Fui preservada em minha concepção, da culpa original, e naquele instante tive conhecimento e visão da divindade, conforme disseste muitas vezes. Recebi maior ciência do que todos os santos; no amor ultrapassei os supremos serafins; jamais cometi culpa atual; sempre exercitei heroicamente todas as virtudes, e a menor delas foi superior à suprema dos maiores santos, no cume de sua santidade.


O alvo de todas as minhas obras foi altíssimo; os hábitos e dons sem medida ou falha; imitei meu Filho santíssimo com suma perfeição; trabalhei fielmente; sofri corajosamente e cooperei nas obras do Redentor, na medida em que me tocava; jamais cessei de amar e de merecer aumentos de graça e glória, em grau eminentíssimo.


Julguei, no entanto, que todos estes méritos ter-me-iam sido pagos dignamente, só com o receber uma única vez seu sagrado corpo na Eucaristia, e ainda não me julgava digna de tão alto favor. Considera, agora, minha filha, o que tu e os demais filhos de Adão deveis pensar, quando se aproximam para receber este admirável Sacramento. Se, para o maior dos santos seria prêmio superabundante uma só comunhão, que devem fazer e sentir os sacerdotes e os fiéis que a frequentam? Abre tu os olhos nas densas trevas e cegueira dos homens, e levanta-os para a divina luz, para conhecer estes mistérios.



Julga tuas obras insignificantes, teus méritos limitados, teus trabalhos levíssimos, e teu agradecimento muito insuficiente, para tão raro benefício, como possuir a santa Igreja, Cristo, meu Filho santíssimo sacramentado, desejoso de que todos o recebam para enriquecê-los. Se não tens digna retribuição para lhe oferecer por este bem e os outros que recebes, pelo menos te humilha e apega-te com o pó e com toda a sinceridade do coração, confessa-te indigna dele. Enaltece ao Altíssimo, bendize-o e louva-o, estando sempre preparada para recebê-lo com fervorosos afetos, disposta a sofrer muitos martírios, para obter tão grande bem.